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Archive for julho, 2018

me vejo no que vejo

julho 30, 2018 Leave a comment

Vejo bastante gente falando que falta “interpretação de texto” no mundo, e embora eu ache essa habilidade importante, não concordo que a raiz do problema de comunicação é essa; quanto mais penso nisso, mais acho que o problema está no viés de confirmação, que afeta não só a leitura de textos mas toda nossa “leitura” da realidade.

 

Alguém disse que vemos o mundo não como ele é, mas como somos, e é exatamente aí que começa o problema: além de sim, vermos o mundo como somos, procuramos (e encontramos) padrões que “casem” com aquilo que queremos provar como tese ou acreditar.

 

Talvez isso seja óbvio pra você (pra mim já é, de tanto que penso nisso), mas não significa que saber disso anula o mecanismo. Por exemplo: sou de esquerda; quando leio ou ouço algo que comprova minha visão de mundo alinhado à esquerda, me dá alívio e prazer, e quero saber mais, compartilhar, repetir; acolho aquela informação como verdade sem duvidar. Quando me aparece algo mais alinhado à direita, é um esforço ouvir ou ler. Tenho que prestar atenção, lutar contra o desejo de duvidar de tudo e questionar, e mesmo caso consiga ao menos apreciar o ponto de vista, jamais quero repetir ou compartilhar.

 

Em primeiro lugar, não consigo às vezes nem ler e ouvir, rejeito ou ignoro o que não “bate” com minhas ideias; e quando ultrapasso essa primeira barreira, duvido e fujo quando essas ideias fazem sentido. Elas não combinam com minha configuração mental.

 

Seria como procurar, comprar e trazer pra minha casa um sofá que eu acho horrorosamente cafona, por exemplo. (E esse mesmo sofá serve muito bem e é amado e desejado por alguém com gosto diferente do meu, mal comparando)

 

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Não é que as pessoas não saibam interpretar textos, é que elas não leem o que está de fato escrito, leem seletivamente o que interessa e extrapolam muito o que está ali, com base nas suas crenças, problemas, preconceitos, dores e amores.

 

E não vamos nos enganar: não é possível eliminar vieses. Eles são parte de nós. Mas sim, é possível entender nossos vieses e tentar neutralizá-los. Não pra ser outra pessoa, ser “neutro”, mas para ganhar a (maravilhosa) capacidade de aprender e evoluir.

 

(E se você acha que bastam “fatos e dados” pra neutralizar vieses, eu tenho más notícias, leiam essa historinha super didática sobre crenças)

 

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Vejo isso acontecer TODO DIA, aqui online e na real, nos relacionamentos. E não é sempre produtivo apontar isso pras pessoas, pois elas resistem e não admitem (às vezes não entendem nem percebem) que estão sob efeito dos seus vieses.

 

Vieses inconscientes não funcionam só para coisas ruins como preconceito racial, de gênero, de idade. Funciona para coisas positivas também. É um mecanismo, que precisamos entender e aprender, é autoconhecimento.

 

**

 

Inclusive, sobre “fake news”: quem cria essas notícias é mau caráter, mas quem propaga não necessariamente. As pessoas normalmente não pensam em checar fatos quando eles confirmam sua opinião.

 

Do mesmo jeito que a pessoa horrível repassa a notícia falsa de que uma criança assassinada era na verdade um bandido (porque ela crê que bandidos merecem morrer mesmo se forem crianças, e talvez essa seja a única forma daquele fato fazer sentido), a pessoa querida repassa a notícia também falsa de que alguma celebridade milionária que ela gosta ajudou milhares de crianças carentes (porque afinal faz sentido que celebridades milionárias que amamos façam boas ações).

 

Fake news só são um problema grave nos nossos tempos graças ao viés de confirmação.

 

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As pessoas não precisam (só) aprender interpretação de texto; elas precisam aprender sobre si mesmas e ter a coragem e humildade de conhecer suas próprias armadilhas.

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may we be happy

julho 23, 2018 Leave a comment

A gente se empenha muito em ensinar as coisas pro Otto sem precisar apelar para a autoridade. É super difícil — é muito mais fácil adotar o método de “quem manda sou eu; minha casa minhas regras”, mas a gente se esforça.

 

Ouvir música é sempre um processo — ele só quer ouvir as coisas que ele já conhece e gosta. Nem critico, afinal quem não? Tentamos então negociar, e ouvimos um pouco das músicas das nossas playlists e um pouco da dele.

 

No começo desse processo, há uns anos, eles não queria ceder na negociação. Aí era treta — ele não deixava a gente ouvir direito porque só reclamava, era um inferno. Mas foi melhorando, a gente explica sempre que tem a que ceder pra todo mundo ficar feliz e tal, até chegar no diálogo de hoje 🙂

 

(Tocando minha playlist)

 

O: “mamãe, quando acabar sua música, você coloca uma minha?”

 

Eu: “claro, só me diz qual!”

 

O: “cocoricó 3. Mas pode acabar de ouvir a sua, porque do mesmo jeito que vocês gostam que eu fique feliz eu quero que vocês fiquem felizes também!”

 

Quase estacionamos o carro pra apertar ele bem muito ❤❤❤❤❤❤

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sejamos alavanca!

julho 23, 2018 Leave a comment

Fui lá no Sarau de Valinhos, totalmente (muito bem) organizado pelos jovens, e estou ainda pensativa, além de feliz.

 

Acompanhei a linda Maria Eduarda na sua fala poderosa, forte e emocionante sobre cotas. O tambor ajudou a dar peso no assunto tão difícil, e me deixou com um misto de emoções — eu, pessoa branca, tocando tambor enquanto uma moça negra fala sobre racismo.

 

Gosto de pensar que estar ali é uma forma de alavancar a voz dela, moça negra, jovem mulher. Busquei ser o mais neutra possível, porque quem precisa brilhar é ela.

 

Enquanto dirigia pra casa, pensei tanto nisso: qual é nosso papel, nós que estamos em posições de poder seja pela idade, posição social, cor, gênero?

 

Cada vez mais acho que é apoiar, construir junto, trazendo nossa experiência para que outros possam também crescer e ocupar seu espaço.

 

Justo eu, que amo ser protagonista, quero ser também apoio, coadjuvante, quero apoiar outros cada vez mais. Seja porque me dá prazer ou porque posso. Gente, eu POSSO, e isso é o maior privilégio de todos.

 

(Cada vez mais entendo porque as pessoas que mais doam e mais são voluntárias são as que têm menos.)

 

Ajude os outros a crescer, sem querer nada em troca; não tem sensação maior de poder, de alegria, de completude na vida.

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sonho de igualdade

julho 20, 2018 Leave a comment

É louco observar esse mundo dos homens do século passado. Um mundo em que as mulheres são:

 

Enfeite

Suporte

Alívio

Fardo

Troféu

 

Repare que elas (nós, eu) nunca são:

 

Referência

Par

Meta

Ídolo

Exemplo.

 

Sempre tem os que

 

(nossa como são legais, eles!) 

 

agradecem à santas mães

 

(por tê-los botado no mundo e criado, tarefa mais importante da vida de uma mulher)

 

e também às zelosas

 

(e lindas, porque vocês sabem que beleza é fundamental)

 

esposas, por permitirem que eles se dediquem ao seu sonho e vocação, e sejam esses homens ma-ra-vi-lho-sos.

 

 

Tou pra ver homens elogiando, admirando e usando mulheres como referências intelectuais. Como se elas fossem homens, sabe? (Cof cof)

 

 

Aliás, quantas de vocês já ouviram que

 

“Nossa, você é tão legal, tão inteligente, NEM PARECE MULHER!”

 

(Todos sabem que mulheres são serem complexos e instáveis, com humores inescrutáveis e, acima de tudo, não são confiáveis)

 

Hoje em dia talvez ninguém mais fale isso, mas certamente pensa. Ou fala de outro jeito, mais moderno:

 

“Você não é como as outras!”

 

ASOUTRAS, aquelas que não me tratam como minha mãe ou minha (futura) esposa, sabem? Com a veneração e submissão que todo macho merece.

 

 

Tenho aqui uma fantasia secreta de que as meninas de 20 vão ler esse texto e pensar — “nossa, essa mulher de meia idade está BEM LOUCA, quem são esses homens de outra era aos quais ela se refere?!”

 

 

Porque se minha fantasia se realizar, é sinal que o macho do século passado tá em extinção, e é só uma questão de tempo e paciência pra vermos homens admirando mulheres, como iguais. É só uma questão de tempo para eventos terem homens e mulheres palestrando. É só uma questão de tempo para ver mulheres no poder em todas as esferas. E ver mulheres sendo citadas igualmente como cientistas, escritoras, cineastas, artistas de toda sorte.

 

 

E quem sabe, em breve, não seja tão triste observar ao meu redor e ver mulheres brilhantes e maravilhosas sendo reconhecidas somente pelas suas bundas, pelo fato de terem parido os filhos dos veneráveis homens ou basicamente por cuidar deles.

 

 

Quero viver muito pra ver um mundo em que a gente vai poder nascer mulher sem ter que ser bela e cuidadora pra ser valorizada.

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romanticuzinha

julho 16, 2018 Leave a comment

Nem que eu quisesse ser romântica não dava. Coloco essa música pra tocar no carro e segue o seguinte monólogo com Fernando (que tá sem voz e quase morre de rir em silêncio):

– “nem sei porque lembrei dessa música. Acho essa história péssima, Julieu e Rometa… AFE TOU COM SONO!”

(Fernando rindo mudo)

— “pensando bem podia ser legal uma versão alternativa: JULIÃO E ROMISETA, a história de um pedreiro e uma travesti que se apaixonam, né?”

Fernando: 🙄😂

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Mariana Campos

julho 12, 2018 Leave a comment

#retratofalado

 

Hoje é dia da Mariana Campos que todo dia nos presenteia com seus lindos textos e colagens sobre o céu de cada dia.

 

Só encontrei com a Mariana pessoalmente uma vez, mas foi profundo e significativo — uma imersão de tarô em que falamos sobre tudo o que está entre o chão que pisamos e os sonhos compartilhados.

 

(E nos conectamos ali, naquele espaço das redes sociais em que posso acompanhar seu talento e generosidade. Sou tão grata!)

 

A Mariana é luminosa. Ela abre os braços e as portas da casa com a mesma facilidade, e ao conversar com ela parece que já é uma amiga de longa data. Atrás dos lindos textos e falas, cheios de imagens e figuras de linhagem cirurgicamente representativas dos mistérios que ela quer desvendar está uma clareza de doer.

 

Sabe a visão além do alcance, o olho de Thundera? Ela tem. Uma antena poderosa captando sentimentos, pessoas, ideias, passado e futuro, e conectando tudo num tecido lindo de ver.

 

Ela é a Moira tecedora, de gentes, estrelas e sonhos.

 

Que seu dia seja lindo, que sua luz sempre brilhe assim muito forte <3

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dundão

julho 11, 2018 Leave a comment

Lembrei que adotamos um cão quando eu era criança que se chamava Dustin Hoffmann. Gente, sério: ele era IGUAL AO DUSTIN. Um cachorro muito sério, com olhar de triste e mega inteligente. Parecia que ia abrir a boca e falar.

 

Ele amava verduras, era um cão criado em casa de orientais. Educadíssimo, um lorde.

 

Mas como o nome é meio longo, convenhamos, apareceram os apelidos, sendo que no final ele virou Dunda.

 

Inclusive: melhor cachorro. Jamais tivemos outro igual. ❤💔

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somos poucas, mas sempre somos demais

julho 10, 2018 Leave a comment

Uma vez fui a uma empresa de inovação na área de engenharia para um pré projeto e perguntei quantas mulheres eles tinham na equipe. O sócio diretor, muito orgulhoso, disse “muitas!”. Quando fui conhecer o RH fiz a mesma pergunta, e a moça respondeu: “ai, somos tão poucas… menos de 10% no total.”

 

Numa outra ocasião um rapaz da minha equipe, quando soube que estávamos iniciando uma frente de apoio às mulheres em posição de liderança, ficou verdadeiramente chocado: “nossa, mas pra que isso? Vocês já dominam tudo!” (Não dominamos, claro, bastaria contar né?)

 

O problema não é só sermos poucas (ou poucos no caso dos gays): é que QUALQUER quantidade é grande demais pra quem prefere que a gente não ocupe espaços “deles”.

Categories: feminismo

encontrando caminhos

julho 10, 2018 Leave a comment

Essa semana tive uma experiência incrível com a prática do feedback, e divido com vocês pra lembrar que é possível melhorar o mundo, relação a relação ❤

 

Um rapaz veio me procurar muito chateado porque uma gerente (supostamente) tinha sido grosseira com ele. Queria saber o que fazer, então perguntei se queria ajuda para aproveitar e praticar feedback e pra minha alegria ele aceitou!

 

Fizemos juntos o exercício de entender a situação, o que ele pôde observar, o impacto pra ele, e o que gostaria que tivesse acontecido na conversa. Escrevemos um “roteiro” juntos pra ajudá-lo a se preparar para a conversa com ela, e também no processo ele conseguiu perceber que várias das coisas que ela havia falado faziam sentido, a FORMA é que não tinha sido adequada.

 

Na preparação, ele reconheceu a mensagem dela como construtiva, colocou seu ponto de vista, falou como se sentiu e mostrou interesse no diálogo. Disse exatamente o que esperava de próximas interações.

 

(Gastamos 15 minutos juntos nessa preparação. Tudo que eu fiz foi fazer perguntas de cada “item” e digitar o que ele me dizia)

 

Fiquei com medo dele desistir de falar com ela, mesmo tendo se preparado. Ele não desistiu — marcou horário para o dia seguinte e falou!

 

Ele me ligou pra contar o resultado, e foi lindo: ele ria, aliviado. Me contou que foi como mágica — ela escutou tudo, muito surpresa, e até pediu que ele imitasse o tom de voz dela pra melhor entender o que tinha acontecido. Ela não tinha tido a percepção de ser grosseira, mas conforme ele deu exemplos e imitou, ela aceitou e se desculpou. Admitiu que estava ansiosa e irritada com a situação, mas que não era pra ser assim. Que ela queria também preservar o relacionamento, e agradeceu.

 

Onde essa relação podia ter se quebrado, se fortaleceu, porque um deles quis construir, e o outro aceitou fazer parte da construção.

 

Foi tão legal fazer parte desse processo! Com uma ajuda de 15min pude colaborar para o aprendizado de duas pessoas, e tenho certeza que agora eles também poderão ajudar outros, e praticar.

 

Havendo desejo de construir, sempre há caminhos.

 

Que encontremos os nossos também  ❤

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des-humanidade

julho 2, 2018 Leave a comment

Apareceu um vídeo na minha TL sobre os imigrantes  encarcerados nos USA (incluindo crianças de todas as idades, inclusive os pequenos suficiente para nem falarem direito, separados de suas mães) — uma deputada inconformada com a situação que ela presenciou.

 

Fui ler os comentários, porque por mais doloroso que seja, é importante saber como as pessoas pensam a respeito.

 

Há muita gente que acha absurdo, claro, que bom.

 

Mas há tantos, tantos outros. Que acham que essas pessoas são criminosas (e se americanos vão para a cadeia, eles também podem ir, oras); que deviam ficar no seu país; que estão ali para “se aproveitar” dos Estados Unidos; que merecem o que estão passando.

 

Não sei o que é pior: julgar sem julgamento pessoas que estão em fuga do seu país por motivos diversos, odiar estrangeiros com tanto ardor ou simplesmente não se importar com a ideia de famílias inteiras sendo separadas e presas em gaiolas.

 

Aí lembrei que também aqui as pessoas não só não se importam como acham OK presos empilhados em celas, crianças separadas das mães presidiárias.

 

Porque basta encontrar um motivo para que alguém deva ser punido, e tá tudo resolvido. Ah, você cumpre pena, é bandido/a? Pode tratar como lixo, e quanto mais sofrer melhor.

 

Acho louco como as pessoas não entendem que vingança não é justiça, e que a linha que separa o “cidadão de bem” e o “bandido” é tênue, e a depender da opinião pública, super elástica.

 

Houve um tempo em que mulheres adúlteras podiam ser apedrejadas. E sexo com pessoas do mesmo gênero era passível de pena. (Ainda há países que são assim!)

 

Não é só falta de empatia, sabe? É falta de humanidade mesmo.

 

É difícil ser feliz e estar atento ao mesmo tempo.

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