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Archive for the ‘música’ Category

sobre aprendizado e privilégios

agosto 31, 2017 Leave a comment

Coincidências, sinapses que conectam pontos, sei lá — acabo de ler um texto que é muito legal mas que disparou aqui em mim um incômodo, e graças ao meu poder mágico de conectar lé com cré entendi o motivo.

 

A moça do texto conta sobre ouvir uma música no supermercado e cantá-la a plenos pulmões, e isso ter sido divertido (imagino; adorei a ideia). Ela menciona que ouvia o álbum enquanto adolescente, e sabia tudo de cor. Um álbum de jazz moderno, gringo.

 

Corta pros meus pensamentos aleatórios de outro dia, eu já volto aqui.

 

Fui conhecer jazz depois dos 18, na faculdade, graças a amigos. O mesmo vale pra música erudita, e artes plásticas em geral, e cinema. Os amigos que me inundaram de novas referências na vida eram predominantemente ricos, bem ricos. Nós outros, inteligentes e interessados porém pobres tínhamos outras referências — cultura popular, MPB, samba de raiz, de fundo de quintal.

 

Parece clichê, né? Juro que não tou forçando a barra. Guardadas exceções raras (pobres filhos de músicos ou artistas), quem tinha acesso à arte eram mesmo os ricos. E nem preciso dizer brancos, né, quando se trata de faculdade de elite, fica implícito.

 

E o inglês, né. Que eu só pude estudar depois de formada, quando podia pagar. Até lá, era o inglês meia boca que a escola pública ofereceu e eu agarrei com unhas e dentes. Como aliás agarrei todo conhecimento que me foi oferecido através dos novos amigos que nunca pude ter — nunca aprendi tanto em tão poucos anos. Até hoje sinto reflexos daquela época (e descobri essa semana que eu, olha o espanto, apresentei a um dos amigos da época a POESIA).

 

A poesia. Que descobri num trabalho escolar no 2o colegial do colégio público — Drummond me iniciou. Eu estava com o pé quebrado e decorei A máquina do mundo para uma apresentação. Decorei e dissequei, porque por sorte a edição do livro dele na biblioteca paupérrima era comentada.

 

Um mundo enorme se abriu pra mim quando li poesia comentada, quando meus amigos ricos me mostraram coisas com as quais eu nem sonhava, e quando pude viajar e ver as obras que só conhecia pelos livros poucos que chegaram até mim.

 

Voltemos à história da moça: eu tive inveja de alguém que falava inglês na adolescência e ouvia jazz em casa. (E a qualidade musical na minha casa era excelente, não me entendam mal. Essa sou eu reclamando do que não tive)

 

E sei que também fui muito privilegiada. Minha família tem uma riqueza musical e cultural enorme, e tive muita sorte.

 

Mas o álbum preferido de uma adolescente ser de jazz me deu uma pontada de inveja forte aqui, lembrando do meu deslumbramento com Miles Davis e Coltrane já maior de idade.

 

Algumas pessoas não sabem a sorte que tem.

 

(Mas eu sei. E sou grata.)

Categories: múltiplos, música

clarice

agosto 31, 2017 Leave a comment

Clarice Lispector é minha autora favorita. O que é um saco, porque ela virou um clichê ambulante, e gostar muito dela ficou esquisito nos últimos anos. Mas é, desde que li pela primeira vez “Laços de Família”, com 15 ou 16 anos. E reli 1000 vezes, e saí lendo tudo dela. E mesmo quando não entendo nada eu amo, porque o jeito que ela escreve é mágico, e não precisa sempre fazer sentido.

 

30 anos depois de tê-la lido pela primeira vez eu escuto sua voz e a vejo em vídeo. Acreditam? Nunca nem me ocorreu procurar nada dela pra ver, e esse vídeo chegou a mim por acaso.

 

Estou sentindo uma mistura de encantamento e ternura. Ela é minha ídola, quase sobrenatural, mas esse vídeo me mostrou uma humana muito cheia de questões, mau humor, dúvidas. E ela é ainda mais incrível por isso tudo, por ser humana e cheia de questões. Por negar a condição (o status, talvez) de escritora. Por admitir não entender seus próprios textos.

 

Os escritos dela me tocam profundamente, o estilo dela me encanta como feitiço. Admirava muito a escritora pela obra, e agora senti amor e uma mistura de alegria e melancolia vendo ela falar. Morreu tão cedo. 💔

**

Na entrevista ela menciona que suas obras favoritas são o conto “o ovo e a galinha” (amo. E ela diz que é um mistério pra ela, que não entende o próprio conto hahhaha) e a história do Mineirinho, que morreu com 11 (ou 13? Ela não lembra ❤️) tiros, quando apenas 1 bastava. O primeiro tiro é ele que morre, os demais quem morre somos nós.

 

Ah, Clarice.

 

Aí o Fernando (ouvindo de longe a entrevista aqui) lembrou dessa música da Fatima Guedes, e parece coincidência demais né? Deve ter relação.

 

Elis ao vivo, essa música, Clarice.

 

Vale a pena estar vivo só pra ler, ouvir, sentir isso tudo, a despeito de tudo o mais.

Categories: livros, música

ano 2: 40 anos, 40 canções

outubro 3, 2012 6 comments

bem, meu segundo ano é 1973, o ano em que nasceu minha irmã. eu era um bebê ainda, não lembro nada dessa fase, mas descobri que uma música que fez parte da nossa infância fez sucesso no ano em que ela nasceu: naquela mesa.

naquela mesa ele sentava sempre
e me dizia sempre
o que é viver melhor
naquela mesa ele contava histórias
que hoje na memória
eu guardo e sei de cor
naquela mesa ele juntava gente
e contava contente
o que fez de manhã
e nos seus olhos era tanto brilho
que mais que seu filho
eu fiquei seu fã
eu não sabia que doía tanto
uma mesa num canto
uma casa e um jardim
se eu soubesse o quanto doi a vida
essa dor tão doída
não doía assim
agora resta uma mesa na sala
e hoje ninguém mais fala
no seu bandolim
naquela mesa tá faltando ele
e a saudade dele
tá doendo em mim.

não me lembro de ouvir esta música na voz de elizeth, mas nas vozes da minha mãe, tias e tios, que se reuniam nos fins de semana para comer, beber, tocar e cantar. o repertório era cheio de sambas antigos e choros, que aprendi ouvindo. ali, nas rodas de samba, eles tocavam instrumentos de percussão, violão, bandolim, pandeiros. foi nestas rodas de samba que aprendi a dançar samba e gafieira (em par), ainda bem novinha.

enquanto os adultos comiam, bebiam, fumavam e faziam música, as crianças pulavam e corriam pelo quintal, comendo jabuticaba, pitanga e goiaba. éramos uma horda de primos, de várias idades, e tenho muita saudade desses encontros familiares que hoje são impossíveis, e não só pela falta de contingente — quais famílias de não-músicos conseguem reunir várias pessoas que cantam e tocam instrumentos variados? quem ainda ensina os filhos a cantar, tocar ou dançar gafieira e samba?

essa canção foi composta por sergio bittencourt para seu pai, o famoso jacob do bandolim, e tive a oportunidade de tocá-la e cantá-la em muitas rodas de samba, inclusive com minha irmã querida.

um desafio pessoal, ano 1: 40 anos, 40 canções

setembro 24, 2012 3 comments

esse “desafio” saiu da minha própria cabeça hoje enquanto estava no trânsito. fique à vontade para adotá-lo e adaptá-lo à sua idade 🙂

fiz 40 esse ano, e acho que um bom jeito de comemorar e repensar o que passou é fazer uma seleção de 40 canções que têm significado pra mim. no início dos anos 90, quando ainda cursava história na USP (não concluí), fiz uma cadeira bastante interessante com o professor arnaldo contier: história contemporânea do brasil, porém com viés musical. um dos trabalhos que ele pediu foi a preparação de uma fita cassete (aham, BUSTED idade avançada) com uma seleção musical qualquer, porém com explicação sobre as escolhas e a ordem de gravação. muito interessante e muito difícil!

e quero propor algo similar no desafio: não basta escolher a canção, é preciso explicar a escolha. seja uma escolha afetiva, cultural ou meramente um registro do que acontecia de significativo musicalmente naquele ano, explique. coloque letra, se for o caso, e um link para a música, se encontrar. assim as pessoas que lerem o post podem conhecer (ou relembrar) a música, combinado?

ah, sim: e peço que caso faça o desafio, coloque um link aqui para este post, assim posso acompanhar seu desafio! se puder usar a tag “minha vida em canções”, vai ser legal também pra gente se achar.

bom, para começar meu desafio fui procurar algo que vi há alguns anos pela internet: o que estava tocando no rádio no ano em que nasci? da lista de 100 músicas que fizeram sucesso no lindo ano de 1972 estão nada menos que imagine, águas de março e mon amour, meu bem, ma femme!

as opções são muitas e muito interessantes, mas é inevitável incluir águas de março, já que nasci dia 8 de março e sou fã de MPB e tom jobim.

águas de março foi lançada como compacto, e faz parte do genial álbum matita perê, além de ter sido gravada inúmeras vezes por diferentes artistas (inclusive elis, cuja versão fez sucesso em 72). tem na letra várias referências a uma reforma que tom fazia em seu sítio, e a repetição combinada aos elementos do tema dá realmente a impressão de cansaço e desânimo que aparentemente dominavam o compositor. é considerada uma das mais importantes músicas da MPB e acho que jamais me cansarei de ouvi-la. gosto em especial da gravação disponível no álbum família jobim (que aliás é todo maravilhoso, recomendo).

 

é pau, é pedra, é o fim do caminho
é um resto de toco, é um pouco sozinho
é um caco de vidro, é a vida, é o sol
é a noite, é a morte, é o laço, é o anzol

é peroba do campo, é o nó da madeira
caingá, candeia, é o matita pereira
é madeira de vento, tombo da ribanceira
é o mistério profundo, é o queira ou não queira

É o vento ventando, é o fim da ladeira

é a viga, é o vão, festa da cumueira
é a chuva chovendo, é conversa ribeira
das águas de março, é o fim da canseira

é o pé, é o chão, é a marcha estradeira
passarinho na mão, pedra de atiradeira
é uma ave no céu, é uma ave no chão
é um regato, é uma fonte, é um pedaço de pão

é o fundo do poço, é o fim do caminho
no rosto o desgosto, é um pouco sozinho
é um estrepe, é um prego, é uma ponta, é um ponto
é um pingo pingando, é uma conta, é um conto

é um peixe, é um gesto, é uma prata brilhando
é a luz da manhã, é o tijolo chegando
é a lenha, é o dia, é o fim da picada
é a garrafa de cana, o estilhaço na estrada

é o projeto da casa, é o corpo na cama
é o carro enguiçado, é a lama, é a lama
é um passo, é uma ponte, é um sapo, é uma rã
é um resto de mato, na luz da manhã

são as águas de março fechando o verão
é a promessa de vida no teu coração

é uma cobra, é um pau, é joão, é josé
é um espinho na mão, é um corte no pé

são as águas de março fechando o verão,
é a promessa de vida no teu coração

é pau, é pedra, é o fim do caminho
é um resto de toco, é um pouco sozinho
é um passo, é uma ponte, é um sapo, é uma rã
é um belo horizonte, é uma febre terçã

são as águas de março fechando o verão
é a promessa de vida no teu coração
pau, pedra, fim, caminho
resto, toco, pouco, sozinho
caco, vidro, vida, sol, noite, morte, laço, anzol

são as águas de março fechando o verão
é a promessa de vida no teu coração.

de volta ao começo

abril 6, 2011 6 comments

e o menino com o brilho do sol

na menina dos olhos

sorri e estende a mão

entregando o seu coração

e eu entrego o meu coração

e eu entro na roda

e canto as antigas cantigas

de amigo irmão

as canções de amanhecer

lumiar e escuridão

e é como se eu despertasse

de um sonho que não me deixou viver

e a vida explodisse em meu peito

com as cores que eu não sonhei

e é como se eu descobrisse

que a força esteve o tempo todo em mim

e é como se então de repente

eu chegasse ao fundo do fim

de volta ao começo.

(gonzaguinha)

Categories: imagens, música

para os fãs de bossa-nova

setembro 11, 2009 3 comments
Categories: música

velha roupa colorida

julho 25, 2008 Leave a comment

não sei se comentei aqui que detesto ir a shows, mas é fato: fila, gente esquisita ao redor, música alta demais, bebida cara e dor no pé. coisa de velha, vocês dirão, e eu concordo 100%.

mas eu achava que sempre tinha odiado shows e, na minha cabeça, eu só tinha assistido “um ou outro show”. até que fiz uma listinha mental, e levei um susto. vejam o resultado (estou tentando colocar em ordem cronológica, na medida em que meus neurônios permitem):

– ira! (2)

– paralamas do sucesso

– legião urbana

– capital inicial

– titãs (2)

– zero (!!)

– jorge ben e tim maia (juntos!)

– andré geraissati

– egberto gismonti

– itamar assumpção

– cama de gato

– gilberto gil

– gal costa (não foi bom pra mim :D)

– caetano veloso (2)

– gil e caetano juntos

– chico buarque (2)

– joão gilberto (2)

– bob mcferrin

– living colour

blind guardian (!!!)

– danilo caymmi & banda

– macy gray

– lou reed

– lenny andrade

– joão donato

é capaz de ter sobrado um ou outro de fora, mas é mais ou menos isso. pra quem detesta shows eu até que fui a uns tantos… (e eu não contei coisas como olodum ou alceu valença em festa de rua, que nem sei se considero show)

e vocês, que shows já assistiram por aí? podem desenterrar os defuntos, que eu quero saber 🙂

(depois coloco link pra todos, com calma)

Categories: música

delícia saudosista

abril 16, 2008 Leave a comment

essa semana achei 2 sites mais ou menos com a mesma idéia – montar “fitas” com músicas selecionadas e compartilhar com outras pessoas. não é demais? 🙂

o mixwit permite a criação de fitas a partir de músicas já disponíveis ou você pode indicar de onde buscar as músicas (não é upload, é indicação de link para a música). eu criei minha primeira fitinha, chamada kind of cool.

por favor ouçam e me contem se funciona legal?

achei um outro serviço que é parecido, mas você cria somente 1 conjunto com suas músicas (tem que fazer upload), muxtape. ouçam minha fitinha aqui, porque logo logo eu mudo 😀

Categories: música

pra minha irmã

março 17, 2008 Leave a comment

que mesmo 1 ano mais nova é, como eu, inegavelmente filha dos anos 80 🙂

**

eu vou te seguir

por todo chão que tu pisares

em cada porto dos teus mares

outras mulheres, outros mares

eu vou estar a te seguir

os passos teus hei de pisar

mesmo que doa meu olhar

o teu perfume pelo ar

pelas manhãs eu vou seguir

o teu retrato ainda guardado

aquela ponta de cigarro

uma saudade em cada frase

em cada rua a te seguir

o teu lugar sempre vazio

e esse corpo meu bravio

te buscar sem te seguir

meu amor como é tão frio

eu vou te seguir suada

a pele escangalhada

eu vou te seguir

enquanto em me sentir negada

que eu te quero tanto

sim, te quero tanto

(vanusa, rastros – LP eu sobrevivo – 1981)

**

se alguém aí tiver esse MP3 ou quiçá o disco todo: vamos negociar? eu admito: adoro esse LP!

Categories: música

oh, sister

fevereiro 1, 2008 Leave a comment

fiquei enlouquecida quando soube que bob dylan vinha tocar em são paulo. eu escuto esse homem desde o berço (mesmo!) e adoro, amo.

vai ser na via funchal e saiu os precinhos: o ingresso mais vagabundo custa R$250,00! nem conto do preço dos outros

pior é que eu tou tentada ainda a ir, apesar do preço e apesar do meu horror a shows de forma geral. tá, meu horror não é do show propriamente dito, é das gentes que freqüentam shows.

mas com esse dinheiro dá pra comprar tanto livro e cd, meu deus…

**

oh, sister, ouça.

Categories: música