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história #39: gui bracco

É quase impossível falar (apenas) do blog porque sua história começa antes dele mesmo. E, para mim, é difícil divisar. Resolvi escrever e nem sei se ainda dá tempo, mas vamos lá.

Flashes. Cabelo comprido, camiseta branca e calça jeans. Uma sala grande com mais algumas pessoas no primeiro ou segundo andar, acho, do antigo prédio da Reitoria na USP. E uma cara de “ãhn, pois não (tô trabalhando)”. Eu tinha uns 20 anos, estudava Matemática Aplicada e cantava no Coralusp. Ela também. Sua irreverência insolente fez falta, mas eu não permaneci ali.

Corta. Um apartamento no Paraíso, o bairro, na extinta Rua Tupinambás. Noites de frio, café com leite e pão com mortadela. Uma torneira que não fechava direito. Juntem-se a elas almoços e jantas, pães com manteiga. Uma praia. Indas e vindas. Uma festa à fantasia com putas na porta. Um sobrado. Outro sobrado. Mais algumas festas e um aniversário com cabeça de fogo. Uma sala com parede de pedra mineira. Quatro mudanças em dois anos. Alguns ensaios. Chaves. Furadeira.

E o tempo foi passando. Alguns erros foram se acertando e alguns acertos, por aí errando. É muita coisa, uma vida.

Pra não dizer que não falei do blog, dele talvez tire uma das lições mais valiosas: blog não é lugar de recado; lembro bem disso. Outras coisas, guardo para mim. Fazem parte de uma história de irmãos; de encontro e crescimento, de escolhas, de mudanças, de amor e de caminhos.

Hoje vejo nossa história como uma grande árvore que cresceu e ganhou o céu. Seus ramos se abriram para todos os lados; algumas de suas folhas, o vento levou; seus frutos brotaram aqui e lá também, transportados por essa coisa chamada vida. Mas nada haverá de mudar o fato de que compartilharam o mesmo tronco.

*’s

Gui

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gente, só o gui mesmo pra lembrar de quando eu tinha cabelão comprido 🙂 ele me conheceu assim, lá em 96 ou 97, não lembro… sei que eu tinha 20 e pouquinhos anos, nos conhecemos no coralusp.

ele contou mesmo a história toda, acreditem. só eu (talvez mais uns 2 ou 3) consigam ler por trás dos textos sempre lindos que ele escreve. mas vou recontar do meu jeito irreverente insolente, como ele bem descreveu 🙂

o gui foi um dos irmãos que eu ganhei no decorrer da vida, e junto com ele sua família. o gui não foi e nunca será só um “amigo”, ele sempre vai ser minha família. e apesar de eu não falar muito sobre isso por aqui, minha relação com minha família é complexa e tumultuada, e vou explicar porque antes de seguir contando a história (e acho que vai ajudar você também, gui, a entender algumas das minhas escolhas na vida, certas ou erradas).

tenho um problema sério de limites, mais especificamente de defini-los para os que estão ao meu redor. tenho uma tendência agregadora em excesso, quero juntar pessoas, vidas, histórias, corpos 🙂 e desejos. e quero agradar e manter todo mundo feliz, como se ainda fosse aquela menina de 5 anos, irmã mais velha, que precisa fazer as coisas funcionarem, a despeito de todas as crises. conclusão: não sei dizer não. tenho uma enorme dificuldade de criar fronteiras entre eu/minha vida e os outros/a vida deles.

graças a essa uma limitação crônica, acabo desenvolvendo relacionamentos extremamente permissivos com as pessoas que mais amo, aquelas mais próximas e íntimas. isso inclui meus irmãos e meus pais. e meus irmãos adotados também, é claro. o problema é que chega uma hora que eu desespero, porque criei uma situação da qual não consigo me livrar (intimidade/invasão sem limites) e já não suporto mais, e o que faço? eu fujo. covardemente, admito. eu até tento usar da minha famosa assertividade, mas ela funciona muito (MUITO) mal quando o outro é alguém que eu amo como família. toda ela se dissolve na emoção intensa que mora em mim, nas minhas inseguranças e desejo de ser amada incondicionalmente, e eu viro uma criança de 5 anos de novo, que não sabe expressar o que sente e simplesmente dizer “chega, preciso de espaço!”.

às vezes eu consigo dizer, mas a “situação” avançou de tal forma que precisar de espaço não combina, não faz sentido pro outro. “como assim, espaço? esse espaço é meu, você me deu, e faz tempo”. eu entendo. eu crio relacionamentos simbióticos, dependentes, sem limites. só que me arrependo, e não sei consertar. e aí… saída pela direita, leão da montanha.

foi assim com meus irmãos de sangue, foi assim com meus pais (e acontece de novo ciclicamente), e também é assim com meus irmãos adotados. o amor permanece, o sentimento de família tá lá firme e forte, mas eu surto e fujo, me afasto.

gui, você é meu irmão mais caçula. o outro meu irmão caçula (o de sangue) está na “geladeira” há 1 ano e meio (veja a história acima se repetindo), mas não passo uma semana sequer sem pensar nele e desejar todo bem que houver nessa vida. não é diferente contigo. estamos em caminhos diferentes, nos encontramos eventualmente e não mais como foi no passado, mas o amor permanece. e não faz mal, sabe? é bom trilhar caminhos diferentes, e como você disse, compartilhamos o mesmo tronco e estamos na mesma árvore, sim. o amor, o sentimento de família, permanecem aqui firmes e fortes. te acompanho, mesmo não estando aí.

nossos caminhos são paralelos (ou quase. definitivamente não são perpendiculares!). paralelas se encontram no infinito, não é? o infinito pode estar logo ali, não importa quanto tempo falta, afinal temos a vida toda pela frente. aprendemos muito e crescemos juntos. você me ajudou a ser uma pessoa melhor, me apoiou nos momentos mais difíceis da minha vida. você foi muito mais que um irmão ou melhor amigo.

uma nova fase completamente diferente se inicia na minha vida, e ainda espero poder contar com você pra ensinar umas coisinhas pro piolho… nunca fui muito boa em percepção musical, você sabe o quanto sou indisciplinada. ele vai precisar de um tio taurino (outro né, porque o kito também é taurino) pra colocar o leonino na linha.

todo meu amor e carinho pra você, querido. obrigada por compartilhar essa história tão longa e bonita. perdoe os tropeços da sua irmã torta – acredite que eu erro tentando acertar (ou acerto errando, sei lá :))

One comment to “história #39: gui bracco”
One comment to “história #39: gui bracco”
  1. Este mundo é mesmo muuuuuuiiiitto pequeno! Quem diria que você era a Zel, amigona do Gui, mencionada inúmeras vezes em papos e caronas… Até pensei quando conheci teu blog, antes de te conhecer pessoalmente: “Nossa, Zel é o mesmo nome daquela amiga do Gui”… rsrsrsrs mal sabia eu… Gui é um grande querido, trabalhamos juntos inúmeras vezes, pois estamos na mesma área, como você bem sabe. Foi uma grata surpresa ler a história dele publicada aqui. Gente muito linda e querida. Vocês dois! Beijocas da Pri.

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