hiato
que ninguém me entenda mal, não vou parar de escrever pra sempre, mas é que não dá. simplesmente não dá.
eu não derramei milhares de lágrimas e nem me joguei no chão de dor. aliás, não sei exatamente como se chama o que estou sentindo, acho que não tem nome. até a não concretização de todo meu potencial dramático-latino, no fundo, tem a ver com ele, com o amigo que perdi.
há tanto em mim que é dele que muitas coisas deixaram de fazer sentido. nunca tinha percebido o quanto do meu (mau) humor é dele, o quanto as minhas piadas são um pouco dele, o quanto eu sempre penso coisas escrotas imaginando o quanto ele vai rir quando compartilhar com ele no MSN. como eu nunca tinha reparado que um pedação de mim foi "formado" por ele?
e agora, como fica essa parte de mim agora que ele já não está aqui? como fazer pra esquecer que esse pensamento que eu certamente ia compartilhar com ele agora vai se perder na não-existência?
vocês podem dizer que de certa forma ele está vivo em mim, pois parte do que ele foi ficou aqui, comigo. mas todos sabemos que isso não dá conforto nenhum. não vou enganar vocês.
pensei hoje nesse poema aqui: i carry your heart (i carry it in my heart)
ele odiaria esse poema, é claro, o que aliás era parte do que eu amava nele: a mania de odiar tudo o que parece legal demais. ele faria graça com a estrutura do poema e as letras minúsculas. coisa de frango, ele diria.
mas sim, eu carrego uma parte dele em mim, e essa parte sem dono está pesada como uma bigorna nesse momento. rir, hoje, não me parece adequado, vejam vocês, logo eu que sempre estou rindo de tudo.
há pouquíssimas pessoas nessa vida que tomei pra mim, como parte da minha personalidade, como um auto-presente. ele era uma delas. acho que exatamente por isso me sinto um pouco sem voz.
perdoem o silêncio, mas não vai dar pra falar de quase nada por um tempo. enquanto isso espero, de coração, que essa sensação de ter perdido um pouco de mim mesma passe.
