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escolhas

setembro 25, 2018 Leave a comment

Não sei se eu é que sou muito coração de pedra (provável), mas não entendo toda comoção de várias pessoas nas redes sociais porque estão se vendo “obrigadas” a bloquear ou desfazer amizade com familiares e amigos porque essas pessoas estão fora da casinha graças à eleição, e são basicamente horríveis.

 

Não sabiam que essas pessoas eram horríveis? Descobriram agora? Desculpa, mas é só ir em qualquer festinha com algum álcool que você vai descobrir o pior das pessoas. Não há uma festa de fim de ano ou happy hour sem oportunidade de ouvir aquele tio fazendo comentário racista ou o colega de trabalho falando merda sobre mulheres. Não há um dia ali na rodinha do café que a gente não escuta a amiguinha falar mal da colega gorda, ou da moça que foi promovida — “nossa, o que será que ela fez HEIN?”.

 

Especialmente no Brasil, acho que somos ABSURDAMENTE tolerantes com o intolerável. Tudo “era só piada”, e se a gente não aceita, vira o sem-graça (hoje em dia tão chamando de radical; quando era mais jovem eu era grossa mesmo). Nossa necessidade patológica de ser amigo de todo mundo nos leva a não ter limites, e é urgente essa mudança cultural, precisamos parar de acochambrar tudo, de passar pano pra atitudes medonhas pra manter amizades e relações familiares.

 

Já fui MUITO criticada na família e no círculo de amigos por minha “intolerância” — o tio escroto não vai ser convidado pra vir na minha casa, e também não vou na casa dele. E pronto. “Ah, mas ele no fundo é legal, ele colabora com o asilo de Piraporinha, apesar de ser um machista nojento e abusar da esposa”.

 

Não, gente, para. Óbvio que TODO MUNDO tem partes boas e más. O que deve contar é o peso das ruins e boas dentro do seu sistema de valores. Ser machista praticante não é algo que vou tolerar, mesmo o cara doando milhões pros velhinhos de Piraporinha. E não sinto um pingo de culpa por isso. Talvez outra pessoa com outra história de vida ache OK ser tolerante com isso — eu não acho. Pessoas machistas ameaçam diretamente meu direito de existir e ser quem eu sou, não posso, em sã consciência, aceitar isso.

 

Convivo com pessoas de outros países, especialmente USA e Alemanha, há muitos anos, e reparei que eles não sofrem desse drama. Não se sentem obrigados a serem legais com ninguém, a serem amigáveis. Eles são amigos de quem eles acham que realmente merece, e não ficam cheios de dedos pra colocar limites. Aprendi muito com eles, e fui ficando mais tranquila em colocar limites SIM, e mandar pra longe gente que não me agrega nada, ou muito pouco.

 

“Ah, mas pessoas do trabalho, sabe como é…” — sei sim. Sou executiva de multinacional e trabalho em empresas enormes desde o começo da minha carreira. Estou lá pra trabalhar, e não pra fazer amigos, então não, não vou no happy hour da turminha escrota. Não vou entrar no papo de política na reunião — me reservo o direito de não falar de assuntos pessoais no trabalho, estou ali graças a um CONTRATO. Se fizer amigos, será uma sorte (e fiz, sim, porém poucos e bons).

 

Não confundo mais as coisas, não acho que tenha obrigação de ser tolerante com gente que é mais idiota do que legal, não vou abrir mão dos meus valores pra ter um milhão de amigos meia boca, ou amigos que demonstram pouco respeito por mim, pelas minhas ideias.

 

O mundo é vasto, a vida é curta, não vou perder tempo tentando reconciliar o que não se reconcilia.

 

Não desamiguei ninguém nem deixei de seguir ninguém nesse mar de merda que tá sendo essa eleição, porque já venho usando a peneira adequada pros meus valores há anos.

 

Não tenho amigos nem conhecidos (que eu saiba, né; se souber, a limpa será feita) que apoiam Bostanaro, que são ativamente machistas, racistas, homofóbicos, contra os direitos humanos. Essa é minha peneira MÍNIMA, essas coisas são não negociáveis.

 

Não sofro em absoluto por impedir essas pessoas de fazer parte da minha vida. É um auto-cuidado que eu acho que mereço muito.

 

Estou perdendo alguma coisa? Certeza que estou. E tou de boas: E S C O L H A S. Parte importante da vida adulta, recomendo.

 

Beijo a todos que estão em minhas redes sociais, eu escolhi vocês ao mesmo tempo que escolho a mim mesma.

Categories: elucubrações, feminismo

como se tivesse 7 anos

agosto 17, 2018 Leave a comment

cada dia mais eu acho que coisas que não são possíveis de explicar para uma criança de 7 anos, como o otto, a gente precisa rever. essa semana me deparei com um caso curioso, vejam lá:

descobri que o otto gosta de ouvir rádio no carro, o que muito me surpreendeu. ele é da geração de Spotify, NetFlix e YouTube como fontes de lazer e informação, o formato de disseminação de informação com propaganda não faz parte da vida dele, e é repudiado. ele pula as propagandas do YouTube (e assiste pouco, prefere NetFlix), e simplesmente não entende a lógica da TV ter programas “fixos” (que não podem ser controlados) e interrupções regulares longas. Já conversamos inclusive sobre os conteúdos do YouTube que são propagandas disfarçadas de histórias, que servem só pra deixar a gente com vontade de comprar (ele conseguiu perceber isso, mas não deixou de ter vontade de ter e comprar; esse é outro passo da evolução, que não sei se acontecerá).

mas voltando pro rádio — achei curioso ele querer ouvir o cara falando, no meio das músicas aleatórias. imaginei que esse menino que gosta tanto de controle e está familiarizado com a tecnologia podia se irritar com o formato, mas não só não se irrita como gosta. interessante.

mãe preocupada com a questão da propaganda que sou, comecei então a prestar atenção nas propagandas do rádio e… meodeos. são inúmeras, mas tem essa uma propaganda em especial é que bastante repetida aqui na região de campinas (especialmente pela manhã, no horário que vou pro trabalho) e que me deixou muito incomodada: doutor formen.

FOR MEN, no caso, “para homens”, é uma clinica especializada em desempenho sexual. do homem, claro. a propaganda é bem gráfica: “dificuldades com desejo sexual? impotência? ejaculação precoce? temos a solução para os seus problemas, etc. e tals.”

estou longe de ser puritana, e busco sempre explicar as coisas pro otto de forma bem direta, desde muito cedo. já explicamos por alto como funciona o nascimento dos bebês, embora não tenhamos explicado a mecânica pênis-vagina para que o espermatozóide chegue ao óvulo (ele não perguntou detalhes, e somos adeptos de fornecer somente os detalhes que interessam pra criança). dito isso, meus incômodos com essa propaganda são vários, e pensei em como explicá-los pra vocês. decidi fazer um diálogo simulado com uma criança de 7 anos pra tentar ilustrar.

(AVISO: o diálogo abaixo é ficção, mas poderia ser real. vamos assumir que a criança de 7 anos já entendeu o que é sexo)

c7a: “ei, o que é ‘desejo sexual’?”

eu: “é a vontade de ter contato sexual com alguém, vontade de praticar sexo”

c7a: “e o que é ‘impotência’?”

eu: “é falta de potência. nesse contexto quer dizer que um homem não consegue fazer seu pênis ficar duro.”

c7a: “por que ele precisa dele duro? e por que se não estiver é ‘impotência’?”

eu: “o pênis precisa estar duro para poder entrar na vagina. se ele não fica duro, os homens se sentem impotentes e acham que não pode haver sexo. já aproveito pra explicar pra você, criança, que sexo não é só o que acontece quando há um pênis envolvido diretamente ou ele está duro. sexo não é só o pênis na vagina. uma relação sexual acontece mesmo que não haja pênis, inclusive. mulheres também fazem sexo entre si ou sozinhas, sem precisar de um pênis.”

c7a: “mas o que é ‘ejaculação precoce’?”

eu: “quando o pênis fica duro e entra na vagina, depois de um tempo acontece a ejaculação, que é quando os espermatozóides são liberados para chegar até o óvulo, que fica no útero. é assim que os bebês são feitos, através da fecudação do óvulo. ‘ejaculação’ é a liberação dos espermatozóides, e ‘precoce’ é quando essa liberação acontece de forma rápida demais.”

c7a: “por que não pode ser rápido?”

eu: “porque existe essa ideia de que demorar mais para liberar os espermatozóides é bom, porque sexo é uma atividade que dá prazer, é boa. então quanto mais durar, teoricamente, melhor.”

c7a: “e por que o moço tá oferecendo solução no rádio pra isso?!”

eu: “porque há homens que têm problemas com isso, e o prazer e a auto-estima do homem são assuntos importantes o suficiente para merecer anúncio no rádio com soluções pra resolver isso.”

c7a: “e as mulheres não têm problema com isso?”

eu: “as mulheres, criança, têm muitos problemas com isso. elas não são ensinadas a se preocupar com seu próprio prazer e felicidade nas suas relações sexuais. elas não são ensinadas a conhecer e cuidar das suas vaginas. as mulheres são ensinadas a garantir que podem reproduzir, e que estão aptas pra isso. ninguém oferece soluções para que mulheres sejam mais felizes nas suas vidas sexuais.”

OK, admito que talvez não fosse possível (ou razoável) ter essa conversa com uma criança de 7 anos. mas talvez seja viável ter essa conversa com uma criança de 10, 12 anos. precisamos falar disso — por que é normal uma propaganda falando sobre como melhorar o desempenho sexual masculino, o mundo girando em torno do pinto e como ele deve ser duro e apto a ejacular, enquanto não falamos NUNCA sobre a vagina, a vulva, o clitóris, o orgasmo feminino?

alguém já viu uma propaganda tipo “amiga, você tem bons orgasmos durante o sexo com seu parceiro? você sabe se masturbar? nós da PRAZMINA temos dicas pra te ajudar!”

sabem quantas mulheres nunca sequer viram a própria vulva? A MAIORIA. e os meninos enquanto isso, desde pequenos seguem balangando seus pintos pela vida, tirando o dito cujo da calça sempre que possível, a onipresente representação da sua sexualidade em forma de apêndice (que inclusive é tratado como tendo vida própria, olha que maluquice), epicentro de toda civilização.

quantos homens sabem fazer sexo sem pinto? quantos deles sequer consideram que é sexo se não tiver pinto envolvido?

(pra não ser injusta, essa cultura pintocêntrica é tão forte que muitas mulheres também acham que sem pinto não tem sexo, mesmo sendo somente a minoria — alguns estudos falam de apenas 25% — das mulheres que têm orgasmos somente com penetração!)

modosque me incomoda sim ter que explicar essa propaganda bizarra pro meu filho, caso seja necessário, mas me incomoda muito mais a existência tão naturalizada dessa propaganda no rádio quando a maioria dos homens sequer sabe que a entrada da vagina e a uretra são orifícios diferentes e o clitóris é um ilustre desconhecido.

não é à toa que só existe viagra-e-afins pra homens. ainda vivemos numa sociedade em que mulher não tem desejo, tem obrigação.

menos ocupação, mais silêncio

agosto 16, 2018 Leave a comment

Uma armadilha que tento não cair (falho… mas continuo) é a da supervalorização do quanto sou ocupada e faço coisas.

 

Reparem que sempre quem é muito ocupada e faz muita coisa pode até reclamar mas considera isso qualidade e não defeito. E não é que seja necessariamente defeito, mas cada vez mais percebo que ocupar-se é uma forma de mostrar valor, e de evitar o silêncio, a solidão, o tédio, a vida. Como se a desocupação, o ócio, o “não tenho nada pra fazer” fosse a morte.

 

Quanta ansiedade está por trás disso tudo? Não como consequência, vejam bem, mas como CAUSA. Ansiedade de mostrar que pode, que é bom, que dá conta, que é necessário, imprescindível, fundamental.

 

E o medo de não ser nada além de uma partícula, do mundo girar sem minha maravilhosa presença, das pessoas (socorrodeusmelivre) não precisarem de mim?!

 

O pavor de não ser reconhecida por quem eu sou mas pelo que eu FAÇO.

 

Então façamos né, cada vez mais e mais e mais, ocupando tempo e espaço, deixando as fermatas e o mundo quântico dos silêncios e nadas pra depois, quando morrer.

 

“Descanso quando morrer.”

 

Quero descansar agora, um descanso ativo e presente, mesmo que curto. Quero não ser necessária nem suficiente, quero não ter que fazer nada pra merecer existir e ser feliz e amada, só isso.

 

Todo dia aparece pedra no caminho, é inevitável; decidir carregar ou quebrar é uma opção minha. Eu posso também desviar e deixar elas pra trás, seguir viagem.

Categories: elucubrações

me vejo no que vejo

julho 30, 2018 Leave a comment

Vejo bastante gente falando que falta “interpretação de texto” no mundo, e embora eu ache essa habilidade importante, não concordo que a raiz do problema de comunicação é essa; quanto mais penso nisso, mais acho que o problema está no viés de confirmação, que afeta não só a leitura de textos mas toda nossa “leitura” da realidade.

 

Alguém disse que vemos o mundo não como ele é, mas como somos, e é exatamente aí que começa o problema: além de sim, vermos o mundo como somos, procuramos (e encontramos) padrões que “casem” com aquilo que queremos provar como tese ou acreditar.

 

Talvez isso seja óbvio pra você (pra mim já é, de tanto que penso nisso), mas não significa que saber disso anula o mecanismo. Por exemplo: sou de esquerda; quando leio ou ouço algo que comprova minha visão de mundo alinhado à esquerda, me dá alívio e prazer, e quero saber mais, compartilhar, repetir; acolho aquela informação como verdade sem duvidar. Quando me aparece algo mais alinhado à direita, é um esforço ouvir ou ler. Tenho que prestar atenção, lutar contra o desejo de duvidar de tudo e questionar, e mesmo caso consiga ao menos apreciar o ponto de vista, jamais quero repetir ou compartilhar.

 

Em primeiro lugar, não consigo às vezes nem ler e ouvir, rejeito ou ignoro o que não “bate” com minhas ideias; e quando ultrapasso essa primeira barreira, duvido e fujo quando essas ideias fazem sentido. Elas não combinam com minha configuração mental.

 

Seria como procurar, comprar e trazer pra minha casa um sofá que eu acho horrorosamente cafona, por exemplo. (E esse mesmo sofá serve muito bem e é amado e desejado por alguém com gosto diferente do meu, mal comparando)

 

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Não é que as pessoas não saibam interpretar textos, é que elas não leem o que está de fato escrito, leem seletivamente o que interessa e extrapolam muito o que está ali, com base nas suas crenças, problemas, preconceitos, dores e amores.

 

E não vamos nos enganar: não é possível eliminar vieses. Eles são parte de nós. Mas sim, é possível entender nossos vieses e tentar neutralizá-los. Não pra ser outra pessoa, ser “neutro”, mas para ganhar a (maravilhosa) capacidade de aprender e evoluir.

 

(E se você acha que bastam “fatos e dados” pra neutralizar vieses, eu tenho más notícias, leiam essa historinha super didática sobre crenças)

 

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Vejo isso acontecer TODO DIA, aqui online e na real, nos relacionamentos. E não é sempre produtivo apontar isso pras pessoas, pois elas resistem e não admitem (às vezes não entendem nem percebem) que estão sob efeito dos seus vieses.

 

Vieses inconscientes não funcionam só para coisas ruins como preconceito racial, de gênero, de idade. Funciona para coisas positivas também. É um mecanismo, que precisamos entender e aprender, é autoconhecimento.

 

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Inclusive, sobre “fake news”: quem cria essas notícias é mau caráter, mas quem propaga não necessariamente. As pessoas normalmente não pensam em checar fatos quando eles confirmam sua opinião.

 

Do mesmo jeito que a pessoa horrível repassa a notícia falsa de que uma criança assassinada era na verdade um bandido (porque ela crê que bandidos merecem morrer mesmo se forem crianças, e talvez essa seja a única forma daquele fato fazer sentido), a pessoa querida repassa a notícia também falsa de que alguma celebridade milionária que ela gosta ajudou milhares de crianças carentes (porque afinal faz sentido que celebridades milionárias que amamos façam boas ações).

 

Fake news só são um problema grave nos nossos tempos graças ao viés de confirmação.

 

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As pessoas não precisam (só) aprender interpretação de texto; elas precisam aprender sobre si mesmas e ter a coragem e humildade de conhecer suas próprias armadilhas.

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a comparação é a mãe da infelicidade

junho 18, 2018 Leave a comment

“As mídias sociais estão nos treinando para comparar nossas vidas ao invés de apreciar o que somos. Não é à toa que estamos deprimidos.”

 

Concordo que comparar nossa vida com outros é PÉSSIMO negócio. Mas não consigo concordar que isso tem a ver com mídias sociais. Talvez as mídias ampliem nossa capacidade de fazer isso, mas basta ouvir conversas, gente: isso é uma prática comum desde que me conheço por gente.

 

Aliás, odeio comparações.

 

Odeio e ativamente evito, já há tanto tempo que quase não faço mais isso. Exceção feita à observação dos filhos dos outros — sempre educados, geniais, cordatos — enquanto meu filho é a reencarnação de belzebu e me faz chorar de frustração com alguma frequência.

 

Fora essa questão de mãe culpada, que hei de superar, não me comparo com ninguém e acho uma estupidez essas comparações. Não serve pra nada além de sofrer.

 

Inclusive não consumam revistas, nem mídia de celebridade e moda. Faz mal à auto estima, o que leva a gastar dinheiro com coisas que você não precisa e te impede de gastar com coisas maravilhosas tipo viajar, música, arte e chocolate.

 

A melhor forma de hackear a vida é não cedendo a certas inclinações.

 

Resista. 👊🏻❤

Categories: elucubrações

ser legal não é suficiente

maio 25, 2018 Leave a comment

Uma coisa urgente que precisamos repensar (especialmente pessoas brancas / hétero e os homens) cada vez que nos deparamos com casos de racismo, homofobia e machismo:

 

Vamos parar de nos autocongratular dizendo que nós não somos assim, grazadeus, e que “temos até amigos negros / gays” ou “tenho maior respeito por todas as mulheres” ou “inclusive sou feminista / simpatizante”, enfim, espero que esteja claro.

 

Não porque essas coisas não tenham algum valor, mas porque esse tipo de afirmação é meio um passe livre, tipo: “eu faço minha parte, tá? Eu sou legal. Não tenho nada com isso!”

 

Você pode até achar que não, mas cada vez que se auto-elogia, se colocando fora do sistema que é ESTRUTURAL, você não está fazendo parte da mudança.

 

Nós somos racistas, machistas e homofóbicos SIM, porque é impossível não ser dentro da sociedade que fomos criados e vivemos.

 

Cada um de nós pode ativamente lutar para ser menos preconceituoso, todo dia, toda hora, e isso faz de nós pessoas conscientes, cidadãos melhores. Que bom! Isso é fundamental.

 

Mas nenhum esforço passivo nosso será suficiente até que a sociedade mude. E reafirmar nossa “bondade” só nos torna complacentes, não ajuda ninguém, nem a nós mesmos.

 

Cada vez que você puder falar sobre isso, ao invés de se auto elogiar por ser tão legal, pense: o que MAIS eu posso fazer? E faça.

 

Nunca será suficiente, não tão cedo.

 

**

 

Ou, sendo mais direta: não é porque você tem amigo gay que você não é homofóbico, não é porque você tem amigo negro que você não é racista e nem porque você respeita sua mãe, irmã ou amiga que você não é machista. E mesmo que você não seja mesmo NADA prconceituoso, isso não ajuda a melhorar o mundo. Podemos fazer mais.

 

E tudo bem, é isso aí. Sigamos ATENTOS para nos tornarmos pessoas melhores e principalmente pra ajudar a tornar o mundo melhor, já que estamos na contramão. Somos nós que queremos mudar que vamos ajudar o mundo a melhorar.

 

**

 

Dou um exemplo: sou uma mulher adulta, branca, cis, com educação superior, num casamento hétero e com 1 filho, executiva de uma empresa multinacional. Na hierarquia social, só os homens brancos estão acima de mim. Ou seja: embora eu sofra uma série de problemas por ser mulher, eu não sofro um montão de outras coisas.

 

Será que basta eu não ser racista ou homofóbica? Basta por exemplo eu estar disposta por exemplo a contratar uma pessoa negra para uma posição na minha equipe?

 

Eu acho que não. Porque pra que essa pessoa negra chegue até mim, para uma entrevista, existe um longo caminho cheio de portas trancadas. Abri um processo seletivo ano passado para estagiários e funcionários e apareceram pouquíssimas mulheres e NENHUMA pessoa negra.

 

Pois eu fui atrás de todos os meus contatos buscando mais candidatos, porque queria ao menos colocá-los no páreo.

 

Consegui. Com um super esforço! E contratei 1 moça para uma das vagas de funcionários e 1 moça negra para uma das vagas de estágio. Ambas talentosíssimas, e a moça negra em especial é fora da curva, excepcional.

 

Se eu tivesse ficado passiva, só esperando a mudança chegar até mim, ela não viria tão cedo (será que viria um dia, na minha vida?).

 

Nós, pessoas esclarecidas e do bem, precisamos tomar as rédeas e acelerar a mudança.

 

Vem comigo <3

Categories: elucubrações, feminismo

senhora… senhora?

maio 21, 2018 Leave a comment

Uma moça de vinte e poucos agora há pouco me perguntou (numa situação informal): “e é pra senhora mesmo?”

 

Tou de chinelo, bermuda, camiseta, cabelo preso, como quase sempre.

 

Isso já aconteceu quando eu tinha a idade dela, sempre me incomodou, e hoje também, mas foi diferente.

 

Pensei: “Porra, tenho 46 anos e sou uma senhora mesmo. Nada a ver me incomodar com isso. Relaxa.”

 

Não sou jovem; não tou tentando parecer jovem, não faço NADA pra isso, então por que me incomodar?

 

Prazer, senhora.

Categories: elucubrações, feminismo

perigos há por toda parte

janeiro 15, 2018 Leave a comment

Meu pai tornou-se diabético aos 50 anos. Curiosamente, pouco depois de perder a mãe.

Diabetes é doença, e mata. Requer medicação, em alguns casos (nos últimos meses ele precisou, mas já chego lá), mas muito mais que isso: requer mudança e dedicação.

Ao ser diagnosticado, ele foi orientado a cuidar de si mesmo com atenção: comer melhor, fazer exercício, não fumar, cuidar dos pés e das mãos, etc. etc. etc.

Ele ignorou tudo isso e tocou a vida. Até que teve um acidente, machucou o pé e quase perdeu o pé. Mas quase MESMO. Ele teve sorte, e passou semanas com dor, com medo, em médicos e hospitais e tomando uma tonelada de remédios.

A doença é real, não é frescura nem bobagem. Mas ela se agrava e o risco aumenta MUITO quando não há dedicação em mantê-la sob controle.

E sabe o que é bem parecido com essa doença? A depressão.  A pessoa não sabe que tem, até estar mal e (com sorte) ser diagnosticada e medicada. Algumas pessoas precisam tomar medicação pro resto da vida (como alguns diabéticos). Se não tomar, o risco aumenta.

E como a diabetes, requer cuidados de manutenção: comer bem, dormir bem. Exercitar-se. Terapia, se for possível. Meditação, que já se mostra super eficiente pra ansiedade e depressão. E muito, muito importante: cultivar ATIVAMENTE uma forma de enxergar o lado bom e bonito da vida e das pessoas. O mundo muda quando a gente muda, isso é real, não é papo de autoajuda. Uma amiga que fez terapia cognitivo comportamental me contou que a terapeuta deu pra ela a tarefa de anotar num caderno cada coisa (não importa quão pequena) de boa que tinha acontecido no dia. E ler antes de dormir. Ela ficou encantada com a mudança — ela aconteceu, claro.

Então você, amigo ou amiga que sabe que tem essa doença (qualquer uma das duas, aliás), não deixe chegar no ponto que meu pai chegou e que vejo tanta gente chegando também. CUIDE-SE. Admita que tem uma doença e cuide dela, cuide de você. Se você não cuidar, vai dar merda, é inevitável.

Há mil coisas que se pode fazer pra ter uma vida melhor. Se precisar se medicar pra melhorar, medique-se. Mas não deposite todas as suas fichas no remédio, há mais coisas que podem ajudar. Não perca essa oportunidade.

A vida é bonita, como disse pro meu pai. Não perca a oportunidade de ver seu neto adulto, eu disse pra ele.

E digo pra você também: cuide-se bem.

**

Faço um update aqui pra não parecer que sou insensível:

Qualquer um de nós, sabendo que meu pai é diabético, acharia ele no mínimo descuidado se o visse comendo macarrão em todas as refeições, fumando 3 maços por dia e comendo açúcar normalmente, certo?

É o que sinto quando vejo pessoas com depressão que abandonam medicação, são desorganizadas e reclamam de tudo sistematicamente.

A descoberta de uma doença precisa nos levar à mudança, ou só vamos piorar. Não adianta continuar vivendo como sempre (definição de loucura e tals, lembram?).

De novo: cuidem-se. Nossa vida é preciosa, e tem gente que ama vocês e quer vocês por aqui nessa vida maluca.

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cacti

dezembro 11, 2017 Leave a comment

A solidariedade marital é uma coisa linda.

Tou eu lá mexendo nas plantas e enfio a mão num dos cactos, enche de espinhos minúsculos, invisíveis mas super incômodos.

Eu: “putaquepariu encheu minha mão desses espinhos malditinhos!”

Fernando: “o que leva à questão: por que alguém cultiva cactos? Eles têm espinhos!”

Eu: “mas são lindos, olhaí. (…) que ódio, e eu já não enxergo tão bem quanto antes a ponto de tirar de boas esses espinhos micro…”

F: “ou seja: nem idade pra ter cactos mais você tem, né?”

😂😂😂

Ignorei a negatividade inata do Fer e botei na mão fita adesiva, passei cola, arranquei espinhos maiores com as unhas e depois apelei pra pinça, tirei tudo.

Quando uma mulher quer cactus, uma mulher pode ter cactus (essas plantas lindas porém assassinas).

Categories: elucubrações

opinião é que nem pizza

dezembro 11, 2017 Leave a comment

Odeio melancia e açaí. A primeira mais que o segundo (aversão mesmo).

Aí eu vejo posts e fotos dos amigos comendo essas 2 coisas que eu odeio, o que eu faço?

NADA, né, gente. Porque eu tenho noção e educação.

Poucas coisas são tão desnecessárias e deselegantes quanto comentar que você odeia, tem nojo, não concorda com o que outro tá comendo. Em especial quando a outra pessoa gosta a ponto de fotografar ou de pedir num restaurante.

Então fica a dica de gentileza desta semana: não estrague o prazer dos outros com sua opinião não solicitada.

Categories: elucubrações