vamos começar pelo começo: lendo o livro do steingarten descobrimos um prato no mínimo insólito, o perupatolinha. em inglês é turducken, uma combinação de turkey-duck-chicken, ou seja, peru-pato-galinha = perupatolinha.
o prato é mais ou menos assim: a galinha que recheia o pato que recheia o peru, e entre eles também tem recheios variados. como disse meu sogro, é uma mistura de pantagruel com sodoma e gomorra :) obviamente tivemos a tentação incontrolável de preparar esse prato demoníaco no nosso almoço pré-natal. mal sabíamos nós onde estávamos nos metendo...
segue um relato verdadeiro sobre a preparação e degustação desse prato absurdo. se você não foi convidado, não se preocupe: nós ligamos pra 2 ou 3 amigos somente, pois sequer sabíamos se o negócio ia dar certo, não dava pra arriscar ter 20 pessoas pra alimentar e um prato mal-sucedido.
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08:30 da manhã de sábado
(trim-trim-trim)
-- fer, o despertador... que horas são?
-- 8 e meia (zzzz)
-- vamos dormir mais um pouco, mais tarde a gente vai na feira e compra as coisas e... (zzz)
-- (zzz) hm-hum
10:30 da manhã de sábado
(trim-trim-trim)
-- vamos, a gente ainda tem que comprar as coisas do perupatolinha!
-- (zzz) tá tá...
entramos na internet e procuramos as receitas, achamos 2 receitas bem completas mas um pouco diferentes. escolhi a que apresentava a lista completa de ingredientes logo na primeira página (cerca de 30 ingredientes diferentes). fui de novo pro dicionário procurar os nomes de temperos que eu não lembrava -- anotei tudo. fui procurar um conversor de pound para quilo e descobri que precisava de um peru de 7-9kg, um pato de 2,5-3kg e uma galinha de 1,5-2kg. desossados. hm.
pouco depois do meio-dia do sábado, na feira
na feira, 30 graus. a feira aqui tem ladeirinha, o que torna tudo mais complicado. na barraca das aves o moço avisa "tem peru e pato, sim, dona, mas acabou. se pedir com antecedência eu desosso e entrego em casa". considerando que 24h era nossa antecedência, fomos procurar alternativas. comprei algumas poucas coisas na feira, comemos pastel de café da manhã e resolvemos procurar uma avícola em busca do peru e do pato.
14:30 da tarde de sábado
o calor aumentava e nós já tínhamos rodado a liberdade, aclimação e cambuci inteiros à procura de perus e patos. entramos até em casa de aves -- que vendem animais de estimação e não alimento --, tamanho era o nosso desespero. nos avisaram que somente no mercadão acharíamos o peru e o pato (ainda assim com ossos). nós somos sem noção mas não ao ponto de ir ao mercadão num sábado à tarde, véspera de natal. desconsolados, saímos à esmo no bairro e decidimos ir até o extra da ricardo jafé -- se lá não houvesse o pato, desistiríamos.
15:00 da tarde de sábado, no extra
juntamente com mais 3 mil pessoas fomos procurar nosso alimento do dia seguinte. depois de árdua busca encontrei um pato congelado! fiz o ritual de agradecimento a deus pelo alimento caçado -- pois foi uma caça, acreditem -- e começamos a procurar o peru e a galinha. depois de chafurdar no freezer dos perus-gigantes (de 13kg para cima), conseguimos um peru de 8,5kg. procurei um franguinho pequeno, de 1,5kg e achei: frango caipira, com cabeça e pés e tudo. compramos o que faltava e voltamos pra casa esperançosos, afinal, desossar uma ave não deve ser TÃO difícil assim, não é?
16:30 da tarde de sábado, em casa
ok, vamos conferir a lista de compras: tudo aqui. o pato e o peru estão congelados, mas tudo bem, a gente deixa descongelar um pouco, vai dar tudo certo. imprimimos as receitas, achamos na internet um manual de desossamento de aves em 10 passos, vai ser moleza! mas antes, um detalhezinho operacional: nosso gás estava acabando! vamos nós atravessar a cidade pra pegar um botijão de gás na casa da minha mãe e o coitado do fer carrega gás pra cima e gás pra baixo.
20:30 da noite, de volta à casa
muito bem, tudo pronto pra começar -- e estaria tudo bem se eu não estivesse podre, acabada, destruída. eu poderia muito bem ter dormido naquela mesma hora, mas não: todo um processo industrial de elaboração de recheios para o perupatolinha me aguardava.
colocamos o notebook na bancada da cozinha pra poder usar o santo google e encontrar dicas de desossamento, temperos e molhos e começamos o processo de preparar recheios e desossar as aves.
20:44 da noite, iniciam-se manifestações sobrenaturais
desossando o frango, o fer afirma que a cabeça degolada do frango falou com ele.
23:30 da noite, ainda na cozinha
tudo cheira a pato cru, salsão e açafrão. eu tenho certeza absoluta de que nunca mais vou comer nada na vida, principalmente carne. o fer sua em bicas, brigando com o pato, além de morrer de rir com o meu estado deplorável de sono. a verdade é que depois das 21:30h eu já não sabia nem meu nome, não conseguia diferenciar tomilho de alecrim e esquecia o que estava fazendo de 10 em 10 minutos. eu olhava aquele monte de comida e tinha vontade de chorar -- não havia um lugar sequer na cozinha que não estivesse coberto por panelas ou travessas cheias ou sujas. cebola, pimentão, salsão, pimenta, temperos, pele de pato, cabeça de frango, miúdos, sangue dos bichos espalhado na pia. as carcaças já retiradas ferviam num panelão no fogo e soltavam uma espuma que parecia de pano de chão sujo. minha mão cheirava a alho e páprica doce e as minhas unhas estavam completamente imundas de farelo de broa de milho.
01:30h da madrugada na cozinha do inferno
eu já não tinha mais condições de ficar em pé. minhas pernas doíam e eu fiz promessa de virar vegetariana para sempre depois de ver o pato e o frango desossados e abertos em cima da pia. o peru permanecia lá, inteirão e parcialmente congelado, sem chance de ser desossado. os recheios estavam prontos (embora eu não tenha experimentado absolutamente nada, nem pra ver o sal -- lembram da idéia de nunca mais comer nada na vida?) e o fer decidiu colocar o peru de molho para descongelar e trocar a água de hora em hora.
sim, percebam o problema: o carro alegórico montado devia ir ao forno no máximo às 6:30h da manhã. 1 e meia e o peru ainda estava congelado. acho que foi nessa hora que nos demos conta que o perupatolinha tinha sido nossa idéia mais idiota até hoje.
tomamos banho de bucha pra ver se o cheiro de pato saía. não saiu.
02:30h, 03:30h, na cozinha
o fer acordando para trocar a água do maldito peru.
04:30h, na pia ensanguentada
o fer acordando para desossar o peru desgraçado.
05:20h, no quarto
o fer me acordando para ajudar a montar o carro alegórico.
quase chorando eu levanto e dou de cara com aquele bicho do tamanho de um cachorro aberto na pia. meu estômago deu 3 pulos, mas eu resisti. estica o peru na pia, coloca o primeiro recheio. o recheio me parecia cimentcola, mas o fer experimentou e achou bom (eu não acreditei, tinha certeza que ele estava dizendo aquilo pra me consolar). coloca o pato e mais cimentcola de outra cor. coloca o frango e mais um pouco do primeiro cimentcola. e aí, mal sabia eu, é que veio a pior parte: abraçar o peru pra poder costurar a barriga.
eu jamais faria medicina justamente porque a idéia de corpos sangrentos abertos, peles e pedaços não me agrada. o fer foi caçar uma das minhas agulhas gigantes de costurar lona e um barbante. com visível pena de mim, pediu que eu "abraçasse" o peru pra ele poder costurar as três aves juntas. lá fui eu, abraçando o peru-dos-infernos enquanto ele se divertia furando o bicho e costurando -- e eu ajudando a segurar os "pontos". estava ruim, é verdade, mas comprovei que tudo pode piorar: ele chegou ao fim do peru e o cu do peru (sabe aquele rabinho, que é o cu da ave? ali) estava praticamente solto. eu tive que segurar o cu do peru pra ele costurar, enquanto ele se ria muito, dizendo que poderia virar até proctologista, vejam vocês.
depois do que me pareceu um milênio o processo acabou e ele virou o peru -- o que me proporcionou imenso alívio, pois ele até parecia um peru normal. nesse momento o meu adorado marido se vira e diz assim: "esse foi nosso caminho de santiago de compostela; essa experiência mudou minha vida! você não se sente uma pessoa melhor? :D". e eu, falando sinceramente: "eu sinto que vou vomitar".
06:20h, na cozinha asquerosa
chão imundo, pia imunda, fogão imundo, o cheiro onipresente do pato. colocamos o monstro no forno e fomos conferir a receita: "asse a 95 graus por 8h". olho para o meu super-mega-forno e o mínimo é 160 graus. fudeu. rimos risos histéricos -- esqueci de contar que os risos histéricos começaram por volta das 23h da noite anterior, repetindo-se constantemente sem motivo aparente -- e fomos procurar uma solução. sem neurônios suficientes para pensar melhor, colocamos o espremedor de batatas segurando a porta do forno ligeiramente aberta para abaixar a temperatura e fomos dormir depois de lavar as mãos com 2 litros de detergente de limão.
07:30h e 09:30h do domingo, na cozinha dos infernos
o fer acordando para observar o peru maldito.
11 horas da manhã do domingo, dormindo
minha mãe liga e o fer atende: "oi, fer, já acordou?" e o fer "ah, vera, eu nem dormi...". ela riu, achando que era brincadeira.
eu resolvi levantar e arrumar a bagunça do dia e noite anterior, deixei o fer dormir. olhei o peru (que já assava há mais de 4 horas) e me apavorei: estava ainda branco! liguei pra minha mãe, desesperada. ela riu e me mandou colocar papel alumínio (tarefa que não foi das mais fáceis) e deixar mais 1 hora. fiz e deixei. meio dia, depois de lavar as 18 panelas, 10 travessas, 60 talheres e 12 pratos escutei um chiado no forno -- a forma estava praticamente transbordando de gordura.
"ahhhhhhh!!!!!" eu gritava pela cozinha. acredite, eu gritava mesmo. peguei uma concha e uma panela e comecei a tirar o caldo. nessa hora o fer acordou e veio me ajudar, é claro, afinal parecia que eu agia para salvar minha própria vida. tiramos o papel alumínio, deixamos mais 1 hora e depois da oitava hora o peru descansou -- mas nós não.
meio-dia de domingo, arrumando a casa
meu pai me liga.
pai: e aí, como é que é o prato mesmo?
eu explico.
pai: mas vocês vão comer o qüênco(*)??
eu: sim, papi, ele já tá dentro do peru!
pai: mas sem o bico, né? (com voz de triste)
eu: ah, sim, papi, já vem sem o bico...
pai: ah, então tá bom... (aliviado)
(*) qüênco = pato, no idioma do meu pai
14 horas da tarde do domingo -- os anfitriões zumbis
sei que fiz arroz, purê de batata doce, salada de agrião e tomate, salada de salsinha (receita da nigella) e sagu de lambrusco com chantilly e calda de framboesa. não me perguntem como, minhas lembranças do domingo são poucas e nebulosas. lembro que depois das 3 da tarde eu sentia fome finalmente e fui até capaz de comer o tal do perupatolinha, e olha: é bom. os convidados disseram que ficou MUITO BOM, mas eu tenho a perspectiva, sabem? depois de tanto sangue suor e gordura de pato acho que nada menos que a ambrosia dos deuses me faria sentir recompensada.
o fer tinha razão: a preparação desse prato constrói o caráter, como diz o pai do calvin, e nos deixou mais fortes. fiz absoluta questão de que todos se sentassem à mesa ou ficassem ao redor dela para o momento do corte do peru. avisei a todos que o momento era solene, pois jamais presenciariam outro perupatolinha feito pelas minhas mãozinhas detonadas pelo alho, sal e cebola. sentamos e comemos pantagruelicamente, como previu meu sogro. um prato que serviria bem 20 pessoas foi des-tru-í-do por 10.
a única coisa que compensou foi a felicidade do fer, que foi de fato o grande herói da jornada. a ele dedico a glória desse prato que só pode ter sido inventado pelo canhoto, amém.