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Da memória sensorial e as descobertas

setembro 5, 2017 Leave a comment

[2016]

Mostrei pra Claudia agorinha um vídeo fofo do Otto brincando de caça-palavra, e comentei que ele tá inconformado com as palavras que terminam em O e E, assim como DEZ, porque tem um I ali no meio, e tudo que escrevemos com final O se fala U, ele não aceita.

 

Ela comenta que inglês é a coisa mais louca pra aprender a escrever, tudo diferente, e tals, ~ÓsoM~ *hahhahaha* e eu magicamente me transporto para o ano de 1983, quando aos 11 anos comecei a ter aulas de inglês e me vejo por um instante de novo na cozinha da casa da minha avó paterna, de pé, gesticulando muito pra explicar pra ela e pra tia Marli como era INCRÍVEL que em inglês a gente escrevia DAUGHTER com todas essas letras mas a gente falava DÓTER!

 

Lembro da cara delas, achando graça, me ouvindo falar tão empolgada. Fiquei um pouco emocionada por ainda ser aquela mesma menina de 11 anos, que se espanta com as coisas todas que são novas e incríveis e conta pras pessoas como se todo mundo se importasse. Sigo encantada, constantemente.

 

(Eu me importo, e sinto tudo com tanta intensidade! Por isso o livro “O mundo de Sofia” tem um lugar especial no meu coração. Foi lendo esse livro que me descobri filósofa por natureza <3)

Categories: elucubrações, família

sobre aprendizado e privilégios

agosto 31, 2017 Leave a comment

Coincidências, sinapses que conectam pontos, sei lá — acabo de ler um texto que é muito legal mas que disparou aqui em mim um incômodo, e graças ao meu poder mágico de conectar lé com cré entendi o motivo.

 

A moça do texto conta sobre ouvir uma música no supermercado e cantá-la a plenos pulmões, e isso ter sido divertido (imagino; adorei a ideia). Ela menciona que ouvia o álbum enquanto adolescente, e sabia tudo de cor. Um álbum de jazz moderno, gringo.

 

Corta pros meus pensamentos aleatórios de outro dia, eu já volto aqui.

 

Fui conhecer jazz depois dos 18, na faculdade, graças a amigos. O mesmo vale pra música erudita, e artes plásticas em geral, e cinema. Os amigos que me inundaram de novas referências na vida eram predominantemente ricos, bem ricos. Nós outros, inteligentes e interessados porém pobres tínhamos outras referências — cultura popular, MPB, samba de raiz, de fundo de quintal.

 

Parece clichê, né? Juro que não tou forçando a barra. Guardadas exceções raras (pobres filhos de músicos ou artistas), quem tinha acesso à arte eram mesmo os ricos. E nem preciso dizer brancos, né, quando se trata de faculdade de elite, fica implícito.

 

E o inglês, né. Que eu só pude estudar depois de formada, quando podia pagar. Até lá, era o inglês meia boca que a escola pública ofereceu e eu agarrei com unhas e dentes. Como aliás agarrei todo conhecimento que me foi oferecido através dos novos amigos que nunca pude ter — nunca aprendi tanto em tão poucos anos. Até hoje sinto reflexos daquela época (e descobri essa semana que eu, olha o espanto, apresentei a um dos amigos da época a POESIA).

 

A poesia. Que descobri num trabalho escolar no 2o colegial do colégio público — Drummond me iniciou. Eu estava com o pé quebrado e decorei A máquina do mundo para uma apresentação. Decorei e dissequei, porque por sorte a edição do livro dele na biblioteca paupérrima era comentada.

 

Um mundo enorme se abriu pra mim quando li poesia comentada, quando meus amigos ricos me mostraram coisas com as quais eu nem sonhava, e quando pude viajar e ver as obras que só conhecia pelos livros poucos que chegaram até mim.

 

Voltemos à história da moça: eu tive inveja de alguém que falava inglês na adolescência e ouvia jazz em casa. (E a qualidade musical na minha casa era excelente, não me entendam mal. Essa sou eu reclamando do que não tive)

 

E sei que também fui muito privilegiada. Minha família tem uma riqueza musical e cultural enorme, e tive muita sorte.

 

Mas o álbum preferido de uma adolescente ser de jazz me deu uma pontada de inveja forte aqui, lembrando do meu deslumbramento com Miles Davis e Coltrane já maior de idade.

 

Algumas pessoas não sabem a sorte que tem.

 

(Mas eu sei. E sou grata.)

Categories: múltiplos, música

clarice

agosto 31, 2017 Leave a comment

Clarice Lispector é minha autora favorita. O que é um saco, porque ela virou um clichê ambulante, e gostar muito dela ficou esquisito nos últimos anos. Mas é, desde que li pela primeira vez “Laços de Família”, com 15 ou 16 anos. E reli 1000 vezes, e saí lendo tudo dela. E mesmo quando não entendo nada eu amo, porque o jeito que ela escreve é mágico, e não precisa sempre fazer sentido.

 

30 anos depois de tê-la lido pela primeira vez eu escuto sua voz e a vejo em vídeo. Acreditam? Nunca nem me ocorreu procurar nada dela pra ver, e esse vídeo chegou a mim por acaso.

 

Estou sentindo uma mistura de encantamento e ternura. Ela é minha ídola, quase sobrenatural, mas esse vídeo me mostrou uma humana muito cheia de questões, mau humor, dúvidas. E ela é ainda mais incrível por isso tudo, por ser humana e cheia de questões. Por negar a condição (o status, talvez) de escritora. Por admitir não entender seus próprios textos.

 

Os escritos dela me tocam profundamente, o estilo dela me encanta como feitiço. Admirava muito a escritora pela obra, e agora senti amor e uma mistura de alegria e melancolia vendo ela falar. Morreu tão cedo. 💔

**

Na entrevista ela menciona que suas obras favoritas são o conto “o ovo e a galinha” (amo. E ela diz que é um mistério pra ela, que não entende o próprio conto hahhaha) e a história do Mineirinho, que morreu com 11 (ou 13? Ela não lembra ❤️) tiros, quando apenas 1 bastava. O primeiro tiro é ele que morre, os demais quem morre somos nós.

 

Ah, Clarice.

 

Aí o Fernando (ouvindo de longe a entrevista aqui) lembrou dessa música da Fatima Guedes, e parece coincidência demais né? Deve ter relação.

 

Elis ao vivo, essa música, Clarice.

 

Vale a pena estar vivo só pra ler, ouvir, sentir isso tudo, a despeito de tudo o mais.

Categories: livros, música

marido e emprego

agosto 29, 2017 Leave a comment

Loka diz “é melhor ter marido que ter emprego”.

 

Loka 2 diz “ain, mas feminismo é sobre liberdade de escolha, se ela prefere marido que emprego, deixa ela!”

 

Não deixo não, lokas, ó:

 

Emprego e marido não deviam estar na mesma categoria, pra escolha de um eliminar o outro, pra começo de conversa.

 

O problema da frase não tá na “escolha”. O problema está na suposição de que marido implica sustento; problema também é achar que trabalho doméstico não é trabalho. Mas o problemão enorme que vejo aqui é colocar no outro a responsabilidade por garantir sua existência na sociedade. Não é você que tem marido, amiga, é ele que tem você. Quem tem dinheiro é que tem poder e manda.

 

Eu é que não vou lá dizer pra ela que tá bem loka da ideia e muito equivocada, mas também não vou bater palma pra doido dançar não. Você quer fazer um acordo de parceria em que um trabalha “pro mercado” e ganha os dinheiros e o outro trabalha pra família, mesmo sem ganhar dinheiros, acho tudo OK, é um arranjo válido, porém com riscos, e há de se falar sobre eles (tipo: se o que ganha os dinheiros quiser mudar de vida e família, o outro faz como?).

 

Não dá pra achar OK alguém ver no seu companheiro um caixa eletrônico com obrigação de cuspir dinheiro e responsável por prover pra família toda. É um fardo pesado pro um, e infantiliza e enfraquece a outra parte; de igualitário não tem nada.

Categories: feminismo

auto-imagem e a vida

agosto 28, 2017 Leave a comment

Sabem, quando coloquei a roupa de manhã pra começar os preparativos da festa de aniversário do Otto, pensei — “saco. Tou tão gorda. Tudo tá apertado, e vou sair péssima nas fotos.”

 

Esse é um pensamento recorrente, que tenho com basicamente qualquer peso em qualquer evento. Raras vezes na vida me senti OK com meu corpo. Nas fotos? Nunca.

 

Bem, mas pensei isso, senti isso. Aceitei meu pensamento, meu sentimento, acolhi meu desgosto, coloquei a fantasia de Robin e fui pular no pula-pula, comer carne louca e tomar cerveja.

 

Não dá pra deixar a insatisfação com nosso corpo dominar nossa mente e nosso coração. Isso não é conformismo, é saúde mental. Não quero estar gorda, me atrapalha e incomoda, mas isso é assunto pra outra esfera de ação, e não pode me impedir de ser feliz HOJE.

 

Hoje fui feliz, com o corpo que tenho neste momento, e isso é MUITO IMPORTANTE.

 

❤️😘

Categories: feminismo

sobre o horizonte

agosto 21, 2017 Leave a comment

ainda sobre a utopia e a caminhada (tão lindo, isso), fiquei pensando esses dias sobre viajar: jamais planejo viagens com muitos detalhes, e depois do nascimento do otto continuamos nos empenhando em viajar muito, sempre (apesar da dificuldade que ter uma criança junto traz, é fato).

 

o prazer de viajar, pra mim, não é o destino em si, é o caminho, a trajetória. chegar ou estar é somente parte necessária para a vivência do processo todo, da experiência que é estar em trânsito (essa sim o grande barato), a caminhada, novamente.

 

sendo mais apaixonante pra mim a caminhada que o destino, se justifique que eu ache um pouco bobo espetar alfinetes em localizações geográficas, “eu estive ali”. e também por isso insisto que viajar com meu filho, mesmo tão pequeno, é extremamente importante e valioso. ele não vai lembrar que esteve em Estocolmo (vai, porque fiz pra ele um livro de memórias de viagem, mas será uma memória construída, claro), mas ele terá vivido a experiência da caminhada, e isso deixa marcas para sempre.

 

não importa quantas vezes você visita o mesmo local, ou quantos locais você visitou na vida. o que importa é como você chegou até lá, de que forma você viveu a experiência.

 

Categories: Uncategorized

sobre o olhar

agosto 11, 2017 Leave a comment

(um post de 2016 ainda atual)

As duas fotos expõem diferenças, é verdade. Também é verdade que o posicionamento do fotógrafo importa na execução da foto.

 

Mas vamos, pra efeito dessa conversa, assumir que os 2 fotógrafos tinham mobilidade e escolheram seus ângulos? Que dentre as inúmeras fotos que tiraram (deve haver centenas, de cada um, da mesma partida) foram ESSAS que eles publicaram?

 

A foto da esquerda (tirada por uma mulher) mostra duas mulheres, em posições simétricas, representando extremos em relação aos costumes de vestir. Passa uma mensagem clara sobre o contraste, e não consigo observar nenhum julgamento.

 

A foto da direita, tirada por um homem, mostra a bunda exposta de uma mulher (1) no primeiro plano e ao fundo o rosto da mulher coberta, com cara de poucos amigos (2). Vamos assumir que o gesto atrás da bunda (que é parte do jogo) tenha sido uma ironia do acaso, e vejamos a foto: uma bundona com um gesto (ainda que não intencional) que remete a uma buceta versus uma mulher toda coberta de cara amarrada.

 

A primeira foto é emocionante, o contraste entre iguais é o tema; a segunda me fez pensar em rivalidade e comparação com julgamento (e não é rivalidade no jogo necessariamente; a primeira foto retrata o esporte muito melhor, inclusive).

 

Tenho muita convicção que o autor da foto da direita não pensou ativamente em nada disso quando fez a foto. Não acho que cabe criticá-lo individualmente, a questão é perceber o quanto vemos (em função do gênero também, mas não só) o mundo através de lentes GROSSAS, e não percebemos.

 

Cabe usar esse exemplo pra pensar: quais são MINHAS lentes? Ninguém vê o mundo como ele é, vemos o mundo como somos / como nos criamos. E é possível mudar, sim. Só que pra mudar precisa querer, e pra querer é preciso antes de mais nada admitir que há oportunidades pra melhorar.

 

Esse post não é uma reclamação sobre a foto da direita; é antes um convite à reflexão e uma celebração também, porque a foto da esquerda EXISTE, foi publicada e compartilhada milhares de vezes <3 Há olhares diversos, e eles começam a fazer parte do mundo. Não consigo não comemorar, apesar de.

 

**

 

(1) Sem cabeça, como sempre. Há estudos sobre esse assunto — como desconectar partes do corpo da mulher do todo pra torná-la objeto de consumo / desejo

 

(2) “Você devia sorrir mais!”, é o que me passa pela cabeça vendo esse pedaço da foto. Ou o estereótipo de mulher-bruxa-feia-má.

Categories: Uncategorized

sobre navios e o oceano

julho 28, 2017 Leave a comment

Não sou de compartilhar sonho, mas esse foi tão espetacular que preciso registrar pra tentar entender.

 

Encontro com uma amiga pra almoçar, num complexo, como se fossem múltiplos hotéis. Andamos por jardins, saguões, cheios de gente, uma coisa labiríntica, e tudo começa a ficar mais velho, quebrado, estranho. Me perco dela, e decido voltar. Tento reconstruir o caminho, e nada — quanto mais volto, mais caótico tudo fica, mais destruído e intransponível. Como se o mundo estivesse acabando, como se um terremoto tivesse mexido todo o mundo, as estruturas todas.

 

Acho que vejo uma saída, e corro pra ela — é um prédio já destruído, com uma escada que sobe. Não faz muito sentido subir, afinal como escapar pelo telhado? Mas subo assim mesmo, um senso de urgência me empurrando, e as escadas começam a ficar sufocantes, cheias de coisas que preciso arrancar do meu caminho pra subir, até que praticamente me espremo por destroços e chego ao topo…

 

… e tem um mar em volta de mim, revolto. O oceano, e no horizonte vejo um transatlântico imenso, virado, soçobrando. E as ondas vindo loucamente, naquele oceano sem fim.

 

Eu simplesmente me solto no mar, e me deixo ir, boiando, esperando que seja o melhor a fazer.

 

(E o sonho fez sentido ao escrever. Que lindo.)

Categories: Uncategorized

mulheres na liderança – como chegar lá?

julho 26, 2017 Leave a comment

Excelente TED sobre a questão da ascensão da mulher aos mais altos níveis gerenciais. Fiquei emocionada em vários momentos pela identificação e pela clareza com que ela expõe 3 pontos essenciais que nós ajudariam a mudar o mundo (a saber: mulheres deviam ser quase 50% dos líderes. Nos melhores países / indústrias não chega a 20%).

 

1- As mulheres devem se posicionar, negociar seus salários e benefícios, acreditar em si mesmas, divulgar o que fazem. Homens sempre “se gabam” de seus feitos, enquanto as mulheres dividem os louros e quase se desculpam por serem bem-sucedidas! Mas não é suficiente nossa mudança individual: precisamos mudar como sociedade a forma de encarar a mulher que “aparece”. Em homens, ser bem-sucedido é qualidade; em mulheres é defeito.

 

2- Precisamos valorizar a opção de cuidar da casa, e precisamos incluir os homens nesta última opção, eliminando o preconceito. Homens não precisam ser sempre provedores. É preciso dar valor à opção de cuidar dos filhos e da casa, dando maior liberdade também para quem opta por ir ao mercado. E se mais homens abrissem mão de suas carreiras para fazer atividades domésticas? Só isso já mudaria o mundo.

 

3- As mulheres não podem, não devem abrir mão de sua carreira e de arriscar mais em função da possibilidade da maternidade ou do casamento. Precisamos aprender a lidar com as 2 coisas sem antecipar problemas, e lidar com os conflitos quando eles aparecerem.

Categories: feminismo

uma receita pouco ortodoxa de torta de liquidificador

julho 19, 2017 Leave a comment

Aí que eu vim dirigindo pra casa com ideia fixa: quero comer torta de liquidificador. A receita da família tá em algum canto por aqui na casa, mas liguei pra Mami Vera e pedi a receita pelo whats, ela mandou, corri na despensa animadona catar ingredientes…

… e já não tinha atum nem sardinha, que são meus recheios favoritos dessa torta. Ok, até com tomate e cebola fica bom, vamos ver o que sobrou. Tinha escarola, salada assada de berinjela e pimentão, carne moída refogada — uau, um banquete!

Pego o liquidificador que fica na pia, jogo lá dentro os 3 ovos, 1/4 de xícara de óleo, pitada de sal e reparo que algo está estranho… olho dentro, e o fundo do liquidificador tá solto, sem rosquear, e os ingredientes tão na verdade na pia, onde apoiei o copo.

 

😱

 

Cato um prato pra salvar uma parte pelo menos, consigo (santo degrauzinho da pia), taco mais um ovo pra compensar a perda, tou um tapa na pia que ficou um nojo, rosqueio o fundo do liquidificador e já ligo o forno.

Juntei 1 copo de leite, 1 colher de sopa de queijo ralado, e as 12 colheres de sopa de farinha.

Enquanto batia, peguei a 1a forma que vi na frente, untei e enfarinhei.

Desligo o liquidificador, jogo a massa pra forma e… ficou ridiculamente pouca massa pro tamanho da forma. Fudeu.

Corre na despensa, acha uma forma menor; achei, untei, enfarinhei, ufa, sou ninja, agora o recheio.

Coloco recheio (já conversando com o amigo Vinicius que chegou no meio da desgraça e nem reparou, porque sou dessas que não se abala), espalho bem, coloco a torta no forno e…

 

A PORRA DO FERMENTO.

 

Pensa rápido — fodace, coloca 1 colher de sopa de fermento por cima e mistura como se fosse a papinha do primogênito, bem com muito amor e FÉ PESSOAL, porque só mesmo por milagre essa torta vai prestar depois de tanta besteira que eu fiz, meodeos, parece que aprendi a cozinhar ontem, afe.

(De novo Vini provavelmente nem reparou, porque eu sou versada na improvisação livre e caótica e no multitasking nervoso)

 

Vai, minha filha, crescei e multiplicai-vos.

 

Ela cresceu, multiplicou, arrasou e ficou linda e boa, e comemos tudo, não sobrou nada nem pra tirar foto e registrar o feito.

 

Moral da história: fé e fermento, use sem moderação.

 

OU

 

Vai ter sorte com improvisação assim na put a keep are you.

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