interesse

acende uma vela pra deus
outra pro diabo
agradeço,
você não se interessa mais por mim.

posso passear no bosque
seu lobo não vem mais atrás
agradeço,
você não se interessa mais por mim.

me solta, me deixa, me larga,
tenho mais o que fazer.
não posso ficar nessa de esperar,
nem posso ficar nessa de querer.

o gato acha o rato muito interessante
a cobra acha o sapo muito interessante
agradeço,
você não se interessa mais por mim

sai de cima, deixa disso de promessa
não me prende aqui que eu tô com pressa

(interesse, ney matogrosso/pedro luís e a parede)

uma das coisas que aprendi nestes anos, especialmente nos últimos 10, é a agradecer de coração quando alguém deixa de me procurar, se interessar por mim ou pela minha vida.

por mais que meu ego se machuque quando alguém me ignora, ou me esquece (mesmo adulta — uma senhora, na verdade — ainda não me acostumei a não ser o centro do universo, a razão de viver de todos que me cercam ;)) a verdade é que ser esquecido ou “abandonado” não é necessariamente ruim. significa simplesmente que determinada pessoa não considera você como importante ou prioritário, a ponto de sequer se dar ao trabalho de avisá-lo.

o que fazer nestes casos? depende. se a pessoa em questão é muito importante pra nós, acho que faz sentido procurar e tentar entender o motivo do afastamento, mesmo que não dê em nada. não vejo muito sentido em fazer papel de ofendido e ficar na defensiva, ou se colocar como vítima. se a pessoa é importante, se há do meu lado o interesse na amizade ou contato, vou atrás e tento reestabelecer o relacionamento (ou pelo menos entender o motivo do afastamento).

mas avalie. se a pessoa nunca trouxe a você nada de bom (pense bem objetivamente sobre isso. é fácil de se enganar achando que todo mundo é “super legal” quando na verdade são só neutros) e não há grandes felicidades ou vantagens no relacionamento… agradeça e siga 🙂

houve muitos casos na minha vida em que foi preciso um episódio dramático, novelístico, pra que o afastamento acontecesse. traição, baixaria, briga, mentiras e revelações, fofocas, todo o show de horror da natureza humana. e ainda assim, fiquei muitas vezes com a sensação de que havia “perdido” algo ao me afastar destas pessoas. nessa época eu ainda não tinha aprendido direito que a vida é feita de escolhas. não dá pra se livrar de certos problemas sem se livrar de certas pessoas. e que não é possível mudar ninguém além de mim mesma.

vocês leram bem o que escrevi ali em cima? não é possível mudar ninguém. só é possível mudar a nós mesmos, e é essa a mudança que faz o mundo todo mudar. quando as pessoas ao nosso redor não mudam e nos afetam negativamente, mudemos nós. e a vida segue (normalmente melhor que antes).

é na hora de encerrar ciclos, em meio a crises ou dificuldades, que demonstramos quem realmente somos. quando imaturos e inseguros, fazemos fofoca, intriga, mentimos, mandamos indiretas e machucamos (conscientemente ou não) os que estão ao nosso redor; somente a maturidade e autoconhecimento nos permite fechar ciclos com elegância, verdade e humildade. arcando com as consequências de nossas escolhas.

sei que ainda chego lá, porque prefiro ser sapo a cobra.

**

mas já fui cobra, sim senhores, já estive do outro lado desse jogo. fui a que perdeu o interesse, e abandonou. não, foi um pouco pior: decidi conscientemente que interromperia uma amizade de muitos anos (amizade daquelas longas, sinceras, e boas) através do silêncio, do afastamento unilateral.

meus motivos para o afastamento não importam, porque por mais que fossem legítimos, não justificam o que fiz. quando a amizade existe de fato, seja de pouco ou muito tempo, merece no mínimo uma exposição dos motivos, um fechamento digno. não por obrigação, mas por puro e simples respeito. respeito pelo indivíduo, pela história em comum, pelo afeto compartilhado.

por mais que fosse difícil, doloroso ou inútil (essa foi minha desculpa pra mim mesma: “não vai adiantar explicar”), eu devia ter sentado, frente a frente, e explicado. não o fiz, e me arrependo muito. a amizade se encerrou, à força, com sofrimento para ambos os lados (suponho que mais pro lado de lá, que sequer soube o que houve), e sem benefício nem aprendizado nenhum para ninguém. uma enorme oportunidade de crescimento perdida, especialmente pra mim.

quando nos expomos ao outro e colocamos nosso ponto de vista, damos automaticamente a ele a oportunidade de resposta e — aí o bicho pega! — somos obrigados que nos confrontar com a realidade e não com o mundo de ilusão que habita nossa cabeça. é muito fácil e simples “discutir” com a imagem do outro que trazemos dentro de nós. é mais fácil ainda justificar para terceiros nossos motivos, fazer fofoca, reclamar do outro, que não está lá para se posicionar. é pura e simples covardia. e falta de respeito pelo outro, que fique claro.

após ter feito exatamente isso tudo que descrevi, meu amigo tentou — inutilmente — entender o que havia acontecido e finalmente se resignou, afastou-se também. muitos anos depois, vendo as coisas de longe, percebi meu erro. não acho que errei em ter me afastado, ainda creio que era necessário. errei porque fui covarde, e não tive coragem e nem consideração suficientes para ser honesta com ele e enfrentar as consequências.

tentei resgatar essa amizade há pouco tempo, com humildade, mas foi em vão. nos falamos eventualmente, mas não somos mais amigos. entendo e respeito o desejo dele de não mais se aproximar de quem não teve afeto e consideração suficientes para enfrentar um problema lado a lado, ao invés de decidir tudo sozinha.

suponho que ele, depois de um tempo, tenha também agradecido por eu não mais me interessar por ele. não posso tirar sua razão.

17 comments to “interesse”
17 comments to “interesse”
  1. Fiquei pensando muito aqui se sou cobra ou sapo neste momento…
    estou vivendo um afastamento desses neste minuto, e não sei se visto essa ou aquela carapuça… *sight*
    Post muito lúcido, Zel, obrigada pela oportunidade de reflexão <3.

  2. Uau,
    Olha Zel vc tem toda razão….e depois que quebra uma amizade não tem mas nenhum conserto.
    Mas sou sincera, tenho muitos ciclos abertos, as vezes sou cobra e muitas vezes sou sapo….mas não lido bem com DR..eu acabo deixando pra la.

    • DR é chato, luanna, mas acho necessário. talvez o importante (ou útil, prático, sei lá) seja manter a DR o mais curta e objetiva possível. difícil, né? 🙂 mas sem conversa não tem conclusão, fica muita sujeira debaixo do tapete. não dá! beijo.

  3. Pauta super presente e pertinente. O exercício eterno de não ser cobra nem sapo, achar o meio termo nas situações mais simples e que nós mesmas ou os outros tornam complexas além da conta, simplesmente por não saber lidar com as relações humanas aqui mesmo,no mundo dos adultos, as palavras não ditas, as malditas e mal ditas, as interpretações do que não foi explicado, os vazios que dão margem as conclusões de mão única…Olha amiga, eu não acho nada fácil, embora queira ser melhor a cada bigornada. Quando a gente entende o mecanismo, fica tudo mais simples. Pessoas vão e vem, mas há algumas que se aprofundam, que ultrapassam a planície e fincam, e ficam, simplesmente porque interessam, independente e além dos interesses. Obrigada pela reflexão, mais uma vez. <3

    • agradeço sempre pelas que que ficam, que compensam. mas as que vão também têm seu valor, se a gente aproveitar a oportunidade pra repensar algumas coisas. a gente querendo, sempre tem como melhorar A NÓS MESMOS 🙂 beijo!

  4. Pingback: Rapidinhas vagarosas do meu tempo agora « La Reina Madre Denize Barros

  5. O afastamento foi uma medida tb escolhida por mim. O meu balde estava cheio até que a última gota foi pngada para que eu transbordasse. Eu não a procurei e descartei completamente da minha vida e tb acho que o meu erro foi não ter ‘vomitado’ todo meu sentimento de desgsto em cima dela. Eu perdi a oportunidade, ela perdeu a amiga e a chance de aprender mais sobre como é ser amiga dos amigos.

  6. É, Zel, mais uma vez lá vem você tocando em sutilezas, em questões que falam lá no fundo … existe uma diferença abissal entre deixar e ser deixada.
    Acho que mais dolorido é ser deixado no relacionamento amoroso, talvez porque implique em nós mais apertados, sei lá … Mas, enfim, já experimentei ser deixada e também já deixei em uma amizade.
    É como você compartilhou, tem tanto a se dizer e não se diz nada. Simplesmente deixamos o silêncio tomar conta e ele vai fazendo o seu papel.
    Retomei a pouco tempo uma amizade que eu abandonei. Amizade de 10 anos, com muita cumplicidade, muita troca. Um sonho desses bem reais, que você acorda com a sensação de ter vivido a situação, me fez procurar a pessoa e eu disse isso a ela.
    Achei que receberia silêncio de volta mas para minha surpresa, recebi palavras bem objetivas: “Você escolheu deixar nossa amizade de lado. Assuma isso. Você fez uma escolha”.
    De alguma maneira, estamos nos reaproximando, de um jeito velho devido a história que construímos mas ao mesmo tempo de um jeito novo.
    Nem eu fiquei me martirizando pelo “erro” que cometi nem ele fica trazendo isso a tona a todo momento. Simplesmente estamos seguindo adiante, sabendo que pode acontecer qualquer coisa, até mesmo um novo distanciamento, inclusive da parte dele mas por enquanto estamos bem contentes e tendo aqueles momentos reveladores, sabe quando você olha para o outro e pensa: “Caramba, nós somos bons juntos. Porque a gente se distanciou mesmo hein ? ” … Beijos, Zel … 🙂

    • acho que todo mundo passou por isso, seja de um lado ou do outro, né? é que esse assunto ficou na minha cabeça por anos, e acontecimentos com outras pessoas me fizeram finalmente voltar pra ele e concluir algumas coisas. beijo!

  7. Oi Zel, voltei para ler o texto mais uma vez e contar o que fiz , que tinha feito antes de ler seu texto.
    O comentário anterior foi curto, tomei coragem e vim falar mais.

    Fiz o que vc escreveu, de expor o porquê de eu querer me afastar.
    Mas fui bem dura, embora eu ache que tenha toda a razão de ter sido.
    Mas qdo a gente usa palavras duras acaba perdendo a razão ….opa….será? Será? sempre me pergunto se é isso mesmo, se a pessoa pode te sacanear à vontade e se falamos mais duro, pimba, viramos nós os errados, não acho justo.
    Não fui mal educada. Fui dura sim, como pedem algumas situações. O que é a elegância nesses casos? Eu não sei. Mas fiz o que achei ser o meu melhor.
    Bom, mas mesmo achando que esteja coberta de razão, e mesmo na dúvida se eu poderia ter dourado mais a pilula, eu falei, expliquei, me abri.
    E …nada de resposta. Nada.
    A iniciativa do afastamento foi minha, mas eu esperava um pedido de desculpas. Nada. Silêncio total, 3 semanas depois do e-mail.
    O que me leva à conclusão que a pessoa não tinha interesse mesmo, que eu não faço diferença.

    E daí volto aqui agora, nem seis da manhã, pra reler o seu texto, e parar nessa parte “se a pessoa nunca trouxe a você nada de bom (pense bem objetivamente sobre isso. é fácil de se enganar achando que todo mundo é “super legal” quando na verdade são só neutros) e não há grandes felicidades ou vantagens no relacionamento… agradeça e siga ”

    E é isso. Essa parte me fez enxergar. Bola pra frente. Obrigada por ter postado e pelo espaço para o desabafo.
    Veio numa hora que eu precisava muito ler.

    Bjos , tudo de bom e lindo pra vc e sua família, lindo fds

    • cris, eu tenho alguns comentários sobre seu relato, e depois elaboro mais em outro post que pretendo fazer sobre feedback:
      1) não responder em 3 semanas é inaceitável, pra mim. vale o mesmo que disse no post — nem que seja pra responder dizendo “VÁ SE CATAR, TOU PUTO”, tem que responder. quer dizer, se realmente SE IMPORTA, né.
      2) tenho certa dificuldade com essa questão de “ser duro”. porque isso pode significar 2 coisas — você está sendo direto, expondo SEUS pontos sem “amenizar”. mas pode significar também que você está apontando o dedo e julgando (condenando, às vezes) o outro. por isso vou escrever o post sobre feedback — a comunicação sem julgamento é essencial, e facilita o diálogo
      3) por mais que possa haver equívocos da sua parte da comunicação, pelo menos você tentou. isso é mais importante que tudo, eu acho. prefiro assim do que fazer como eu fiz e errar por FALTA de comunicação 🙂

      beijos.

  8. Ontem uma ex-amiga tentou retomar contato comigo e fiquei meio balançada, sem saber se aceitava ou não a reaproximação. Seu texto, claro e conciso, me ajudou a firmar minha decisão de manter o afastamento, pois como você mesma disse, ninguém consegue mudar os outros, e meu sossego e paz de espírito valem muito mais que uma falsa amizade. Mais uma vez, Zel, obrigada por suas palavras.

Deixe uma resposta