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Posts Tagged ‘perupatolinha’

agora ele tem casa e endereço!

Janeiro 22, 2007 Leave a comment

tá ficando séria a história e o nosso amigo perupatolinha ganhou casa: http://www.perupatolinha.com.br. ainda não tem nada além de uma compilação de links para a receita, histórias, fotos e a comunidade. estou ainda pensando no que fazer pra deixar esse site mais legal, com informações úteis e divertidas.

e pra quem quer provar mas não quer ter o trabalhão de fazer o prato, consideraremos vender o bicho pronto, por quilo, você só coloca no forno. é sucesso garantido 🙂 se tiver interesse fale comigo e negociamos.

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filial de BH aprovada com honras!

dezembro 22, 2006 Leave a comment

o perupatolinha em BH foi sucesso absoluto e agora eu tenho fotos para provar que a raquel abalou:

é um pouco difícil ter noção do tamanho do bicho por essa foto, mas olhem a colher de sopa ao lado da travessa (parece colher de chá). ele é grande!

aguardo mais tentativas e novas incrições para filiais pelo brasil afora 😀

enquanto isso, ficam as fotos (adicionei mais algumas da sheilinha e do weno, tiradas no último evento) e a comunidade no orkut, pra quem quiser se juntar aos cozinheiros e comilões temerários e, é claro, ganhar a camiseta do weno (perupatolinha: eu fiz!)

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a saga do perupatolinha mineiro

dezembro 11, 2006 Leave a comment

por raquel carvalho

Tem coisas que a gente só faz por amigo. Amigo de quem se gosta muito. Então. Tenho essa amiga-do-peito que, sabe Deus porquê, decidiu mudar para Brasília. Resolvi organizar mais uma despedida em alto estilo para os colegas chiques do trabalho chique. É lógico que escolhi uma receita chique porque não sou boba nem nada…

Um peru com um pato e com um frango dentro, mais vários recheios diferentes no meio, grita pelo meu nome e sobrenome completo. Pois bem. Animada, já fui logo convidando as pessoas para, na despedida, comer o tal prato. À medida que a lista de convidados crescia, minha preocupação também. Resolvi, cinco dias antes, que era hora de começar a providenciar os ingredientes.

Neste ponto da história, é preciso dizer que tem hora que morar em Belzonte é uma m.! Para conseguir ostras frescas, fui a três lugares diferentes. E na véspera do almoço, a empresa que prometeu conseguir as tais ostras furou a entrega da encomenda… Para comprar um peru de 8 kilos, rodei meia dúzia de supermercados e terminei telefonando para a Sadia (!) que enfim me informou o único local onde conseguiria o tal bicho. A pimenta caiena eu consegui no Mercado Central, as demais no Mercado do Cruzeiro, a agulha de lona em uma loja de maquinário de costuras e por aí foi… Considerando que eu tinha todos os utensílios domésticos, comprar apenas os ingredientes foi uma visão dantesca do inferno. E o preparo não tinha nem começado…

É preciso dizer que eu contei com duas ajudas preciosas. Uma do melhor desossador da capital mineira, o Gonçalves, que trabalha no O Fino da Carne do Mercado do Cruzeiro (fica ao lado da barraca do Tião que tem os melhores sequilhos e biscoitos mineiros). Gonçalves desossou até mesmo o peru que eu não comprei lá e ficou per-fei-to. A outra ajuda é da santa da assistente para assuntos domésticos que está comigo há cinco anos na condição de braço direito e esquerdo, às vezes das duas pernas também. Pois bem. Meu clone aperfeiçoado fez todos os recheios sozinha. Nessa fase, o máximo era solucionar dúvidas, pelo telefone, diretamente do trabalho. Em outras palavras: ela fez a receita toda (rs) e eu só participei da parte do temperar as carnes, montar e assar o bicho, bem como das etapas finais do prato…

Depois de um dia de labuta, às 21 horas da véspera do almoço marcado para o feriado do dia 8 de dezembro, estávamos nós prontas para fechar o bicho e costurar, quando surge a brilhante idéia de “desentortar” a agulhar comprada em forma de meia lua “para ficar mais fácil”. Vou frisar que eram NOVE HORAS DA NOITE DA VÉSPERA DE UM FERIADO NA CIDADE DE BELO HORIZONTE, quando eu escuto um suave “tec” na agulha. Ham ham. Murphy, aquele f.d.p., agarrou o “patola” (delicado apelido da nossa receita) e não soltou. A maldita da agulha quebrou, eu tinha 35 convidados confirmados e nenhuma idéia brilhante para como fechar aquela coisa lotada de coisas outras.

Falando no celular com todos os amigos que pudessem ter uma agulha e, ao mesmo tempo, dirigindo para um shopping, debaixo de um verdadeiro dilúvio, no meio de um engarrafamento monstro, eu xinguei a Zel (que traduziu a receita e a colocou no blog). E minha avó que me ensinou a cozinhar. E minha mãe que me ensinou a fazer salada quando eu tinha 5 anos. E Rosilene que quebrou a agulha. E principalmente eu mesma, a imbecil que se meteu em um rolo desses no mês mais caótico do ano.

Faltando 10 minutos para as 22 horas, achei em um armarinho do shopping, no meio de linhas e rendas, uma agulha de bordar, pequena mas melhor do que nada. Para encurtar a saga, passava das onze da noite quando, em casa, dei os últimos pontos no “patola”, completamente destruída e em frangalhos. Antes de dormir, devido ao surto psicótico em que me encontrava, liguei para Zel que, delicadésima, retornou no dia seguinte cedo e deu valiosas dicas. O fato de ter acordado às seis da madrugada do dia seguinte para colocar o bicho no forno foi só um detalhe irrelevante para um loooongo dia de comemoração.

A festa foi maravilhosa. O perupatolinha valeu cada grama de esforço. Ah! E eu amo a Zel.

Dicas da Capital Mineira:

– Não perca tempo rodando supermercados. O Verde Mar é mais caro, mas tem praticamente tudo lá e de qualidade 100% (o que eu só descobri depois…): as ostras frescas, o peru de 8 kilos, a maioria dos temperos diferentes e as entradas mais deliciosas do universo.

– Para desossar, procurar Gonçalves no O Fino da Carne do Mercado do Cruzeiro (fica ao lado da barraca do Tião que tem os melhores sequilhos e biscoitos mineiros).

– A dica da Zel de colocar dois tabuleiros com água debaixo do bicho enquanto está assando, tendo o cuidado de tirar o caldo que vai soltando o tempo todo, é fundamental. Depois de duas horas assando com o forno um tantinho aberto, é possível fechar, colocar em forno médio e deixar por mais quatro horas, antes de tirar o papel alumínio para dourar.

– Diminuí o sal e a pimenta de tudo um pouco, devido ao número de problemas coronarianos e de pressão do público alvo.

– O molho de berinjela e batata doce foi pouco para atender toda a demanda dos esfomeados.

– Se for receber mais de 30 convidados é imprescindível que haja outros pratos (ex: abóboras recheadas, massa de espinafre).

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raquel agora é do time do “perpatolinha: EU FIZ”. camisetas, feitas pelo weno, em breve 🙂

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perupatolinha, a 3a edição

dezembro 10, 2006 Leave a comment

desta vez temos fotos e vídeos (só 2, na verdade), mas a idéia é aperfeiçoar a técnica, a receita e o passo a passo.

nessa versão nos superamos: fizemos TUDO (inclusive desossar os bichos) em cerca de 4h (em 4 pessoas) e terminamos com um peru (já recheado e ainda cru) de mais de 13kg. um espetáculo.

desta vez tivemos pouca gente (16 pessoas), portanto sobrou bastante. o que não foi de todo mau porque pudemos mandar pedaços para algumas pessoas que não foram.

um detalhe desta edição: achei e usei a pimenta caiena e ela é forte, deve ser usada com cuidado. algumas pessoas não conseguiram comer o acompanhamento de beringela e batata doce por causa dela. fiz o recheio da galinha com camarão desta vez porque fiquei com preguiça de abrir as ostras e ficou ótimo.

fica também o link para a segunda edição e a estréia (que só tem fotos tiradas depois dele pronto e a muito custo).

pra quem, como a louca da raquel, quer tentar a receita, segue de novo o link com a tradução feita por mim e pela paula. aliás, a raquel fez o perupatolinha lá em BH nesta sexta-feira, somente com sua assistente, e me prometeu mandar a saga completa. se ela liberar, eu publico 🙂

ano que vem tem mais!

os nossos agradecimentos vêm só em dezembro

novembro 9, 2006 Leave a comment

como não estaremos aqui no dia de ação de graças, data tradicional do perupatolinha, o evento de degustação desse banquete de aves e sabores será atrasado e acontecerá no dia 2 de dezembro, um sábado, à noitinha. já aviso agora porque voltamos um fim-de-semana antes do evento e não vou ter tempo de convidar as pessoas com calma.

pra quem não não sabe o que é o perupatolinha, confira aqui. tenho uma comunidade no orkut sobre esse prato delicioso, escrevi um post contando a história da primeira tentativa e outro sobre a segunda tentativa, com a receita.

essa vai ser a primeira vez que estou fazendo um convite “aberto” a quem quiser provar o prato. e é sério: quem quiser vir, está convidado, basta me mandar email. só tem alguns detalhes:

(1) o número de convidados é finito, portanto terá preferência quem se convidar primeiro

(2) avise se vem sozinho ou com acompanhante

(3) se falar que vem, NÃO FURE, senão você está sacaneando outra pessoa que poderia vir, ok?

nosso presente de ação de graças para os comensais amigos (conhecidos ou ainda desconhecidos) 🙂

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e para meu desespero, um novo desafio: um assado 10-em-1 de aves. esse não garanto testar, não… afe!

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até a volta 🙂

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fotos do processo de preparo do perupatolinha

Maio 8, 2006 Leave a comment

pra quem estava esperando, aqui estão as fotos do processo de preparação do perupatolinha. tenho fé que vou pegar a receita e adicionar os links passo a passo, mas melhor não prometer, né? 🙂

aqui você tem uma idéia da cara dos recheios antes, durante e depois. enjoy!

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uma comunidade no iogurte para o nosso herói

Maio 2, 2006 Leave a comment

o perupatolinha, é claro. entra lá e se inscreva na comunidade do perupatolinha, ele merece 🙂

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a receita do perupatolinha: promessa é dívida!

Abril 30, 2006 Leave a comment

preciso começar dizendo que a paula foi fazendo a tradução pra mim enquanto íamos fazendo a receita. ela também tirou fotos (não estão todas no ar ainda) e eu vou complementar a receita com as fotos do passo a passo, mas por enquanto quero publicar a receita e deixá-la aqui. vou manter esse link muito bem guardado, pois vou atualizá-lo sempre que fizer o prato de novo. apertem os cintos e vamos lá.

referências:

CHEF PAUL’S HOLIDAY DINNER (receita “original”)

TURDUCKEN (receita acima um pouco modificada)

– para desossar aves usamos esses aqui: como desossar uma galinha e específico para peru

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prólogo

este não é um prato para ser feito por qualquer um. não achem que estou me vangloriando, não, é que ele exige paciência e experiência de cozinha. se você é novato nas atividades culinárias eu recomendo deixar pra lá. esse prato é mais ou menos como uma tese de mestrado: sem o ensino fundamental e sem a faculdade não dá pra fazer. é trabalhoso, cheio de pequenos detalhes e manhas e, é preciso dizer, é caro.

se você está preparado para fazê-lo, chame alguém legal pra ajudar e principalmente arranje um bom açougueiro que dessosse as aves, senão o trabalho dobra.

eu dividi a receita assim: lista de ingredientes (o que comprar quando for ao supermercado), utensílios, instruções gerais e receitas de cada recheio. sei que deve estar meio confuso, mas por agora é o que consegui fazer 🙂

a despeito da complicação, acredite em mim: vale o esforço, vale o trabalho. boa sorte quando for tentar. se fizer, me conte o resultado, ok?

a lista de ingredientes

– farinha de trigo (1 kg vai sobrar)

– fubá de milho (1 pacote vai sobrar)

– açúcar (1kg vai sobrar)

– fermento em pó (para bolo)

– 1L de leite (vai sobrar)

– 4 tabletes de manteiga

– óleo

– farinha de rosca (1 pacote) ou pão francês bem moído

– 1 lata de leite evaporado (pode substituir por creme de leite)

– sal

atenção: a carne das aves que serão recheadas deve ser preservada, não se deve “recortar”, só tirar os ossos. ao final da desossa, ainda deve parecer uma ave e não uma massa de carne e pele. é, é difícil pra caramba! 🙂

– peru de cerca de 8kg dessossado (deve ser mantido o osso das coxas para dar formato)

– pato de cerca de 3kg dessossado

– galinha/frango de 1,5kg

– cerca de 20 ostras pequenas/medias no seu líquido (mais ou menos 300g)

– 1 kg de andouille (que substituímos por lingüiça calabresa defumada)

– 2 xícaras de caldo de peru, pato ou galinha

– 300g de miúdos de galinha, pato ou peru fervidos até ficar macios e depois bem picadinhos ou moídos

– 4 ovos

– 1 xícara de caldo de galinha, pato ou peru

– cebola em flocos/pó

– alho em flocos/pó

– orégano seco

– manjericão seco

– tomilho seco

– pimenta do reino em pó

– pimenta branca em pó

– semente de aipo (não encontramos e não usamos)

– páprica doce

– açafrão da terra em pó

– mostarda em pó (eu usei o molho mesmo)

– pimenta caiena (usamos um pouco menos de pimenta calabresa e ficou ótimo!)

– folhas de louro (meia dúzia)

– tabasco

– 7-8 cebolas médias

– 2 salsões grandes (parte dura)

– 4 pimentões verdes grandes

– 4 berinjelas grandes

– 3 batatas doces (eu usei a roxa)

– 1 cabeça de alho

– 2 maços de cebolinha e salsinha

– grand marnier (não usei, acho muito caro pra comprar só pra essa receita :))

lista de utensílios

– panelas grandes para preparar os recheios

– colheres de pau

– coador

– vasilhas para bater ovos, misturar os temperos secos, etc.

– assadeiras para os recheios

– assadeira grande e funda para o perupatolinha

– agulha de costurar lona para costurar o bicho depois de recheado

– barbante firme

– papel alumínio

Read more…

a verdade sobre o perupatolinha

dezembro 12, 2005 Leave a comment

vamos começar pelo começo: lendo o livro do steingarten descobrimos um prato no mínimo insólito, o perupatolinha. em inglês é turducken, uma combinação de turkey-duck-chicken, ou seja, peru-pato-galinha = perupatolinha.

o prato é mais ou menos assim: a galinha que recheia o pato que recheia o peru, e entre eles também tem recheios variados. como disse meu sogro, é uma mistura de pantagruel com sodoma e gomorra 🙂 obviamente tivemos a tentação incontrolável de preparar esse prato demoníaco no nosso almoço pré-natal. mal sabíamos nós onde estávamos nos metendo…

segue um relato verdadeiro sobre a preparação e degustação desse prato absurdo. se você não foi convidado, não se preocupe: nós ligamos pra 2 ou 3 amigos somente, pois sequer sabíamos se o negócio ia dar certo, não dava pra arriscar ter 20 pessoas pra alimentar e um prato mal-sucedido.

**

08:30 da manhã de sábado

(trim-trim-trim)

— fer, o despertador… que horas são?

— 8 e meia (zzzz)

— vamos dormir mais um pouco, mais tarde a gente vai na feira e compra as coisas e… (zzz)

— (zzz) hm-hum

10:30 da manhã de sábado

(trim-trim-trim)

— vamos, a gente ainda tem que comprar as coisas do perupatolinha!

— (zzz) tá tá…

entramos na internet e procuramos as receitas, achamos 2 receitas bem completas mas um pouco diferentes. escolhi a que apresentava a lista completa de ingredientes logo na primeira página (cerca de 30 ingredientes diferentes). fui de novo pro dicionário procurar os nomes de temperos que eu não lembrava — anotei tudo. fui procurar um conversor de pound para quilo e descobri que precisava de um peru de 7-9kg, um pato de 2,5-3kg e uma galinha de 1,5-2kg. desossados. hm.

pouco depois do meio-dia do sábado, na feira

na feira, 30 graus. a feira aqui tem ladeirinha, o que torna tudo mais complicado. na barraca das aves o moço avisa “tem peru e pato, sim, dona, mas acabou. se pedir com antecedência eu desosso e entrego em casa”. considerando que 24h era nossa antecedência, fomos procurar alternativas. comprei algumas poucas coisas na feira, comemos pastel de café da manhã e resolvemos procurar uma avícola em busca do peru e do pato.

14:30 da tarde de sábado

o calor aumentava e nós já tínhamos rodado a liberdade, aclimação e cambuci inteiros à procura de perus e patos. entramos até em casa de aves — que vendem animais de estimação e não alimento –, tamanho era o nosso desespero. nos avisaram que somente no mercadão acharíamos o peru e o pato (ainda assim com ossos). nós somos sem noção mas não ao ponto de ir ao mercadão num sábado à tarde, véspera de natal. desconsolados, saímos à esmo no bairro e decidimos ir até o extra da ricardo jafé — se lá não houvesse o pato, desistiríamos.

15:00 da tarde de sábado, no extra

juntamente com mais 3 mil pessoas fomos procurar nosso alimento do dia seguinte. depois de árdua busca encontrei um pato congelado! fiz o ritual de agradecimento a deus pelo alimento caçado — pois foi uma caça, acreditem — e começamos a procurar o peru e a galinha. depois de chafurdar no freezer dos perus-gigantes (de 13kg para cima), conseguimos um peru de 8,5kg. procurei um franguinho pequeno, de 1,5kg e achei: frango caipira, com cabeça e pés e tudo. compramos o que faltava e voltamos pra casa esperançosos, afinal, desossar uma ave não deve ser TÃO difícil assim, não é?

16:30 da tarde de sábado, em casa

ok, vamos conferir a lista de compras: tudo aqui. o pato e o peru estão congelados, mas tudo bem, a gente deixa descongelar um pouco, vai dar tudo certo. imprimimos as receitas, achamos na internet um manual de desossamento de aves em 10 passos, vai ser moleza! mas antes, um detalhezinho operacional: nosso gás estava acabando! vamos nós atravessar a cidade pra pegar um botijão de gás na casa da minha mãe e o coitado do fer carrega gás pra cima e gás pra baixo.

20:30 da noite, de volta à casa

muito bem, tudo pronto pra começar — e estaria tudo bem se eu não estivesse podre, acabada, destruída. eu poderia muito bem ter dormido naquela mesma hora, mas não: todo um processo industrial de elaboração de recheios para o perupatolinha me aguardava.

colocamos o notebook na bancada da cozinha pra poder usar o santo google e encontrar dicas de desossamento, temperos e molhos e começamos o processo de preparar recheios e desossar as aves.

20:44 da noite, iniciam-se manifestações sobrenaturais

desossando o frango, o fer afirma que a cabeça degolada do frango falou com ele.

23:30 da noite, ainda na cozinha

tudo cheira a pato cru, salsão e açafrão. eu tenho certeza absoluta de que nunca mais vou comer nada na vida, principalmente carne. o fer sua em bicas, brigando com o pato, além de morrer de rir com o meu estado deplorável de sono. a verdade é que depois das 21:30h eu já não sabia nem meu nome, não conseguia diferenciar tomilho de alecrim e esquecia o que estava fazendo de 10 em 10 minutos. eu olhava aquele monte de comida e tinha vontade de chorar — não havia um lugar sequer na cozinha que não estivesse coberto por panelas ou travessas cheias ou sujas. cebola, pimentão, salsão, pimenta, temperos, pele de pato, cabeça de frango, miúdos, sangue dos bichos espalhado na pia. as carcaças já retiradas ferviam num panelão no fogo e soltavam uma espuma que parecia de pano de chão sujo. minha mão cheirava a alho e páprica doce e as minhas unhas estavam completamente imundas de farelo de broa de milho.

01:30h da madrugada na cozinha do inferno

eu já não tinha mais condições de ficar em pé. minhas pernas doíam e eu fiz promessa de virar vegetariana para sempre depois de ver o pato e o frango desossados e abertos em cima da pia. o peru permanecia lá, inteirão e parcialmente congelado, sem chance de ser desossado. os recheios estavam prontos (embora eu não tenha experimentado absolutamente nada, nem pra ver o sal — lembram da idéia de nunca mais comer nada na vida?) e o fer decidiu colocar o peru de molho para descongelar e trocar a água de hora em hora.

sim, percebam o problema: o carro alegórico montado devia ir ao forno no máximo às 6:30h da manhã. 1 e meia e o peru ainda estava congelado. acho que foi nessa hora que nos demos conta que o perupatolinha tinha sido nossa idéia mais idiota até hoje.

tomamos banho de bucha pra ver se o cheiro de pato saía. não saiu.

02:30h, 03:30h, na cozinha

o fer acordando para trocar a água do maldito peru.

04:30h, na pia ensanguentada

o fer acordando para desossar o peru desgraçado.

05:20h, no quarto

o fer me acordando para ajudar a montar o carro alegórico.

quase chorando eu levanto e dou de cara com aquele bicho do tamanho de um cachorro aberto na pia. meu estômago deu 3 pulos, mas eu resisti. estica o peru na pia, coloca o primeiro recheio. o recheio me parecia cimentcola, mas o fer experimentou e achou bom (eu não acreditei, tinha certeza que ele estava dizendo aquilo pra me consolar). coloca o pato e mais cimentcola de outra cor. coloca o frango e mais um pouco do primeiro cimentcola. e aí, mal sabia eu, é que veio a pior parte: abraçar o peru pra poder costurar a barriga.

eu jamais faria medicina justamente porque a idéia de corpos sangrentos abertos, peles e pedaços não me agrada. o fer foi caçar uma das minhas agulhas gigantes de costurar lona e um barbante. com visível pena de mim, pediu que eu “abraçasse” o peru pra ele poder costurar as três aves juntas. lá fui eu, abraçando o peru-dos-infernos enquanto ele se divertia furando o bicho e costurando — e eu ajudando a segurar os “pontos”. estava ruim, é verdade, mas comprovei que tudo pode piorar: ele chegou ao fim do peru e o cu do peru (sabe aquele rabinho, que é o cu da ave? ali) estava praticamente solto. eu tive que segurar o cu do peru pra ele costurar, enquanto ele se ria muito, dizendo que poderia virar até proctologista, vejam vocês.

depois do que me pareceu um milênio o processo acabou e ele virou o peru — o que me proporcionou imenso alívio, pois ele até parecia um peru normal. nesse momento o meu adorado marido se vira e diz assim: “esse foi nosso caminho de santiago de compostela; essa experiência mudou minha vida! você não se sente uma pessoa melhor? :D”. e eu, falando sinceramente: “eu sinto que vou vomitar”.

06:20h, na cozinha asquerosa

chão imundo, pia imunda, fogão imundo, o cheiro onipresente do pato. colocamos o monstro no forno e fomos conferir a receita: “asse a 95 graus por 8h”. olho para o meu super-mega-forno e o mínimo é 160 graus. fudeu. rimos risos histéricos — esqueci de contar que os risos histéricos começaram por volta das 23h da noite anterior, repetindo-se constantemente sem motivo aparente — e fomos procurar uma solução. sem neurônios suficientes para pensar melhor, colocamos o espremedor de batatas segurando a porta do forno ligeiramente aberta para abaixar a temperatura e fomos dormir depois de lavar as mãos com 2 litros de detergente de limão.

07:30h e 09:30h do domingo, na cozinha dos infernos

o fer acordando para observar o peru maldito.

11 horas da manhã do domingo, dormindo

minha mãe liga e o fer atende: “oi, fer, já acordou?” e o fer “ah, vera, eu nem dormi…”. ela riu, achando que era brincadeira.

eu resolvi levantar e arrumar a bagunça do dia e noite anterior, deixei o fer dormir. olhei o peru (que já assava há mais de 4 horas) e me apavorei: estava ainda branco! liguei pra minha mãe, desesperada. ela riu e me mandou colocar papel alumínio (tarefa que não foi das mais fáceis) e deixar mais 1 hora. fiz e deixei. meio dia, depois de lavar as 18 panelas, 10 travessas, 60 talheres e 12 pratos escutei um chiado no forno — a forma estava praticamente transbordando de gordura.

“ahhhhhhh!!!!!” eu gritava pela cozinha. acredite, eu gritava mesmo. peguei uma concha e uma panela e comecei a tirar o caldo. nessa hora o fer acordou e veio me ajudar, é claro, afinal parecia que eu agia para salvar minha própria vida. tiramos o papel alumínio, deixamos mais 1 hora e depois da oitava hora o peru descansou — mas nós não.

meio-dia de domingo, arrumando a casa

meu pai me liga.

pai: e aí, como é que é o prato mesmo?

eu explico.

pai: mas vocês vão comer o qüênco(*)??

eu: sim, papi, ele já tá dentro do peru!

pai: mas sem o bico, né? (com voz de triste)

eu: ah, sim, papi, já vem sem o bico…

pai: ah, então tá bom… (aliviado)

(*) qüênco = pato, no idioma do meu pai

14 horas da tarde do domingo — os anfitriões zumbis

sei que fiz arroz, purê de batata doce, salada de agrião e tomate, salada de salsinha (receita da nigella) e sagu de lambrusco com chantilly e calda de framboesa. não me perguntem como, minhas lembranças do domingo são poucas e nebulosas. lembro que depois das 3 da tarde eu sentia fome finalmente e fui até capaz de comer o tal do perupatolinha, e olha: é bom. os convidados disseram que ficou MUITO BOM, mas eu tenho a perspectiva, sabem? depois de tanto sangue suor e gordura de pato acho que nada menos que a ambrosia dos deuses me faria sentir recompensada.

o fer tinha razão: a preparação desse prato constrói o caráter, como diz o pai do calvin, e nos deixou mais fortes. fiz absoluta questão de que todos se sentassem à mesa ou ficassem ao redor dela para o momento do corte do peru. avisei a todos que o momento era solene, pois jamais presenciariam outro perupatolinha feito pelas minhas mãozinhas detonadas pelo alho, sal e cebola. sentamos e comemos pantagruelicamente, como previu meu sogro. um prato que serviria bem 20 pessoas foi des-tru-í-do por 10.

a única coisa que compensou foi a felicidade do fer, que foi de fato o grande herói da jornada. a ele dedico a glória desse prato que só pode ter sido inventado pelo canhoto, amém.