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Archive for the ‘opiniões’ Category

baby steps, pra sempre

julho 6, 2017 Leave a comment

No começo desse ano decidi ir a uma nutricionista, já que dieta não é algo que estou disposta a fazer mais (até porque não funciona. Emagreço um monte e depois engordo de novo) e meu corpo não me agrada do jeito que está. Pedi uma indicação e cheguei à Carol do blog “O corpo é meu”.

 

Fiz um acompanhamento quinzenal por 3 meses, com diário detalhado da minha alimentação. Conclusão: ela não  mudou NADA do que como normalmente, minha “dieta”.

 

No entanto, ela trouxe um elemento que eu desconhecia, mesmo sendo pró em dieta: ela expôs minha forma de lidar com a comida e com a fome. Percebi que como sem fome, que não sei quando parar de comer.

 

Decidi não me pesar mais, porque o número na balança me deixa ansiosa e triste. Quero mudar meu corpo pra um formato que seja confortável e que me permita movimentar sem esforço. Essa é minha meta. E foi disso que falamos nestes 3 meses; ela me mostrou que o corpo que eu desejo ter é MUITO próximo do que eu já tenho. E que me movimentar mais e estar atenta aos sinais do meu corpo provavelmente é mais importante que mudar minha alimentação.

 

(Estou nesse momento num check-up, aguardando o próximo exame. Tive que me pesar e dizer o peso pra enfermeira. Me sinto péssima. Meus números não “batem”, e no momento só penso que precisaria perder 20kg pra ser “normal”)

 

Estes 3 meses me fizeram perder peso (senti nas roupas), mas 1 mês depois, com menos atenção a como me sinto ao comer, senti o corpo mudar de novo. E não estou me movimentando muito (essa é minha maior barreira no momento, a inércia).

 

Penso cada vez mais que sem atenção a nós mesmos, constantemente, não é possível ser saudável.

 

Me perco nas coisas do dia a dia, e me deixo de lado, vivendo no automático. Como se eu fosse apenas uma engrenagem na grande máquina do mundo. Acho que é urgente trazer mais consciência para o dia a dia, seja para comer, cuidar-se, movimentar-se, conversar com as pessoas. Estar presente.

 

O celular, esse mesmo que serve pra escrever esse texto, me ajuda a desconectar do presente. Me ajuda a ignorar não só os outros ao meu redor, mas a mim mesma.

 

Esse peso que sinto carregando em excesso no meu corpo é consequência da minha desconexão comigo e com o meu entorno.

 

Não sei ainda como mudar, mas estou determinada a voltar aos exercícios de presença que a nutricionista me propôs, de notar o que se passa comigo enquanto me relaciono com mundo, me observar profundamente e (parece um paradoxo, não?) ser mais ativa.

gota d’água

junho 7, 2017 Leave a comment

Passei o dia hoje falando de diversidade e inclusão para funcionários de uma planta industrial, de todas as idades e tipos e gêneros.

 

A última parte foi só com mulheres — respondi perguntas sobre questões de gênero e desafios que enfrentamos, com a ideia de manter esse assunto vivo, e propor mudanças construtivas e constantes, com a ajuda delas e dos homens também (faço uma palestra específica pra homens chamada “homens como aliados”, que é bem legal).

 

Várias me procuram depois das palestras pra contar suas questões específicas, e gosto muito de poder ajudá-las, talvez seja a parte mais legal do trabalho.

 

E veio essa mulher, já na casa dos 50 anos, e me contou que perdeu um filho (ela tem 3), não faz muito tempo. Que participa de um grupo de apoio de mães que perderam filhos, e que se deu conta hoje de como a sociedade massacra os homens que sofrem. Ela se fortalece (na medida do impossível, né, porque perder um filho, pessoal, não tem nome) com o apoio das demais, mas seu marido, ela me conta, não fala sobre isso. Se recusa a ir à terapia por motivo de ‘homens não fazem terapia’, não chora pelo mesmo motivo, e sofre calado, “se muere por dentro poco a poco”, me diz ela.

 

Homens não são vítimas e não passam pelas mesmas coisas que nós, mas que sociedade horrível que construímos, na qual mulheres não valem nada, são seres de segunda categoria, e homens não se admitem como humanos!

 

E essa mãe, vivendo um dia de cada vez, aprendendo a conviver com sua dor que não acaba nunca, e ainda assim atenta ao que podemos fazer pra mudar o mundo, e ser mais felizes.

 

Eu me senti tão pequena.

 

Mas é assim, às vezes: uma gota d’água que pinga na hora certa e no lugar certo, e que com sorte transborda e transforma.

 

(Eu sei que eu tento!)

un-coach

junho 6, 2017 Leave a comment

há 3 anos mergulhei de cabeça nas discussões sobre gênero, diversidade em geral (inclui etnia, orientação sexual, gênero, introversão x extroversão… tudo que eu consegui pensar), e há mais tempo ainda já estava envolvida em ajudar pessoas a se desenvolver em suas carreiras. sou líder de pessoas há 15 anos, e essa é a parte que mais amo do meu trabalho.

tenho feito palestras nos últimos 10 anos, nada profissional, sempre como voluntária, dentro e fora da empresa. falo normalmente para profissionais (de IT ou não), interessadas em se desenvolver como executivas ou líderes. no ano passado recebi meu primeiro convite para falar para moças jovens sobre carreira, e foi incrível. percebi o quanto eu estava desconectada dessa realidade de quem ainda não começou ou está começando sua carreira, e mais desconectada ainda da realidade de quem não está no mundo corporativo e nem quem entrar nele. na época em que eu era menina, “trabalhar em firma grande” era o que havia de mais maravilhoso como meta e resultado na vida.

hoje as coisas são muito diferentes — inclusive por causa da tecnologia — e isso é sensacional. levei um chacoalhão de realidade e depois do choque, eu amei.

fiz essa apresentação aqui pra 2 audiências bem jovens e recebi perguntas muito legais, e a maioria gostou e me procurou pra falar mais. não tenho intenção alguma de dizer pras pessoas o que fazer, o que quis foi contar um pouco da minha trajetória, das coisas que penso e sinto. dou algumas dicas bem simples que acho úteis, que podem ajudar a organizar os desejos e demandas (que vêm de diferentes fontes) também.

me perguntaram na última palestra: “você acha que todo mundo deve fazer faculdade?”

e eu respondi, já avisando que os pais iam me odiar: NÃO.

a gente deve fazer o que se vê feliz fazendo. e “feliz” aqui é bem amplo, e passa também por assumir a responsabilidade por suas escolhas. não há opção na vida completamente boa, não há como escolher sem abrir mão de outra coisa… o que dá pra fazer (e muito recomendo) é tentar se entender melhor, tentar entender melhor o mundo ao redor, e fazer escolhas que sejam alinhadas com o que pensamos e sentimos.

o problema é que muito mais fácil falar do que fazer 🙂

a boa notícia é que SEMPRE é tempo de mudar, rever o que escolhemos e tentar diferente.

e o título é porque, depois desse papo com a molecada, fiquei pensando que sou quase uma coach ao contrário — ao invés de sugerir carreiras, e dar dicas de desenvolvimento de competências complementares, tento convencer as pessoas a ouvir mais seu coração, não insistir em melhorar em coisas que NÃO são boas, e ao invés disso valorizar o que já têm de bom e buscar explorar mais isso.

não vou ficar rica fazendo isso, mas fico bem feliz 😀

sobre ser vista e ouvida

Maio 29, 2017 Leave a comment

Conflito não é sinônimo de violência.

 

Discordância não é sinônimo de briga.

 

Às vezes a violência e a briga são necessárias, tem coisas que não mudam sem isso. Há momentos em que só tirar o chão e chacoalhar estruturas funciona pra mudar.

 

Mas nem sempre.

 

E percebo que tem horas que a briga e a violência são menos uma forma de melhorar o mundo e mais uma forma de fazer o mundo olhar pra você e reconhecer que você existe.

 

(Como a criança que enfrenta os pais ausentes porque qualquer atenção, até a surra, é melhor que nenhuma)

 

Eu existo! Estou aqui, e quero ser enxergada e ouvida.

 

Mas tento todo dia, de coração, ser percebida sem precisar atropelar ninguém pra isso.

das tantas coisas que não entendo

dezembro 12, 2014 Leave a comment

punheta emocional. ficar pensando como seria, como será, como poderia ser e não foi, e o inútil exercício do “e-se”.

por que procurar motivos outros, escondidos, desconfiar, testar, colocar à prova? não é muito mais fácil interpretar as coisas da forma mais simples, e óbvia, ao invés de inventar histórias elaboradas?

as pessoas frequentemente são mais simples do que parecem, aprendi. não existem grandes complexidades, males ou benevolências. mais comum é a distração, o impulso, o agir automaticamente, o hábito ou vício. quem de nós pensa tanto assim pra fazer o que faz no dia a dia?

às vezes a gente só esquece, ou lembra; não tem intenção, maldade ou desejo de agradar. as coisas muitas e tantas vezes são exatamente o que são, algumas vezes são o que parece, e raramente são algo extraordinário.

que bom. o extraordinário cansa. pensar demais cansa muitíssimo. sentir sentimentos imaginados, então? nossa, que labor.

gosto mais da simplicidade, e ejeto pensamentos e sentimentos ilusórios, punheteiros, obsessivos.

aqui, agora, neste instante, e respondo sem pensar, sem sentir, curto-circuito.

**

‘segue o teu destino

rega as tuas plantas

ama tuas rosas

o resto é sombra de árvores alheias’

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De como a gente fica mal acostumada depois que sai do inferno

junho 1, 2014 Leave a comment

Aqui no interior é difícil dirigir, porque as pessoas são (1) desatentas ou (2) folgadas / sossegadas, ou as 2 coisas juntas. Xingamentos, ameaças e stress gratuito definitivamente não acontecem com frequência. Para ser sincera, em 6 anos aqui nunca me aconteceu nada nem parecido com o episódio de hoje em SP.

16h, rua tranquila. Eu paro para fazer uma conversão, na esquina, vejo um carro vindo e calculo que posso entrar. Entro, dá tranquilo, o cara nem precisou frear, mas… Ele ficou bravo que eu entrei. Aparentemente eu não podia ter entrado na frente dele, mesmo dando tempo, mesmo sem “fechar”.

Demorei a perceber um senhor (60, 70 anos?) num táxi COM passageiro, parado em fila dupla do meu lado, aos berros. Meu carro é alto, eu estava no viva voz e não notei o escarcéu. Não abri o vidro, fiz sinal que não estava escutando e indiquei com as mãos tipo “blá blá blá” e fiz tchau. O trânsito andou, eu também, ele ficou pra trás.

O trânsito muito lento, eu a 20km/h, quando chega a 1a saída eu sinto uma batida no meu carro! O senhor estava atrás de mim, esperando a 1a saída para bater no meu carro e “fugir”, que foi exatamente o que ele fez. Olhei pra trás, quando senti a batida, e ele “fugindo” fez um sinal corporal de “viu? Bem feito!” ou algo assim. Uma vingança porque eu ousei entrar na frente dele e depois ignorá-lo na sua fúria histérica.

Eu realmente não me incomodei nem um pouco com a reação, e nem mesmo com a batida. Olhei há pouco o resultado — alguns arranhões que devem sair com polimento, eu acho.

Muito pequeno, o estrago no carro. Realmente irrelevante pra mim, que não dou bola praquele monte de ferro que me transporta. Não senti raiva e sequer me ocorreu ir atrás e nem xingar. Eu dei “tchauzinho” depois que ele me bateu.

Fiquei surpresa com minha tranquilidade. Fosse outro tempo, eu teria entrado no bate-boca e xingado, sei lá. Teria raiva. Dessa vez eu senti, de verdade, muita pena. Desejei que ele seja feliz, quem sabe, e que um carro entrando na frente dele não seja assim tão revoltante a ponto de estragar o próprio carro pra tentar se vingar.

Só consigo pensar que numa próxima ocasião tentarei ser gentil, e dar passagem, pra ver se compenso o mal que alguém possa pensar que eu fiz.

A vida sem ódio e stress é infinitamente melhor, gente. Tou aqui pra contar isso pra vocês: mudem enquanto podem. Ser feliz depende só das nossas escolhas mesmo.

Paz. 

Categories: elucubrações, opiniões

para minha mãe

Maio 1, 2014 Leave a comment
Mãe é norte, lastro, âncora. Sopa quente num dia frio, chá na doença, cama fofa quando estamos cansados. Pra mim, mãe é acordar de manhã junto com o sol com uma carícia, um cafuné, e com cheiro de café recém passado. É a cozinha sempre cheirosa de coisas boas, é roupa lavada e dobrada com cheiro de sol. É a estante de livros cheia de histórias novas, uma pilha de LPs e inúmeras fitas cassete compradas na Praça da Sé, com as canções do momento. É o salto alto, a maquiagem, a beleza além de qualquer alcance (minha mãe sempre foi a mulher mais bonita que eu conheço), o sorriso que ilumina a casa toda, mesmo nos invernos mais tenebrosos. Mãe é também virar amiga, quando a gente deixa de ser criança, e saber ouvir e silenciar, quando não tem mesmo o que dizer. E, pra sempre (porque ela vai viver sempre dentro de mim), a voz da razão, aquela que me falta tantas vezes. A voz que diz “acredite nos seus instintos” e “não confie cegamente nas pessoas”. São 42 anos e ainda não aprendi, mas não é por falta da voz falar Nossa jornada é bonita. E quando a bússola quebrou, faltou, percebi finalmente que o trabalho dela foi perfeito, e agora eu também posso ser Norte, lastro, bússola. Foi com orgulho que dei a mão e o colo pra ela, que sempre foi meu chão.

Ninguém “é” mãe. A gente se torna, quando encontra em si a força e amor para estender a mão, olhar no olho e dizer a verdade, acolher quando não há o que dizer, e ir pra cozinha passar um café quando tudo o mais falhar.

Me tornei mãe bem antes de sê-lo biologicamente. Além da minha mãe, minha pedra fundamental, tive muitas mães nessa vida, várias delas homens. Meu filho me ensinou (devagar, e ainda ensina) a ser mãe de um ser humano em formação, a experiência mais louca e incrível que já vivi. A parte mais bonita de ser mãe de um ser humano que se forma é reviver, cheia de espanto, o processo de tornar-se humano. E assim também apaixonar-se pela vida, pela delicadeza dos detalhes milagrosos que assistimos todos os dias.

Ser mãe é aprender a enxergar (e amar) a trama da vida.

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Mami Vera, sempre te amei, mas você tinha razão: a gente ama ainda mais nossa mãe depois que tem filhos. Obrigada por me escolher, e por sempre me apoiar.

breaking bad: uma reflexão

novembro 5, 2013 Leave a comment

(contém spoilers. se não quiser saber nenhum detalhe da série ou do personagem, pare de ler já!)

só comecei a ver a série agora, coisa de 1 mês atrás, quando acabou. a comoção com o final da série (e o fato de ter um final) me animaram — já tinha ouvido falar que era boa, mas o tema (drogas, tráfico) não me empolgou. mal sabia eu que esta série trata não de um assunto específico mas do que é ser humano (e neste caso muito mais pro lado do mal que do bem).

a série toda me irritou e incomodou profundamente, de forma progressiva, até seu final. o que pra mim é sinal que ela é excelente, e cumpre seu papel como arte. por que consumir arte se não for para se sentir movido, afinal? algumas causam enlevo, estético ou intelectual, outras causam incômodo. aprecio ambos os estímulos.

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pra mim, walter white não é a “encarnação do mal”, como já li por ali, ele é o ego na sua forma mais pura. ele concretiza a completa desconsideração por tudo o que não é ele mesmo ou do seu interesse, sem culpa nem medo. suponho que iminência da morte tenha despertado nele o “eu” que por anos e anos ficou soterrado pela mediocridade da vida que levava. e não era uma vida má, francamente, só que ele não estava vivendo de verdade, parecia em estado de torpor. rotina e simplicidade não são sinônimos de mediocridade; sobreviver sem paixão é. ele vivia no limbo, até que a morte próxima fez com que ele se lembrasse que era um ser vivo! curiosíssimo. precisamos da sombra da morte pra lembrar de viver. cada vez que alguém próximo morre, lembramos que estamos vivos.

várias coisas me incomodaram — a falta completa de limites de WW; as mentiras; a manipulação das pessoas ao seu redor (em especial jesse); o orgulho cego, levando a decisões estúpidas. nada além dele mesmo, das suas vontades, importava. ele envenenou uma criança, matou direta ou indiretamente várias pessoas, manipulou todos ao seu redor o tempo todo. e a cada episódio, conforme ele ia ficando mais ousado, mais agressivo (e mais bem sucedido), o meu ódio por ele ia escalando. o homem que passou a vida fazendo tudo o que os outros queriam foi para o extremo oposto e passou a fazer somente o que queria, custe o que custar. como se não houvesse amanhã (não havia mesmo, pra ele), como se ninguém mais importasse (e não importava mais, de fato). nem mulher grávida, nem bebê, nem filho, amigo, vizinho, criança, velho, adulto, nada. o mundo agora girava ao redor dele. atrapalhou o caminho? mata ou manda matar. quer? rouba e toma.

e as mentiras! ele mente desde o começo, quando o mundo caiu. talvez tenha mentido a vida toda, nas pequenas coisas, e só aumentou a extensão das mentiras, sempre fugindo da verdade que admite só no último episódio — “i did it for myself”. não pela família, nem os filhos. por ELE. talvez pela primeira vez na vida.

walter sempre foi um homem intelectualmente brilhante mas um fracasso para fazer as coisas acontecerem, pra demonstrar para o mundo sua capacidade. até que encontrou uma atividade que além de alimentar seu ego imenso, que passou fome por anos e anos, rendia quantidades de dinheiro inimagináveis. começou no mundo da produção de drogas com a meta de ganhar US$700k como “poupança” e acabou com US$80M, que sequer podiam ser gastos. o dinheiro tornou-se mero detalhe, o importante era provar para o mundo (pra si mesmo também) que ele era genial.

a forma que seu cunhado o tratava desde o início dá a exata dimensão da auto-estima destruída de walter, da ruína que era sua auto imagem e a imagem projetada. hank o tratava como um velho inútil, um banana. e era assim ele era, até que não havia nada mais a perder.

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achei chocante (sem moralismo ou puritanismo) a relação direta entre a sexualidade de walter e seu mergulho de cabeça na violência, bem explícito na temporada 1 e depois deixado de lado. a cada passo dado em direção ao mundo dos “fora da lei”, a cada morte causada, sua energia sexual se ampliava a ponto de ficar assustador. um homem das cavernas moderno.

a relação entre testosterona e violência é fascinante. achei muito interessante a redescoberta da masculinidade de WW no papel de provedor, tomador de decisão, “líder”, ou seja, todos os arquétipos do que é ser “homem”. sua insistência em ser provedor, e não depender de caridade é quase comovente (se não fosse tão e absurdamente movida pelo puro e simples orgulho). o desenvolvimento de WW como homem na trama é bastante intenso conforme ele se firma como heisenberg. não mais um professor sem graça de meia idade, mas um perigoso mestre do mundo das drogas, que mata-e-faz-acontecer.

mas ele erra a mão, como todo homem-brucutu, e passa o resto da história sendo rejeitado por skyler, por puro medo ou aversão.

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e tem as cores da série, que me chamaram a atenção desde o início (a mais óbvia é o roxo do universo da marie). toda uma linda história paralela, toda contada através das cores do ambiente e das roupas dos personagens.

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vários críticos ficaram incomodados (embora sem demérito à série) com a falta de fechamento de tantas histórias paralelas — e os white? e o dinheiro que ele deixou? e a descoberta do assassinato de hank? e como ficou jesse no final? eu também gostaria de saber mais sobre essas histórias, mas o episódio final, 100% focado em walter, foi perfeito, justamente por ser absolutamente centrado no protagonista e seus quereres.

ao fim e ao cabo, tudo se resumia realmente a ele. aquele sorriso na hora da morte, dentro do laboratório (que não era seu, mas não importa) denotando o processo químico tão puro e especial que o consagrou como heisenberg, “the man”, resume tudo: ele morreu como protagonista, cheio de testosterona, dono da situação, com vida e morte em suas próprias mãos. ele deu um grande e enorme “foda-se” pro câncer, que foi o gatilho para o processo todo, mas que no final não o matou.

ele saiu de uma vida de bunda mole, levado pelas circunstâncias, sempre coadjuvante e surpreendido por uma doença que terminaria subitamente sua existência medíocre para uma morte com roteiro, cheia de significado e com mensagem: “sou o cara!”.

morrer no controle é melhor que viver à deriva?

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algumas pessoas alegam que todos temos um pouco de WW em nós, por isso ele é tão fascinante. entendo e concordo, no limite. mas não me identifiquei com ele em nenhum momento — seja na nulidade pré-heisenberg, seja na versão technicolor de mastermind. ele parece jekyll & hyde, e acho que essa intensidade dos opostos é o que me incomoda e causa aversão. não gosto dos exageros, do drama. luto para que meu ego não se torne dono de mim (ha — como se tornou de WW!), para viver uma vida feliz, simples, mas com cor (diferente da vida bege de WW pré-meth-cooking).

o que esclarece meu ódio e aversão a WW, qualquer que seja a fase. ele é tudo que eu NÃO quero ser e evito.

que bom que ele morreu. que bom que a série acabou.

que bom que ela existiu, e me fez lembrar de tudo o que me move, o que quero e não quero.

e que bom que não é preciso ter câncer terminal para repensar a vida, e nem é preciso morrer para provar nada pra ninguém.

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que série foda!

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quando sua mãe diz que é gorda

outubro 23, 2013 Leave a comment

texto lindíssimo, traduzido neste blog: uma carta de uma mulher à sua mãe, contando como se sentia quando a mãe se auto-depreciava, e como sempre a viu como uma mulher linda.

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cada vez que uma mulher que influencia outras (direta ou indiretamente; de propósito ou não) se deprecia, ela atrapalha a auto estima das que se inspiram nela ou a amam.

cada vez que uma mulher comemora que “pode” usar a roupa X ou Y ou fazer Z porque está magra, machuca e atrapalha as demais ao seu redor, que procuram por referências e inspiração.

o que fazer? parar de julgar nossa aparência e nosso corpo, para o bem é para o mal. tratar nossos corpos como instrumentos que são, recipientes, nossa casa. com respeito e amor. assim, ensinamos aos nossos filhos, amigos e família que é OK ter qualquer tipo de corpo. parar de valorizar tanto emagrecimento ou body building. simplesmente parar de valorizar o que não devia ter tanto valor.

narciso vai gritar. deixa ele morrer de fome e sede, já vai tarde.

resgate de memória

outubro 16, 2013 Leave a comment

nos últimos dias tive a oportunidade de rever aspectos da minha vida através da memória. não “penso na vida” todos os dias, até porque sou muito prática e me concentro bastante em fazer as coisas acontecerem no dia a dia. não passo tempo revivendo o passado e nem elucubrando muito sobre o futuro, atividades que considero tão úteis quanto ver TV. mero passatempo. mas nesses dias reencontrei um amigo que fez parte da minha vida há mais de 20 anos, e fiz um resumo do que houve neste tempo, e como estou hoje, o que acabou sendo um grande exercício de reviver o passado. e graças a uma conversa com uma amiga que acabou de se separar, acabei também relembrando passagens da minha história que há muito tempo não vinham à tona.

também tive a oportunidade nos últimos dias de fechar um ciclo que vinha me incomodando, por interpretá-lo como círculo vicioso. encerrar uma etapa e ir para a próxima também requer alguma revisão, então relembrei, pensei, analisei o que vivi por outro ângulo, já sem a paixão do momento, o que ajuda a colocar coisas nos seus devidos lugares.

(digo de passagem que é impressionante como meus 3 anos de terapia foram um divisor claro de águas. sem medo de errar digo que minha vida se divide em antes e depois da terapia, e mudou pra muito melhor. por  mais que eu creia que investir na saúde e equilíbrio mental seja tão importante quanto comer bem e se exercitar, também creio que terapia infinita não é boa ideia. acomoda, vira muro de lamentações, penélope tecendo até o fim dos dias. meu processo terapêutico me ensinou a lidar com situações e pessoas de uma forma mais saudável, objetiva. sem drama, sem punheta mental.)

relembrar e reviver algumas coisas foi curioso — percebi o quanto minha vida mudou, e quantas decisões eu tomei pra que ela mudasse. não só nos últimos 20 anos, como era de se esperar (entre eu-recém-formada e eu-mãe-e-executiva há um abismo, claro), mas nos últimos 5 anos. ao olhar de longe, de cima, vi uma trajetória clara. é como se eu olhasse minha vida no google maps, e fosse afastando até poder ver origem-destino, bem de longe. e vi um caminho que eu construí e escolhi, do qual tenho muito orgulho e amo. a despeito dos muitos erros que cometi no caminho, seja tomando decisões equivocadas ou errando com pessoas que cruzaram minha vida, o trajeto se manteve. pequenos desvios, aqui e ali, não me atrapalharam. não peguei nenhuma encruzilhada da qual me arrependo, e que demandaria um retorno longo e doloroso.

todos os meus erros e equívocos não me desviaram do caminho. e o mais curioso é que eu nunca soube (não sei ainda, talvez) onde quero chegar. nunca fui do tipo de pessoa que se coloca metas de longo prazo, que tem planos mirabolantes e anota conquistas no papel pra “pedir pro universo” (acho isso tudo uma bobagem sem fim). minhas metas são sempre de curto prazo, muito práticas. e ainda assim, revendo minha história, existe um norte não-físico, tão claro: ser mais simples, ser tranquila, ser feliz.

fiz um resumão da minha vida e concluí que: faço um trabalho que me dá grande prazer intelectual e orgulho, que me proporciona relacionamentos interessantes, com pessoas inteligentes, complexas; meu núcleo familiar me traz felicidade e desafia constantemente. não é fácil manter qualquer relacionamento, mas percebi que me nunca é, e que o importante é o desejo de continuar no mesmo caminho (e isso está claro); mantenho uma relação legal e tranquila com minha família e amigos, sem grandes badalações, sem cobranças; moro num local que amo, e tenho tudo o que preciso para viver; viajo com frequência, o que é um fator importante de felicidade pra mim; tenho saúde, gosto de mim mesma, todos que eu amo estão bem.

lembrar minha história me fez ver como estou hoje muito melhor que ontem e antes de ontem e antes-de-antes. justamente como acredito — esta, a atual, é a melhor época da minha vida. há coisas específicas que foram melhores em outras épocas? claro que há. todas pontuais, e eu já aprendi que não se pode ter tudo, sempre, tudo ao mesmo tempo. já não crio mais essas expectativas, simplesmente agradeço pelo que tenho, olho com amor o que conquisto, abro mão do que já não tenho mais, não é meu. já foi.

e no fim das contas, percebi que o fato de ser feliz a maior parte do tempo tem a ver não com o caminho, mas com meu andar. sem tanto peso, sem destino certo, fazendo a trilha conforme ando, me adaptando e deixando no caminho coisas que não me fazem feliz, que não agregam.

são as escolhas instantâneas, aquelas no decorrer de cada dia, que fazem a diferença. não houve e não haverá um evento, uma mudança cósmica e mágica, uma escolha sensacional. há o abrir os olhos de manhã, fazer todas as pequenas escolhas no decorrer do dia, e a gratidão por estar aqui vivendo essa vida, do jeito que eu escolhi.

o que traz felicidade é ter escolha. eu tenho, e sou.