bones
a lu freitas fala sobre magreza (que acaba sempre virando assunto em tempos de desfiles de moda), e pede opinião, eu dou.
esse é um assunto que sempre me interessou, por dois motivos: (1) como não sou magra, sofro pressão e encheção de saco pra emagrecer; (2) acho triste a obsessão da maior parte das mulheres em atender a determinados padrões.
nem vou falar sobre as regras e exigências absurdas do mundo da moda com as modelos, pois ninguém é obrigado a seguir a profissão. modelos se submetem à ditadura do corpo e aparência porque querem, porque há benefícios (materiais e não materiais). deve ser sensacional ganhar milhões de dólares em 1 desfile, e deve ser mais sensacional ainda ser admirada por milhões de mulheres e homens. toda profissão tem seus prós e contras, não tenho pena nenhuma de modelos que passam fome a vida toda, francamente.
padrões de beleza/aparência sempre existiram e sempre vão existir. fazemos parte de uma espécie que leva em consideração a aparência para acasalar, sejamos honestos. os padrões mudam juntamente com a nossa história como espécie, mas sempre teremos as preferências da moda. a aparência pode não ser sempre fator determinante no nosso interesse, mas tem um grande peso, sim.
hoje o padrão é parecer um esqueleto pálido, ontem era ser atlético bronzeado, no século passado era ser gorduchinha e empoada. o que realmente me incomoda (meus pontos 1 e 2) é a pressão pra ser igual, pra me encaixar no que quer que considerem certo.
entendo a necessidade dos adolescentes de "pertecerem", faz parte do desenvolvimento do indivíduo. nos reconhecemos como seres independente e únicos na infância e na sequência queremos nos agrupar, ser parte de um todo coeso, queremos ser parte da turma (com características parecidas). o problema é que as pessoas não passam mais dessa fase e esquecem de declarar independência de novo, já na fase adulta.
olhe ao seu redor: os adultos que nos cercam são adolescentes velhos. marmanjos/as de 25, 30 e 40 anos continuam se comportando como adolescentes que precisam se adequar e se provar pra fazer parte da patota. ser único, independente, responsável pelos próprios atos e assumir consequências virou lenda. vivemos cercados de adultos que ainda fazem qualquer coisa pra serem aceitos pelos seus pares e colocam a culpa de tudo que dá errado nos outros (família, significant other, deus e etc.)
gosto do meu biotipo, me acho bonita do jeito que sou. sei que ser mais magra seria mais saudável (e mais fácil de comprar roupas...), e venho tentando manter algum equilíbrio no decorrer da vida. mas é difícil não ceder à pressão do ambiente e da indústria de roupas. há muitas roupas que acho legais e simplesmente não posso ter porque não servem no meu corpo. isso é frustrante e, honestamente?, me sinto discriminada e excluída. certas marcas, por exemplo, não são para mulheres que têm bunda ou peito. se você não for magra, não poderá nunca usar a marca X.
quando eu era adolescente, isso me incomodava mais. hoje eu opto por marcas que entendem as mulheres que vestem e é com elas que gasto meu dinheiro (ao invés de emagrecer pra caber no jeans da fórum, por exemplo).
resistir à tentação de entrar no jogo é essencial. não leio revistas femininas de nenhuma espécie. abomino comerciais/propaganda de cosméticos - sempre há algo errado com você, que o produto conserta, já repararam? se por um lado o simples fato de sermos humanos nos leva à comparação e tentativa de pertencer, por outro lado a indústria da beleza nos pisoteia, nos coloca peladas no espelho 360 graus e aponta cada suposta falha.
não podemos deixar de ser humanos, mas podemos repelir a pressão externa só interessada em lucro. não aguento mais ver a cara linda da gisele espalhada em todas as propagandas. eu não vou comprar nada só porque a mulher mais sexy do mundo está usando, sacou? eu não vou fazer dieta porque a marca X não cabe na minha bunda ou porque inventaram que quem veste 40 é gorda.
não compro mais a marca X e não me deixo massacrar pela opinião da "massa".
e se você faz parte de um grupo de pessoas que valoriza excessivamente a aparência e pressiona você, resista. "push back", como bem dizem os americanos - empurra aí, nega, ocupe seu espaço. reconheça suas qualidades, seja quem você é. o mundo não é feito de um bando de playmobil. declarar independência dos seus "clubes" (amigos, família, seja o que for) é parte do processo de se tornar adulto.
todos temos o direito de escolher: as modelos têm direito de ser magras e ganhar sua recompensa em grana e fama; nós outras também temos o direito de ser normais, gordas, atléticas e o que mais quisermos sem ter que sofrer. basta exercitar a individualidade e repudiar pressões contrárias. ter orgulho do que se é e aceitar os outros como são.
e não me canso de repetir: ignore revistas e anúncios. se o diabo existe, ele com certeza é da área de marketing.
