quase escravidão

eu tou falando por lá sobre babás e outras coisas, porque afinal a gravidez é algo importante pra mim neste momento da vida, mas esse assunto vive na cabeça desde que comecei a empregar pessoas pra trabalhar pra mim em casa.

até o ano 2000 eu contratava somente faxineira 2 vezes por mês, para a limpeza pesada. trabalho o dia todo (e durante uma época estudava também) desde 1992. quem mora em SP, trabalha e estuda sabe que você acaba ficando fora por no mínimo 12h/dia. não é fácil cuidar de uma casa, roupas, supermercado com tão pouco tempo. é claro que é possível, mas exige um sacrifício grande do tempo livre. no fundo, é pouco tempo pra descansar e fazer outras coisas.

a partir de 2000, adotei 2 furões e contratei uma funcionária que vinha todos os dias para limpar e cozinhar. ela trabalhava 3-4 horas por dia, e ganhava 1 salário mínimo + todo o obrigatório (com contrato, carteira assinada, reajuste e etc.). o esquema ficou assim desde então (mudei de funcionária 3 ou 4 vezes nestes anos), só acabei aumentando o salário depois de uns anos pra 1.5 salário mínimo. o horário e atribuições são os mesmos até hoje, embora eu não exija cumprir horário.

aqui em vinhedo, temos 2 funcionários: uma que vem todos os dias e um jardineiro/piscineiro que vem uma vez por semana. ele é freela e ela é contratada direitinho, como sempre.

sempre tratamos nossos funcionários com todo o respeito e de igual pra igual. pra nós, eles prestam um seviço como nós mesmos prestamos para os nossos clientes ou empresa, só muda o salário. nossa funcionária faz as refeições conosco e é tratada com todo respeito. e não a tratamos como “pessoa da família”, porque afinal ela não é. somos bem objetivos nas reclamações, exigências e nos elogios. ela é uma ótima funcionária e recebe seus bônus por isso.

moramos atualmente num lugar de ricos. e se pensarmos no nosso posicionamento na pirâmide econômica… bem, somos ricos. assalariados, porém ricos. conversando com nossos funcionários, descobrimos as barbaridades que nossos vizinhos fazem com seus funcionários. jamais imaginei que pessoas teoricamente educadas pudessem ser tão cruéis e sem o menor senso de respeito pelo outro.

além de não reajustar salário, não dar férias e nem décimo-terceiro, atrasar pagamento e pagar salário de fome, tratam as pessoas como escravos. não existe limite para o que pode/deve ser requisitado: eu pago você, você faz tudo o que eu mando sem discutir. não importa que eu mesma posso fazer a atividade: se a empregada está ali, ela é que vai fazer. natal, ano novo, férias? a empregada trabalha. foda-se o fato dela ter família, EU venho em primeiro lugar, porque eu tenho dinheiro e pago.

há quem separe a comida da empregada e a comida da família. os quartos de empregada (que quando dorme no emprego ficam à disposição o tempo todo e tem que fingir que não existem pra não incomodar) são minúsculos, quase celas. há as que sofram abuso verbal das patroas e crianças e tentativa de abuso sexual dos patrões. e as infelizes se sujeitam a isso porque precisam trabalhar e não tem outra opção na vida. pra não falar das infelizes “importadas” do nordeste, e que quando trabalham para os ricos de lá são tratadas de verdade como escravas.

não acho que existem profissões indignas, existem é empregadores filhos da puta. gente sem-educação, sem respeito pelo ser humano. odeio isso nestes condomínios, que são nichos de gente asquerosa e frequentemente sem nenhuma educação: eles acham que ter dinheiro basta pra tudo na vida.

nossos vizinhos, por exemplo, são (pelo que ouvi) donos de sucataria. se mudaram pra cá há menos de 1 anos, pro nosso desgosto. uma gente desagradável, que grita, dá calote em funcionário (e eles comentam entre si, é claro) e tem péssimo gosto pra música. eu, que já visitei muita favela e cortiço na vida porque sempre convivi com pobres bem pobres, vi gente muito mais educada naqueles ambientes do que neste condomínio chique que moro hoje.

por mais que a possibilidade de contratar funcionários para fazer trabalhos que eu prefiro não fazer seja extremamente cômoda, sonho com o dia em que ninguém precise se sujeitar a trabalhar para pessoas deste naipe para viver. e continuo me esforçando para tratar todos os que precisam de trabalhos assim com toda dignidade e respeito que merecem.

ah, e que conste: se você trata garçons, faxineiras/os e etc. com desprezo, sem cuidado ou sem respeito, você é um filho da puta sem noção.

16 comments to “quase escravidão”
16 comments to “quase escravidão”
  1. Eu sou de Valinhos, e a situação não muda nada, também acho absurdo tudo isso, e a mídia ajuda e muito para essas atitudes.

    Todas as empregadas retratadas em novelas ou são intrometidas, ou só ouvem xingo e ficam calada, ou tem caso com o patrão (ou às vezes, tudo isso).

    É um estereótipo errado, mas que ajuda a deformar ainda mais o caráter das pessoas.

    Enfim, lamentável.

  2. gostaria apenas de retificar sua observação genérica e, portanto, injusta, de que “as” empregadas domésticas (ou seja, todas) do nordeste são tratadas como escravas. de onde vc. tirou essa informação? eu e toda minha família somos nordestinos e aqui vivemos e temos orgulho de tratar os empregados domésticos de forma semelhante, se não melhor, à que vc. se refere: remunerando bem e exigindo cumprimento de obrigações razoáveis. o preconceito de seus vizinhos sucateiros é exatamente o mesmo exercitado por vc. na sua infeliz observação.

  3. maria, escrever publicamente é muito bom, mas tem coisas chatas de vez em quando. uma delas é a dificuldade de algumas pessoas, como você, em entender generalizações. já falei sobre isso aqui muitas vezes, mas percebo que nunca é demais. vou explicar de novo, ok?

    a generalização é um recurso de discurso, usado pelo autor para transmitir uma idéia ou demonstrar uma opinião. a principal razão para usar a generalização é poupar o leitor inteligente de digressões irrelevantes sobre as exceções. eu seria perfeitamente capaz de escrever algo como:

    “algumas – não todas, apenas uma parcela, talvez a maioria mas não tenho dados para a afirmar, e se você conhecer uma exceção ela é legítima – empregadas em alguns estados do nordeste do brasil – mais fortemente os que apresentam maior desigualdade social, mas há exceções – são tratadas de forma não considerada adequada profissionalmente por alguns, embora haja diferenças culturais que devem ser consideradas”.

    por que eu e outros autores não fazem algo parecido com isso, mesmo que amenizando os poréns? porque é chato pra caramba (e desnecessário) ler algo assim e principalmente porque como autores, pressupomos que nossos leitores têm no mínimo 2 neurônios e são capazes de entender o óbvio: sim, a generalização tem exceções! a premissa inteligência + boa vontade é o que leva o autor a não se tornar um chato e explicar tudo nos mínimos detalhes. e a idéia é transmitida para a grande maioria sem nenhum problema.

    dito isso, suponho que você: ou é ignorante (perfeitamente perdoável, e espero que minha explicação a tenha ajudado) ou é daqueles comentaristas de blog profissionais, que gostam de puxar briga. nem vou dar corda, viu? pode esquecer.

    mas voltando à questão que importa, e sobre a qual eu escrevia: se você não percebeu que no nordeste a maioria das funcionárias domésticas são tratadas como escravas, você não está prestando atenção, ou já acha isso normal. se você é uma exceção, que bom! ficamos todos felizes e batemos palmas pra você. o ponto é: você faz parte da minoria, caso não tenha percebido.

    e já que você parece tão à vontade comentando por aqui, que tal nos contar mais sobre como você trata sua funcionária? tenho algumas curiosidades: que dias ela trabalha, ela tem folga de feriados e fins de semana? que horas ela faz a primeira e a última atividades domésticas? ela dorme no emprego? tem 13, férias+1/3? tem contrato, carteira assinada? é reajustada ano a ano? e quanto ela ganha?

  4. Finaaaaa… Já avisei, você É complexa! A Maria talvez não chegue até o final da carta. R-E-S-U-M-A *hahahaha*

    Lendo o comentário dela me faz pensar o seguinte:

    “A gente critica e repudia o que a gente faz e não admite”

    Eu não gosto que exponham os meus preconceitos e defeitos, você gosta?

  5. Você conseguiu traduzir em palavras o que sempre pensei em relação às empregada e principalmente às babás. Pra ter babá de 2a a 6a das 8 às 19, que é o horário que estou fora de casa, já pensei em contratar duas, porque eu mesma teria dificuldades de aceitar esse horário, considerando que elas sempre moram longe e demoram nos trajetos. Mas nos acertamos e marido sai mais tarde e eu chego mais cedo, pra que possamos dar um horário de gente pra ela. Agora filhotes estão na escola/berçário e me livrei desse problema. E mesmo com 2 filhos, trabalhando fora em horário integral jamais pensaria em ter babá aos finais de semana ou em eventos sociais.

    Infelizmente tenho que dizer que seus posts (tanto este quanto do fabricando) estão muito realistas, me espanto na capacidade que as pessoas tem de subjulgar empregados domésticos. Queria poder dizer que não é bem assim.

  6. Quando você conhece melhor os condomínios em geral acaba descobrindo como existe gente mesquinha e ruim bem ali do seu lado.

    As reuniões de condomínio são os extrato perfeito desse cenário triste, e felizmente não precisamos interagir diariamente com essas pessoas.

    Zel, pode ter certeza que em todos os prédios de classe média/alta também acontece isso aí: no meu há um morador que simplesmente “esquece” de pagar a lavagem mensal dos carros ao vigia, coisa de R$ 50…

    E é mais um daquele tipo lamentável que come mortadela e arrota caviar.

  7. olá, venho sempre por aqui e estou adorando acompanhar seu momento grávida tb! qto à discussão sobre empregados, gostaria apenas de deixar o meu depoimento. Sou nordestina, vivo em brasília e tenho uma empregada que vai 3 vezes por semana e uma babá que vai de segunda a sexta ficar com minha filha no período em que trabalho. As duas trabalham não mais que sete horas diárias, nunca deixam minha casa depois das 17:00 h, têm carteira assinada com o valor do salário real, recebem todos os direitos – férias, INSS,13º,vale-transporte, inclusive o opcional FGTS. Folgam em absolutamente todos os feriados. Trato-as como vi meus pais tratarem seus empregados na minha infância na bahia. Trato-as como sou tratada por meu empregador e como acho que deve ser tratado todo trabalhador. Exijo delas profissionalismo e as remunero com dignidade. Incentivo cursos de aperfeiçoamento e percebo que a auto-estima de todos melhora muito!

    Infelizmente, vejo que nem todos são assim e não é um privilégio dos nordestinos. Aqui na capital federal convivo com gente de todo lugar do mundo! De verdade. Frequento parques e clubes nos finais de semana e posso ver que o sistema escravagista ainda impera entre gaúchos, mineiros, franceses, ingleses, baianos, cearenses, árabes, italianos, paulistas etc etc etc.

    Enfim, nosso país, apesar de ter uma legislação muito avançada em matéria trabalhista, ainda mantém a relação colonizador/colonizado no seu pior matiz.

    E Zel, agora que vc vai começar a frequentar ambientes em que vai se deparar com pessoas assim, vc vai ver que nós, as pessoas que deveriam ser a maioria, somos uns E.Ts. Infelizmente!

    Um bj e boa sorte!

  8. Gostei do seu post.Já perdi boas faxineiras indicadas por conhecidos porque eu pago bem, eles pagam mal e pedem para eu pagar a miséria que eles pagam, para não complicar a vida deles.Então eu desisto das faxineiras, porque pago o que considero justo.

    Ah, esses conhecidos são de classe média alta, podem pagar bem e alguns se dizem de esquerda, hahaha!

    Sinceramente? Não gosto de ter esse tipo de pessoa como amiga.

  9. Zel, eu sou de Pernambuco, Recife/Olinda, e faz tempo que saí de lá mas acho que SIM em Pernambuco tem muitos empregados domesticos (de amigos, inclusive) que são semi escravos. No Rio também, porque eu morei lá sete anos e sei que tem gente que trata os/as funcionários domesticos vergonhosamente. Infelizmente incluo alguns conhecidos nesse saco.

    Maria deve ser uma excessão, na minha casa também éramos mas é bom olhar em volta porque as pessoas são sem-noção ao tratar com empregadas domésticas. E infelizmente isso não é um defeito somente dos brasileiros, ainda que em outros países essas pessoas tem mais possibilidades de se proteger através de leis e mais informação. Ainda bem que vc tá grávida Zel, porque pelo menos sei que a civilização pode ser salva pelos filhotes bacanas (o seu e Teo, por exemplo), mas dá uma dor de ver a maneira colonialistas que a sociedade ocidental segue cultivando no tratamento dos funcionarios..

  10. Zel, quando eu fui contratar aqui em SP, fiquei escandalizada com as histórias que as meninas me contaram. Dava um post. De limitar a comida de funcionários a arroz, feijão e ovo até obrigá-los a ESCALDAR com água fervente o prato, COLHER e copo que eles podiam usar para comer. Separados da louça da família, evidentemente. A Lúcia, minha ex-santa de Brasília, já foi obrigada a comprão o pão do café da manhã com seu próprio dinheiro. O horror.

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