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Archive for the ‘elucubrações’ Category

perigos há por toda parte

Janeiro 15, 2018 Leave a comment

Meu pai tornou-se diabético aos 50 anos. Curiosamente, pouco depois de perder a mãe.

Diabetes é doença, e mata. Requer medicação, em alguns casos (nos últimos meses ele precisou, mas já chego lá), mas muito mais que isso: requer mudança e dedicação.

Ao ser diagnosticado, ele foi orientado a cuidar de si mesmo com atenção: comer melhor, fazer exercício, não fumar, cuidar dos pés e das mãos, etc. etc. etc.

Ele ignorou tudo isso e tocou a vida. Até que teve um acidente, machucou o pé e quase perdeu o pé. Mas quase MESMO. Ele teve sorte, e passou semanas com dor, com medo, em médicos e hospitais e tomando uma tonelada de remédios.

A doença é real, não é frescura nem bobagem. Mas ela se agrava e o risco aumenta MUITO quando não há dedicação em mantê-la sob controle.

E sabe o que é bem parecido com essa doença? A depressão.  A pessoa não sabe que tem, até estar mal e (com sorte) ser diagnosticada e medicada. Algumas pessoas precisam tomar medicação pro resto da vida (como alguns diabéticos). Se não tomar, o risco aumenta.

E como a diabetes, requer cuidados de manutenção: comer bem, dormir bem. Exercitar-se. Terapia, se for possível. Meditação, que já se mostra super eficiente pra ansiedade e depressão. E muito, muito importante: cultivar ATIVAMENTE uma forma de enxergar o lado bom e bonito da vida e das pessoas. O mundo muda quando a gente muda, isso é real, não é papo de autoajuda. Uma amiga que fez terapia cognitivo comportamental me contou que a terapeuta deu pra ela a tarefa de anotar num caderno cada coisa (não importa quão pequena) de boa que tinha acontecido no dia. E ler antes de dormir. Ela ficou encantada com a mudança — ela aconteceu, claro.

Então você, amigo ou amiga que sabe que tem essa doença (qualquer uma das duas, aliás), não deixe chegar no ponto que meu pai chegou e que vejo tanta gente chegando também. CUIDE-SE. Admita que tem uma doença e cuide dela, cuide de você. Se você não cuidar, vai dar merda, é inevitável.

Há mil coisas que se pode fazer pra ter uma vida melhor. Se precisar se medicar pra melhorar, medique-se. Mas não deposite todas as suas fichas no remédio, há mais coisas que podem ajudar. Não perca essa oportunidade.

A vida é bonita, como disse pro meu pai. Não perca a oportunidade de ver seu neto adulto, eu disse pra ele.

E digo pra você também: cuide-se bem.

**

Faço um update aqui pra não parecer que sou insensível:

Qualquer um de nós, sabendo que meu pai é diabético, acharia ele no mínimo descuidado se o visse comendo macarrão em todas as refeições, fumando 3 maços por dia e comendo açúcar normalmente, certo?

É o que sinto quando vejo pessoas com depressão que abandonam medicação, são desorganizadas e reclamam de tudo sistematicamente.

A descoberta de uma doença precisa nos levar à mudança, ou só vamos piorar. Não adianta continuar vivendo como sempre (definição de loucura e tals, lembram?).

De novo: cuidem-se. Nossa vida é preciosa, e tem gente que ama vocês e quer vocês por aqui nessa vida maluca.

Categories: elucubrações

cacti

dezembro 11, 2017 Leave a comment

A solidariedade marital é uma coisa linda.

Tou eu lá mexendo nas plantas e enfio a mão num dos cactos, enche de espinhos minúsculos, invisíveis mas super incômodos.

Eu: “putaquepariu encheu minha mão desses espinhos malditinhos!”

Fernando: “o que leva à questão: por que alguém cultiva cactos? Eles têm espinhos!”

Eu: “mas são lindos, olhaí. (…) que ódio, e eu já não enxergo tão bem quanto antes a ponto de tirar de boas esses espinhos micro…”

F: “ou seja: nem idade pra ter cactos mais você tem, né?”

😂😂😂

Ignorei a negatividade inata do Fer e botei na mão fita adesiva, passei cola, arranquei espinhos maiores com as unhas e depois apelei pra pinça, tirei tudo.

Quando uma mulher quer cactus, uma mulher pode ter cactus (essas plantas lindas porém assassinas).

Categories: elucubrações

opinião é que nem pizza

dezembro 11, 2017 Leave a comment

Odeio melancia e açaí. A primeira mais que o segundo (aversão mesmo).

Aí eu vejo posts e fotos dos amigos comendo essas 2 coisas que eu odeio, o que eu faço?

NADA, né, gente. Porque eu tenho noção e educação.

Poucas coisas são tão desnecessárias e deselegantes quanto comentar que você odeia, tem nojo, não concorda com o que outro tá comendo. Em especial quando a outra pessoa gosta a ponto de fotografar ou de pedir num restaurante.

Então fica a dica de gentileza desta semana: não estrague o prazer dos outros com sua opinião não solicitada.

Categories: elucubrações

as pedras, catedrais, coração

dezembro 8, 2017 Leave a comment

Onde existir gente vai existir conflito, mal-entendido. Somos altamente complexos, e nossa linguagem é limitada não só por ela mesma mas também pela nossa capacidade de autocompreensão. Todos os nossos filtros e barreiras + as limitações da linguagem tornam a comunicação uma tarefa árdua.

 

Aliás, como conseguimos?!

 

(É porque a maior parte do tempo falamos sobre a superfície e não sobre as profundezas de nós)

 

Nós somos humanos e vamos errar, e muito. Conosco mesmos, com os outros. E vai ser difícil expressar nossa raiva, frustração, medo, vergonha, e o amor também, escondido por tantas camadas e demãos de tinta.

 

Não dá pra desistir porque erramos, e deixar pra lá. Não dá pra achar que não vamos errar mais. Não dá pra esperar que os outros não errem.

 

Não dá pra ser humano e fugir da frustração. Do medo, da raiva, da vergonha. Nem dos confrontos, dos conflitos. Ele virão, mesmo que a gente se esconda e finja que não.

 

Há que enfrentar os erros (os nossos e dos outros) com coragem, com verdade. De coração aberto, sentindo tudo que se possa sentir, sem temer.

 

(#ForaTemer)

 

Ter coragem de aprender com os erros. Praticar a auto-compaixão, perdoar-se por errar. E aí conseguir perdoar os outros.

 

Somos uma imensidão de complexidade, universos, lidando com limitações internas e externas por toda vida. Sejamos gentis conosco, e com os outros. Não é fácil ser humano.

 

~

Vou andar, vou voar

Pra ver o mundo

Se eu bebesse o mar

Não encheria o que eu tenho de fundo.

~

Categories: elucubrações

não quero ser linda

novembro 8, 2017 Leave a comment

Marina Silva. Tanta coisa pra criticar na pessoa, aí vem uma mulher e comenta sobre ela:

 

“Como é feia!”

 

Me dá uma tristeza sem fim. Porque eu repito tanto sobre isso e essa revolução ninguém comprou de verdade ainda — observo a necessidade de ser / sentir-se linda em todas as mulheres ao meu redor, mesmo as mais feministas delas.

 

“Eu sou linda como sou, me aceite!”

 

Queria tirar o LINDA dessa frase, em definitivo. Mulher não é ser decorativo. Não temos que ser lindas. Ser linda não devia ser uma preocupação.

 

(Vi um vídeo essa semana de uma moça comentando sobre vários cientistas que participaram de um documentário ou coisa assim, e que ela se impressionou muito com o tamanho da preocupação da única cientista mulher sobre como ela parecia no vídeo. A ponto de eclipsar sua fala, o conteúdo que ela tinha pra compartilhar. Não é foda?)

 

Quanta energia gastamos tentando ser lindas que poderíamos gastar com coisas úteis? Quanto sofrimento passamos por não sermos lindas?

 

A gente precisa parar.

 

Categories: elucubrações, feminismo

a arte salva

outubro 16, 2017 Leave a comment

Sou artista de coração — embora nunca pudesse ser de profissão, já que me falta talento — e não consigo enfatizar o suficiente a importância do aprendizado das artes na minha vida.

 

Sou uma pessoa bem melhor por ter estudado música, teatro, poesia e história da arte.

 

Mesmo não sendo artista, sinto o efeito transformador da arte na minha vida, personalidade, humor e caráter.

 

Comecei a estudar música com 9-10 anos, e me lembro perfeitamente da sensação de felicidade que me trazia a prática do instrumento. Não precisava tocar bem — só tocar já era um processo de limpeza, uma mudança na minha vibração interna. A música me salvou em vários momentos difíceis da adolescência. Se me sentia triste, tocava e passava.

 

O teatro então, nossa, como me modificou. Aprendi a trabalhar em equipe, a enfrentar medos, a CONFIAR. Aprendi também a improvisar, aceitar os erros, tirar proveito deles.

 

Com o canto aprendi a respirar e ouvir a minha própria voz (que eu não conhecia; que eu escondia e modificava). E aprendi a ouvir também.

 

Tocando e atuando com outras pessoas aprendi a colaborar, a soar junto, a harmonizar. Não existe nenhuma faculdade nem curso nem coaching que ensinem isso. É um nível de atenção e respeito que só se aprende fazendo, errando e acertando.

 

Tocar num bloco pequeno, como o Bloquete, é um privilégio. Além de aprender mais sobre música, aprendemos sobre ouvir, ajudar, estar atento e completamente presente naquele momento. Tocar surdo, então, é uma experiência incrível de “aterramento”, pois o instrumento vibra seu corpo todo junto, e sua mente não consegue estar em nenhum lugar além daquele instante presente em que todas as peles vibram juntas.

 

Façam arte. Não se preocupem se é boa, relevante, bonita. Só façam. Não porque ela tem propósito para o mundo, ou valor, mas porque ela realmente tem poder de transformar.

 

Categories: elucubrações

desatando nós (ou não :))

outubro 6, 2017 Leave a comment

Eu não penteio o cabelo, porque gosto dele bagunçado. Então desembaraço no banho, só, e pronto.

 

Hoje tinha um nó num pedaço do cabelo durante o banho que achei que não ia desembaraçar de jeito nenhum. Tentei de tudo que é jeito e nada, tava um bolo, já ia aderir aos dreadlocks.

 

Bom, pensei, na pior das hipóteses eu corto e pronto. Já tinha o pior cenário, então fiz uma última tentativa — peguei o cabelo de outro ângulo, e de repente deu certo. Soltou, incrível!

 

Os problemas na vida são todos meio assim, não? Depois que a gente entende o pior cenário, é só questão de ir tentando alternativas enquanto tiver paciência 🙂

Categories: elucubrações

Da memória sensorial e as descobertas

setembro 5, 2017 Leave a comment

[2016]

Mostrei pra Claudia agorinha um vídeo fofo do Otto brincando de caça-palavra, e comentei que ele tá inconformado com as palavras que terminam em O e E, assim como DEZ, porque tem um I ali no meio, e tudo que escrevemos com final O se fala U, ele não aceita.

 

Ela comenta que inglês é a coisa mais louca pra aprender a escrever, tudo diferente, e tals, ~ÓsoM~ *hahhahaha* e eu magicamente me transporto para o ano de 1983, quando aos 11 anos comecei a ter aulas de inglês e me vejo por um instante de novo na cozinha da casa da minha avó paterna, de pé, gesticulando muito pra explicar pra ela e pra tia Marli como era INCRÍVEL que em inglês a gente escrevia DAUGHTER com todas essas letras mas a gente falava DÓTER!

 

Lembro da cara delas, achando graça, me ouvindo falar tão empolgada. Fiquei um pouco emocionada por ainda ser aquela mesma menina de 11 anos, que se espanta com as coisas todas que são novas e incríveis e conta pras pessoas como se todo mundo se importasse. Sigo encantada, constantemente.

 

(Eu me importo, e sinto tudo com tanta intensidade! Por isso o livro “O mundo de Sofia” tem um lugar especial no meu coração. Foi lendo esse livro que me descobri filósofa por natureza <3)

Categories: elucubrações, família

un-coach

junho 6, 2017 Leave a comment

há 3 anos mergulhei de cabeça nas discussões sobre gênero, diversidade em geral (inclui etnia, orientação sexual, gênero, introversão x extroversão… tudo que eu consegui pensar), e há mais tempo ainda já estava envolvida em ajudar pessoas a se desenvolver em suas carreiras. sou líder de pessoas há 15 anos, e essa é a parte que mais amo do meu trabalho.

tenho feito palestras nos últimos 10 anos, nada profissional, sempre como voluntária, dentro e fora da empresa. falo normalmente para profissionais (de IT ou não), interessadas em se desenvolver como executivas ou líderes. no ano passado recebi meu primeiro convite para falar para moças jovens sobre carreira, e foi incrível. percebi o quanto eu estava desconectada dessa realidade de quem ainda não começou ou está começando sua carreira, e mais desconectada ainda da realidade de quem não está no mundo corporativo e nem quem entrar nele. na época em que eu era menina, “trabalhar em firma grande” era o que havia de mais maravilhoso como meta e resultado na vida.

hoje as coisas são muito diferentes — inclusive por causa da tecnologia — e isso é sensacional. levei um chacoalhão de realidade e depois do choque, eu amei.

fiz essa apresentação aqui pra 2 audiências bem jovens e recebi perguntas muito legais, e a maioria gostou e me procurou pra falar mais. não tenho intenção alguma de dizer pras pessoas o que fazer, o que quis foi contar um pouco da minha trajetória, das coisas que penso e sinto. dou algumas dicas bem simples que acho úteis, que podem ajudar a organizar os desejos e demandas (que vêm de diferentes fontes) também.

me perguntaram na última palestra: “você acha que todo mundo deve fazer faculdade?”

e eu respondi, já avisando que os pais iam me odiar: NÃO.

a gente deve fazer o que se vê feliz fazendo. e “feliz” aqui é bem amplo, e passa também por assumir a responsabilidade por suas escolhas. não há opção na vida completamente boa, não há como escolher sem abrir mão de outra coisa… o que dá pra fazer (e muito recomendo) é tentar se entender melhor, tentar entender melhor o mundo ao redor, e fazer escolhas que sejam alinhadas com o que pensamos e sentimos.

o problema é que muito mais fácil falar do que fazer 🙂

a boa notícia é que SEMPRE é tempo de mudar, rever o que escolhemos e tentar diferente.

e o título é porque, depois desse papo com a molecada, fiquei pensando que sou quase uma coach ao contrário — ao invés de sugerir carreiras, e dar dicas de desenvolvimento de competências complementares, tento convencer as pessoas a ouvir mais seu coração, não insistir em melhorar em coisas que NÃO são boas, e ao invés disso valorizar o que já têm de bom e buscar explorar mais isso.

não vou ficar rica fazendo isso, mas fico bem feliz 😀

sobre ser vista e ouvida

Maio 29, 2017 Leave a comment

Conflito não é sinônimo de violência.

 

Discordância não é sinônimo de briga.

 

Às vezes a violência e a briga são necessárias, tem coisas que não mudam sem isso. Há momentos em que só tirar o chão e chacoalhar estruturas funciona pra mudar.

 

Mas nem sempre.

 

E percebo que tem horas que a briga e a violência são menos uma forma de melhorar o mundo e mais uma forma de fazer o mundo olhar pra você e reconhecer que você existe.

 

(Como a criança que enfrenta os pais ausentes porque qualquer atenção, até a surra, é melhor que nenhuma)

 

Eu existo! Estou aqui, e quero ser enxergada e ouvida.

 

Mas tento todo dia, de coração, ser percebida sem precisar atropelar ninguém pra isso.