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breaking bad: uma reflexão

novembro 5, 2013 Leave a comment

(contém spoilers. se não quiser saber nenhum detalhe da série ou do personagem, pare de ler já!)

só comecei a ver a série agora, coisa de 1 mês atrás, quando acabou. a comoção com o final da série (e o fato de ter um final) me animaram — já tinha ouvido falar que era boa, mas o tema (drogas, tráfico) não me empolgou. mal sabia eu que esta série trata não de um assunto específico mas do que é ser humano (e neste caso muito mais pro lado do mal que do bem).

a série toda me irritou e incomodou profundamente, de forma progressiva, até seu final. o que pra mim é sinal que ela é excelente, e cumpre seu papel como arte. por que consumir arte se não for para se sentir movido, afinal? algumas causam enlevo, estético ou intelectual, outras causam incômodo. aprecio ambos os estímulos.

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pra mim, walter white não é a “encarnação do mal”, como já li por ali, ele é o ego na sua forma mais pura. ele concretiza a completa desconsideração por tudo o que não é ele mesmo ou do seu interesse, sem culpa nem medo. suponho que iminência da morte tenha despertado nele o “eu” que por anos e anos ficou soterrado pela mediocridade da vida que levava. e não era uma vida má, francamente, só que ele não estava vivendo de verdade, parecia em estado de torpor. rotina e simplicidade não são sinônimos de mediocridade; sobreviver sem paixão é. ele vivia no limbo, até que a morte próxima fez com que ele se lembrasse que era um ser vivo! curiosíssimo. precisamos da sombra da morte pra lembrar de viver. cada vez que alguém próximo morre, lembramos que estamos vivos.

várias coisas me incomodaram — a falta completa de limites de WW; as mentiras; a manipulação das pessoas ao seu redor (em especial jesse); o orgulho cego, levando a decisões estúpidas. nada além dele mesmo, das suas vontades, importava. ele envenenou uma criança, matou direta ou indiretamente várias pessoas, manipulou todos ao seu redor o tempo todo. e a cada episódio, conforme ele ia ficando mais ousado, mais agressivo (e mais bem sucedido), o meu ódio por ele ia escalando. o homem que passou a vida fazendo tudo o que os outros queriam foi para o extremo oposto e passou a fazer somente o que queria, custe o que custar. como se não houvesse amanhã (não havia mesmo, pra ele), como se ninguém mais importasse (e não importava mais, de fato). nem mulher grávida, nem bebê, nem filho, amigo, vizinho, criança, velho, adulto, nada. o mundo agora girava ao redor dele. atrapalhou o caminho? mata ou manda matar. quer? rouba e toma.

e as mentiras! ele mente desde o começo, quando o mundo caiu. talvez tenha mentido a vida toda, nas pequenas coisas, e só aumentou a extensão das mentiras, sempre fugindo da verdade que admite só no último episódio — “i did it for myself”. não pela família, nem os filhos. por ELE. talvez pela primeira vez na vida.

walter sempre foi um homem intelectualmente brilhante mas um fracasso para fazer as coisas acontecerem, pra demonstrar para o mundo sua capacidade. até que encontrou uma atividade que além de alimentar seu ego imenso, que passou fome por anos e anos, rendia quantidades de dinheiro inimagináveis. começou no mundo da produção de drogas com a meta de ganhar US$700k como “poupança” e acabou com US$80M, que sequer podiam ser gastos. o dinheiro tornou-se mero detalhe, o importante era provar para o mundo (pra si mesmo também) que ele era genial.

a forma que seu cunhado o tratava desde o início dá a exata dimensão da auto-estima destruída de walter, da ruína que era sua auto imagem e a imagem projetada. hank o tratava como um velho inútil, um banana. e era assim ele era, até que não havia nada mais a perder.

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achei chocante (sem moralismo ou puritanismo) a relação direta entre a sexualidade de walter e seu mergulho de cabeça na violência, bem explícito na temporada 1 e depois deixado de lado. a cada passo dado em direção ao mundo dos “fora da lei”, a cada morte causada, sua energia sexual se ampliava a ponto de ficar assustador. um homem das cavernas moderno.

a relação entre testosterona e violência é fascinante. achei muito interessante a redescoberta da masculinidade de WW no papel de provedor, tomador de decisão, “líder”, ou seja, todos os arquétipos do que é ser “homem”. sua insistência em ser provedor, e não depender de caridade é quase comovente (se não fosse tão e absurdamente movida pelo puro e simples orgulho). o desenvolvimento de WW como homem na trama é bastante intenso conforme ele se firma como heisenberg. não mais um professor sem graça de meia idade, mas um perigoso mestre do mundo das drogas, que mata-e-faz-acontecer.

mas ele erra a mão, como todo homem-brucutu, e passa o resto da história sendo rejeitado por skyler, por puro medo ou aversão.

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e tem as cores da série, que me chamaram a atenção desde o início (a mais óbvia é o roxo do universo da marie). toda uma linda história paralela, toda contada através das cores do ambiente e das roupas dos personagens.

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vários críticos ficaram incomodados (embora sem demérito à série) com a falta de fechamento de tantas histórias paralelas — e os white? e o dinheiro que ele deixou? e a descoberta do assassinato de hank? e como ficou jesse no final? eu também gostaria de saber mais sobre essas histórias, mas o episódio final, 100% focado em walter, foi perfeito, justamente por ser absolutamente centrado no protagonista e seus quereres.

ao fim e ao cabo, tudo se resumia realmente a ele. aquele sorriso na hora da morte, dentro do laboratório (que não era seu, mas não importa) denotando o processo químico tão puro e especial que o consagrou como heisenberg, “the man”, resume tudo: ele morreu como protagonista, cheio de testosterona, dono da situação, com vida e morte em suas próprias mãos. ele deu um grande e enorme “foda-se” pro câncer, que foi o gatilho para o processo todo, mas que no final não o matou.

ele saiu de uma vida de bunda mole, levado pelas circunstâncias, sempre coadjuvante e surpreendido por uma doença que terminaria subitamente sua existência medíocre para uma morte com roteiro, cheia de significado e com mensagem: “sou o cara!”.

morrer no controle é melhor que viver à deriva?

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algumas pessoas alegam que todos temos um pouco de WW em nós, por isso ele é tão fascinante. entendo e concordo, no limite. mas não me identifiquei com ele em nenhum momento — seja na nulidade pré-heisenberg, seja na versão technicolor de mastermind. ele parece jekyll & hyde, e acho que essa intensidade dos opostos é o que me incomoda e causa aversão. não gosto dos exageros, do drama. luto para que meu ego não se torne dono de mim (ha — como se tornou de WW!), para viver uma vida feliz, simples, mas com cor (diferente da vida bege de WW pré-meth-cooking).

o que esclarece meu ódio e aversão a WW, qualquer que seja a fase. ele é tudo que eu NÃO quero ser e evito.

que bom que ele morreu. que bom que a série acabou.

que bom que ela existiu, e me fez lembrar de tudo o que me move, o que quero e não quero.

e que bom que não é preciso ter câncer terminal para repensar a vida, e nem é preciso morrer para provar nada pra ninguém.

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que série foda!

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no logo

agosto 10, 2012 9 comments

recuerdo cosas de otros tiempos,
de cuando el almacén no tenía luces de neón
cuando el paraíso no tenía marquesina…

(logo, kevin johansen)

que eu tou idosa nem se discute. porque vocês sabem que a idade da pessoa não é só a da certidão de nascimento, né? no corpo tenho quarenta, mas às vezes me sinto anciã. e não é por ser conservadora e nem apegada ao passado, longe disso. mas porque cada vez mais valorizo e aprecio comportamentos e práticas associados às pessoas de idade. o silêncio, a companhia de poucos e bons, dormir cedo, comer direito, cuidar da minha casa, do meu quintal, meu filho, dos meus. ler um bom livro ao invés de sair “pra balada” (ô palavrinha que eu odeio!), e aí vai. idosa com prazer, sem culpa, sem problema.

depois do post ali sobre moda, pensei muito, conversei, refleti. por que moda não me interessa? por que notícias, novelas e programas populares em geral não me interessam? será que me tornei uma pessoa pedante, elitista, chata?

supermercados não me interessam, detesto ir. shoppings não me interessam, só vou quando preciso, por pura praticidade. sim, gosto de adquirir coisas das quais eu gosto e de trazê-las pra casa quando possível, mas não sinto prazer no ato de comprar. deu pra entender? ou seja: terapia de shopping pra mim não serve pra nada. roupas e sapatos? se eu ganhasse tudo de segunda mão ficaria feliz da vida. comprar em brechó é a mesma coisa que comprar em loja, pra mim. se eu ganhar coisas que foram de outra pessoa fico ainda mais feliz, é como se a pessoa transferisse um pouco dela pra mim, entendem? não, né? ok.

não sou elitista, nem pedante, nem chata. simplesmente perdi o interesse em consumir por consumir. e acho que o motivo é uma combinação de 2 coisas: a percepção de que não preciso de tantas coisas, e posso viver com menos, de forma mais simples + o fato de que deixei de ler revistas, jornais e tenho visto poucas horas de TV me afastou da propaganda.

não sinto desejo de comprar a marca X ou Y. sempre comprei qualquer marca de quase tudo, pra ser honesta, nunca fui fiel a marca alguma. mas agora eu simplesmente não conheço, não ligo, e (a menos que seja realmente necessário ou super-mega-lindo-e-fofo) eu não compro. os únicos apelos que realmente sinto para consumir atualmente são os de comida (adoro comer fora e comprar ingredientes diferentes) e coisas “únicas” ou bem diferentes.

sempre achei horrorível usar coisas “de marca”, com o logo gritando. sei lá, me sinto meio garota-propaganda, só que pagando (=otária). como sempre quis ser diferente dos outros, desde pequena, tenho um pouco de dificuldade de entender pessoas que querem usar coisas que todo mundo usa.

sei que muitas pessoas usam certas marcas como forma de status, mas isso realmente é fora da minha realidade. fui criada para desprezar esse tipo de pessoa que esbanja dinheiro e ostenta tudo o que tem, e funcionou: tenho nojo. primeiro porque chega a ser deselegante ostentar riqueza num país com tanta desigualdade, um pouco de humildade não faz mal a ninguém; segundo porque se a pessoa precisa tanto assim mostrar que tem e que pode, bom sujeito não há de ser, tem algo errado aí. mantenho distância, acho feio e deselegante.

mas vamos pro título: por que tudo precisa ter LOGO? qual é o real valor da marca? por que comprar a marca pela marca?

deixar de ver propagandas me tornou menos consumista, é fato. foi e é bom. a propaganda é ilusória, direcionada, psicologicamente desenhada para atingir nossos pontos fracos, é a tentação, o diabo, o mal.

bah, não é que comprar seja mau em si, que as equipes de marketing sejam demônios malignos. mas eles só pensam no lucro, sim senhores. as blogueiras que escrevem publieditorial querem ganhar dinheiro e não compartilhar coisas com você, bobinha. a fernanda torres não liga lá se a marca de sabão X vai tornar sua vida mais fácil, ela recebeu vários dinheiros pra usar a imagem e credibilidade dela como atriz pra convencer você que você PRECISA MUITO daquele sabão pra “facilitar sua vida”.

e por mais que a gente saiba que sabão é sabão, e que é verdade que uns são melhores que outros, poxa, eu vi a propaganda da fernanda torres, ela é tão bonita, atriz, magrinha, mãe de família, né? o sabão deve ser bom.

se possível fosse, eu faria meu próprio sabão, plantaria minhas comidas e costuraria minhas roupas. porque francamente é uma afronta à minha inteligência o grau de (tentativa de) manipulação a que somos expostos o tempo todo na TV, rádio, cinema e agora — TCHARAM! — na internet. tenho lá meus “amigos” virtuais e já não sei mais se eles realmente recomendaram o restaurante X porque curtiram ou porque pagaram pra eles elogiarem.

consegui desligar a TV, o rádio, os jornais, mas estou enfronhada nas redes sociais, como boa geek que sou desde sempre. estragaram o mundo todo, porra!

TUDO TEM LOGO.

só queria poder identificar, agora. nesse mundo de publieditoriais não declarados, já não sei mais nada. só me resta filtrar, filtrar, até sobrar só a essência mesmo. e voltar aos chás e bate-papo no beiral de casa, que eu ganho mais.

a semana mais longa

Fevereiro 14, 2007 Leave a comment

city hunters, animação com as mulheres do manara?! no FX, aquele canal idiota, como assim? aposto que vai ser uma merda.

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respondendo às perguntas do post anterior sobre o aniversário de casamento:

– o meu santo casamenteiro é ela, a santa falta de noção, batman 🙂 ao invés de pensar 2 vezes eu vou lá e CASO, entende? depois eu vejo se dá pé

– uma pessoa é bem mais do que aquilo que ela faz, demonstra ou diz. porque nós somos mais do que ação e verbo, boa parte (a parte melhor, eu diria) é sentimento e emoção e é isso que eu amo nele. e a verdade é que eu amo o que ele diz, faz e demonstra também 🙂

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obrigada pelos comentários fofos. fico feliz em saber não só que me desejam o bem, mas que a maioria das pessoas que pára por aqui gosta de ler coisas boas. sei que é legal ler um pouco de piada e sarcasmo, mas acho fofura melhor 😀

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aliás, como é insuportável conviver com gente negativa, não? todo mundo deve conhecer alguém que se você diz “que dia lindo!” responde “ah, mas vai chover…” ou que quando você pergunta como ela está a infeliz responde contando todos os problemas. cada vez mais acredito que felicidade é escolha, sabe? a gente pode escolher ver o céu azul de agora ou lamentar que mais tarde vai chover. sou a criatura do que vejo.

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me vejo no que vejo

como entrar por meus olhos

em um olho mais límpido

me olho o que eu olho

é minha criação

isso que vejo

perceber é conceber

águas de pensamento

sou a criatura do que vejo

(blanco, octavio paz – tradução de haroldo de campos)

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deprimi forte hoje. almocei com clientes, todos homens. dos quatro, três são completos imbecis. assim, sem salvação: idiotas de pai e mãe, portas fechadas sem maçaneta. fãs ardorosos do romário, piquet e afins não exatamente pelos talentos atléticos mas porque “têm atitude”.

o pior é perceber que eles são “a massa”. minoria sou eu, que acho as mesmas figuras desprezíveis porque são espertões, mal-educados, escrotos. atitude virou sinônimo de ser escroto, putz. pra me consolar, lembrei que há poucos meses saiu na super-interessante a matéria dos meus sonhos: o retorno da natureza após o desaparecimento súbito da humanidade. let’s keep wishing.

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meus peitos pesam mais que bolas de boliche, daquelas grandes.

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comprei uma sandália chiquérrima, de salto, com dedinhos de fora, cor de tutti-frutti. felicidade instantânea por 36 reais no cartão de crédito. só assim pra sobreviver aos fãs do romário…

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e essa propaganda RIDÍCULA de iogurte que te faz cagar ou devolve seu dinheiro, meu deus do céu?! se eu fosse do tipo que tem intestino preso teria muita vergonha de comprar esse troço do supermercado. o horror! e eu preciso escrever o tal post do cocô mas sempre esqueço, acaba ficando pra depois. prometo que ele vem! enquanto isso eu passo mal com a propaganda da corna conformada retentiva anal.

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e como se o iogurte do cocô não bastasse, tem as propagandas de sabonete líquido de buceta com nossa amiga regina. taí outra coisa que eu não entendo: por que usar esse negócio, explica? pra bichinha ficar com o maravilhoso cheiro de buceta-com-rosas? buceta-com-lavanda? fora que deve deixar gosto de sabão, ai pobre do bofe que gosta de buceta! (o que não gosta vai achar até melhor descaracterizar a pobrezinha)

ok, agora a sério: entendo as neuroses alheias, acredito que tenha mulher que realmente ache que um sapólio íntimo ajuda de alguma forma na sua higiene (o que é uma bobagem, aqui entre nós. água purinha e mãos cuidadosas já resolviam a questã). acredito também que tenha mulher que não goste do seu próprio cheiro, mas… acho as duas coisas muito tristes.

todo aquele esforço na década de 60 pra libertação feminina, queima de sutiã e o cacete, ganhamos o direito de trabalhar (merda) e ficar estressadas, que ótimo. aí em pleno ano de 2007, como se a gente não tivesse preocupação suficiente nessa vida, nos arrumam uma nova: nossa buceta agora é nojentamente suja e malcheirosa e precisa de um sapólio especial que custa muitos reais. inferno!

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