ser legal não é suficiente

maio 25, 2018 Leave a comment

Uma coisa urgente que precisamos repensar (especialmente pessoas brancas / hétero e os homens) cada vez que nos deparamos com casos de racismo, homofobia e machismo:

 

Vamos parar de nos autocongratular dizendo que nós não somos assim, grazadeus, e que “temos até amigos negros / gays” ou “tenho maior respeito por todas as mulheres” ou “inclusive sou feminista / simpatizante”, enfim, espero que esteja claro.

 

Não porque essas coisas não tenham algum valor, mas porque esse tipo de afirmação é meio um passe livre, tipo: “eu faço minha parte, tá? Eu sou legal. Não tenho nada com isso!”

 

Você pode até achar que não, mas cada vez que se auto-elogia, se colocando fora do sistema que é ESTRUTURAL, você não está fazendo parte da mudança.

 

Nós somos racistas, machistas e homofóbicos SIM, porque é impossível não ser dentro da sociedade que fomos criados e vivemos.

 

Cada um de nós pode ativamente lutar para ser menos preconceituoso, todo dia, toda hora, e isso faz de nós pessoas conscientes, cidadãos melhores. Que bom! Isso é fundamental.

 

Mas nenhum esforço passivo nosso será suficiente até que a sociedade mude. E reafirmar nossa “bondade” só nos torna complacentes, não ajuda ninguém, nem a nós mesmos.

 

Cada vez que você puder falar sobre isso, ao invés de se auto elogiar por ser tão legal, pense: o que MAIS eu posso fazer? E faça.

 

Nunca será suficiente, não tão cedo.

 

**

 

Ou, sendo mais direta: não é porque você tem amigo gay que você não é homofóbico, não é porque você tem amigo negro que você não é racista e nem porque você respeita sua mãe, irmã ou amiga que você não é machista. E mesmo que você não seja mesmo NADA prconceituoso, isso não ajuda a melhorar o mundo. Podemos fazer mais.

 

E tudo bem, é isso aí. Sigamos ATENTOS para nos tornarmos pessoas melhores e principalmente pra ajudar a tornar o mundo melhor, já que estamos na contramão. Somos nós que queremos mudar que vamos ajudar o mundo a melhorar.

 

**

 

Dou um exemplo: sou uma mulher adulta, branca, cis, com educação superior, num casamento hétero e com 1 filho, executiva de uma empresa multinacional. Na hierarquia social, só os homens brancos estão acima de mim. Ou seja: embora eu sofra uma série de problemas por ser mulher, eu não sofro um montão de outras coisas.

 

Será que basta eu não ser racista ou homofóbica? Basta por exemplo eu estar disposta por exemplo a contratar uma pessoa negra para uma posição na minha equipe?

 

Eu acho que não. Porque pra que essa pessoa negra chegue até mim, para uma entrevista, existe um longo caminho cheio de portas trancadas. Abri um processo seletivo ano passado para estagiários e funcionários e apareceram pouquíssimas mulheres e NENHUMA pessoa negra.

 

Pois eu fui atrás de todos os meus contatos buscando mais candidatos, porque queria ao menos colocá-los no páreo.

 

Consegui. Com um super esforço! E contratei 1 moça para uma das vagas de funcionários e 1 moça negra para uma das vagas de estágio. Ambas talentosíssimas, e a moça negra em especial é fora da curva, excepcional.

 

Se eu tivesse ficado passiva, só esperando a mudança chegar até mim, ela não viria tão cedo (será que viria um dia, na minha vida?).

 

Nós, pessoas esclarecidas e do bem, precisamos tomar as rédeas e acelerar a mudança.

 

Vem comigo <3

Categories: elucubrações, feminismo

mudança ativa

maio 24, 2018 Leave a comment

Li e me emocionei com a história da menina negra sendo rejeitada pelas colegas, e a mãe tentando consolar e ajudar, mas ver  e ouvir essa mãe falando e pedindo ajuda acabou comigo.

 

A dor que é o nosso filho ser rejeitado, em especial por algo que ele não pode controlar nem mudar (como a cor; o cabelo; entre outras tantas coisas).

 

Nós, brancos, nós, pais, precisamos assumir essa responsabilidade de mudar a realidade através dos nosso filhos SIM.

 

Dá um trabalho insano, porque o que ela diz é real: as crianças rapidamente absorvem os preconceitos estruturais. Nós temos que LUTAR ATIVAMENTE CONTRA ELE.

 

Ser uma boa pessoa, passivamente, não ajuda. Não se iludam.

 

Lutem.

Categories: feminismo

senhora… senhora?

maio 21, 2018 Leave a comment

Uma moça de vinte e poucos agora há pouco me perguntou (numa situação informal): “e é pra senhora mesmo?”

 

Tou de chinelo, bermuda, camiseta, cabelo preso, como quase sempre.

 

Isso já aconteceu quando eu tinha a idade dela, sempre me incomodou, e hoje também, mas foi diferente.

 

Pensei: “Porra, tenho 46 anos e sou uma senhora mesmo. Nada a ver me incomodar com isso. Relaxa.”

 

Não sou jovem; não tou tentando parecer jovem, não faço NADA pra isso, então por que me incomodar?

 

Prazer, senhora.

Categories: elucubrações, feminismo

blackout poetry

abril 3, 2018 Leave a comment

Aprendi com a Daniela que existe um negócio chamado #blackoutpoetry — a ideia é usar livros para (re)construir poesia (ou uma tentativa né?).

 

Minha primeira reação foi de horror; não consigo nem sublinhar meus livros, quanto mais anotar, rabiscar ou pintar.

 

Justamente pelo incômodo eu quis tentar, porque sou dessas (se me dá medo e incomoda já quero entender melhor e arriscar).

 

Achei o livro perfeito: Atlas Shrugged. Comprei esse livro há 10 anos por recomendação de um colega de trabalho que de revelou uma pessoa MUITO HORRÍVEL, e não li nem tive coragem de jogar fora. Mas agarrei ódio sem ler.

 

Aí, olha que oportunidade? Arranquei páginas e tou transformando em outra coisa.

 

Melhor que terapia <3

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representatividade importa!

março 19, 2018 Leave a comment

Adoro fazer trabalho voluntário de forma geral, mas gosto mais ainda quando é pra ajudar outras mulheres a se desenvolverem na carreira. Sempre aceito pedidos de mentoria, palestra, coaching, bate-papo, apoio, treinamento, enfim. Quero ver a mulherada liderando, com confiança.

 

Hoje fui voluntária num painel sobre carreira, de mulheres mais (cof cof) experientes para mulheres líderes iniciando nessa carreira. Aprendo tanto com esses eventos que tenho a sensação que eu é que devia pagar pra estar lá, sabe? É sempre maravilhoso.

 

Mas nada poderia me preparar pra hoje.

 

Alê e eu respondemos muitas perguntas e dúvidas, todas ótimas. Falamos da importância de ser flexível, mas assertivas; falamos de liderar por influência e não por autoridade, e de não ter medo de errar. Ou melhor: ter medo sim, mas não deixar que isso nos impeça de arriscar. Permitir-se errar. Praticar a generosidade ao olhar para o outro, e trabalhar em conjunto aproveitando as diferentes qualidades dos colegas e equipe pra nos tornarmos líderes melhores.

 

Neste ambiente, e neste contexto, nem surgiu o tema representatividade de mulheres na tecnologia, porque afinal todas sabemos como é.

 

Aí no final, na última pergunta, essa moça (a Karla; só lembrei do nome dela depois de ver o crachá) pegou o microfone e contou essa história:

 

“Você não deve lembrar de mim, mas te conheci há 11 anos. Eu era estagiária, na equipe do Fulano e Beltrano, eles sempre foram muito legais e me ensinaram muito sobre TI, mas eu nunca senti que podia progredir nessa carreira. Eu achava que só serviria pra servir cafezinho.

 

Aí um dia você chegou, e deu uma palestra pra gente [era um treinamento sobre gerência de projetos, para TI e para o time de negócios] e eu pensei ‘nossa, EU POSSO SER COMO ELA! Eu também posso chegar a essa posição!’.

 

Eu saí de lá, não fui efetivada, mas sabia que era ali naquela posição que eu queria estar — de líder. Sendo mulher. Eu não ia servir cafezinho.”

 

Tou escrevendo aqui enquanto lembro, e chorando tudo de novo. Eu vi a Alê chorando ali também do meu lado, porque

 

PUTAQUEPARIU

 

é pra isso que a gente tá aqui, ok? Pra ajudar as outras. Pra mostrar que a gente pode ser o que a gente bem quiser. E arriscar, se expor, ABRIR esse espaço importa, e muito.

 

Amigas, queridas: se exponham. Abram espaço, ouçam essas mulheres que rodeiam vocês, sejam exemplo pra suas amigas, irmãs, filhas, primas, sobrinhas, vizinhas, ou uma estagiária.

 

O fato de EXISTIRMOS, e ocuparmos os espaços, faz diferença.

 

Não sei como agradecer à Karla por me contar essa história.

 

Perguntaram antes dessa história pra gente “como você quer ser lembrada? Qual o legado que você quer deixar?”

 

Eu quero ajudar outras pessoas a serem versões melhores delas mesmas. É isso que eu quero pra mim também: ser melhor, me orgulhar do meu caminho, encontrar formas de ser melhor e ajudar os outros.

 

Pelo menos hoje eu sei que consegui ajudar UMA moça. Não tem medida pro tamanho da minha alegria.

 

Obrigada, Karla, por persistir e acreditar em você mesma; obrigada Carine, pela oportunidade; obrigada Alê por não me deixar chorar sozinha.

 

😘❤👊🏻

Categories: feminismo, tecnologia

dia da mulher, 2018: um pedido

março 9, 2018 Leave a comment

No dia da mulher, comecei o dia dando uma palestra para mulheres sobre como se comunicar mais objetivamente. Voluntariamente. Com amor.

 

Não porque é dia da mulher, mas também porque é. Adoro escrever sobre isso aqui, e no blog, e onde for, é preciso falar sobre igualdade de gênero, mas muito mais importante que falar é FAZER alguma coisa para que o mundo mude.

 

Nesse dia das mulheres — e de aniversário 🙂 — eu queria pedir que cada um de vocês pensasse como pode ajudar alguma mulher a ser mais forte, mais feliz, mais segura.

 

Faça alguma coisa por outra mulher.

 

Se for mais experiente, seja mentora de alguém no trabalho; se for menos experiente, envolva-se com outras mulheres. Não chame a colega de puta. Não duvide de mulheres quando elas denunciam abuso. Não duvide da capacidade de uma mulher porque ela é mulher. Pare de pensar que ser mãe define uma mulher, para o bem ou para o mal. Lembre que mulheres não estão aqui pra enfeitar o mundo nem pra agradar todo mundo.

 

Elogie uma mulher sem mencionar seus atributos físicos. Pratique isso.

 

Pare de julgar tanto outras mulheres. Isso vale pra você também, amiga.

 

Se você for homem, leia tudo e pratique. Mas faça mais — não seja omisso quando houver mulheres sendo oprimidas ao seu redor. Aliás, abra os olhos e veja; ao ver, aja. Confronte seus amigos machistas.

 

Não se cale.

 

Nosso silêncio, nossa paralisia, são fatais. Pro mundo mudar, a gente tem que colocar a mão na massa, empurrar a roda, puxar mesmo.

 

Tou aqui firme no arado, meninas. Pra mim, e pra vocês também.

 

Que o dia da mulher sirva pra lembrarmos que estamos vivas, fortes e chutando.

 

❤👊🏻

Categories: feminismo

dia da mulher. mas?

março 9, 2018 Leave a comment

Uma moça aqui do meu lado comentando que recebeu no whats um comentário de feliz dia da mulher pra quem “nasceu mulher”, porque as demais… só em 1o de abril.

 

As 3 mulheres que ouviram, silenciaram, eu inclusa.

 

“Que sem graça.”

 

Uma das coisas mais perigosas para nós, mulheres, é essa visão de que mulher é uma buceta. Um buraco. Que uma parte do nosso corpo é determinante, fundamental, IMPORTANTE.

Não é à toa que mulheres mais velhas entram em outra categoria, são invisíveis. Não podem procriar mais, não servem mais pra ser

OBJETO

de desejo para os homens.

 

Desencana da minha buceta, do meu peito, olha no meu olho.

 

Sou uma pessoa. Mereço respeito independente de como você me categoriza.

 

Também merecem respeito as travestis, transsexuais, transgêneros, quem quer que se identifique como mulher.

 

Olha no olho, respeita a gente.

 

Não somos nossos órgãos sexuais.

 

❤👊🏻

Categories: feminismo

quem tem privilégio precisa ouvir, sim.

fevereiro 23, 2018 Leave a comment

Sobre esses temas polêmicos (racismo, machismo, outros): pode não parecer, mas eu leio e concordo com várias coisas que os críticos do que enxergam como “exageros” pontuam.

 

Li o texto da E. Brum e fiquei constrangida. Bloqueei o perfil da Stephanie no FB. Saí de diversos grupos feministas / transgênero por me incomodar com opiniões muito agressivas, sem abertura pro diálogo e pro diferente. No limite, a resistência se torna tão radical que se aproxima em postura dos que está combatendo, e isso me dá um enorme desânimo e cansaço.

 

MAS,

 

se for pra tomar partido ou me colocar sobre o assunto, sempre vou preferir escutar quem está em posição de desvantagem. Porque por mais que os críticos da resistência tenham razão, eles ainda estão em vantagem, e falam do assunto do alto da tranquilidade de quem não é atropelado pela realidade dele todo dia.

 

Eles (os críticos) podem escrever textão lindo na internet, cheio de argumentos mais lindos ainda e gastar todos os seus neurônios e referências acadêmicas, e podem ter razão em alguns pontos. Mas quem passa por violência e humilhação, quem é estuprada, morta, todo dia é aquela pessoa que resiste.

 

Também acho que reagir violentamente e de forma a excluir o outro do debate é péssimo. Polariza e machuca (motivo pelo qual não leio Stephanie — me dá raiva).

 

MAS,

 

raiva e violência, choro, ranger de dentes e descontrole emocional também são mensagens, e devem sem ouvidas.

 

A gente que é educador aprende que quando a criança dá chilique (*), geralmente tem alguma coisa ali por trás. Chiliques são sintomas, não são causa. As causas podem ser muitas: cansaço, medo, fome, dor, raiva, ciúme. Enquanto você não for capaz de ultrapassar a barreira do chilique e entender o incômodo da criança, o problema não se resolve. Ameaçar, humilhar e ignorar podem até desestimular ou alterar o sintoma (já que não adianta, não faço mais; já que não tá adiantando vou gritar mais alto) mas não ajudam a criança a ser mais feliz e saudável, tal que dar chilique não faça nem sentido. Criança feliz, descansada e segura não dá chilique.

 

Algumas pessoas humilhadas e violentadas diariamente estão gritando e esperneando. Às vezes elas estão fora de controle, às vezes me machucam no processo.

 

Em algumas situações me sinto no papel de quem dá chilique. Mas às vezes eu sou o alvo. E nestes casos escolho buscar entender o que acontece além da manifestação violenta que estou presenciando. Escolho buscar entender quem está sofrendo o suficiente para perder a paciência e o controle e gritar mais alto.

 

Escolho tentar entender onde estou errando, o que EU posso fazer pra ajudar o outro, ao invés de dizer pro outro que sofre que a reação dele é frescura, exagero.

 

Com base no que penso a partir do que leio, poderia não me envolver, não ter opinião, ou ficar em cima do muro (porque concordo com gregos e troianos, muitas vezes).

 

Só que conscientemente prefiro tentar ouvir e dar voz a quem não tem. Não vou ampliar quem já tem voz o suficiente, repetindo as opiniões de senso comum.

 

(E por favor, não vamos confundir o ruído e repercussão das redes sociais com a realidade DO MUNDO. Quem acha que é oprimido por movimentos negros e/ou feministas é porque passa tempo demais online e de menos na rua!)

 

(*) sei que “chilique” pode ter conotação negativa, ridicularizando a reação emocional, mas só usei essa porque não encontrei nenhuma melhor. Leia sem conotação negativa, por favor.

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regra do jogo

fevereiro 16, 2018 Leave a comment

Lá em 1900-e-bolinha (sou velha), escutei uma brincadeira feita com um amigo extremamente egocêntrico que se aplica a muitos casos na vida. Segundo os amigos, a frase que o definia era:

 

“Eu ganhei; nós empatamos; você perdeu.”

 

E o que tem de gente assim? Afe. Nunca são parte do problema. O problema SEMPRE são os outros.

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express yourself

fevereiro 16, 2018 Leave a comment

Sábado vou fazer uma tatuagem grande no braço. Depois de 17 anos (!!!!) desde que tatuei o dragão gigante.

 

Uma mistura delícia de ansiedade com excitação, alegria de registrar na pele, do lado de fora, um aspecto do lado de dentro.

 

Não é pra isso que serve tatuar? Ou vestir?

 

É um jeito de lembrar pra nós mesmos quem somos.

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