conflito

Otto fazendo tarefa de

Interpretar texto, resumiu o Brasil (é sobre uma conversa entre bichos que são diferentes):

“Cada um tem uma ideia diferente e cada um só concorda com a sua própria ideia.”

Zerou.

como se tivesse 8 anos

O processo de buscar julgar menos é tão complexo, tão difícil. Precisa de um empenho enorme, além de paciência sem fim pra lidar com UM MUNDO de julgamentos sem intenção (mas ainda com impacto).

 

E dá um trabalho danado desfazer alguns estragos que parecem pequenos mas quando acumulados nos anos ficam imensos.

 

Enquanto fazia a tarefa de hoje, que era interpretar um texto sobre ecologia, Otto me diz que escutou na escola, enquanto falavam do impacto humano na natureza, que “quando damos comida aos animais silvestres, eles ficam PREGUIÇOSOS” e por isso não é boa ideia dar comida pra eles.

 

Animais preguiçosos. Pode até ser que a palavra seja adequada pro que acontece na prática, mas coloca um julgamento também, como se a “culpa” fosse do animal, como se ele escolhesse conscientemente não mais buscar comida.

 

Fui ler o texto, que dizia que os animais DESAPRENDEM a procurar comida na natureza, deixando-nos vulneráveis, e que isso é prejudicial.

 

Caramba, olha que explicação legal? Otto inclusive começou a perguntar sobre o que era desaprender, e  se escreve com hífen ou sem. Ele quis saber o que acontecia se tivesse pouca comida e os animais fossem muitos. “Eles vai brigar!” — ou vão dividir; ou vão buscar mais. “Eles encontram uma maneira”, expliquei.

 

Tive que conversar com ele pra dizer que não é que o animal fica preguiçoso — ele busca comida onde é mais fácil, e pode depois não saber (esquecer, desaprender) onde deve buscar. Que é importante que eles saibam procurar a comida e não dependerem dos humanos.

 

Fico me perguntando se as pessoas julgam (qualificam ou categorizam de forma extremamente simplista) porque lhes falta repertório pra entender a complexidade da vida e das coisas, sabe?

 

Dá trabalho, e requer PENSAR, pra explicar coisas de forma que uma criança de 8 anos entenda sem recorrer a qualificações simplistas.

 

Também não quero julgar nem crucificar quem disse isso pra ele na escola, mas eu adoraria que as pessoas tratassem meu filho (e crianças em geral) como pessoas que pensam e têm capacidade de entender ideias complexas, apesar de serem crianças ainda. Ser criança não significa ter capacidade cognitiva menor, só significa que têm menos repertório ainda.

 

Não acochambrem as coisas pra crianças, gente. Só expliquem de forma direta e simples, e deixem elas perguntarem.

semiótica

Peguei ele na escola empolgadíssimo com o bolo, os parabéns, até as tarefas!

 

“Eu fiz TODAS as tarefas! Foi o melhor dia da minha vida!”

 

(Escorre uma lágrima de emoção genuína, e só quem tem filho de que odeia a escola e demora muito a fazer amigos vai entender)

 

Mas tem lição.

 

O: “ah mas não quero escrever! Por que a gente precisa escrever?”

 

Eu: “pra poder se comunicar com as pessoas! É multo importante, como a gente vai contar histórias?”

 

(Fala sem pensar com o Otto, e…)

 

O: “desenhando, ué!”

 

(FUÉN. Pensa rápido!)

 

Eu: “tem razão. Mas não é suficiente, porque desenhos são mais difíceis de interpretar do que palavras, as pessoas podem entender coisas diferentes ao ver o desenho!”

 

(Torcendo MUITO pra ele não pensar muito pra responder, senão…)

 

O: “hm. Mas então vou escrever POUCO.”

 

Me safei, pelo menos dessa vez.

27 de agosto, 2018 = 8 anos

Otto foi dormir ontem quase 1 da manhã (foi pra cama às 21:30h como sempre…) de tão ansioso com o aniversário hoje. Acordou feliz, agradeceu os bilhetes (faço questão <3) e os presentes, disse que “somos os melhores pais do mundo” (*) e agradeceu a vó Vera que “faz o melhor bolo do mundo”. Levou bolo pra escola, teve parabéns   e até fez lição na volta sem reclamar (muito).

 

Tá aqui feliz com os presentes, vendo desenho.

 

8 anos.

 

Hoje estive na terapia, e só pude falar do tanto que essa criança me ensina. Do quanto o que ele me ensina serve pra vida toda. Tornei-me uma pessoa MUITO melhor por causa dele, porque ele me obrigou a enxergar que toda forma de ser tem valor. Que é preciso só querer ver e apreciar a beleza do diferente e estar disposto a APRENDER.

 

Não tenho nada a dizer além de OBRIGADA a ele por ser tão ferozmente quem ele é, por não ceder à minha personalidade difícil, por insistir tanto a ponto de me fazer enxergar na marra outros pontos de vista.

 

Obrigada, meu filho, por ser mais cabeça-dura que sua velha mãe. Ela demora mas aprende. ❤

 

**

 

(*) até mandarmos ele pro banho e dormir. Aí seremos os piores pais do mundo 😀

emergência

(tivemos um pequeno acidente no domingo — ele caiu e bateu a mãozinha esticada na base da geladeira. muita dor, inchou, não deixava por a mão… fomos pra UPA pra ver)

**

Otto na UPA é sempre um episódio… entramos, em 5min nos chamaram pra triagem.

 

Enfermeiro: “me conta o que houve!”

 

O: “eu caí e bati os dedos e tá doendo MUITO!”

 

E: “deixa eu ver…”

 

O: “NÃO PODE POR A MÃO!”

 

E: “… vamos então pesar e ver seus batimentos” (amou essa parte)

 

O: “não precisa tirar o sapato pra pesar?”

 

(HAHAHAHAHHAHA!)

 

**

 

Tinha 2 crianças na frente dele. Demorou uns 15min, e ela chamou, fomos.

 

Médica: “tudo bem, Otto?”

 

O: “tudo, mas você demorou demais pra me atender!”

 

😬

 

M: “hahhahaha mas olha aqui (mostrou as fichas) tem crianças na sua frente, eu atendo na ordem!”

 

M: “bom, então me mostra o que foi.”

 

O: “(ele conta e mostra) mas você não vai poder colocar a mão, tá que dá doendo muito”

 

M: “Tá, tá, não precisa por enquanto. Me mostra com seu dedo onde é, pra gente fazer o raio-X”

 

Fomos pro raio-x, já comecei o briefing né?

 

Eu: “seguinte, Otto, agora você vai seguir a instrução, porque o moço é especialista nisso e precisa que você faça o que ele pedir pro Raio-X dar certo, ok? Então talvez doa um pouco pra ele mexer na sua mão, mas tem que fazer.”

 

O: “ok, ok.”

 

Moço veio, deu instrução, pediu pra ficar parado, mexeu na mão 2x pra posicionar e ele não deu UM PIO.

 

Demorou uns 5 min, saímos, elogiei.

 

Eu: “que legal, Otto! Viu como foi super rápido? Você fez tudo que o moço pediu sem reclamar, saímos rapidinho!”

 

O: “não é que eu não reclamei porque não doeu; não reclamei porque não podia reclamar.”

 

Own ❤

 

Médica: “não quebrou nada, Otto, isso foi uma contusão, vou te dar um remédio”

 

O: “amassou?”

 

M: “isso 🙂 uma compressa de gelo ajuda também”

 

O: “não coloco gelo de jeito nenhum!”

 

Eu: “BRIGADA HEIN DOUTORA, DEUS LHE PAGUE!” (Arrastando o menino)

 

Entre mortos e feridos, salvaram-se todos.

turma da mônica

Eita que vou ter que explicar umas coisinhas pro Otto sobre como são as relações…

 

O: “não gosto tanto da Turma da Mônica, sabe?”

 

Eu: “ah, por quê?”

 

O: “eles brigam muito! (Não tenho como discordar) E não tem vilão!”

 

Achei super interessante esse ponto de vista. Me incomoda também eles brigarem tanto e especialmente xingarem tanto a Mônica… por outro lado é importante também aprender que amigos brigam e depois fica tudo bem (quase sempre).

 

Enfim, mais um ícone da minha infância sendo revisado…

matrix

Otto, quase 8 anos:

 

“Um dia eu ainda vou sair dessa vida chata.”

 

Quem quer dar a real pra ele?

 

**

 

Eu: “e por que sua vida é chata?”

 

O: “aqui eu tenho que fazer coisas que eu não quero; na escola eu não posso fazer o que eu quero, tipo brincar e correr!”

 

Quem vai dar a real pra ele, parte 2?

cascão

Otto no banho, sozinho (já há um tempo deixamos ele tomar banho por conta própria, PERO NO MUCHO):

 

(10min)

 

Eu: “Otto, você lavou o cabelo?”

 

O: “ahn… não.”

 

Eu: “Otto… você lavou ALGUMA COISA?”

 

O: “ahn… não. Eu só brinquei mesmo.”

 

(Ouço Fernando gargalhando ao fundo, espero que seja um meme na internet)

 

Eu: “Otto pelamordedadá SE LAVA!”

 

Todo

Santo

Dia.

 

Como vocês sobreviveram aos seus filhos, minha gente? Deixa sujo? Deixa sem comer, sem estudar, feito Mogli?

 

Tou avaliando isso aí, hein?

trem das cores

A lógica das criança, gente! ❤

 

O: “mamãe, por que não existem cores ZERÁRIAS?”

 

Eu: “hahahhaha! Que ideia legal! Quais seriam essas cores na sua opinião?”

 

O: “o preto e o branco!”

 

Fernando: “e quais são as cores primárias?”

 

O: “vermelho, amarelo e azul”

 

F: “e as secundárias?”

 

O: “roxo, laranja e verde. E marrom?”

 

Eu: “marrom acho que seria terciário? Existe isso?”

 

E lá vamos nós pesquisar sobre cores <3

a maledeta cursiva

A saga da letra cursiva tá foda. Duzentos anos pra fazer um exercício ridículo. Ele erra de propósito, por princípio, só pra mostrar o desagrado.

 

Teve que fazer 3 vezes, por motivo de fazer errado e malfeito.

 

Choro, ranger de dentes e revolta geral.

 

O: “por que todas as letras precisam ser IGUAIS?”

 

Eu, sempre a Alegria, tentando ajudar:

 

—  “não precisam ser iguais, mas precisam ser parecidas; já sei: vou mostrar quando você acabar que a letra cursiva da mamãe é diferente da letra cursiva do papai!”

 

O: (PAUSA DRAMÁTICA) “não me mostre! Nunca me mostre letras cursivas! Tem coisas que é melhor nem ver!”

 

(HAHHAHAHAHHAHAHHAHA)

 

Fernando quase engasga com o jantar, eu tive que fingir que tava com tosse, os dois gargalhando em silêncio porque D-R-A-M-A.

 

A pessoinha é virginiana mas o drama tá escondido em algum planeta, vou pedir ajuda prazamiga astróloga, que tá puxado.

 

**

 

Mas a melhor da noite: no meio da discussão, ele fala pro Fernando —

O: “agora eu vou falar que nem você, papai: SE VOCÊ APAGAR DE NOVO EU NÃO FAÇO MAIS NADA!”

Adicione à fala as mãos abertas gesticulando mui italianamente como forma de ênfase.

 

😂😂😂

😬