porque é carnaval: máscaras

eu também amei o leiaute novo! e o mérito é todo do weno, pois tudo foi idéia dele, inclusive eu de medusa-ferret! achei super-legal na hora que ele me mostrou e agora, olhando bem e refletindo um pouco, acho divertido e principalmente interessante. por que ser representada exatamente uma medusa, esse ser mítico tão apavorante, hein? 🙂

fui pesquisar sobre o mito da medusa — sabia pouco ou quase nada sobre o assunto — e encontrei um texto interessante pra compartilhar com vocês, transcrito na seqüência. perdoem se houver algum erro no texto, eu copiei de um site e procurei corrigir o que deu (a pessoa teve o dom de copiar com erros de gramática e ortografia. como pode não saber copiar?!)

aliás, fiquei tão empolgada com a leitura do trecho que procurei o livro. descobri que está esgotado… se alguém achar em sebo por favor me avise, eu pago o livro e o sedex.

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trecho de a morte nos olhos, jean-pierre vernant. os negritos são meus 🙂

ver a górgona e olhá-la nos olhos e, com o cruzamento dos olhares, deixar de ser o que se é, de ser vivo para se tornar, como ela, poder de morte. encarar gorgó e perder a visão em seu olho, transformar-se em pedra, cega e opaca. no face a face da frontalidade, o homem firma-se em posição de simetria em relação ao deus; mantém-se sempre em seu eixo; esta reciprocidade implica ao mesmo tempo dualidade – o homem e o deus que se encaram – e inseparabilidade, ou até identificação: a fascinação significa que o homem já não pode desviar seu olhar ou o rosto do poder, que seu olho perde-se no do poder que também o olha, que ele é projetado o mondo que este poder preside. na face de gogó, opera-se como que um efeito de desdobramento. pelo jogo da fascinação, o voyeur é arrancado a si mesmo, destituído de seu próprio olhar, investido e como que invadido pelo da figura que o encara e, pelo terror que seus traços e seu olho mobilizam, apodera-se dele e o possui.

a possessão: usar uma mascara e deixar de ser o que se é e encarnar, durante a mascarada, o poder do além que se apossou de nós e do qual imitamos ao mesmo tempo a face, o gesto e a voz. o desdobramento do rosto em máscara, a superposição da segunda ao primeiro, que o torna irreconhecível, pressupõem uma alienação em relação a si mesmo, um controle por parte do deus que nos passa o freio e as rédeas, que nos cavalga e arrasta em seu galope; estabelece-se portanto, entre o homem e o deus, uma contiguidade, uma troca de estatuto que pode chegar à confusão, à identificação, mas ainda nessa proximidade instaura-se o apartar-se de si mesmo.

a projeção numa alteridade radical, inscrevendo-se na intimidade e no contato a maior das distâncias e o estranhamento mais completo. a face de gorgó é uma máscara; mas em vez de ser usada para que seu portador imite o deus, esta figura produz o efeito de máscara simplesmente olhando-nos nos olhos. como se esta máscara só tivesse deixado nosso rosto, só se tivesse separado de nós para se fixar à nossa frente, como nossa sombra ou nosso reflexo, sem que nos possamos livrar dela. é nosso olhar que se encontra preso à máscara.

a face de gorgó é o outro, nosso duplo, o estranho, o estrangeiro em reciprocidade com nosso rosto como uma imagem no espelho (esse espelho em que os gregos só podiam ver-se de frente e sob a forma de uma simples cabeça), mas uma imagem que seria ao mesmo tempo menos e mais que nós mesmos, simples reflexo e realidade do além, uma imagem que se apoderaria de nós, pois em vez de nos devolver apenas a aparência de nosso próprio rosto, de refratar nosso olhar, representaria, em sua careta, o horror terrificante de uma alteridade radical, com a qual por nossa vez nos identificaremos transformando-nos em pedra. olhar nos olhos de gorgó e ver-se face a face com o além em sua dimensão de terror, cruzar o olhar com o olho que por não deixar de nos fixar torna-se a própria negação do olhar, receber uma luz cujo brilho, capaz de cegar, é o da noite.

quando encaramos gorgó, é ela que faz de nós o espelho no qual, transformando-nos em pedra, contempla sua face terrível e se reconhece no duplo, no fantasma que nos tornamos ao enfrentar o seu olho. ou ainda, para exprimir em outros termos esta reciprocidade, esta simetria tão estranhamente desigual entre o homem e o deus, o que a máscara de gorgó nos permite ver, quando exerce sobre nós o seu fascínio, somos nós mesmos no além, esta cabeça vestida de noite, esta face mascarada de invisível que, no olho de gorgó, revela-se a verdade de nosso próprio rosto. esta careta é também a que aflora em nosso rosto para nele impor sua máscara quando, a alma em delírio, dançamos ao som da flauta a bacanal de hades.

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antes que eu me esqueça: weno, eu te amo por me desenhar mais magra mesmo sem eu pedir! 🙂 e, pensando bem, se a mulherada nas revistas pode ser retocada em photoshop, por que eu não posso ter meu momento desenhoshop? 😀

0 comments to “porque é carnaval: máscaras”
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  1. zel, eu estava falando com um amigo outro dia por telefone, que tb e fa do vernant. ele comentou que tinha comprado alguns livros dele la no sebo do messias, aquele atras da se, na pca joao mendes. ja faz um tempinho, mas talvez valha a pena arriscar e tentar achar seu livro la!

    beijinhos

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