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concurso de beleza e talento

Janeiro 3, 2018 Leave a comment

[dez-2016]

(Você que não gosta de ouvir sobre sonhos alheios, pule este post :))

 

Faz um tempo que não sonho assim, vividamente, mas essa noite o sonho foi legal demais pra não registrar.

 

Eu fui convocada para participar de um concurso de beleza e talento, era como uma responsabilidade que eu tinha, um compromisso que não podia recusar (como se fosse coisa de trabalho). No sonho eu era eu — not beauty pageant material at all. Quarentona, gorducha, pele ruinzinha, eu mesma. Que diabos eu vou fazer num concurso de beleza?!

 

Aí descubro que minha “concorrente” é Lea Michele. E é também concurso de talentos, certo? Vamos cantar, concorrendo 😀

 

Pois não só eu topo, tranquilona, como escolho um vestidão dourado antigo, decotado nas costas, salto altíssimo. Os peitos dão um trabalho insano pra caber no vestido (lembro de ficar na frente do espelho ajeitando!), mas cabem, e eu me acho linda. E sou feminista até no sonho — pensei “que merda, eu teria medo de andar vestida assim na rua”.

 

Cheguei sozinha no estúdio, seja lá onde fosse, pro concurso, já montada. O esquema da Lea era Hollywood, e eu sozinha esperando a hora de entrar. Sozinha não — nada menos que o Brad Pitt, que aparentemente era meu amigo íntimo ficou conversando comigo sobre a vida, enquanto esperávamos. E eu o consolei, ele estava meio chateado. Dei um abraço nele daqueles de amigo, tipo “tudo vai ficar bem”.

 

E então me dei conta que precisava de uma música! E assim, de bate-pronto, decidi cantar “All I ask of you”. Porque eu gosto, porque combina com concurso e porque eu queria dedicar a música à Lea, que obviamente era a melhor de nós duas.

 

Eu ouvi todos comentando o quando ela havia ensaiado, e como era perfeccionista. E eu ia improvisar. Mais velha, mais feia, menos talentosa e menos preparada. E completamente relaxada, tranquila e feliz por cantar uma canção que eu gosto pra ela, que admiro. Sozinha, sem stress, me sentindo bonita e feliz.

 

O sonho acabou, não vi as apresentações e nem o final. Mas não importa, né, gente?

 

Obviamente EU GANHEI! <3

Categories: feminismo, mulherzice Tags:

quando sua mãe diz que é gorda

outubro 23, 2013 Leave a comment

texto lindíssimo, traduzido neste blog: uma carta de uma mulher à sua mãe, contando como se sentia quando a mãe se auto-depreciava, e como sempre a viu como uma mulher linda.

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cada vez que uma mulher que influencia outras (direta ou indiretamente; de propósito ou não) se deprecia, ela atrapalha a auto estima das que se inspiram nela ou a amam.

cada vez que uma mulher comemora que “pode” usar a roupa X ou Y ou fazer Z porque está magra, machuca e atrapalha as demais ao seu redor, que procuram por referências e inspiração.

o que fazer? parar de julgar nossa aparência e nosso corpo, para o bem é para o mal. tratar nossos corpos como instrumentos que são, recipientes, nossa casa. com respeito e amor. assim, ensinamos aos nossos filhos, amigos e família que é OK ter qualquer tipo de corpo. parar de valorizar tanto emagrecimento ou body building. simplesmente parar de valorizar o que não devia ter tanto valor.

narciso vai gritar. deixa ele morrer de fome e sede, já vai tarde.

você não precisa fazer cinquina no “bingo da vida”

junho 4, 2013 14 comments

gostei muito dessa matéria sobre a oprah em que ela fala um pouco da sua relação com corpo/peso. vou traduzir alguns pedaços que achei mais interessantes e também colocar meu ponto de vista e vivência sobre o assunto.

peso/aparência física tem sido um assunto importante pra mim desde menina, pois eu era a “gordinha” da família. minha irmã sempre foi magrela, minha mãe sempre teve um corpo lindo (nunca foi magra, mas longe de ser considerada gorda tampouco), e eu… era gorducha. comecei a notar o quanto isso era um problema com 9 anos, mais ou menos.  nas brigas, ou no momento de provocação, era sempre “sua baleia”, “sua gorda”, etc. não sei dizer porque ser gordo deve ser motivo de vergonha, mas fato é que me envergonhava de sê-lo. e nem era GORDA, sabe? rechonchudinha, só. mas essa condição me colocava em desvantagem, e era sempre associada à preguiça, lerdeza, desleixo, “decrepitude” (sim, e vou chegar lá).

cresci e descobri que as coisas são assim no mundo, não era algo específico da minha família. ser gordo é sinônimo de ser feio, lerdo, preguiçoso, desleixado, acabado. “ih, olha lá: casou e largou mão!”; “quanto mais velho, mais gordo”; e eu poderia passar o dia aqui dando exemplos da associação de gordura com coisas ruins cuja correlação com o peso não é necessariamente verdadeira. há magros preguiçosos e desleixados; há gordos dispostos e saudáveis. existem inclusive estudos mostrando que atividade física está mais relacionada à saúde que o peso. ou seja — se você for gorducho e ativo, está melhor que um magro sedentário.

não quero aqui defender os gordos, vejam bem, eu mesma quero deixar de ser tão gorda. a questão é que em qualquer julgamento ficam em segundo plano a condição de saúde, como o sujeito se sente ou se vê no espelho: se for gordo, tá errado e pronto. gordos são nojentos, feios, piores. e se você é gordo, é porque tem preguiça ou é excessivamente auto-indulgente. toda uma gama de julgamentos é feita cada vez que se olha pra alguém gordo, sem considerar nenhum dos inúmeros outros aspectos que o compõem. não importa se ele tem exames médicos ótimos, vida sexual ativa, faz suas caminhadinhas, se alimenta com comidas legais, tem uma profissão, é feliz. você não pode e não deve ser feliz e saudável se for gordo, não combina. alguma coisa está errada com você, se é gordo.

vamos lá, da perspectiva de uma gorda crônica: não existe milagre e nem maldição em relação ao acúmulo de gordura. se você consome mais do que gasta, a gordura acumula, é assim que nosso corpo foi programado pra funcionar. ou seja: acumular gordura é sim o resultado de comer de mais e gastar de menos. gordura é reserva, é gestão de risco para tempos de vacas magras, é proteção contra o frio (e, se quiser extrapolar para o âmbito emocional, proteção de forma geral). gordura é uma parte do seu corpo físico, como os músculos, nervos, ossos, sangue. alguns corpos têm mais reserva, outros têm menos. só.

e é só isso — é só um corpo, uma parte de um corpo físico! que, por outro lado, é apenas parte do que torna você o que é. não “somos” nossas medidas, assim como não “somos” nosso endereço e nem nossa profissão. medir quem você é pelo seu peso (e pautar sua vida por isso) é tão estúpido quanto medir quem você é pelo seu QI ou sua profissão.

a oprah diz assim: “eu achava naquela ocasião que ser magra fazia de mim uma pessoa melhor”. ela conta que recusou ir a festas porque não estava magra o suficiente. tornou-se obcecada com a própria aparência e com o peso (e passou a vida oscilando entre estar magra e gorda, vivendo em função disso). por que devemos deixar a quantidade de gordura do nosso corpo, peso ou formato da bunda interferir tanto na nossa vida, na convivência com outros seres humanos, na relação com o mundo?

“você não é o seu corpo”, ela diz (e eu concordo demais!). “[o ego] é doentio. é ardiloso, esperto, enganador. é um impostor, impondo-se ao seu ‘eu’ real. você não é seu status. você não é sua posição social. você não é seu carro, não importa quão chique ele seja. você não é sua casa.”

é difícil escapar dessa armadilha de acreditar que você “é” basicamente a sua aparência. afinal, somos bombardeados dia e noite com críticas subliminares, nos dizendo como devemos parecer e ser. magros, bonitos, ricos, calmos, chiques, brancos, sorridentes, felizes, bem-sucedidos. e dessa receita toda aí, convenhamos, ser magro é mais fácil que ser bem-sucedido ou feliz, é uma meta ao alcance de basicamente todo mundo. não é à toa que tantos de nós lutam com unhas e dentes pra completar pelo menos essa pedrinha do “bingo da vida”. você é magro, branco, tem curso superior? uau, fez um terno!

que se danem as especificidades de cada ser humano, seu momento, sua genética, seu apetite, sua preguiça, oras. por que todos precisam ser igualmente magros, saudáveis, de pele linda e cabelos esvoaçantes? só ganhando no “bingo da vida” é que o indivíduo é feliz? a se pautar pelas inúmeras matérias sobre saúde e beleza, sim. cremes, dietas milagrosas, tratamentos, pílulas, séries de exercício. tudo pra que você se enquadre no ideal do sujeito saudável-e-feliz.

com um senão: o sujeito geralmente não é feliz. porque, graças ao seu ego dominante e uma distorção da autoimagem (nunca adequada e equivalente ao ideal), sempre falta alguma coisa, a cartela nunca está completa. emagrece, e fica flácido; faz exercício, mas o tempo é inadequado; está caminhando, mas devia estar fazendo spinning; sobra aquela gordurinha na barriga, que tal uma lipo?; a perna é grossa demais; a perna é fina demais; tem cabelo branco!

o pior dos pecados? envelhecer.

uma amiga (que ela me perdoe o exemplo, não é uma crítica pessoal, mas uma questão que eu acho muito pertinente do ponto de vista feminista) perdeu montes de peso, ela era uma mulher que eu achava normal (nunca, jamais categorizaria como gorda) e que se tornou magra. está muito bonita, e (acho) feliz com sua aparência atual. dia desses ela resgatou de seu guarda-roupa uma peça que comprou e usou aos quinze anos (ela hoje tem perto de 30, acho), e estava triunfante porque voltou a ter “corpinho de quinze anos”.

isso não é exclusividade dela: o sonho de consumo da mulher moderna é ter corpo (rosto, pele) de quinze anos, já notaram? ser uma eterna menina-moça, com corpinho quase infantil, só um anúncio de seios e curvas, pele e cabelos ainda de bebê (vide modelos). é o inverso da maturidade, das curvas da feminilidade madura, da mulher feita. queremos ser eternamente adolescentes. segundo algumas reflexões sobre o assunto, estamos nos tornando uma sociedade disfarçadamente pedófila. mulheres magras como meninas-moças, andróginas, peladas (tem homem por aí declarando que não faz sexo com mulheres que não se depilam!), pré-púberes. porque não há pior maldição e castigo que a passagem do tempo, os sinais de que nos tornamos finalmente adultas — pelos, peitos, curvas, rugas, os famigerados cabelos brancos.

pergunto: o que tem de errado em não ter mais quinze anos, ter peitos, curvas, rugas, cabelos brancos? por que perseguir eternamente esse ideal de aparência, e viver em função dele?

**

e que moral tenho eu, que estou lutando contra o peso, pra tocar nesse assunto? afinal não estou eu também cedendo ao padrão? estou convencida que não.

sou uma mulher de 41 anos, que nunca foi magra. estive muito mais gorda, e ainda assim era saudável (sem contar o sedentarismo, que é independente do peso). mas estava impossível comprar roupas, e subir um lance de escadas. eu carregava 87kg em 1.52m. independente de IMC e qualquer outra bobagem métrica dessas, é peso demais para um corpo tão pequeno carregar.

estou aqui na luta pra chegar a um peso que meu corpo pequeno possa carregar sem tanto esforço (e que me permita comprar roupas sem tanto drama). para os médicos, eu devia pesar menos de 50kg (a proporção de altura peso de modelos é algo como 50kg em 1.75m, pra vocês terem ideia). é ridículo — eu nunca pesei isso nem quando tinha 15 anos 🙂 minha meta é algo entre 60 e 65kg, o que ainda me mantém na categoria de gorda diante dos padrões estéticos.

meu ego acha que eu devia pesar 50kg, no entanto. porque seria um prazer inenarrável ganhar essa bolinha do “bingo”. vestir uma calça 38, quiçá tirar (e compartilhar, claro) fotos mostrando pro mundo que entrei na calça que não me servia desde os 18 anos. quem sabe até finalmente me sentir parte do seleto clube das pessoas-que-estão-no-padrão.

mas uma das minhas metas na vida (e mais importante que a meta de peso) também é domar meu ego. porque ele não sou eu; meu corpo não sou eu. sou bem mais que meu peso, altura e medidas. sou mais que meu colesterol, ou o número de minutos de caminhada que eu faço X vezes por semana. também sou o livro que eu leio, a história que conto, ou aquela ligação no meio da semana pra minha mãe pra pedir receita. sou o papo de trabalho com minha irmã, o filme com meu marido-e-companheiro, o passeio com meu filho, a barra da calça que conserto. o texto que escrevo, a música que cantarolo no trânsito. sou muito também a falta de atenção aos detalhes, os erros todos, os esquecimentos e as mesquinhezas.

meu peso é só, e tão-somente, um detalhe, uma parte de mim (e definitivamente não a mais importante). é aquela pontinha do iceberg, que por acaso todo mundo vê. e aliás é por isso que não falo muito da dieta, e nem do processo. é pouco, é quase nada, perto de tantas outras coisas que me interessam.

umas das coisas mais legais de chegar aos 41 (ou aos 38, ou aos 55…) é observar a distância daqueles 15 anos (ou 16, ou 18). existe uma ponte entre a juventude e a idade adulta, que não tem comprimento exato. ela aliás pode nunca aparecer, e você ficar do lado de lá pra sempre. há pessoas que nunca deixam pra trás aquela necessidade fisiológica de agradar ao grupo, de fazer parte, de pertencer, de se provar, de obter validação. é saudável, é parte do processo de aprendizado sobre relacionamentos, mas precisa passar um dia! ou você fica escravo da aprovação do outro, o que pode ser bem inconveniente.

cada um sabe de si, é claro. acredito que para algumas pessoas sua aparência É tudo, e é mesmo a parte mais importante do seu todo. mas que difícil deve ser para estas pessoas a simples passagem do tempo, não? uma luta inglória contra a realidade do envelhecimento, da transitoriedade da aparência e, em última instância, da morte.

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concluo que não, não tenho como meta ter corpinho de adolescente. sou bem feliz com minha idade, com meu corpo atual. pragmaticamente, quero poder comprar calças com facilidade, subir escadas sem carregar peso extra, amarrar os sapatos sem a barriga impedindo o movimento.

meu ego quer fazer ensaio sensual na playboy como a “tiazona enxuta” da vez. bolinha dourada no “bingo da vida”.

felizmente meu ego é só uma parte de mim, e não cedo à sua falta de noção. não preciso expor ou exibir meu corpo como troféu, pra provar que EU CONSIGO ser magra, ou que finalmente estou “dentro do padrão”. sou muito maior que ele, e quem manda aqui sou eu, a combinação de corpo e mente, ação e pensamento.

tudo isso pra dizer que tomei uma decisão importante na vida: já fiz como a oprah e deixei de ser feliz e viver porque “sou gorda”, mas jamais deixarei novamente o ego interferir na minha felicidade.

eu não sou o meu corpo. ele é que é meu 🙂

e neste caso, a ordem dos fatores altera demais o produto, acreditem.

dia da mulher — de novo!

Março 8, 2013 8 comments

pra mim todo ano o dia da mulher é um acontecimento. é meu aniversário, afinal, e AMO o dia do meu aniversário. sei que tem quem não goste (não entendo) mas eu adoro, e aproveito cada minuto com muita felicidade. é o meu dia, o dia mais feliz!

mas é inevitável: esse é também o dia de ser inundada com propaganda ruim “homenageando” as mulheres, receber parabéns, ouvir piadas (“e o dia dos homens, não tem?”) e ouvir mulheres xingando ou reclamando das “homenagens”.

sou feminista, casei com um homem feminista, tenho uma mãe feminista. conheço bem o significado do dia da mulher, e sempre que tenho oportunidade divulgo isso para os amigos, família, pra quem quer que tenha ouvidos pra ouvir. não é um dia para comemorar, mas antes para lembrar e refletir sobre a desigualdade ainda tão enorme no mundo e no brasil. conquistamos muito — aliás, nossas antecessoras o fizeram! todas as homenagens a elas! — e ainda tem tanto, muito a conquistar. é uma luta de todo dia, toda hora. é responder a cada manifestação machista, e ensinar meu filho a ser um homem feminista.

leiam esse artigo ótimo do sakamoto com alguns exemplos de machismo diário. e esse ótimo texto da clarah averbuck sobre o mesmo assunto.

porém nada disso me convence ou impulsiona a recusar uma gentileza, um abraço, um sorriso. não pesquisei aqui no blog pra ver se em algum momento eu reclamei do dia da mulher, mas se reclamei, desreclamo. não sei se é a idade ou simplesmente a experiência prática, mas afirmo que ser gentil e firme é a melhor forma de lutar todos os dias por um mundo melhor. pense bem, o que você conquista mandando alguém “enfiar essa rosa no cu” no dia da mulher? melhor faria você se protestasse e reagisse diariamente aos pequenos insultos, comentários, piadas, desigualdades. há o que precise de agressividade, briga, porrada mesmo, estou de acordo e quem me conhece sabe muito bem que saio na mão se necessário (e ganho, tá?), mas não há de ser um parabéns, um chocolate ou uma rosa.

acredito que o mundo também muda com a gentileza e não só com a porrada. que é mais fácil se fazer ouvir sem precisar gritar. minha experiência de 41 anos, completados hoje, confirma essa crença. sou melhor quando sou gentil, as pessoas me ouvem mais e melhor, as coisas mudam.

é bem possível que eu tenha recusado rosas no passado, que tenha xingado, e esperneado. hoje eu aceito a rosa, puxo pelo braço e, com um sorriso, conto uma história. explico porque é um dia de refletir, pensar e mudar. e nem todo mundo muda, claro, não é mágica afinal. mas a sementinha foi plantada, e eu garanto que elas sejam devidamente regadas. não é um trabalho de 1 dia, 1 encontro, é ação pra toda a vida. e eu não desisto.

já em relação a propagandas machistas de todas as naturezas (produtos de limpeza, cerveja, maquiagem, carros, revistas de beleza), sou bem mais dura: simplesmente boicoto. não compro. simples assim. podem arrancar dinheiros de outras mulheres menos esclarecidas. aqui deste bolso desta mulher muitíssimo bem sucedida vocês não tiram 1 centavo, seus abutres idiotas.

(too much for kindness, i guess :))

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e uma das coisas lindas que ganhei de aniversário foi esse vídeo delicioso feito pelo meu marido querido. espero que gostem tanto quanto eu gostei.

Categories: família, mulherzice, opiniões

o mundo é machista porque somos machistas

dezembro 10, 2012 1 comment

o excelente artigo do sakamoto me motivou a escrever esse texto. leiam, até para entender o contexto.

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também sentiria vergonha de ser homem ao testemunhar essa (infelizmente muito comum) atitude de desrespeito e agressividade. as manifestações do machismo retrógrado e ONIPRESENTE são muitas: vão do xingamento público na madrugada, passando pelo machismo nojento e velado dos meios de comunicação (TV, revistas), até os pequenos desrespeitos que sofremos todos os dias nós mulheres.

mas não só. os homossexuais estão no mesmo barco, porque continuamos num mundo que ensina que quem manda (OU DEVIA MANDAR, porra! se não manda, tá errado!) no mundo são os machos adultos brancos. Mulheres, negros, homossexuais — todo o “resto” — devem desaparecer ou servir a este seleto grupo.

como mulher, me posiciono na própria vida, batendo de frente (e forte) com quem não me respeita. Aprendi a me impor desde pequena (obrigada mami!), e quando possível ensino outras a fazerem o mesmo.

como mãe, deixo uma pergunta: você ensina sua filha a se impor? você ensina seu filho a respeitar as outras pessoas? ou ainda é da época de “prenda sua cabra que meu bode está solto?”

passou da hora de mudar. esses imbecis que xingam mulheres na rua aprenderam isso com alguém, senhores e senhoras. eles não nasceram assim. cabe a cada um de nós mudar essa realidade. pais, mães, educadores, amigos, irmãos.

na próxima vez que presenciar alguém próximo de você, do seu círculo de convivência, se comportando de forma machista, REAJA. se posicione. é sua obrigação como cidadão, como ser humano. fazer menos que isso é ser conivente.

blogagem coletiva, mulheres negras

novembro 23, 2012 4 comments

queria muito contribuir com essa blogagem coletiva. porque sou mulher, e sendo mulher sei o quanto pode ser difícil e incômodo sê-lo às vezes. e não estou falando de menstruar, TPM e nem parir. acho todas essas coisas inclusive muito interessantes, não sou do tipo que acredita que “ser mulher é sofrer”, até porque isso é papo de cristão atrasado.

é difícil e incômodo porque ainda há quem trate mulheres como inferiores, as considere piores ou más e invejosas intrinsecamente. como se caráter fosse definido pelo gênero. creio nas diferenças, mas não aceito pré-julgamentos ou rótulos. cada indivíduo deve ter a oportunidade de se provar, de ser antes de receber rótulos. ou sua vida torna-se mais difícil, e limitada.

queria contribuir ajudando a pensar e falar sobre a condição da mulher negra, mas como? não sou estudiosa do assunto, e sou branca. jamais saberei como é ser uma mulher negra, jamais saberei como elas são olhadas, (des)tratadas ou simplesmente ignoradas.

talvez isso seja a coisa mais importante que eu possa fazer: lembrar você, homem, que não, você não sabe o que é ser mulher, e nem sabe o que passamos; e lembrar aos homens e mulheres brancos que não sabemos e nem nunca saberemos o que é ser negro. ser negro não é como ter cabelo moicano, ou uma tatuagem, ou ser “diferente”. a menos que você tenha um chifre na cabeça ou seja azul, não compare sua condição àquela dos negros.

consegue imaginar uma situação em que sua mera existência e presença física causam aversão, incômodo e uma série de reações inconscientes que frequentemente culminam em julgamentos e às vezes violência (verbal ou física)? e que é simplesmente impossível “esconder” o que se é?

convivi com o racismo desde criança. aquele racismo mais nojento e grudento, o que não se acha racista. minha avó paterna, loura de olhos azuis, filha de espanhóis (só pra dar um exemplo. tenho inúmeros outros, de diferentes membros da família) uma vez disse numa ocasião familiar: “olha, contratei fulana pra trabalhar aqui em casa, estou espantada! sabe que ela é preta mas é muito limpinha?”. eu era criança ainda, e me lembro de pensar “como assim? o que a cor dela tem a ver com ser limpa ou não?”. lembro vagamente de algum protesto depois da frase (da minha mãe? meu mesmo?), ao que ela responde “mas gente, disse que ela é limpinha, isso foi um elogio!”.

pra não falar de comentários de “cabelo ruim”, e outros tantos que passam pelas frestas, quase desapercebidos. não duvido nada que eu mesma solte comentários racistas sem nem perceber, tão entranhado isso é no nosso dia a dia, na cultura brasileira. o racismo da piada, do escracho, que sempre tem a “saída pela direita” de dizer que era brincadeira.

não quero ser racista, não sou racista! quero ver e viver a diferença, com respeito pela etnia, opção, condição de cada indivíduo. tenho uma meta pessoal de responder a esse tipo de comentário “inofensivo” todas as vezes, não deixar pra lá. pedir respeito, explicar porque isso não se diz, porque é tão errado. é difícil e cansativo. e decepcionante, pra ser sincera. como amar e conviver com pessoas que pensam assim? não é fácil e francamente a convivência precisa ser limitada mesmo, ou fica impossível.

admiro mulheres que se impõem, se posicionam e não se deixam moldar e oprimir pelo peso do machismo; admiro em dobro as mulheres negras que têm o desafio ainda maior de superar o machismo e o racismo, que somados são mais que as partes juntas. saibam que no que depender de mim, dentro do meu minúsculo universo de influência, vocês serão defendidas. que estou criando meu filho para não ser racista e nem machista; que faço tudo o que posso para que aqueles que estão dentro do meu alcance de influência tenham mais respeito e admiração pelos que lutam por um mundo melhor, mais livre de preconceito e julgamento.

e, se me permitem um pitaco: deixem seus cabelos naturais. cabelos de negros são lindos! 😉

sou mais macho que muito homem

setembro 14, 2012 10 comments

por conta das redes sociais me vejo cada vez mais embrenhada em assuntos que sempre fizeram parte da minha vida, mas sem nenhum tipo de engajamento. confesso que engajamento excessivo me cansa e enche o saco. não faço parte de comunidades, grupos, não sou afiliada a nada e nem me considero parte de movimentos disso ou daquilo.

sou adepta do que chamo de “micro movimentos”. procuro fazer como aprendi — tentar influenciar os que estão ao meu redor, colocar luz sobre o que está obscuro. porque nem sempre é preciso realmente influenciar, basta trazer assuntos à tona, fazer pensar. as coisas mudam. às vezes lentamente, é verdade, mas sem dúvida.

acho que é isso que venho tentando fazer neste blog desde sempre e como venho fazendo na vida: conto minha história e minhas vivências, pensando que alguém pode ler e se inspirar (mesmo que não goste ou concorde), e tentar fazer diferente.

venho de uma família de muitas mulheres. todas elas subjugadas pelo machismo dos pobres e ignorantes (a esmagadora maioria das mulheres da família não estudou, considerando a geração da minha mãe e as anteriores). na verdade, as únicas mulheres que estudaram na minha família são do lado do meu pai, que tinham uma condição econômica melhor. mas enfim — todas elas de alguma forma massacradas pelo machismo, e obviamente repetindo boa parte do padrão.

mas não todas. algumas delas, entre elas minha mãe, nascida em 1953, foi um caso à parte. não estudou, porque não gostava ou nunca foi incentivada. era linda, de parar o trânsito. foi “presa” com 15 anos porque um policial mexeu com ela na rua (“elogiou” a bunda dela, parece), e ela mandou ele se foder. ela apanhou do pai na delegacia, na frente de todo mundo, porque era “vagabunda” e usava roupas indecentes, o que ela esperava?

saiu de casa aos 16 porque apanhava dos pais por ser muito “saidinha” e “boca dura”. engravidou (e casou-se) aos 18 anos. pensou em abortar, pagou o aborto clandestino e desistiu na última hora (era eu na barriga!). com 21 anos tinha 3 filhos. pariu a nós 3 em hospitais públicos, partos normais. praticamente não amamentou (no máximo 3 meses. não sabe explicar porque não conseguia, “não tinha leite”), nunca teve uma figura feminina que a apoiasse e ajudasse. deixou os filhos pequenos em casa para trabalhar fora o dia todo e garantir comida na mesa. foi bancária, levou porrada de polícia, cantada de muitos chefes e clientes escrotos. foi humilhada e sacaneada por colegas mulheres que se intimidavam com sua personalidade e sua aparência. sempre foi de temperamento difícil, nunca levou desaforo pra casa. de ninguém — de homem ou mulher.

foi ela que me ensinou a não ter medo do meu corpo, do meu sexo. a mostrar com orgulho meus peitos, minha bunda, meu sorriso, minha “casca”. me ensinou que meu corpo não é motivo de vergonha nem base para julgamento. que meu corpo é MEU, e de ninguém mais, e eu devo usá-lo, mostrá-lo e escondê-lo conforme MINHA vontade. e insistiu muito para que eu valorizasse meu cérebro e investisse no meu intelecto, pra ter uma vida diferente da dela, com mais escolhas (sorte minha, pois não herdei a beleza dela, o cérebro fez diferença :)). me ensinou que eu não precisava me “guardar” pra ninguém, que ninguém jamais seria meu dono, que eu era livre para ser e fazer o que quisesse, e que por isso mesmo devia aprender a ser independente e ter as rédeas da minha vida.

ela sempre defendeu nosso direito, como mulheres, de sermos donas das nossas vidas e nossos corpos. e a mandar a polícia se foder 😉

ela me ensinou, de forma direta e indireta, a me defender. que além de não me importar com julgamento, não devia temer represálias, pois é meu direito ser quem sou, vestir o que quiser, fazer como bem entender o que quiser da minha vida e do meu corpo. ela me ensinou a me impor e não aceitar ameaças, me convenceu de que eu não era mais “fraca” que homem nenhum por definição. me incentivou a responder à altura, enfrentar.

vi minha mãe enfrentar homens, alguns bem maiores que ela, alguns além de grandes, ignorantes. minha mãe já me defendeu, quando ainda adolescente, de “cantadas” na rua. olhou homens feitos cara a cara e disse que não eram bem-vindos, que fossem cuidar das suas vidas. e vi também ameaçar ir pra porrada com homens insistentes (e ela iria, estou certa disso). e eles sempre recuaram! qual era/é o segredo dela? confiança.

minha mãe é temerária. um pouco demais, pro meu gosto, mas admiro seu ímpeto e sua crença em si mesma. sempre funcionou. e era aí que eu queria chegar: ela me ensinou que eu também tenho poder. que homens não são necessariamente “mais fortes”. alguns são, outros não. cabe a mim usar minha força na hora e na medida certa. dentro de uma margem de segurança eu posso e devo medir forças e me impor, sim.

pois sempre me impus. hoje em dia já não sou jovenzinha, nem gostosa e nem ando a pé pelas ruas. mas até os quase 30 anos, fui assediada de formas leves e grosseiras, e seguindo os ensinamentos da minha mãe, me saí bem em quase todos os episódios.

em primeiro lugar, aprendi que cantada não é elogio. cantada só é elogio se você não se sente constrangida, e se é alguma abertura para o flerte. se eu não olhei pro caboclo, obviamente não vamos nos conhecer e ele está cercado de amigos “incentivando”, não tem conversa. em segundo lugar, não é OK comentar sobre minha aparência e sobre minha roupa. quando sou confrontada, reajo imediatamente o “agressor”, sempre olho no olho, de frente. digo que não gostei, e que guarde seus comentários para si. já cheguei a dizer “não tenho medo de você. não conheço você, e você não me conhece. não se meta com quem não conhece!”

já mandei homens (em grupo) pararem de comentários e saírem andando, que não queria conversinha. “anda, anda, que eu não estou com paciência! não conheço vocês, e não quero conhecer”.

já fui xingada? já. com 12, 13 anos (eu já tinha corpo de mulher) ouvi muita barbaridade. eu era mais medrosa nessa época. mas reagi assim mesmo. e sempre saí de cabeça erguida, porque não tenho motivo pra me envergonhar do meu corpo, do meu sexo e nem de me impor.

e já fui embora quieta, e com medo, pelo menos 2 vezes, torcendo pra que nada de mau me acontecesse. essas 2 vezes me confrontei com um predador sexual, que ficava à espreita no caminho que eu fazia para a faculdade. ele tinha olhar de psicopata, andava com o pau de fora nos cantos da rua, em locais ermos, e eu sabia que se houvesse confronto era pra valer e teria que lutar pela minha integridade física. eu tinha 18 anos, e tive muito medo. se fosse hoje, eu chamaria a polícia. se não funcionasse, na boa? chamaria uns amigos pra dar uma surra nele de deixar aleijado pra sempre.

e esse texto não é só para mulheres. é para os homens que pensam que é OK dar “cantada”; é para os gays e trans que sofrem assédio também, e ouvem “piadinhas”. boa parte do poder que os “machos adultos brancos” têm vem de nós, que permitimos que eles se imponham. vem também de outras mulheres que perpetuam o discurso de vítima e não se impõem, seja por medo ou comodidade.

pese e julgue, sim, quais batalhas você vai abraçar. não vale a pena passar o tempo todo brigando, e há batalhas com risco alto demais, mas não se acomode. mude a você mesma/o, deixe pra trás essas ideias de que você não pode/deve isso ou aquilo, ou que você é frágil, fraca, vulnerável.

imponha-se, mulher 🙂

universos paralelos

julho 27, 2012 11 comments

ontem, graças à denize, fui apresentada a um mundo que eu desconhecia completamente — os blogs de moda. conheci ontem o portal f*hits, o shame on you, blogueira e em especial o blog da mariah.

acho que não consigo expressar pra vocês o choque de conhecer uma realidade tão… paralela 🙂

pra começar porque eu realmente não tenho nenhuma familiaridade com o mundo da moda — o assunto só me interessa de forma conceitual (desfiles de alta costura, e ainda assim de estilistas bem diferentes, que ousam a ponto da roupa ser impossível de usar). ou seja, essa coisa “look of the day” pra mim é bizarro! e pra terminar porque eu realmente não gasto 1 centavo a mais em nenhuma roupa por ser “de marca”. minhas escolhas de vestuário são 100% direcionadas por praticidade, conforto e durabilidade. não me importo de pagar caro por uma peça, mas os meus critérios são mais relacionados ao quanto ela se encaixa no meu guarda-roupa e vida, e é versátil e durável. por exemplo: um bom terno, com bom caimento, é uma peça que eu compro sem me preocupar com o preço, pois sei que usarei muito no trabalho, por muitos anos. não é o caso de um vestido de festa, por exemplo, que uso a cada 10 anos 🙂

meu interesse em design é muito maior em decoração e utilitários, e menor em roupas. e veja bem — não é que eu não dê valor. é que muitas vezes não acho bonito mesmo, ou não acho que o preço vale a peça. um exemplo: louis vuitton. acho muito, muito feio. e apesar de entender o conceito do design assinado, identidade visual e etc. eu não compraria e nem usaria, jamais.

mas voltando aos blogs de moda: li a que mete o pau nos “blogs de moda”, e francamente não gostei. tem algumas coisas engraçadas, sim, porque é engraçado rir dos erros alheios, uma coisa meio videocassetada, ok. mas não gostei do rancor nas entrelinhas, depois de um tempo lendo ela pegando no pé por causa de erros de português nos textos o blog fica chato.

e li a mariah, que é o total universo paralelo. ela é linda, jovem, magra, cabelão liso, simpática e muito rica. é casada com piloto de avião, mora em cidade rica do interior de SP, casou numa cerimônia dupla, com a irmã, num evento de cinema. mariah é a princesa dos tempos modernos!

o blog é sucesso absoluto. centenas de comentários, pedidos de dica, declarações de amor. e ela é doce e querida com todo mundo. mesmo que o texto dela não seja um primor, e não é, é totalmente OK. dá pra ler numa boa e (mérito dela, não podemos ignorar) GOSTAR dela.

que fique claro que aquele estilo, estética, modo de vida não me interessam, não são meu sonho ou ideal. nem aparência, nem tipo de vida. ser tão rica quanto ela seria bastante conveniente, é verdade 🙂 mas de resto, diferente da autora deste ótimo artigo sobre o blog, não tenho absolutamente nenhuma inveja dela. admiro o quanto ela é bonita, bem sucedida e aparentemente feliz, acho massa.

o mundo da mariah é fora da realidade das centenas ou milhares de mulheres que seguem a vida dela, as fotos, os looks, eventos. elas perseguem um sonho. que provavelmente nunca vai se realizar, mas, well. e não é assim também com as revistas de moda, de celebridades? as mulheres passam a vida comprando revistas pra sonhar com looks, coisas e uma vida que jamais terão. muito antes dos blogs isso já era assim, desde que o mundo é mundo.

não sei se é exatamente ruim pessoas “comuns” perseguirem esse sonho, admirarem o ideal. é importante ter metas, mesmo que sejam em teoria inatingíveis. entender que não se pode viver só de sonho, que é preciso correr atrás, é responsabilidade de cada um, de cada uma.

pensando como feminista, ter como meta de vida ser a mariah é triste. não porque ser a mariah é errado, mas porque é apenas 1 em 1 milhão de possibilidades de ser uma mulher bonita, bem sucedida e feliz. o modelo dela é apenas UM dos modelos.

da minha parte, continuarei a não ler revistas de moda / femininas e provavelmente vou enjoar do blog da mariah bem rápido, apesar de estar encantada com o universo cor-de-rosa dela (como quem se encanta com os flamingos no zoo, sabem?). porque não me identifico, porque não gosto que me digam o que é “certo/errado”, o que é “in/out”. não me comparo com outras mulheres, busco meu próprio caminho porque me reconheço como única.

uma parte de mim deseja que as leitoras destes blogs de moda, da mariah, as fãs de celebridades se enxerguem melhor, e tracem seus próprios caminhos, descubram sua beleza, seus gostos, sem precisar do espelho da madrasta para validá-las. sem precisar envenenar ninguém para atingir sua plenitude de beleza e felicidade.

update: uma coisa que esqueci de mencionar que uma coisa que a shame on you, blogueira faz que eu acho bem importante — “desmascarar” essa impressão de que as moças escrevem sobre produtos sem receber nada. propaganda deve ser identificada como tal, concordo 100%!

Categories: mulherzice, opiniões

sobre a auto-estima perdida

Março 5, 2012 32 comments

muito apropriado para o meu momento atual de vida esse post da denize barros sobre “ser quem se é”.

concordo 100% com ela que a atriz melissa estava linda no seu vestido drapeado, e visivelmente feliz e confortável. que, no fundo, é o que importa.

estou gorda, mais gorda do que nunca estive. e, ironicamente, cercada por todos os lados de mulheres em dieta. mulheres muito — MUITO mesmo — mais magras que eu. neuróticas, chatas, só falam de dieta o dia todo, trocam receitas de dieta, comparam perda de peso, trocam dicas de como não passar fome, reclamam de fome o dia todo, suspiram de desejo de um simples purê de batata ou uma sopinha de macarrão.

e na TV, no cinema, na vida, uma enxurrada de angelinas jolies, anoréxicas, consideradas lindas e perfeitas. modelos, sonho de consumo. adele, linda e jovem, com talento sobrando pra todo lado (irresistível a piada :)), é constantemente lembrada não pelos muitos prêmios ganhos e talento inegável, mas pelo peso. e emagrece, pouco a pouco, porque afinal “é preciso”.

considero seriamente neste momento em que viro os 40 mudar meus hábitos, emagrecer e me tornar mais saudável. muito menos por questões estéticas — porque afinal jamais serei considerada magra nem linda em nenhum padrão, nem me dou ao trabalho — mas porque estou com dificuldade de acompanhar meu filho de 18 meses nas suas (hiper)atividades. e porque comprar roupa é mesmo muito deprimente quando se é gorda.

mas resisto, numa atitude quase punk. por mais que minhas motivações sejam muito minhas e muito simples (em oposição ao “se enquadrar” ou agradar ao marido, mãe, enfim), não quero ser parte dessa horda de mulheres loucas com o próprio peso, cabelos, aparência. por mais que eu saiba que aparência é importante, que a atitude inversa do total desleixo é tão danosa quanto a vaidade sem limites, me identifico com o lado de cá, com a turma de calça rasgada e moicano feito de sabonete barato.

sempre há quem alegue que seja pura e simples preguiça (afinal, gordos são preguiçosos; feios são mal cuidados, desleixados), e em parte pode ser mesmo. uma preguiça imensa de provar algo, de investir na aparência que, de coração, não me faz nem nunca fez tanta falta.

e nem me venham com a ladainha de “é um sacrifício para sentir-se bonita, sentir-se bem consigo mesma”, porque há milhares de pessoas lindas e perfeitas no mundo absolutamente infelizes consigo mesmas, com sua aparência. continuamente em dieta e tratamentos estéticos, comprando loucamente roupas e sapatos e acessórios, carros e barcos e infelizes. porque o lóbulo da orelha direito está flácido, por causa de um espectro de celulite ou… enfim.

mas tudo estaria mais ou menos bem se não houvesse a patrulha, explicando o que pode e não pode, como pode, porque pode, deve ou não deve. em outras palavras, tudo seria mais fácil se cada um cuidasse da sua própria vida. não sei quantas vezes ouvi da minha mãe coisas como “olha, ouvi falar de uma dieta ÓTIMA…”, e do meu pai o constante “ah, seu cabelo é tão bonito, por que não deixa crescer, cabelo comprido é mais bonito”. creio que sempre falaram com a melhor das intenções, mas… caramba. todas as pessoas precisam ser magras de cabelos ao vento, sedosos e lisos. né?

well, e se fossem só meus pais, dava para administrar, deixar pra lá. mas é, repito, uma horda. estou cercada por todos os lados. e resisto, me debato, e adio o momento inevitável de finalmente sucumbir e me enquadrar. mesmo que não seja pelos mesmos motivos, me sinto como tentada a ir para o lado negro da força.

um dia volto aqui com notícias dessa minha batalha inglória — além de não ser nada fácil tornar-se mais leve e saudável, ainda tenho essa angústia de me transformar nesse tipo de mulher que acho chata de marré-marré-marré.

mas prometo que no momento em que engatar minha primeira nessa ladeira tratarei de tudo com meu usual bom humor. quem sabe consigo mudar E evitar esse caminho que tanto detesto. e continuar sendo eu mesma, ainda que em outro patamar de peso.

 

PS-1: a propósito, visitei uma endócrino há 2 ou 3 meses, pra fazer uma “geral”. ela me examinou, pesou, mediu e escarafunchou. e me disse bem calmamente — se quiser emagrecer, emagreça, e posso ajudar. mas NÃO PRECISA. você está absolutamente saudável, parabéns. o título ali no post não é à toa.

PS-2: e prefiro mil vezes ser gorda a me transformar nessas mulheres que precisam tomar remédio pra fazer cocô. acredite ou não, as 2 coisas estão 100% relacionadas (dieta/neurose com aparência e o cocô-ausente :D)

vinte anos mais vinte é o que tenho

Fevereiro 9, 2012 22 comments

A mim que desde a infância venho vindo,
como se o meu destino,
fosse o exato destino de uma estrela,
apelam incríveis coisas:
pintar as unhas, descobrir a nuca,
piscar os olhos, beber.
Tomo o nome de Deus num vão.
Descobri que a seu tempo
vão me chorar e esquecer.
Vinte anos mais vinte é o que tenho,
mulher ocidental que se fosse homem,
amaria chamar-se Fliud Jonathan.
Neste exato momento do dia vinte de julho,
de mil novecentos e setenta e seis,
o céu é bruma, está frio, estou feia,
acabo de receber um beijo pelo correio.
Quarenta anos: não quero faca nem queijo.
Quero a fome.

(Adélia Prado)

completa-se mais uma década para mim, a quarta. bem no meio de tantas mudanças, do meu descobrimento como mãe e empresária, entre tantas outras coisas que sou e faço.

meus vinte anos passaram como um relâmpago — não vi. olho pra trás e vejo tanta coisa, pessoas, erros, acertos e decisões definitivas. engraçado que acho que era mais imatura nos meus 20 anos que nos meus anos de adolescência. como fui séria na adolescência e fiz besteiras nos meus 20!

os 30 anos foram marcados pela terapia, a descoberta de que precisava me centrar, acalmar a cabeça e a alma, procurar meus caminhos. descobrir o que queria de verdade, lá no fundo. abandonar a tentação de viver a vida de outras pessoas, e não a minha. o diabo, que sempre esteve nos detalhes, me impedia de ver o plano maior, enxergar o que sempre esteve ali, bem à minha frente: eu só queria ser feliz, com simplicidade. uma simplicidade e tranquilidade que sempre me foram negadas por princípio, pois venho de uma família OVER, que valoriza o excesso e a (inatingível) meta de felicidade absoluta e plena e despreza as pequenas felicidades do dia a dia, o conforto do silêncio e da companhia de si mesmo.

disse adeus às pessoas e coisas que me machucavam, me faziam mal. aprendi — a duras penas — o significado da expressão “abrir mão”. deixar ir, definitivamente, pois uma vez que fazemos escolhas aquele caminho não existe mais, é passado. é possível reencontrar pessoas, mas não voltar no tempo. e às vezes, mais frequentemente do que eu pensava, é preciso abrir mão e seguir, para não paralisar.

e eu andei.

no fim destes meus 30, depois de 7 anos de casados, decidimos ter um filho (talvez mais, se conseguirmos adotar), e a vida mudou. às vezes pra pior, é verdade, pois aos quase 40 já nos acostumamos a viver de forma independente e completamente livre. e filhos (não vou mentir) limitam bastante o que podemos/conseguimos fazer. além do cansaço, e disponibilidade quase absoluta, além de continuar fazendo todas as outras coisas que já tínhamos que fazer como trabalhar e cuidar da vida, da casa. mas é também apaixonante, maluco, divertido e muito, muito bonito ver um humano crescer e aprender.

plantei árvores, escrevi livros (não publicados. corrigirei isso!), tive meu filho. dizem que precisamos fazer essas coisas antes de sair desta vida, não?

pois acho é pouco 🙂

vem muito, muito mais nos próximos (muitos!) anos. quem sabe mais filhos (mas sem gravidez, essa eu dispenso), mais negócios, ideias, amigos, almoços em família, viagens, descobertas.

faço 40 em poucos dias, e estou mais feliz do que pensei que poderia estar. não estou feliz com meu corpo, meu cabelo tá esquisito, ando cansada como nunca estive, várias coisas que queria melhorar na vida, mas… estou feliz. apesar de todos os pesares.

graças, suponho, à fome. sempre, sempre em dia 😉