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Posts Tagged ‘mudança’

baby steps, pra sempre

julho 6, 2017 Leave a comment

No começo desse ano decidi ir a uma nutricionista, já que dieta não é algo que estou disposta a fazer mais (até porque não funciona. Emagreço um monte e depois engordo de novo) e meu corpo não me agrada do jeito que está. Pedi uma indicação e cheguei à Carol do blog “O corpo é meu”.

 

Fiz um acompanhamento quinzenal por 3 meses, com diário detalhado da minha alimentação. Conclusão: ela não  mudou NADA do que como normalmente, minha “dieta”.

 

No entanto, ela trouxe um elemento que eu desconhecia, mesmo sendo pró em dieta: ela expôs minha forma de lidar com a comida e com a fome. Percebi que como sem fome, que não sei quando parar de comer.

 

Decidi não me pesar mais, porque o número na balança me deixa ansiosa e triste. Quero mudar meu corpo pra um formato que seja confortável e que me permita movimentar sem esforço. Essa é minha meta. E foi disso que falamos nestes 3 meses; ela me mostrou que o corpo que eu desejo ter é MUITO próximo do que eu já tenho. E que me movimentar mais e estar atenta aos sinais do meu corpo provavelmente é mais importante que mudar minha alimentação.

 

(Estou nesse momento num check-up, aguardando o próximo exame. Tive que me pesar e dizer o peso pra enfermeira. Me sinto péssima. Meus números não “batem”, e no momento só penso que precisaria perder 20kg pra ser “normal”)

 

Estes 3 meses me fizeram perder peso (senti nas roupas), mas 1 mês depois, com menos atenção a como me sinto ao comer, senti o corpo mudar de novo. E não estou me movimentando muito (essa é minha maior barreira no momento, a inércia).

 

Penso cada vez mais que sem atenção a nós mesmos, constantemente, não é possível ser saudável.

 

Me perco nas coisas do dia a dia, e me deixo de lado, vivendo no automático. Como se eu fosse apenas uma engrenagem na grande máquina do mundo. Acho que é urgente trazer mais consciência para o dia a dia, seja para comer, cuidar-se, movimentar-se, conversar com as pessoas. Estar presente.

 

O celular, esse mesmo que serve pra escrever esse texto, me ajuda a desconectar do presente. Me ajuda a ignorar não só os outros ao meu redor, mas a mim mesma.

 

Esse peso que sinto carregando em excesso no meu corpo é consequência da minha desconexão comigo e com o meu entorno.

 

Não sei ainda como mudar, mas estou determinada a voltar aos exercícios de presença que a nutricionista me propôs, de notar o que se passa comigo enquanto me relaciono com mundo, me observar profundamente e (parece um paradoxo, não?) ser mais ativa.

de como me vi livre do stress e da ansiedade

julho 19, 2013 12 comments

e não é pouca coisa esse título, hein? só quem já sofreu de stress e ansiedade crônicas sabe do que estou falando e da vitória que é se livrar desses 2 karmas. e se você não sabe, sorte sua (ou continue lendo e chegue à conclusão que você também tem lição de casa pra fazer).

lembre que não sou psicóloga nem vendo auto-ajuda, zeus me livre de tal baixeza comercial. a ideia aqui é simplesmente dividir com vocês algumas experiências e, com sorte, ligar o bit de alguém aí pra mudar a si mesmo (que afinal é tudo e o melhor que podemos fazer para mudar o mundo todo).

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a verdade é que não é karma, não, é opção. ou talvez karma seja opção também, eu não entendo o suficiente pra afirmar que sim ou não (e não acredito em karma, a propósito), embora saiba que também tem a ver com causa-e-efeito. o que quero dizer é que o stress e a ansiedade estão diretamente relacionados à forma como optamos por encarar o mundo, as pessoas, os relacionamentos, acontecimentos, a vida, e a nós mesmos.

eu era o tipo de pessoa que se pode chamar de estressada: pavio curto, rápida pra julgar, condenar, interpretar e sair “resolvendo” coisas. sem paciência pra lentidão de pensamento ou ação (ou o que me parece lentidão; ou o que é diferente do que eu faria). sou daquelas que viram os olhinhos de raiva, tipo adolescente, sabem?

além de irritar e incomodar quem convive comigo, essa falta de paciência afetava especialmente a mim mesma. adoeci várias vezes de doenças que, quando investigadas, não existiam (enxaqueca, labirintite, pressão alta, diabetes e até hepatite temporária eu tive). até que por outro motivo (relacionamento moribundo) comecei a fazer terapia e descobri esse iceberg cuja pontinha era o stress.

digo que é um iceberg porque a gente quando está mergulhado no problema só vê um pedaço muito pequeno que são os sintomas do stress, não consegue ver onde ele nasce e principalmente o quanto alimentamos esse monstro que cresce pra além da medida necessária.

sim, o stress é necessário, ele é um mecanismo genial de sobrevivência. e essa é a primeira coisa que eu queria contar.

(mentira, é a segunda. a primeira é — o problema é você, e não os outros e nem o mundo).

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dita a primeira coisa (que é a mais importante), digo a segunda: o stress é nosso amigo e nos ajuda a sobreviver como espécie. mas é um amigo perigoso, se você não souber administrar, falamos nisso no próximo tópico.

vou explicar do jeito que minha terapeuta explicou, que fez todo sentido pra mim. imagine que você está fazendo um piquenique num parque bem lindo, com passarinhos cantando e os amigos sorrindo, tal e coisa… e de repente escuta um barulho ALTÍSSIMO, como um guincho de animal, um rugido, algo petrificante. o que acontece, em fração de segundo, é que aquela parte do seu cérebro que você não controla dispara um alarme químico e físico, lança na sua corrente sanguínea uma quantidade de drogas (adrenalina e mais coisas que nem sei) que preparam você para fugir ou correr, pois entende que você está sob ameaça. você entra em modo de alerta.

esse mecanismo é maravilhoso, pois ele de certa forma nos torna super-pessoas — esquecemos a fome, o sono, o medo, as limitações, e agimos (fugindo ou lutando). diante da ameaça real, essa injeção de drogas naturais nos dá uma pequena vantagem para que possamos sobreviver.

mas então suponha que o guincho que você ouviu era uma corneta, que um moleque pentelho qualquer resolveu tocar pra assustar todo mundo. você vê o moleque, a corneta, conclui que não é necessário correr e nem lutar (talvez dar um croque no moleque, não sei), e pronto. em pessoas normais e equilibradas, o que acontece é que o corpo relaxa, e os efeitos das drogas injetadas passa naturalmente e voltamos ao piquenique felizes, como se nada tivesse acontecido.

então qual é o problema com o stress? existem dois: o primeiro quando você reage a coisas absolutamente irrelevantes, o tempo todo, como ameaças; o segundo quando você não consegue sair do estado de alerta e relaxar novamente.

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eu tinha os dois problemas acima, e não sabia (mais o primeiro que o segundo, e eles se misturavam). graças a mil motivos que não vêm ao caso, observei que eu encarava coisas muito, muito pequenas como motivo de stress. ou como me explicaram, eu olhava um gatinho miando e tratava como um leão rugindo. não precisa ser um gênio, pensando no mecanismo de stress, pra concluir que sentir stress com um leão rugindo é uma boa ideia que pode conduzir você a uma vida mais longa; mas por outro lado, se a cada gato que mia eu fico estressada, minha vida se torna infernal (tem muito gato! e gatos miando não “merecem” esse esforço todo do meu sistema de defesa, certo?)

então a terceira coisa importante que quero compartilhar é que é crítico aprender a diferenciar entre leões e gatos. e só quem pode fazer isso somos nós mesmos, prestando atenção ao que nos incomoda e o quanto aquilo realmente é relevante e merece uma reação tão emocional e acalorada. comecei a observar a mim mesma, e como eu me sentia (e como me comportava, como consequência) quando certas coisas aconteciam. percebi que eu me irritava com coisas absolutamente ridículas, e que essas coisas estragavam meu dia. que eu ficava remoendo coisas estúpidas, coisas que outras pessoas disseram ou fizeram e esqueceram (e eu continuava sofrendo por elas, o leão rugindo loucamente na minha janela por dias, meses).

comecei então a separar, muito lentamente, meus leões dos meus gatos, e colocar as coisas em perspectiva. ajudou, é claro, e me ajudou a diminuir a dimensão dos episódios de stress, mas não ajudou com a frequência (quantidade de eventos que me incomodavam).

e aí tive que ir um pouco mais a fundo, olhar lá dentro do meu próprio olho no espelho e me perguntar por que a coisa X me irrita tanto, se é obviamente tão pequena?

essa parte eu digo que sem terapia teria sido muito difícil, porque a gente sempre procura a causa dos nossos incômodos no outro, e não percebe que o comportamento dos outros conosco é sempre (SEMPRE, não consigo reforçar isso o suficiente) é consequência do nosso próprio comportamento + expectativas irreais.

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a quarta coisa que vou compartilhar então é que é preciso aprender a ser honesto consigo mesmo e com os outros.

dou um exemplo bobo, mas que pra mim ilustra bem como as coisas são no meu universo. nos primeiros meses de casamento (esse último) eu me estressava diariamente porque o marido chegava do trabalho e (era assim que eu via) “não fazia nada”. eu tinha que fazer o jantar, decidir o que fazer, preparar, servir (ou ligar e pedir). “se dependesse dele”, a gente não comia. era assim que eu via as coisas, e a hora do jantar ia chegando e eu já ia me estressando por antecipação, porque afinal “todo dia é igual, que saco, cara folgado e etc.”.

pois contei esse “fato” na terapia, e ela me perguntou mui calmamente: “e me conta — se você não fizer ou pedir o jantar, o que acontece? ficam com fome?”. e eu (surpresa!) não sabia responder, porque eu nunca tinha tentado, claro. eu, ansiosamente, e já supondo o que ele (não) ia fazer, saía fazendo/pedindo. e ganhei lição de casa número 1: não pedir, não fazer, simplesmente esperar. claro que eu não ia deixar por isso, e já antecipei: “mas e se ele não fizer nada, e eu estiver com fome?”. e veio a lição de casa número 2: “peça, por favor, que hoje ele resolva a questão do jantar, porque você está cansada. só isso. você já pediu alguma vez?”.

não, claro que não 🙂

e vocês vão adivinhar o que aconteceu, claro. na 1a vez que eu deixei espaço pra que ele, o outro, tomasse alguma iniciativa, ele tomou. e quando não tomou, fiz minha lição #2 e pedi e ele prontamente e com a maior felicidade, atendeu.

eu falei com ele, gente, expus o que eu queria, sem filtros e sem jogos. não é revolucionário? 🙂

UM MILAGRE ACONTECEU! não, foi simplesmente o exercício básico de aprender a viver com a realidade (que é o próximo tópico), com a pessoa real que está ali do seu lado, e não com sua versão imaginária, que mora na sua cabeça e faz as coisas mais estúpidas nas suas simulações mentais.

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a realidade nem sempre é o que você imaginou, mas conviver com ela é melhor com frequência mais fácil do que você lidar com a fantasia que você simulou nesta cabeça cheia de caraminhola.

uma forma simples e rápida e eliminar ansiedade e stress é parar de viajar na maionese e achar que:

– as pessoas SABEM o que devem fazer pra ajudar ou agradar você

– as pessoas DEVIAM SABER. ninguém devia saber nada. é sua obrigação (para sua felicidade e sanidade!) comunicar o que quer, deseja, gosta, desgosta

– você SABE o que as pessoas estão pensando e sentindo. pergunte. tenha interesse pelos outros, você vai se supreender

– você JÁ SABE o que vai acontecer, e por isso não vai tentar, nem falar. isso é bobagem da mais grossa, e uma forma de controle abominável. o que me leva ao próximo tópico…

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pare de tentar controlar o mundo. você não pode controlar ninguém nem nada além de você mesmo. relacionar-se com os outros-projetados-na-sua-cabeça é a forma mais ridícula de controle  — e funciona. isso impede você de se deparar com a realidade e com as (inevitáveis) decepções, você vive na matrix da sua própria cabeça. só que (ops) também impede você de conviver com as coisas boas, as surpresas positivas e crescer junto.

a única forma de viver sem controlar o mundo é se abrir para as chances, tomar riscos, oferecer sua perspectiva e esperar pelo que virá. às vezes é porrada e decepção, mas (juro!) a maior parte das vezes é bom, é surpreendentemente bom. e mais — quando é ruim, também é melhor que a alternativa, porque pelo menos você VIVEU, ao invés de SUPOR e evitar a realidade.

e se você pensa que estou divagando (estava falando de stress, certo?), vou resgatar: a ansiedade é irmã siamesa da expectativa e da necessidade de controle. quanto menos você tentar controlar, quanto mais você souber e sentir que as coisas NÃO estão sob seu controle, melhor. quando você aceita que nada além de você mesmo está sob seu controle e aprende a nadar COM a corrente ao invés de nadar CONTRA ela e pulando obstáculos, sua vida muda. até porque é muito mais fácil (e gostoso) controlar algo que você de fato pode — você mesmo.

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percebem que o ciclo fecha? o problema é sempre a gente; o stress é útil, quando aparece na hora da real necessidade; aprender a dar a importância certa (pouca) a coisas irrelevantes; ser honesto com o mundo e as pessoas sobre o que eu desejo; conviver com a realidade e não com a matrix; aprender a controlar (e mudar) somente a mim mesma.

eu prometo que se você conseguir completar esse ciclo, sua vida vai mudar pra muito melhor.

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mudar de cidade (emprego, casa, vida) também fez um grande milagre na minha vida e no meu nível de stress. decidi sair de SP, do trânsito, do barulho, e vim morar no mato. trabalho hoje numa empresa maior, com muito mais responsabilidade, e tenho um filho pra criar, mas meu nível de stress é muito, muito baixo.

como? aplicando o ciclo, sempre, todo dia. pras coisas pequenas, e pras grandes. fiz opções honestas na vida, com consequências, claro. abri mão de algumas coisas, mas como optei consciente, sem colocar a responsabilidade em outros, estou tranquila. dou importância ao que é importante pra mim (e eu sei o que é. a terapia me ajudou nisso).

eliminei o barulho e o trânsito. adicionei outras complexidades (trabalho; filho!). tenho problemas? claro que tenho. mas administro um a um, pedindo ajuda de forma honesta, quase sempre (que não sou perfeita, né. são anos de matrix).

me comunico com as pessoas da forma mais honesta que consigo, explicando meus desejos, meus medos, minhas preocupações. sempre com medo (de quê? do não. de ser rejeitada. de levar bronca. mas vou assim mesmo quase sempre!), mas sempre também com muita  fé que será melhor que a opção (o limbo, a não-comunicação).

e faço ioga e meditação, os remédios mais maravilhosos que conheço para as mentes inquietas e corações ansiosos. a mais linda e pura forma de se conectar consigo mesmo, e olhar pra dentro de si mesmo com honestidade e sem julgamento.

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e foi assim que o stress e a ansiedade de transformaram pra mim em episódios isolados, doenças das quais me curei.

espero que meu relato ajude vocês também.

beijo, e namastê 🙂

PS1: nos períodos de crise, me prescreveram fluoxetina, um santo remédio pro meu caso. foi uma medicação temporária, mas que me ajudou MUITO a entrar no eixo e começar o processo de mudança.

receitas e não-receitas

abril 23, 2013 7 comments

as coisas que fazem mais sucesso aqui nesse blog, desde sempre, são minhas receitas (ou as que não são minhas mas que testo e aprovo) e opiniões. as receitas eu acho perfeitamente compreensível, afinal todo mundo come e gosta de comer, e procuro fazer receitas fáceis a maioria das vezes. já as opiniões, credito puramente ao meu desejo de diálogo, porque o que comprovo na prática, todo dia, é que penso bem diferente da maioria das pessoas que cruzam meu caminho todos os dias (amigos inclusos).

tenho me sentido muito incomodada nos últimos meses observando o mundo e pessoas próximas, através de redes sociais e do convívio do dia a dia. pela segunda vez na vida tenho desejos de isolamento (o primeiro foi no final da adolescência, quando entrei para a vida adulta) e estou de “saco cheio” generalizado com as pessoas, em especial com o que é diferente de mim e coisas sobre as quais discordo. justamente porque já vivi isso e depois concluí que me tornei uma chata pedante por alguns anos, decidi que desta vez preciso entender melhor o processo e ao invés de me afastar simplesmente do que me incomoda, vou encarar e aprender, por mais que seja desagradável.

há mais ou menos 1 ano vivo um processo ativo de mudança de hábitos, e de vida. há uma manifestação externa e mais óbvia da mudança (há 9 meses comecei uma dieta de perda de peso) mas isso é muito menor que tudo o que passa aqui dentro. venho observando o que me incomoda, nos outros e em mim mesma. tenho repensado decisões, amizades, direções, e tenho reestruturado não somente meu cardápio mas também meu comportamento geral, disponibilidade e paciência para as pessoas. tive nos últimos meses muitas conversas francas (e difíceis), expus incômodos e em alguns casos, não expus e deixei pra lá. sobraram incômodos não expressos, mas também decidi não gastar energia com questões fechadas. repito meu mantra pessoal, continuamente: problemas que não têm solução não são problemas. deixo partir, como mera observadora.

não faz 1 ano ainda que voltei a praticar a bendita ioga (e pratico muito menos do que gostaria e deveria), e uma constatação triste é que deixo meu pobre corpo sempre em segundo plano. mesmo quando pratico ioga, meu fascínio maior é sempre quanto à filosofia envolvida e todas as questões da dualidade entre corpo/consciência. a verdade é que esse tem sido meu drama constante — a energia enorme consumida no mundo interior/imaginário versus a necessidade de concretização e enfrentamento da realidade.

não é que eu não seja prática — sou bastante. mas somente com o que é essencial, necessário para a sobrevivência. podendo divagar e me perder no mundo etéreo, pode me esquecer. até porque viver no universo paralelo (dormindo ou acordada) é muito, muito mais fácil que enfrentar a realidade fora do meu controle 🙂

mas divago. (claro)

no mundo exterior, meu esforço é domar os impulsos alimentares, aprendendo a comer de tudo um pouco, balanceando prazer e saúde. quero comer o mundo todo, às colheradas. pois aprendo a cada dia, um de cada vez, que é possível provar todos os gostos, um tico por vez, saboreando mais. degustando devagar, e sempre. quero colocar o mundo todo pra dentro do meu universo, do corpo, em contraposição à necessidade de colocar também coisas pra fora, fazer com que meu corpo acorde, se mova, saia da inércia e interaja com o mundo concreto. preciso mover a energia de dentro pra fora, transformar potencial em cinética.

tudo que preciso acelerar no corpo, preciso desacelerar na mente, na mesma medida. esvaziar, tranquilizar. dissipar raiva, frustração, julgamento. dissolver o ego, parar de olhar (e julgar) o outro, eliminar a necessidade do espelho (real e também o mais difícil deles, o que se encontra em quem não somos). descobrir o porquê dos incômodos, da inveja, da falta de paciência, ir ao fundo desse poço, pra que possa finalmente me dedicar às não-receitas, a simplesmente viver e deixar que vivam, sem categorizar ou racionalizar tanto.

meu pai, homem maluco e sábio do seu jeito, sempre tentou me ensinar a ser mais livre, menos exigente, a improvisar com o que aparece na vida. mais ou menos como ele faz, em sua profissão de marceneiro: transformar com as mãos a madeira bruta em algo útil ou simplesmente bonito. aos 41 concluo que o improviso e a flexibilidade são artes, sim. são úteis, são também uma forma de ser feliz.

ainda aprendo, papi!

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e como não podia deixar de ser, em especial neste post, cumpro uma dívida antiga e coloco uma não-receita (e uma das muitas histórias divertidas) do meu pai.

todos em casa cozinham bastante bem, e meu pai é um dos melhores. seus pratos são sempre caóticos, servem dezenas de pessoas e não têm receita. das coisas que ele faz muito bem é o molho bolonhesa, desde que me lembro. quando cresci um pouco, pedi que me ensinasse a fazer o molho, e ele sempre dizia “não tem nada demais: tempero, carne moída e tomate!”. mas nenhum molho era igual ao dele, nunca.

até o dia em que fui junto comprar os ingredientes para o danado do molho, e ao pararmos no açougue tive o momento “ah-ha!” — ele pediu acém moído na hora, mas mandou misturar mais ou menos 1/3 do volume de carne de porco e mais um pedaço de bacon!

fiquei p da vida com o “segredo”, e ele riu muito da minha indignação, com aquela cara de “peguei você!”. eu devia ter desconfiado, tendo aprendido a jogar buraco com ele, que é do estilo esconde-o-jogo-e-pega-todo-mundo-de-surpresa. tinha segredo, claro, e era a deliciosa carne de porco e bacon.

então a receita é assim, estilo maravalhas:

ingredientes

carne moída magra

1/3 do mesmo volume de carne de porco magra moída

um pedaço de bacon de boa qualidade moído

cebola

alho

pimenta do reino

tomate pelado / molho de tomate

azeite

 

utensílios

panela, colher, faca, tábua

 

modo de fazer

refogue a cebola ralada, até secar um pouco mas sem dourar. adicione o alho amassado, só para tomar cor. coloque então em fogo bem alto as carnes misturadas, tempere com sal e pimenta a gosto e refogue, mexendo bem, até a carne toda tomar cor mas sem secar.

adicione o molho ou os tomates pelados, até que cubram a carne e formem um molho bem grosso. acerte o sal e a pimenta. salpique um tico de canela (esqueci de avisar né? receita do meu pai é assim), misture bem e deixe apurar em fogo baixo.

sirva com macarrão fresco, que é o preferido do meu pai (não coloque óleo do cozimento do macarrão, faça o favor), e muito queijo parmesão ralado na hora.

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que a vida seja mais leve, mas que não falte o talharim a bolonhesa nunca! 🙂