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sobre a auto-estima perdida

março 5, 2012 32 comments

muito apropriado para o meu momento atual de vida esse post da denize barros sobre “ser quem se é”.

concordo 100% com ela que a atriz melissa estava linda no seu vestido drapeado, e visivelmente feliz e confortável. que, no fundo, é o que importa.

estou gorda, mais gorda do que nunca estive. e, ironicamente, cercada por todos os lados de mulheres em dieta. mulheres muito — MUITO mesmo — mais magras que eu. neuróticas, chatas, só falam de dieta o dia todo, trocam receitas de dieta, comparam perda de peso, trocam dicas de como não passar fome, reclamam de fome o dia todo, suspiram de desejo de um simples purê de batata ou uma sopinha de macarrão.

e na TV, no cinema, na vida, uma enxurrada de angelinas jolies, anoréxicas, consideradas lindas e perfeitas. modelos, sonho de consumo. adele, linda e jovem, com talento sobrando pra todo lado (irresistível a piada :)), é constantemente lembrada não pelos muitos prêmios ganhos e talento inegável, mas pelo peso. e emagrece, pouco a pouco, porque afinal “é preciso”.

considero seriamente neste momento em que viro os 40 mudar meus hábitos, emagrecer e me tornar mais saudável. muito menos por questões estéticas — porque afinal jamais serei considerada magra nem linda em nenhum padrão, nem me dou ao trabalho — mas porque estou com dificuldade de acompanhar meu filho de 18 meses nas suas (hiper)atividades. e porque comprar roupa é mesmo muito deprimente quando se é gorda.

mas resisto, numa atitude quase punk. por mais que minhas motivações sejam muito minhas e muito simples (em oposição ao “se enquadrar” ou agradar ao marido, mãe, enfim), não quero ser parte dessa horda de mulheres loucas com o próprio peso, cabelos, aparência. por mais que eu saiba que aparência é importante, que a atitude inversa do total desleixo é tão danosa quanto a vaidade sem limites, me identifico com o lado de cá, com a turma de calça rasgada e moicano feito de sabonete barato.

sempre há quem alegue que seja pura e simples preguiça (afinal, gordos são preguiçosos; feios são mal cuidados, desleixados), e em parte pode ser mesmo. uma preguiça imensa de provar algo, de investir na aparência que, de coração, não me faz nem nunca fez tanta falta.

e nem me venham com a ladainha de “é um sacrifício para sentir-se bonita, sentir-se bem consigo mesma”, porque há milhares de pessoas lindas e perfeitas no mundo absolutamente infelizes consigo mesmas, com sua aparência. continuamente em dieta e tratamentos estéticos, comprando loucamente roupas e sapatos e acessórios, carros e barcos e infelizes. porque o lóbulo da orelha direito está flácido, por causa de um espectro de celulite ou… enfim.

mas tudo estaria mais ou menos bem se não houvesse a patrulha, explicando o que pode e não pode, como pode, porque pode, deve ou não deve. em outras palavras, tudo seria mais fácil se cada um cuidasse da sua própria vida. não sei quantas vezes ouvi da minha mãe coisas como “olha, ouvi falar de uma dieta ÓTIMA…”, e do meu pai o constante “ah, seu cabelo é tão bonito, por que não deixa crescer, cabelo comprido é mais bonito”. creio que sempre falaram com a melhor das intenções, mas… caramba. todas as pessoas precisam ser magras de cabelos ao vento, sedosos e lisos. né?

well, e se fossem só meus pais, dava para administrar, deixar pra lá. mas é, repito, uma horda. estou cercada por todos os lados. e resisto, me debato, e adio o momento inevitável de finalmente sucumbir e me enquadrar. mesmo que não seja pelos mesmos motivos, me sinto como tentada a ir para o lado negro da força.

um dia volto aqui com notícias dessa minha batalha inglória — além de não ser nada fácil tornar-se mais leve e saudável, ainda tenho essa angústia de me transformar nesse tipo de mulher que acho chata de marré-marré-marré.

mas prometo que no momento em que engatar minha primeira nessa ladeira tratarei de tudo com meu usual bom humor. quem sabe consigo mudar E evitar esse caminho que tanto detesto. e continuar sendo eu mesma, ainda que em outro patamar de peso.

 

PS-1: a propósito, visitei uma endócrino há 2 ou 3 meses, pra fazer uma “geral”. ela me examinou, pesou, mediu e escarafunchou. e me disse bem calmamente — se quiser emagrecer, emagreça, e posso ajudar. mas NÃO PRECISA. você está absolutamente saudável, parabéns. o título ali no post não é à toa.

PS-2: e prefiro mil vezes ser gorda a me transformar nessas mulheres que precisam tomar remédio pra fazer cocô. acredite ou não, as 2 coisas estão 100% relacionadas (dieta/neurose com aparência e o cocô-ausente :D)