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gota d’água

junho 7, 2017 Leave a comment

Passei o dia hoje falando de diversidade e inclusão para funcionários de uma planta industrial, de todas as idades e tipos e gêneros.

 

A última parte foi só com mulheres — respondi perguntas sobre questões de gênero e desafios que enfrentamos, com a ideia de manter esse assunto vivo, e propor mudanças construtivas e constantes, com a ajuda delas e dos homens também (faço uma palestra específica pra homens chamada “homens como aliados”, que é bem legal).

 

Várias me procuram depois das palestras pra contar suas questões específicas, e gosto muito de poder ajudá-las, talvez seja a parte mais legal do trabalho.

 

E veio essa mulher, já na casa dos 50 anos, e me contou que perdeu um filho (ela tem 3), não faz muito tempo. Que participa de um grupo de apoio de mães que perderam filhos, e que se deu conta hoje de como a sociedade massacra os homens que sofrem. Ela se fortalece (na medida do impossível, né, porque perder um filho, pessoal, não tem nome) com o apoio das demais, mas seu marido, ela me conta, não fala sobre isso. Se recusa a ir à terapia por motivo de ‘homens não fazem terapia’, não chora pelo mesmo motivo, e sofre calado, “se muere por dentro poco a poco”, me diz ela.

 

Homens não são vítimas e não passam pelas mesmas coisas que nós, mas que sociedade horrível que construímos, na qual mulheres não valem nada, são seres de segunda categoria, e homens não se admitem como humanos!

 

E essa mãe, vivendo um dia de cada vez, aprendendo a conviver com sua dor que não acaba nunca, e ainda assim atenta ao que podemos fazer pra mudar o mundo, e ser mais felizes.

 

Eu me senti tão pequena.

 

Mas é assim, às vezes: uma gota d’água que pinga na hora certa e no lugar certo, e que com sorte transborda e transforma.

 

(Eu sei que eu tento!)

É possível trabalhar para criar um cenário diferente para as mulheres na tecnologia?

junho 6, 2017 Leave a comment

 

(pergunta feita pelas moças do UP[W]IT)

Entendo que existem algumas barreiras que precisam ser quebradas, e infelizmente todas são muito estruturais, relacionadas à nossa cultura e difíceis de mudar – algumas profissões e inclinações são atribuídas a homens e mulheres como “naturais”. Meninas não são estimuladas a se envolver com e apreciar a física, matemática e a tecnologia; são antes ensinadas a cuidar, enfeitar, limpar, cultivar relacionamentos, ouvir, falar. É claro que todas e todos temos nossas inclinações inatas, mas elas são não mais que metade da equação de quem nos tornaremos – a outra metade é puro estímulo. Ou seja, em primeiro lugar: enquanto as famílias não estimularem os meninos e meninas igualmente, sem direcionar por gênero, teremos poucas meninas engenheiras e técnicas e poucos meninos enfermeiros e professores primários.

 

Em segundo lugar, a escola continua reforçando os mesmos estereótipos, pro anos a fio. E quando estas poucas meninas que conseguiram passar pela infância e adolescência sem acharem que não foram feitas paras as áreas de tecnologia entram em faculdades e cursos técnicos, e são hostilizadas. O ambiente (desde o início do mundo escolar, aliás) não promove a inclusão de mulheres, e muitas vezes reforça estereótipos, tornando a continuidade neste tipo de curso muito mais difícil. Formar-se em cursos de tecnologia é difícil por natureza, tudo que as moças não precisam é todo o entorno jogando contra. Então mudar o ambiente nas faculdades, escolas, cursos técnicos é urgente. Tenho achado inclusive que devíamos (nós, ativistas) nos concentrar mais e mais em estar presentes nas escolas falando para estas meninas e meninos, devemos abrir mais espaços de tecnologia amigáveis para meninas e moças, para que elas tenham finalmente liberdade de explorar e descobrir se essa área de atuação é a que elas amam. Precisamos estar mais presentes nas universidades, precisamos de grupos de apoio a estas mulheres para que saibam que não estão sós e como persistir, como mudar seu entorno. Sem apoio isso é muito difícil. Lembro quando entrei na faculdade (de tecnologia, o CSTC/ITA, em 1989) e METADE da turma era de mulheres. Éramos unidas, amigas, nos ajudávamos. Não sei como seria se fôssemos poucas.

 

Finalmente, precisamos mudar o ambiente empresarial para acolher as poucas que ultrapassaram as barreiras da infância e vida adulta para se dedicar à tecnologia. Não é à toa que tantas mulheres se tornam empresárias, autônomas, freelas – o ambiente corporativo é difícil pra nós. As que “chegam lá” criam uma casca tão dura que frequentemente se tornam iguais aos seus opressores e não mudam o entorno – elas se tornam parte do problema. A boa notícia é que as empresas multinacionais perceberam há alguns anos que diversidade é importante para o crescimento e maior lucratividade, e resolveram investir nisso. As empresas menores estão aos poucos entrando nessa onda, a discussão se expande para o mundo da politica e da academia, fomentada e apoiada pela ONU, que tem alcance global.

 

Claro que essas mudanças no mundo corporativo são excelentes e necessárias, mas realizar mudanças no mundo dos negócios, dos “adultos” é pouco; as ações que tomamos dentro do contexto corporativo não se estendem normalmente às casas das pessoas. Os pais, mães, tios, primos que estão participando de ações afirmativas nas empresas raramente levam isso pra dentro de casa e mudam sua forma de agir com as crianças que amam e convivem. Precisamos de mais gibis, programas de TV, filmes, novelas, livros, peças de teatro com mulheres cientistas, engenheiras, técnicas, empilhadeirista, motorista de caminhão. Precisamos normalizar a presença de mulheres nestes ambientes, pra que uma menina tenha liberdade de se apaixonar por, estudar e trabalhar com qualquer assunto, e não só o que nos ensinaram há séculos que é “apropriado para moças”.

representatividade

junho 4, 2017 Leave a comment

Essa semana tive uma experiência que quero compartilhar, pra mostrar como ainda tem muito pra mudar no mundo, mas estamos mudando.

 

Visitei uma empresa incrível de inovação tecnológica que trabalha com IoT (internet das coisas, assunto muito da moda mas que existe desde 1999 :D). Quem me recebeu foram dois senhores (em torno de 60 anos), muito simpáticos e ótimos. Eles empregam 280 pessoas, todas da área de tecnologia (engenharia, de Hw ou Sw).

 

Como não podia deixar de ser, perguntei sobre a questão de diversidade — vocês conseguem contratar mulheres, ou ainda são muito poucas?

 

(Pausa: nos cursos de tecnologia e engenharia, somente 15% são mulheres, em média. Destas, 80% desistem do curso. Não li nenhum estudo sobre os motivos, mas suspeito que uma boa parte é graças à falta de incentivo externo — esses cursos não são fáceis, mas te tornam mais difíceis se todo mundo, a família inclusa, faz você acreditar que está no lugar errado)

 

A resposta deles me surpreendeu: “temos MUITAS mulheres aqui! Somos 4 no time senior de vendas e 2 são mulheres!”. Caramba, achei incrível. Até me comprometi a colocá-los em contato com grupos de mulheres na tecnologia, que vai ser bom pra todo mundo.

 

Aí vamos visitar o laboratório e o escritório, pra conhecer, e encontramos com a gerente de RH. O senhor, todo orgulhoso, pergunta pra ela: “conta pra ela: quantas mulheres temos no nosso time?”

 

Ela me diz, com uma carinha meio desapontada: “não somos muitas, infelizmente. Em torno de 10% somente!”

 

(Este número não me surpreende!)

 

Ele ficou super desconfortável, e eu disse: “são poucas mulheres, mas não é diferente de muitas outras empresas. Tem uma oportunidade aí, e eu ajudo a fazer uma ponte.”

 

Mas o que mais me chamou a atenção é o quanto normalizamos a falta de presença feminina em alguns lugares, a ponto de 10% ser percebido como MUITO. Não estou criticando o senhor, foi muito nítido o interesse dele no assunto e também sua surpresa ao ter sua percepção confrontada com a realidade.

 

(Mas notem que a moça de RH tem uma percepção diferente, independente dos números, e não é à toa)

 

Precisamos continuar falando sobre isso, e buscando melhorar o mix de gêneros em todos os lugares da vida. Chega de clube do Bolinha e clube da Luluzinha.

blogagem coletiva, mulheres negras

novembro 23, 2012 4 comments

queria muito contribuir com essa blogagem coletiva. porque sou mulher, e sendo mulher sei o quanto pode ser difícil e incômodo sê-lo às vezes. e não estou falando de menstruar, TPM e nem parir. acho todas essas coisas inclusive muito interessantes, não sou do tipo que acredita que “ser mulher é sofrer”, até porque isso é papo de cristão atrasado.

é difícil e incômodo porque ainda há quem trate mulheres como inferiores, as considere piores ou más e invejosas intrinsecamente. como se caráter fosse definido pelo gênero. creio nas diferenças, mas não aceito pré-julgamentos ou rótulos. cada indivíduo deve ter a oportunidade de se provar, de ser antes de receber rótulos. ou sua vida torna-se mais difícil, e limitada.

queria contribuir ajudando a pensar e falar sobre a condição da mulher negra, mas como? não sou estudiosa do assunto, e sou branca. jamais saberei como é ser uma mulher negra, jamais saberei como elas são olhadas, (des)tratadas ou simplesmente ignoradas.

talvez isso seja a coisa mais importante que eu possa fazer: lembrar você, homem, que não, você não sabe o que é ser mulher, e nem sabe o que passamos; e lembrar aos homens e mulheres brancos que não sabemos e nem nunca saberemos o que é ser negro. ser negro não é como ter cabelo moicano, ou uma tatuagem, ou ser “diferente”. a menos que você tenha um chifre na cabeça ou seja azul, não compare sua condição àquela dos negros.

consegue imaginar uma situação em que sua mera existência e presença física causam aversão, incômodo e uma série de reações inconscientes que frequentemente culminam em julgamentos e às vezes violência (verbal ou física)? e que é simplesmente impossível “esconder” o que se é?

convivi com o racismo desde criança. aquele racismo mais nojento e grudento, o que não se acha racista. minha avó paterna, loura de olhos azuis, filha de espanhóis (só pra dar um exemplo. tenho inúmeros outros, de diferentes membros da família) uma vez disse numa ocasião familiar: “olha, contratei fulana pra trabalhar aqui em casa, estou espantada! sabe que ela é preta mas é muito limpinha?”. eu era criança ainda, e me lembro de pensar “como assim? o que a cor dela tem a ver com ser limpa ou não?”. lembro vagamente de algum protesto depois da frase (da minha mãe? meu mesmo?), ao que ela responde “mas gente, disse que ela é limpinha, isso foi um elogio!”.

pra não falar de comentários de “cabelo ruim”, e outros tantos que passam pelas frestas, quase desapercebidos. não duvido nada que eu mesma solte comentários racistas sem nem perceber, tão entranhado isso é no nosso dia a dia, na cultura brasileira. o racismo da piada, do escracho, que sempre tem a “saída pela direita” de dizer que era brincadeira.

não quero ser racista, não sou racista! quero ver e viver a diferença, com respeito pela etnia, opção, condição de cada indivíduo. tenho uma meta pessoal de responder a esse tipo de comentário “inofensivo” todas as vezes, não deixar pra lá. pedir respeito, explicar porque isso não se diz, porque é tão errado. é difícil e cansativo. e decepcionante, pra ser sincera. como amar e conviver com pessoas que pensam assim? não é fácil e francamente a convivência precisa ser limitada mesmo, ou fica impossível.

admiro mulheres que se impõem, se posicionam e não se deixam moldar e oprimir pelo peso do machismo; admiro em dobro as mulheres negras que têm o desafio ainda maior de superar o machismo e o racismo, que somados são mais que as partes juntas. saibam que no que depender de mim, dentro do meu minúsculo universo de influência, vocês serão defendidas. que estou criando meu filho para não ser racista e nem machista; que faço tudo o que posso para que aqueles que estão dentro do meu alcance de influência tenham mais respeito e admiração pelos que lutam por um mundo melhor, mais livre de preconceito e julgamento.

e, se me permitem um pitaco: deixem seus cabelos naturais. cabelos de negros são lindos! 😉