dando nome aos bois

gosto muito do pequenos delitos, e tenho um grande carinho pelo autor do blog. ele tem idéias interessantes e faz uma coisa que eu pessoalmente admiro: provoca. não só os instintos, mas o intelecto também. e isso, convenhamos, é incomum quando o assunto é sexo. (mas na contramão das redes sociais, eu detesto os comentários do blog. vergonha alheia ao cubo!)

mas este post não é sobre o blog, é sobre um assunto que apareceu por lá e me interessa muito: traição. há fotos de uma mulher madura com seus 2 amantes e centenas de comentários defendendo/atacando a atitude dela de expor sua vida dupla e mencionar o marido que de nada sabe. há centenas de comentários de todo tipo: sem noção, constrangedores, interessantes, práticos. tantas manifestações me fazem pensar: qual é o problema da traição?

não sou moralista, não sou ferrenha defensora da monogamia. creio que relacionamentos sexuais e/ou afetivos podem acontecer de forma múltipla, sim. daí a necessidade de definir traição, do meu ponto de vista: traição só existe quando há mentira, quando não é dada às outras partes envolvidas ou afetadas pelo que fazemos a possibilidade de escolha. traição acontece quando o combinado (explícito ou implícito) não é cumprido.

então você casa na igreja, troca anéis e promete ser fiel e exclusivo, mas em algum momento decide (sem consultar o outro) que esse acordo não vale mais e se envolve com outra pessoa? claro que isso é traição! sim, é traição do compromisso estabelecido com o outro. você escolheu mentir ou omitir fatos que contrariam o combinado, oras. não acho que compromissos são escritos em pedra, eles podem ser mudados. mas pra isso é preciso coragem de admitir o que se deseja de verdade, e assumir as consequências dos próprios atos e decisões.

cheguei no ponto que me incomoda neste contexto de traição: a mentira. não existe quem não minta, e eu inclusive não sou adepta da honestidade radical. mentir faz parte da vida, torna o convívio social muito mais fácil. por que vou dizer à minha amiga que acaba de cortar o cabelo e está feliz com ele que eu não gostei do corte? minha opinião sincera neste caso não a ajuda em nada (afinal, é só minha opinião, e o que importa mesmo é como ela se sente) e vai deixá-la chateada. eu poderia ser sincera, mas não vejo vantagens mútuas em fazê-lo. sigo a mesma lógica sempre: minha mentira está prejudicando o outro? OU minha mentira me beneficia mas deixa o outro em situação de desvantagem? se as respostas forem SIM, prefiro não mentir e lido com as consequências da verdade.

isso quer dizer que nunca menti em situações como essas acima? NÃO. sou tão humana quanto o próximo da fila, caramba. claro que já menti e prejudiquei pessoas, ou as deixei em desvantagem. mas não tenho orgulho disso, e acho que errei. me arrependo, e não faria de novo.

ter amantes (daquele tipo escondido do seu parceiro/a) é mentir por covardia. se você considera bom e aceitável ter amantes e é isso que você deseja, coloque seus desejos na mesa e brigue pelo que acredita. se seu parceiro/a não aceitar (e é uma possibilidade!), lide com isso como um adulto. convença-o/a ou parta pra outra, caramba. pra mim a questão é muito simples: a maioria das pessoas simplesmente não quer lidar com as consequências das suas escolhas e preferências — vivemos num mundo de adultos que escolhem se portar como crianças eternamente.

presta atenção: seu parceiro tem o direito de optar se quer viver num sistema de não exclusividade! ele/ela pode até gostar da idéia, pensou nisso? não é correto tirar dele/dela o direito de escolher, simplesmente porque você não tem coragem de admitir que quer se relacionar com mais gente. ninguém gosta de ser enganado, e se você tem algum respeito e consideração pelo seu companheiro/a, isso devia ser motivo suficiente pra não mentir.

a questão de exclusividade de relacionamento é complexa, e vai muito além do sexo. passa pela aceitação, sentir-se amado e desejado, pela idéia de pessoas serem “propriedade”, convenções sociais e auto-estima. é um assunto delicado, mas também pode render conversas riquíssimas quando trazido à tona. é uma oportunidade de crescer e aprender, junto com o outro. mas pra isso, sinto informar aos adultos-teens de plantão, é preciso ser realmente adulto.

em suma: considero a tal mulher que trai o marido com dois (ou mais, não importa) como covarde. não tem coragem de dizer a ele que gosta de outro estilo de vida, seja por medo de perder amor, companhia ou comodidade. prefere mentir que lidar com as consequências de suas escolhas.

é uma opção, tão boa quanto outra qualquer, mas definitivamente não é a minha. e pessoalmente não vejo nada de interessante em adultos que se comportam assim, como crianças mimadas. são pessoas que seguem sempre o caminho de menor resistência, independente de quem magoam ao redor. e são rasas, pois não se deparam com oportunidades de crescimento pra si mesmas. vivem ao redor do seu próprio umbigo.

minha opção atual é pela monogamia (em linha com o marido, e depois de conversas longuíssimas sobre o assunto), por um motivo simples: não consideramos os benefícios de uma vida afetiva/sexual múltipla maiores que os custos. essa balança pode ir pra outra direção em algum momento da vida, e estamos abertos pra isso. sabemos que a monogamia tem seus problemas e carrega frustrações! mas estamos juntos nessa estrada, procurando ser felizes individualmente e como casal, aprendendo um com o outro.

e temos amigos queridos casados há muitos que optaram pelo casamento aberto, e funciona muito bem pra eles. sem mentiras, cartas na mesa. e eles são felizes e se divertem, mas lidam também com as consequências de suas escolhas.

nenhum dos caminhos é fácil, mas é isso que nos diferencia dos mentirosos de plantão: nós enfrentamos as consequências dos nossos atos e decisões.

8 comments to “dando nome aos bois”
8 comments to “dando nome aos bois”
  1. Zel, concordo com 99% do que você escreveu. O 1% que falta não diz respeito a nada que você tenha colocado aqui, e sim a um ou outro aspecto que não foi mencionado. É complicado, eu sei. Eu mesmo comecei a escrever um post a respeito e fiquei com preguiça de terminar, pois a questão envolve coisas demais. Vou tentar concluir no fim de semana.

    Te admiro muito por vc ser que é e como é.

  2. oi, amore, belíssimo texto.

    mas depois de tudo o que eu já vi/vivi nesta vida acho que a discussão sobre esse assunto – pra ser completa – precisa incluir uma dimensão mais pantanosa: o tesão (confesso/consciente ou não) que trair ou ser traído pode gerar nas pessoas.

    eu acho inclusive que é ele que leva alguns casais a incluírem a traição nas entrelinhas do seu combinado (ou incluírem a previsão de quebra de contrato como uma das cláusulas do próprio, sei lá como explicar isso direito), ainda que de um jeito não explícito ou não consciente.

    não que isso aconteça em todos os casos, óbvio, mas…

    escrevendo aqui lembrei de um lançamento de livro que vi outro dia, de um psiquiatra que defende a tese de que os casais se unem pelo “enganchamento de neuroses afins” mais do que por qualquer outra coisa.

  3. Eu penso assim: fidelidade, eu nao exijo, e nem prometo. Mas não quero contar ao outro que fiquei com outra pessoa, nem quero que ele me conte qaundo isso acontecer com ele. Raramente alguém topa esse arranjo. Por isso vivo sozinha.

    Ah, bom, mas já passei da idade fértil e isso nao faz mais tanta diferença, ou seja, ter ou não ter um cara fixo. Quando era mais nova, eles chiavam, mas vez por outra topavam minha proposta, as vezes dava certo, as vezes não dava.

    É complicado; e eu sempre gostei de transar quando me desse vontade, mesmo eu estando envolvida com outra pessoa. Ou seja: tinha o amor, tinha o casamento, e tinha o tesão, três coisas que muitas vezes não andavam juntas…

  4. Não vejo a mulher em questão como covarde.a não ser que os motivos que a levem a trair sejam desonestos ,desrespeitosos com ela mesma.Pra mim,não devemos mentir,devemos fidelidade e respeito,primeiro a nós mesmas.(aí concordo com vc).se ela não quer contar ao marido,talvez seja porque não vale a pena,porque não são histórias(a dos amantes) importantes,que vão fazer diferença na vida dela.Se a pessoa vai à uma festa dançar “escondida” do marido´,porque não ter relações com outro tb escondido?Se ela está sendo fiel à ela…agora:se o motivo de ter esses casos for por vaidade,leviandade,falta de respeito à ela,pra provar algo ao outro,enfim,por motivos que a desrespeitem como ser humano aí concordo:covarde .um que eu(= opinião pessoal,visão particular) aprovaria é a vontade.Simples assim:vontade.Vinda “de dentro”,legítima,dela.Aí,pooode,rs.

  5. Há muito que eu não passava por aqui. Acompanho o blog desde que consigo me lembrar. Eis que resolvo ver como anda o blog e vejo esse post sobre o PD, que também acompanho desde as antigas.

    Super concordo com o que você disse mas, mais do que a traição da mulher (que também considero covardia), o que mais me chocou foram os comentários apedrejando a mulher, outros dizendo que todas as mulheres que se expunham no PD eram vadias (sendo que ele mesmo estava lá, vendo as fotos).

    Sobre relacionamento aberto, eu e meu marido optamos por isso, depois de uns anos de casamento, por acreditarmos ser possível amar outros, mas tal como você disse, se um dia isso deixar de ser bom pra nós nada impede de fecharmos de novo.

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