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receitas e não-receitas

abril 23, 2013 7 comments

as coisas que fazem mais sucesso aqui nesse blog, desde sempre, são minhas receitas (ou as que não são minhas mas que testo e aprovo) e opiniões. as receitas eu acho perfeitamente compreensível, afinal todo mundo come e gosta de comer, e procuro fazer receitas fáceis a maioria das vezes. já as opiniões, credito puramente ao meu desejo de diálogo, porque o que comprovo na prática, todo dia, é que penso bem diferente da maioria das pessoas que cruzam meu caminho todos os dias (amigos inclusos).

tenho me sentido muito incomodada nos últimos meses observando o mundo e pessoas próximas, através de redes sociais e do convívio do dia a dia. pela segunda vez na vida tenho desejos de isolamento (o primeiro foi no final da adolescência, quando entrei para a vida adulta) e estou de “saco cheio” generalizado com as pessoas, em especial com o que é diferente de mim e coisas sobre as quais discordo. justamente porque já vivi isso e depois concluí que me tornei uma chata pedante por alguns anos, decidi que desta vez preciso entender melhor o processo e ao invés de me afastar simplesmente do que me incomoda, vou encarar e aprender, por mais que seja desagradável.

há mais ou menos 1 ano vivo um processo ativo de mudança de hábitos, e de vida. há uma manifestação externa e mais óbvia da mudança (há 9 meses comecei uma dieta de perda de peso) mas isso é muito menor que tudo o que passa aqui dentro. venho observando o que me incomoda, nos outros e em mim mesma. tenho repensado decisões, amizades, direções, e tenho reestruturado não somente meu cardápio mas também meu comportamento geral, disponibilidade e paciência para as pessoas. tive nos últimos meses muitas conversas francas (e difíceis), expus incômodos e em alguns casos, não expus e deixei pra lá. sobraram incômodos não expressos, mas também decidi não gastar energia com questões fechadas. repito meu mantra pessoal, continuamente: problemas que não têm solução não são problemas. deixo partir, como mera observadora.

não faz 1 ano ainda que voltei a praticar a bendita ioga (e pratico muito menos do que gostaria e deveria), e uma constatação triste é que deixo meu pobre corpo sempre em segundo plano. mesmo quando pratico ioga, meu fascínio maior é sempre quanto à filosofia envolvida e todas as questões da dualidade entre corpo/consciência. a verdade é que esse tem sido meu drama constante — a energia enorme consumida no mundo interior/imaginário versus a necessidade de concretização e enfrentamento da realidade.

não é que eu não seja prática — sou bastante. mas somente com o que é essencial, necessário para a sobrevivência. podendo divagar e me perder no mundo etéreo, pode me esquecer. até porque viver no universo paralelo (dormindo ou acordada) é muito, muito mais fácil que enfrentar a realidade fora do meu controle 🙂

mas divago. (claro)

no mundo exterior, meu esforço é domar os impulsos alimentares, aprendendo a comer de tudo um pouco, balanceando prazer e saúde. quero comer o mundo todo, às colheradas. pois aprendo a cada dia, um de cada vez, que é possível provar todos os gostos, um tico por vez, saboreando mais. degustando devagar, e sempre. quero colocar o mundo todo pra dentro do meu universo, do corpo, em contraposição à necessidade de colocar também coisas pra fora, fazer com que meu corpo acorde, se mova, saia da inércia e interaja com o mundo concreto. preciso mover a energia de dentro pra fora, transformar potencial em cinética.

tudo que preciso acelerar no corpo, preciso desacelerar na mente, na mesma medida. esvaziar, tranquilizar. dissipar raiva, frustração, julgamento. dissolver o ego, parar de olhar (e julgar) o outro, eliminar a necessidade do espelho (real e também o mais difícil deles, o que se encontra em quem não somos). descobrir o porquê dos incômodos, da inveja, da falta de paciência, ir ao fundo desse poço, pra que possa finalmente me dedicar às não-receitas, a simplesmente viver e deixar que vivam, sem categorizar ou racionalizar tanto.

meu pai, homem maluco e sábio do seu jeito, sempre tentou me ensinar a ser mais livre, menos exigente, a improvisar com o que aparece na vida. mais ou menos como ele faz, em sua profissão de marceneiro: transformar com as mãos a madeira bruta em algo útil ou simplesmente bonito. aos 41 concluo que o improviso e a flexibilidade são artes, sim. são úteis, são também uma forma de ser feliz.

ainda aprendo, papi!

**

e como não podia deixar de ser, em especial neste post, cumpro uma dívida antiga e coloco uma não-receita (e uma das muitas histórias divertidas) do meu pai.

todos em casa cozinham bastante bem, e meu pai é um dos melhores. seus pratos são sempre caóticos, servem dezenas de pessoas e não têm receita. das coisas que ele faz muito bem é o molho bolonhesa, desde que me lembro. quando cresci um pouco, pedi que me ensinasse a fazer o molho, e ele sempre dizia “não tem nada demais: tempero, carne moída e tomate!”. mas nenhum molho era igual ao dele, nunca.

até o dia em que fui junto comprar os ingredientes para o danado do molho, e ao pararmos no açougue tive o momento “ah-ha!” — ele pediu acém moído na hora, mas mandou misturar mais ou menos 1/3 do volume de carne de porco e mais um pedaço de bacon!

fiquei p da vida com o “segredo”, e ele riu muito da minha indignação, com aquela cara de “peguei você!”. eu devia ter desconfiado, tendo aprendido a jogar buraco com ele, que é do estilo esconde-o-jogo-e-pega-todo-mundo-de-surpresa. tinha segredo, claro, e era a deliciosa carne de porco e bacon.

então a receita é assim, estilo maravalhas:

ingredientes

carne moída magra

1/3 do mesmo volume de carne de porco magra moída

um pedaço de bacon de boa qualidade moído

cebola

alho

pimenta do reino

tomate pelado / molho de tomate

azeite

 

utensílios

panela, colher, faca, tábua

 

modo de fazer

refogue a cebola ralada, até secar um pouco mas sem dourar. adicione o alho amassado, só para tomar cor. coloque então em fogo bem alto as carnes misturadas, tempere com sal e pimenta a gosto e refogue, mexendo bem, até a carne toda tomar cor mas sem secar.

adicione o molho ou os tomates pelados, até que cubram a carne e formem um molho bem grosso. acerte o sal e a pimenta. salpique um tico de canela (esqueci de avisar né? receita do meu pai é assim), misture bem e deixe apurar em fogo baixo.

sirva com macarrão fresco, que é o preferido do meu pai (não coloque óleo do cozimento do macarrão, faça o favor), e muito queijo parmesão ralado na hora.

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que a vida seja mais leve, mas que não falte o talharim a bolonhesa nunca! 🙂

sou mais macho que muito homem

setembro 14, 2012 10 comments

por conta das redes sociais me vejo cada vez mais embrenhada em assuntos que sempre fizeram parte da minha vida, mas sem nenhum tipo de engajamento. confesso que engajamento excessivo me cansa e enche o saco. não faço parte de comunidades, grupos, não sou afiliada a nada e nem me considero parte de movimentos disso ou daquilo.

sou adepta do que chamo de “micro movimentos”. procuro fazer como aprendi — tentar influenciar os que estão ao meu redor, colocar luz sobre o que está obscuro. porque nem sempre é preciso realmente influenciar, basta trazer assuntos à tona, fazer pensar. as coisas mudam. às vezes lentamente, é verdade, mas sem dúvida.

acho que é isso que venho tentando fazer neste blog desde sempre e como venho fazendo na vida: conto minha história e minhas vivências, pensando que alguém pode ler e se inspirar (mesmo que não goste ou concorde), e tentar fazer diferente.

venho de uma família de muitas mulheres. todas elas subjugadas pelo machismo dos pobres e ignorantes (a esmagadora maioria das mulheres da família não estudou, considerando a geração da minha mãe e as anteriores). na verdade, as únicas mulheres que estudaram na minha família são do lado do meu pai, que tinham uma condição econômica melhor. mas enfim — todas elas de alguma forma massacradas pelo machismo, e obviamente repetindo boa parte do padrão.

mas não todas. algumas delas, entre elas minha mãe, nascida em 1953, foi um caso à parte. não estudou, porque não gostava ou nunca foi incentivada. era linda, de parar o trânsito. foi “presa” com 15 anos porque um policial mexeu com ela na rua (“elogiou” a bunda dela, parece), e ela mandou ele se foder. ela apanhou do pai na delegacia, na frente de todo mundo, porque era “vagabunda” e usava roupas indecentes, o que ela esperava?

saiu de casa aos 16 porque apanhava dos pais por ser muito “saidinha” e “boca dura”. engravidou (e casou-se) aos 18 anos. pensou em abortar, pagou o aborto clandestino e desistiu na última hora (era eu na barriga!). com 21 anos tinha 3 filhos. pariu a nós 3 em hospitais públicos, partos normais. praticamente não amamentou (no máximo 3 meses. não sabe explicar porque não conseguia, “não tinha leite”), nunca teve uma figura feminina que a apoiasse e ajudasse. deixou os filhos pequenos em casa para trabalhar fora o dia todo e garantir comida na mesa. foi bancária, levou porrada de polícia, cantada de muitos chefes e clientes escrotos. foi humilhada e sacaneada por colegas mulheres que se intimidavam com sua personalidade e sua aparência. sempre foi de temperamento difícil, nunca levou desaforo pra casa. de ninguém — de homem ou mulher.

foi ela que me ensinou a não ter medo do meu corpo, do meu sexo. a mostrar com orgulho meus peitos, minha bunda, meu sorriso, minha “casca”. me ensinou que meu corpo não é motivo de vergonha nem base para julgamento. que meu corpo é MEU, e de ninguém mais, e eu devo usá-lo, mostrá-lo e escondê-lo conforme MINHA vontade. e insistiu muito para que eu valorizasse meu cérebro e investisse no meu intelecto, pra ter uma vida diferente da dela, com mais escolhas (sorte minha, pois não herdei a beleza dela, o cérebro fez diferença :)). me ensinou que eu não precisava me “guardar” pra ninguém, que ninguém jamais seria meu dono, que eu era livre para ser e fazer o que quisesse, e que por isso mesmo devia aprender a ser independente e ter as rédeas da minha vida.

ela sempre defendeu nosso direito, como mulheres, de sermos donas das nossas vidas e nossos corpos. e a mandar a polícia se foder 😉

ela me ensinou, de forma direta e indireta, a me defender. que além de não me importar com julgamento, não devia temer represálias, pois é meu direito ser quem sou, vestir o que quiser, fazer como bem entender o que quiser da minha vida e do meu corpo. ela me ensinou a me impor e não aceitar ameaças, me convenceu de que eu não era mais “fraca” que homem nenhum por definição. me incentivou a responder à altura, enfrentar.

vi minha mãe enfrentar homens, alguns bem maiores que ela, alguns além de grandes, ignorantes. minha mãe já me defendeu, quando ainda adolescente, de “cantadas” na rua. olhou homens feitos cara a cara e disse que não eram bem-vindos, que fossem cuidar das suas vidas. e vi também ameaçar ir pra porrada com homens insistentes (e ela iria, estou certa disso). e eles sempre recuaram! qual era/é o segredo dela? confiança.

minha mãe é temerária. um pouco demais, pro meu gosto, mas admiro seu ímpeto e sua crença em si mesma. sempre funcionou. e era aí que eu queria chegar: ela me ensinou que eu também tenho poder. que homens não são necessariamente “mais fortes”. alguns são, outros não. cabe a mim usar minha força na hora e na medida certa. dentro de uma margem de segurança eu posso e devo medir forças e me impor, sim.

pois sempre me impus. hoje em dia já não sou jovenzinha, nem gostosa e nem ando a pé pelas ruas. mas até os quase 30 anos, fui assediada de formas leves e grosseiras, e seguindo os ensinamentos da minha mãe, me saí bem em quase todos os episódios.

em primeiro lugar, aprendi que cantada não é elogio. cantada só é elogio se você não se sente constrangida, e se é alguma abertura para o flerte. se eu não olhei pro caboclo, obviamente não vamos nos conhecer e ele está cercado de amigos “incentivando”, não tem conversa. em segundo lugar, não é OK comentar sobre minha aparência e sobre minha roupa. quando sou confrontada, reajo imediatamente o “agressor”, sempre olho no olho, de frente. digo que não gostei, e que guarde seus comentários para si. já cheguei a dizer “não tenho medo de você. não conheço você, e você não me conhece. não se meta com quem não conhece!”

já mandei homens (em grupo) pararem de comentários e saírem andando, que não queria conversinha. “anda, anda, que eu não estou com paciência! não conheço vocês, e não quero conhecer”.

já fui xingada? já. com 12, 13 anos (eu já tinha corpo de mulher) ouvi muita barbaridade. eu era mais medrosa nessa época. mas reagi assim mesmo. e sempre saí de cabeça erguida, porque não tenho motivo pra me envergonhar do meu corpo, do meu sexo e nem de me impor.

e já fui embora quieta, e com medo, pelo menos 2 vezes, torcendo pra que nada de mau me acontecesse. essas 2 vezes me confrontei com um predador sexual, que ficava à espreita no caminho que eu fazia para a faculdade. ele tinha olhar de psicopata, andava com o pau de fora nos cantos da rua, em locais ermos, e eu sabia que se houvesse confronto era pra valer e teria que lutar pela minha integridade física. eu tinha 18 anos, e tive muito medo. se fosse hoje, eu chamaria a polícia. se não funcionasse, na boa? chamaria uns amigos pra dar uma surra nele de deixar aleijado pra sempre.

e esse texto não é só para mulheres. é para os homens que pensam que é OK dar “cantada”; é para os gays e trans que sofrem assédio também, e ouvem “piadinhas”. boa parte do poder que os “machos adultos brancos” têm vem de nós, que permitimos que eles se imponham. vem também de outras mulheres que perpetuam o discurso de vítima e não se impõem, seja por medo ou comodidade.

pese e julgue, sim, quais batalhas você vai abraçar. não vale a pena passar o tempo todo brigando, e há batalhas com risco alto demais, mas não se acomode. mude a você mesma/o, deixe pra trás essas ideias de que você não pode/deve isso ou aquilo, ou que você é frágil, fraca, vulnerável.

imponha-se, mulher 🙂