porque sofro por você

achava que o medo melhorava com o tempo (melhora), mas descobri que ele só muda, se disfarça. fica ali à espreita, basta uma brecha e ZÁZ, cá estou me forçando a limpar a mente, foco no HOJE, AGORA.

o medo é assassino da mente. o medo é a pequena morte que traz total obliteração. enfrentarei meus medos, permitirei que passem sobre mim e através de mim, e quando tiverem passado farei com que o olho interior enxergue seu caminho, onde o medo esteve não restará nada. somente eu permanecerei. (litania contra o medo)

fizemos seu primeiro exame de sangue depois do período de UTI neonatal (você odiou, claro), e agora TUDO passa pela minha cabeça. será que está tudo bem? são tantas as histórias horríveis de crianças doentes que eu tenho que me esforçar pra não pensar, não projetar, não sofrer.

você não tem se mostrado uma criança sociável, o que para os padrões da nossa sociedade é um problema grande. não tem amigos, não dá bola pra nenhuma criança. fala pouco, só quando tem mesmo alguma coisa importante pra dizer. as pessoas comentam, cobram, acham diferente, e eu sofro. não só porque seu jeito não se adequa à expectativa dos outros, mas porque sei que o mundo privilegia os extrovertidos, que você pode ser visto como antisocial ou esquisito para o resto da vida.

como lidar com o mundo, com a expectativa, com o desconhecido, o acaso, o incontrolável?

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não sei. tento não me ocupar do que não está no meu controle, tento deixar para pensar e resolver coisas quando elas aparecem. mas o medo, ah.

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quero ajudar você a navegar nesse mundo. somos muitos diferentes, e talvez minha angústia seja a de não poder compartilhar com você minhas ferramentas, minha história — talvez nada do que serviu pra mim sirva pra você.

vou precisar aprender a navegar de outro jeito, ver o mundo com seus olhos, aprender novas formas de viver, pra poder ensinar pra você. aprender junto.

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mas o medo. ai.

diário do otto: 4 anos e 6 meses

otto,

os últimos 6 meses foram intensos, com mudanças importantes. seria impossível escrever uma cartinha por ano somente, então acho que vou manter a frequência semestral.

você mudou de escola, e os motivos estão todos aqui. ficamos com muito medo da mudança, mas depois de 4 semanas na escola nova estamos mais tranquilos — apesar da mudança radical (período integral, em inglês, tudo novo) você ficou todos os dias na escola sem reclamar, desde o primeiro dia. não chorou (como fez tantas vezes na 1a escola), não resistiu, e quando chega da escola está sempre muito feliz e animado. parece que está gostando, inclusive do aprendizado de inglês. sua socialização ainda não aconteceu do jeito que todos consideram normal — você continua introspectivo, não se interessa muito pelas outras crianças e sempre procura os adultos para conversar ou brincar. isso ainda nos preocupa, porque ficamos apreensivos sobre como será conforme você crescer. ter amigos é tão importante! ainda mais pra quem não tem irmãos e nem primos da mesma idade. mas tentamos respeitar seu tempo e estilo, vamos acompanhando.

um dos motivos da escola da escola nova é que você tem se interessado muito em falar inglês, por causa do desenho da dora, a aventureira. começou a repetir cores e expressões em inglês (os números você já sabia), e a querer aprender mais. achamos super legal seu interesse e vamos incentivar — como gostamos muito de viajar, temos vários amigos estrangeiros e poder falar/ler em inglês é também útil no dia a dia, será ótimo pra você.

segundo suas professoras você é bem tranquilo na escola, e as moças que ajudam na entrada e saída se referem a você como “o príncipe do K4” (que é o nome da sua turma). pelo jeito tem mais gente apaixonada pelo seu jeitão sério 🙂

mudamos também de casa no primeiro mês do ano, depois de 13 meses de obra, e estamos terminando. a mudança não foi muito súbita porque já visitávamos nossa casa nova praticamente todos os dias, então fomos nos acostumando com ela. nosso jardim é lindo, e você está se divertindo bastante. nossa casa é clara, ventilada, muito ampla e feliz <3

viajamos para Marília rapidamente no final do ano, para o natal na casa da vó Malu, pois nossa obra estava quase acabando. nossas férias esse ano vão ser muito bem planejadas, pois estamos numa contenção enorme de despesas (tudo que temos está sendo colocado na casa!). você visitou a família toda, brincou muito, tomou banho de mangueira, comeu fruta no pé, como as férias devem ser.

seus dias agora têm sido na escola das 7:20 às 15:15. tomamos café da manhã os 3 juntos, a mamãe faz o seu lanchinho (2, sempre bem caprichados e você come tudo), o papai leva você pra escola, você almoça por lá e então volta pra casa. encontra com a maria, brinca um pouquinho, então eu chego e podemos ficar juntos até a hora de dormir.

agora você dorme no seu quarto! colocamos um colchão de casal no chão, um tapetão e você normalmente fica a noite toda muito bem. às vezes acorda de manhã cedinho, e aparece no nosso quarto falando “oi, pessoal! vamos dormir juntinhos, os 3?” e a gente aceita sempre, claro.

(confesso que morro de saudade de dormir com você. de vez em quando eu acordo durante a noite achando que você chamou e vou pra sua cama, pra matar a saudade)

sua alimentação continua ótima — você já não come tanto quanto antes (em quantidade), mas continua comendo direitinho, adora frutas, legumes, verduras, arroz e feijão, etc. ainda não conseguimos convencer você a comer sanduíche e comidinhas-tranqueira, aos poucos vamos fazendo a sua des-educação!

quanto mais passa o tempo, mais gosto de passar tempo com você. é uma delícia ouvir suas ideiazinhas, brincar com as coisas que você gosta, ler histórias. você ainda está na idade de ter chiliques (que são muito engraçados em retrospectiva, mas ainda são bem irritantes), não lida bem em especial com o cansaço e o sono. quanto mais cansado, mais manhoso e bravo você fica, e ainda não reconhece que está na hora de dormir. esse momento é sempre tenso, de convencimento, cheio de rituais que ajudam o processo mas ainda são necessários porque você quer mesmo é que o dia dure “para sempre”, que o sol nunca vá embora e que seja sempre fim-de-semana.

ainda não posso te contar esse segredo, mas quando você puder ler esse texto, saiba que nós também queremos que os dias sejam eternamente um domingo ensolarado e azul, e que a segunda-feira seja “um dia”, e não amanhã.

um beijo cheio de amor da sua mamãe.

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aqui as fotos dos seus 4 anos, até agora. tem muito mais pela frente! 🙂

mudar é preciso

e não temos (muito) medo de mudar. então lá vem outra…

mas antes, um pouco de contexto: pra quem me acompanha desde o começo, sabe que a escolha da escola do Otto foi um processo — a gente pesquisou, pensou, avaliou, e acabamos decidindo pela pedagogia Waldorf. os principais motivos foram (1) alimentação orgânica / natural (não servem nada industrializado nem com açúcar, os lanches são todos fruta, castanha ou cereal); (2) contato com a natureza (quintal grande, atividades direto na terra e com plantas); (3) acolhimento da criança sem o ambiente “escolar”, o grande foco é no brincar — não existe AULA, mas atividades lúdicas direcionadas, procurando imitar o ambiente familiar com a professora fazendo as vezes de “mãe” arquetípica.

nos encantamos tanto com a pedagogia que nos dispusemos, junto com outras 7 famílias, a criar uma associação Waldorf para nossas crianças, gerenciada por nós, o Espaço Livre EcoAra. a gestão associativa, com total participação dos pais e professores, é a base da pedagogia, e é uma experiência muito profunda. participar de forma ativa da criação e gestão do espaço no qual nossos filhos vivenciam os primeiros anos escolares é transformador. desde a valorização do trabalho que exige a criação e manutenção de uma escola até o senso de pertencimento e envolvimento, toda a vivência nos torna pessoas mais atentas, melhores, mais dedicadas. além disso tudo, ainda é possível conhecer pessoas do bem — mesmo com os inúmeros conflitos que são inevitáveis ao convívio em grupo, a gente percebe que ninguém erra por maldade, mas porque fazer coisas em grupo é complexo, e o ser humano é difícil.

foram 2 anos muito importantes pra nós, e estou certa que foram também pro Otto. sempre achamos que a pedagogia Waldorf seria muito boa pra ele até os 6 ou 7 anos, quando ainda não iniciam as atividades de alfabetização.

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ainda assim decidimos abandonar a pedagogia Waldorf para o Otto antes de completados os 7 anos. continuamos voluntários da associação, do Espaço EcoAra, e faremos tudo que for possível para que eles se mantenham e continuem esse projeto tão bonito.

o nosso motivo é basicamente um: quanto mais tivemos contato com a antroposofia, menos gostamos dela. fiz várias tentativas de ler textos, “artigos” e também alguns livros, e a cada tentativa minha frustração e incômodo se intensificavam. esta filosofia se diz científica, e tem um discurso pseudo científico que chega a enganar quem quer ser enganado, mas para quem realmente gosta de ciência e entende o método científico, não dá. eles acreditam em karma, alma, reencarnação, além de jesus como filho de deus, santos, anjos e mais uma lista enorme de coisas absolutamente fictícias (desculpa, pessoal crente. é ficção, até que seja provado). é uma mistura sem fim de dogmas e crenças, porém muito disfarçados de ciência, o que me incomodou ainda mais.

steiner é arcaico. pode ter sido uma figura importante e brilhante no seu tempo, mas ficou ultrapassado em vários sentidos, e não vejo na filosofia uma abertura à diversidade real, ao debate, o incentivo ao pensamento científico. as diretrizes da pedagogia, por exemplo, são extremamente rígidas e o espaço para o debate não existe. os princípios da pedagogia Waldorf têm 1 século e jamais foram revistos, atualizados, modernizados à luz de tantas vertentes pedagógicas novas — como pode? Steiner podia ser um homem inteligente, mas a humanidade continuou a evoluir, e a pedagogia está parada no tempo, cristalizada, obedecendo aos princípios que ele postulou.

não nos sentimos incluídos, nossas dúvidas (colocadas para várias pessoas “seguidoras” da antroposofia) jamais foram acolhidas, muito pelo contrário — nos sentimos mal por questionar, e isso nunca é bom para pessoas como nós, que acreditam que perguntas e questionamentos são a base da evolução, da ciência, do desenvolvimento. como submeter nosso filho a uma pedagogia que se baseia em princípios que sabemos ser fictícios? qual será o espaço que ele terá, depois dos 7 primeiros anos de brincar, para questionar e discordar?

tenho certeza que alguém do meio antroposófico vai dizer que nossa experiência não representa o todo, que a antroposofia é baseada na liberdade do indivíduo, mas não se engane: não é. o indivíduo que refuta a existência de deus e do espírito não tem espaço na antroposofia. concluímos, com certo pesar, que a antroposofia, a pedagogia Waldorf e todos os que de alguma forma entraram em conflito conosco a esse respeito não estavam errados — eles estão alinhados entre si, e coerentes. nós é que precisávamos mudar (ou aceitamos, ou saímos), e a decisão foi tomada. talvez existam educadores brilhantes o suficiente na pedagogia Waldorf que tenham condições de lidar com a diversidade de pensamento, e a clareza de admitir que a antroposofia é mais uma vertente espiritual, sem impor isso a seus alunos de forma indireta e subliminar (o que pra mim é pior do que uma escola declaradamente católica, por exemplo, ou judia). mas não vou confiar a educação científica* do meu filho a professores que (frequentemente) são parte da ficção espiritual de forma tão engajada.

(*) uma pausa para esse assunto: não temos nada contra crenças individuais (tudo contra religião. mas esse é assunto pra outro post) e fé seja no que for. mas estamos convictos que fé e crença devem ser ensinadas SOMENTE dentro do contexto familiar. à escola cabe o ensino das normas, do convívio, dos princípios da vida em sociedade, da ciência. não quero nenhum professor repassando ao meu filho suas crenças em seres imaginários, em especial quando isso é feito de forma indireta e muito frequentemente inconsciente.

mas voltando: depois da exposição às crenças antroposóficas / Waldorf, não ficamos felizes com as possibilidades do ensino neste método a partir dos 7 anos. até os 6 anos seria tudo ótimo, pois eles basicamente brincam e interagem entre si através das atividades dirigidas de artes, música, brincadeiras. poderíamos deixá-lo na Waldorf até os 6 anos pelo menos, mas aí entra uma característica do Otto: ele é um menino introvertido, que demora muito a se familiarizar com as pessoas e ambientes. após 4 anos na Waldorf com a mesma turma, ele seria transicionado para uma escola comum, no sistema de ensino tradicional (o que por si já seria um choque) e além de tudo começando a alfabetização, que é também uma mudança importante.

para evitar um choque tão abrupto, decidimos mudá-lo de escola neste ano, e deixá-lo se adaptar ainda no jardim, antes de iniciar a alfabetização.

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bom, não foi fácil a decisão. o sistema tradicional de ensino exige da criança uma maturidade que ela nem sempre tem, e isso é doído. o otto por exemplo tem interesse pelas letras e números, formas geométricas, já sabia desde 2 anos, então essa parte não nos preocupa. mas ele não é uma criança independente e extrovertida — não se veste sozinho, nem escova os dentes (direito, né. de qualquer jeito ele faz), lava as mãos, cuida das próprias coisas. muito dessa dependência é culpa nossa, claro, porque temos preguiça de deixar ele fazer (demora; tem que refazer) e fazemos por ele. agora ele está sendo pressionado a ter uma independência que não tem ainda, e confesso que tem sido difícil pra mim (talvez mais que pra ele).

ele agora vai para uma escola de curriculum internacional, em inglês, das 7:20 às 15:15h. almoça e toma lanche na escola, convive com crianças de várias nacionalidades, tudo em inglês e português. há alguns meses ele começou a se interessar muito pelo inglês por causa do desenho dora aventureira, então quando decidimos por esta escola ele ficou super feliz.

ele começou há 1 semana, e não precisamos buscá-lo mais cedo nenhum dia (ou seja, ficou sem chorar e sem reclamar muito), está comendo bem e quando perguntamos sobre a escola ele diz que está gostando. tem chegado feliz, dorme bem, está no geral ótimo, o que nos surpreendeu muito, pra ser sincera. achamos que a mudança seria sentida, que choraria, reclamaria, e ele está lidando muito melhor do que nós 🙂

fizemos nossa 1a reunião com as professoras no final da 1a semana, e elas disseram que ele está bem, não estranhou, mas notaram a falta de independência dele comparado às outras crianças. a culpa é toda nossa, e agora precisamos ajudá-lo a ser mais independente para se adaptar melhor. aparentemente ser tudo em inglês não incomodou ele de forma alguma — não reclamou, e uma das professoras comentou que ele “fala inglês” (rimos muito; ele se vira bem, aparentemente). vamos ver como segue. na 1a segunda-feira depois da 1a semana de aula ele chorou quando percebeu que ia pra escola — queria ficar mais em casa (eu também. nós todos também. como dar essa notícia pra ele?)

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assim como foi no começo, quando ele foi à escola pela 1a vez, percebo o quanto a tarefa de fabricar humanos é difícil e muitas vezes dolorida — todas as feridas, esquecidas há tanto tempo, abrem e voltam com força total. nestes dias de ansiedade e apreensão por ele, sinto falta da minha mãe. revivo memórias construídas (sempre amei a escola, mas como será que era levantar de manhã e sair de casa? nunca foi fácil na vida adulta, deve ter sido difícil quanto pequena também), tento ser pra ele uma mãe tão presente e carinhosa nessa hora da partida do ninho quanto minha mãe o foi (ser acordada pela minha mãe e tomar café da manhã é das lembranças mais lindas que tenho da infância). eu o acordo com todo carinho, visto sua roupa (ainda não consigo deixá-lo vestir, porque teria que acordar MUITO mais cedo), sento para tomar café da manhã junto. na volta, pergunto da escola, e tento mostrar que é um lugar (e uma experiência) super legal. ele nunca fala muito, mas diz que gosta, e eu tento acreditar.

anseio pelo dia em que ele faça amigos, e se interesse também pelo mundo dos outros, não somente o nosso, da nossa casa e nossa família. quero que ele navegue, tenha coragem, e sinta felicidade também em partir, não só em retornar.

enquanto isso, meu coração de mãe cabe num dedal.

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novas regras de comentários

graças à quantidade absurda de SPAM nos comentários, sou obrigada a mudar as regras ou passar a vida apagando comentários de robôs 🙁 (a alternativa é pagar para ter um filtro, mas francamente eu não sei nem se ainda tem quem leia esse blog, então…)

peço com carinho que se você gosta de comentar aqui, por favor se cadastre no blog, e aí o comentário é livre 🙂

beijos!

a história da chupeta

chupeta sempre foi um assunto que eu considerei simples antes de ser mãe: não darei  para o meu filho, já que não tem nenhum benefício.

mas aí seu filho nasce num parto complicadíssimo e passa 8 dias na UTI, onde você pode visitá-lo somente a cada 3h, e as coisas mudam. ele chorava, sem ninguém amamentando ou pegando no colo, então as enfermeiras deram chupeta pra ele e uma boa parte do tempo isso era suficiente pra ele não chorar. quando a fome apertava ele chorava MUITO — quando eu chegava pra amamentar, ouvia de longe o menino gritando de fome, e além da preocupação com a situação (ele estava na UTI em observação, pra ver se não havia nenhuma seqüela do parto) eu ainda sofria horrores de não poder dar o peito na hora que ele quisesse.

dessa forma, minha opinião sobre a chupeta tornou-se irrelevante e cedi. não suportava a ideia de deixá-lo chorando sem colo e sem peito. a chupeta é um substituto ruim, mas me pareceu melhor que a alternativa. não me arrependo.

voltando para casa, tínhamos muito medo e total inexperiência. a chupeta não atrapalhou em nada a amamentação (ele pegou o peito perfeitamente de primeira, e assim foi até que decidiu desmamar por conta própria aos 9 meses), mas acredito que pelos 8 dias na UTI ele associou o peito a comida e não ao efeito calmante, e simplesmente não aceitava mamar como forma de conforto ou mesmo para dormir. mamar, pro Otto, sempre foi objetivo: acabou a fome, acabou o peito. os incômodos e o sono nunca foram resolvidos com o peito, ele não pegava de forma nenhuma sem fome. colo sempre foi essencial, ele ficava mais calmo e muitas vezes parava de chorar estando no colo (andando, de preferência), mas o peito era buffet mesmo.

acho até que por isso aos 9 meses, quando ele já tinha muitos dentes (>7 com certeza) e comia de tudo, desinteressou do peito. pegava pra mamar, e ele mordia o peito, cuspia e ria. não queria mesmo, pra minha frustração (se pudesse, teria amamentado até sei lá quando, era muito legal, em especial depois da 1a fase de mamar a cada 2h).

mas enfim, devido a esse detalhe do peito não acalmar a criança, a chupeta tornou-se uma âncora, porque acalmava o menino imediatamente. talvez se tivéssemos suportado o choro nos primeiros dias e “ensinado” pra ele que o peito era uma boa alternativa à chupeta, ele tivesse aprendido. mas se você tem filhos e lembra o que a gente sente quando o recém-nascido chora, há de ter empatia com nossa situação e entender que a chupeta já não parecia tão ruim.

conforme a época crítica de RN foi passando, reduzimos o uso da chupeta para apenas a hora de dormir (e sempre que podíamos, tirávamos da boca dele enquanto dormia). quando ele parou de mamar no peito, adotamos a mamadeira (que ele aceitou na boa, bem parecida com a chupeta) para dar leite, porém paramos quando ele completou 2 anos. por mais que tivéssemos cedido à chupeta e à mamadeira, sempre tivemos a preocupação de minimizar o uso e evitar problema buco-maxilares. e escovamos os dentes dele pelo menos 2x/dia desde que os dentes nasceram, aos 6 meses.

(além de acharmos bem complicado a criança usar chupeta o tempo todo)

aos 3 anos levamos o otto a uma dentista pela primeira vez, e pra nosso alívio ela afirmou que não havia nenhuma consequência do uso da chupeta na dentição, nem nada que fosse visível. ele tem os mesmos problemas alérgicos de nariz que eu e o pai, que não acho que têm relação com chupeta, a genética explica 100% (mas veja que disse ACHO, já que não investigamos nem sou especialista no assunto). sorte, ou é porque o uso da chupeta nunca foi muito intenso.

o otto sempre deu trabalho pra dormir, e a chupeta também era uma muleta enorme. naquele momento crítico do sono, da chatice do cansaço, a chupeta ajudava a acalmar e ele dormia. não nos parecia OK deixá-lo chorando pedindo a chupeta e simplesmente não dar, ele parecia tão pequeno ainda! nós estávamos aqui há mais de ano sofrendo com o momento de tirar a chupeta, já que tampouco nos parecia legal inventar alguma história maluca pra tirar a chupeta (dar pro papai noel, pro coelho da páscoa, pros ETs…).

até que há 1 ou 2 meses a boquinha dele apareceu meio assada, como que rachada de frio. achamos que podia ser de dormir com a chupeta, pois ficava bem vermelho acima do lábio superior. decidimos tirar a chupeta por uns dias pra ver como ficava, e explicar pra ele que não ia usar a chupeta porque estava machucando a boquinha. não era uma tentativa de tirar a chupeta, era mesmo um jeito de testar uma hipótese.

na 1a noite ele pediu a tetê, e explicamos a situação. ele reclamou (não lembro se chorou, mas reclamou), explicamos de novo, ele acabou cedendo. pra nosso espanto (e alívio) dormiu normalmente, sem chupeta. fizemos o mesmo no próximo dia, e nos demais, até que a boquinha melhorou. ele continuou pedindo a tetê, mas cada vez menos enfaticamente. continuamos explicando, e quando a boca melhorou percebemos que podíamos eliminar a chupeta sem drama. alguns dias depois, ele já não pediu mais, como se a chupeta nunca tivesse existido! e o sono continua bom, normal, dormindo rápido quando cansado e mais devagar quando está menos cansado.

no fim a assadura na boca não era da chupeta, é causada por ele mesmo, que passa muito a língua no lábio quando o tempo está muito seco. tenho passado batom hidratante e melhora 🙂

não sei se tiramos a chupeta tarde demais, e nem se existe algum problema causado por ela que nem descobrimos, mas essa foi mais uma das muitas lições de ilusão de controle e certeza que a maternidade me trouxe: nem sempre a gente consegue fazer as coisas do jeito que considera ideal; as coisas acontecem no tempo em que precisam acontecer, e não quando a gente quer — precisamos estar atentos se agir na hora certa quando ela aparece!

apanhado do facebook: agosto

Chegou dia 1, que eu adoro em todos os meses , mas chegou também pra meu espanto (onde foi o resto do ano?) Agosto, que há 4 anos virou meu mês favorito.

Há 4 anos eu estava em casa, com uma barriga do tamanho do mundo, arrumando o quarto do menino, lavando roupas minúsculas e vendo a jabuticabeira florir.

Todos os anos, agora, passo esse mês de Agosto tentando lembrar da vida antes de ser mãe desse rapazinho, e parece outra vida. Era boa, às vezes era inclusive melhor, mas era outra.

No meio do inverno, me aqueço com as lembranças e esse amor tão novo, tão intenso.

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Fiquei tão feliz hoje — fomos a um encontro com pessoas do meu trabalho e suas famílias, e como sempre não tive grandes esperanças do Otto ser sociável, em especial com as crianças da idade dele (com adultos o processo é lento mas acontece).

Além do evento ser uma delícia, o Otto não só se interessou pelas crianças (OK, não as da idade dele, mas pelo menos eram crianças!), como chegou a ir sozinho falar com elas e chamar para brincar! \o/

Mas, sempre estilo Otto-o-diferente: vendo as crianças brincando juntas, um monte de meninos, ele chega perto e fala: “Meninos, cheguei!”

(Bonitinho é ver os meninos tão receptivos, chamando ele e tentando enturmar. Dá um quentinho no coração vendo crianças do bem ♥)

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Fernando está criando um monstro.

Eu gosto de trazer coisinhas pro Otto de vez em quando, quando chego da rua. Às vezes é um adesivo, um brinquedinho, um papel, um giz, algo de comer. E ele adora, claro, então vira e mexe, quando eu chego, ele além de me dar o melhor sorriso e abraço do mundo (nada se compara à carinha de feliz do filho quando a gente chega ♥), ele quer saber se “eu trouxe alguma coisinha”. Às vezes tem, às vezes não, e tudo bem.

Hoje tinha — comprei um monte de frutas lindas que tem perto do meu trabalho, e em especial um saquinho de cerejas pra ele.

Cheguei, abracei, beijei, ele pergunta: “tem alguma coisinha?” e lembrei que tinha.

Eu, mega empolgada: “Tem! Trouxe cereja!!”
Otto, desapontadíssimo: “oba.”
(Assim, com minúscula mesmo)
Eu, -fuén-: “O que você queria?”
Otto: “M&M, tem????”

Fer: “Tem, o papai trouxe!”

OLHA, TECONTAR! 😛

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Otto enlouquecido com a visita do vô Gê, batendo papo agorinha:

Otto: “tem planetas lá fora?”
Vô: “o que você acha? Você conhece os planetas?”
Otto: “conheço, e acho que eles estão chegando!”

(Está anoitecendo e as estrelas começam a aparecer)

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Hoje meu menininho completa 4 anos. Ontem eu disse que ele faria aniversário, e ele falou “mas eu quero que seja seu aniversário também!”

Expliquei pra ele que era meu aniversário também, já que no dia em que ele nasceu uma mamãe nasceu também. Que todo ano, no dia 27 de Agosto, eu também comemoro meu aniversário de mãe e fico muito feliz.

Eu, que amo o dia do meu aniversário, também tenho há 4 anos mais um dia no ano que é o dia mais feliz <3

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Presentes de aniversário: bonequinhos da Eva e Wall-e.

“Ela é linda!” (Sobre a Eva)

“Eu adorei!”

Não dá pra explicar a felicidade de ver o filho da gente feliz. É sobrenatural.

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Fiquei tão impressionada com o Wall-e que o Otto desenhou que fui perguntar pro Fer e Maria se eles não tinham desenhado!

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Texto muito didático sobre essa técnica que eu uso há alguns anos (e não sabia que tinha esse nome), e é maravilhosa. Aprendi em cursos sobre feedback e depois lendo o livro “a auto-estima do seu filho” tudo fez ainda mais sentido.

Não é fácil aplicar, já aviso. Tenho dificuldade por exemplo com a escuta empática. Mas é essencial praticar, mesmo que nem sempre dê certo. A intenção é tão ou mais importante que o resultado.

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Meu filho, esse que eu amo mais que tudo, me matando de vergonha: todo mundo chegando pra festa de aniversário com presente, e ao entregar pro Otto escuta algo como — “mas sabe o que eu queria MESMO de presente? O Chick Hicks”.

A gente escuta a mesma coisa há meses, e não achamos pra comprar. Encomendamos com a Raquel, e nem sei o que será quando o bendito chegar.

entrevista sobre ser mãe

uma amiga me indicou para ser entrevistada sobre a experiência de ser mãe, e como não sei se a entrevista vai mesmo ser publicada (sou uma entre várias entrevistadas), fica aqui para registro e caso alguém queira saber 🙂

(se sair alguma parte dela na revista eu coloco o link aqui depois)

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Você escreveu no seu blog algumas vezes que não tinha o sonho de ser mãe, mas ama a experiência, hoje, de ver o filho crescer e descobrir coisas. Como é essa descoberta? Como foi essa mudança?

Nunca tive sonho de engravidar e ser mãe, não fazia parte das minhas metas, desejos. Mas aos 36 anos mais ou menos (meu marido, 34) começamos a conversar sobre o assunto e achamos que apesar de nenhum de nós ter esse desejo apaixonado a experiência devia ser muito interessante. Brincamos que foi uma “experiência antropológica”, e é mais ou menos isso mesmo. Não fomos do tipo que celebra a gravidez e a nova vida, aquela coisa de cinema. Sempre fomos bem pragmáticos e encaramos a experiência como uma jornada, uma novidade, sabendo que muda tudo na vida e é um outro caminho. Depois do nascimento do Otto as descobertas foram diárias, às vezes muito incríveis de tão legal e às vezes muito chatas e desagradáveis. Como não romantizamos a experiência, acho que pudemos viver tudo — a parte linda e a parte muito chata de ser pai e mãe.

Como foi sua gestação? Nessa fase, quais foram as “surpresas”, coisas que você não esperava e acabou tendo de se adaptar?

A gestação foi tranquila, engravidamos poucos meses depois de decidir que íamos ter filhos. Não posso reclamar de quase nada da gravidez em si, porque tive poucos incômodos (azia o período todo, enjoo no começo, e o final é inevitavelmente difícil fisicamente, pelo volume). Só uma lembrança de incômodo é bem forte: fiquei com nojo de alho, então comer fora era difícil e chegar perto de gente que tinha comido alho acabava com meu dia! Felizmente passou. Fora isso foi vida completamente normal, trabalhando e fazendo tudo que sempre fiz.

O mundo da maternidade tem várias “regras”, que já viraram às vezes até piada. No seu blog, por exemplo, você sempre fala de #paidecesarea. Como você vê essa história da escolha do parto? Como lidou com isso?

Eu já tinha lido e acompanhado muito sobre parto humanizado bem antes da ideia de ter filhos, e na minha família quase todas as mulheres fizeram parto normal de vários filhos (apesar de não serem nada humanizados, ao contrário). Pra mim era claro que queria um parto humanizado sem intervenção desnecessária (no meu corpo ou no corpo do bebê), de preferência, como é a recomendação da OMS. Tendo engravidado com 37 anos, minha gravidez automaticamente era considerada de risco, o que complicava a opção de parto em casas de parto (muito recomendada por várias pessoas) e eu não queria fazer parto em casa também. Fiz acompanhamento inicial na casa Moara (muito boa, recomendo), mas eles não atendem no interior, onde moro. Achei então uma obstetra na região alinhada com meu plano de parto (uma dificuldade enorme, a propósito), visitei hospital, falei com pediatra chefe, fizemos um plano completo de parto. Ou seja — nos engajamos muito no processo todo, sabendo das dificuldades de evitar intervenção. Mas no final das contas, acabei fazendo uma cesárea emergencial, pois no processo de trabalho de parto houve uma complicação grave. O Otto nasceu de 41 semanas e 5 dias e ficou 8 dias na UTI em observação, graças ao parto complicado, mas eu fiquei muito bem e ele também. Saiu tudo diferente do que eu planejei, mas estou certa que o processo que adotamos foi o melhor possível, e isso é que é importante: ser protagonista da gestação, do parto, e ser acolhida pelos profissionais que estão dando o apoio (ao contrário de ser coagida, por medo).

Depois do nascimento do Otto, como ficou sua rotina? Havia algo que você imaginava e que foi totalmente diferente?

A rotina mudou completamente, a vida virou outra. Fiquei de licença por 7 meses, então tive muito tempo de tentar me adaptar (e não adiantou nada, porque quando estava entendendo o que estava acontecendo, mudei a rotina!). Eu não tinha ideia de como seria, só sabia que seria diferente e cansativo. O Otto mamava muito (amamentei em livre demanda), mais ou menos de 2 em 2h, e demorava 40min para mamar, o que torna o processo muito desgastante fisicamente. O Fernando (meu marido) foi um suporte essencial, pois ele fazia tudo que não fosse dar de mamar, e nossa funcionária e nossa família ajudaram muito também. Sem ajuda é uma tarefa impossível. Jamais esquecerei o ditado africano que diz “é preciso uma aldeia para criar uma criança”, porque é 100% verdade. Ajuda é fundamental — mas precisa ser ajuda de verdade, e não palpite e julgamento. É preciso de espaço e tranquilidade para errar e acertar, e conhecer aquele ser humano que acaba de chegar e muda toda a dinâmica da família, da casa, do relacionamento. Eu não tinha ideia de que ficaria sem dormir (ou dormindo picadinho) por tanto tempo, pra ser honesta. As pessoas nunca dizem a verdade pra gente, e repetem que “o amor incondicional compensa tudo”. Não me senti assim, e apesar de toda a alegria que traz a chegada de um filho, há também o medo e o cansaço, que são muito grandes.

Como foi lidar com questões cheias de expectativas, como rotina de sono e amamentação?

A amamentação foi muito tranquila, desde que o Otto começou a mamar (ainda na UTI). O início, quando ele estava com soro ou recebendo meu leite por caninho, e eu tinha que ordenhar, foi MUITO difícil, assim com letras maiúsculas mesmo. O processo de ordenha é muito mais difícil que amamentar, mas felizmente eu tive um apoio maravilhoso das enfermeiras no hospital, foi essencial para o processo e para a minha sanidade mental. Estar com filho na UTI, recém-parida (com dor, por causa da cesárea) e ainda ter dor e dificuldade para ordenhar é um horror. Mas quando ele veio para o peito (5 dias depois do parto, somente) foi muito tranquilo, ele mamou bem e de forma simples, e foi assim até parar de mamar por conta própria aos 9 meses. Então fora a dor na lombar (tenho uma hérnia) que voltou nos meses da amamentação e o cansaço da frequência, amamentar foi tranquilo. Já o sono foi infernal, eu sempre adorei dormir muito, e me senti um zumbi por vários meses. Fiquei sem dormir uma noite completa (6h seguidas) até perto do menino completar 2 anos, quando decidimos (tarde demais, na minha opinião) fazer cama compartilhada. Depois que ele veio dormir na nossa cama, nossa vida mudou: melhorou MUITO, pois já não acordávamos mais durante a madrugada para fazê-lo voltar a dormir. Deixá-lo chorando sozinho nunca foi uma opção pra nós, então o processo todo foi muito desgastante. Se tivesse nos ocorrido que dormir junto seria tão simples, teria mantido assim ao invés de colocá-lo no berço no seu quarto aos 5 meses, como fizemos.

Você conta também da expectativa de o filho ser parecido com você, e que, diferentemente, ele é introvertido. Como você lida com isso?

Isso é uma das coisas mais difíceis e mais bonitas da maternidade, na minha opinião. O Otto é completamente diferente de mim, em personalidade, e mais parecido com o pai. Mas o pai é adulto, e já aprendeu a “navegar” no mundo dos extrovertidos. Pra mim é um mundo novo, complexo, misterioso, e com o qual não me sinto 100% à vontade, sempre fica a paranoia de que o menino “tem problema” porque não é extrovertido e super sociável. Por mais que a pediatra afirme que ele é ótimo, e várias pessoas confirmem que isso é só personalidade, eu não consigo entender, então fico tensa. Mas está melhorando, conforme eu leio, converso com amigos introvertidos e (o mais importante) presto atenção aos meus preconceitos. É isso que tenho feito: me educado, e aprendido a conviver com a diferença (o que me faz muito bem na vida de forma geral, não só como mãe). Mas nunca tive grandes expectativas concretas sobre meu filho, até porque nem pensava em tê-lo. Sou muito flexível e gosto de improvisar, seja pra mim mesma ou pra família, então não fico fazendo planos ou pensando no que ele vai fazer, o que vai estudar, essas coisas. Eu quero mesmo é que ele seja saudável, feliz, seguro, e isso ele já é desde muito pequeno. Apesar de introvertido, ele é muito assertivo, objetivo, se expressa bem, sabe o que quer, sabe dizer não (coisa que eu aprendi aos 30!). Não podia querer nada além disso.

Hoje, com ele maior, como é a rotina de vocês? Como os cuidados com ele se encaixam em seu dia a dia (viagens, trabalho etc.)?

Minha rotina é bem estruturada, mas não é exatamente rígida (ou seja, a gente adapta quando precisa). Eu trabalho fora o dia todo, sou gerente de TI de uma multinacional para a América do Sul, o trabalho me exige muito. Mas já na gravidez decidi que seria mais regrada com minha dedicação ao trabalho, e procuro fazer poucas horas adicionais, sempre dou muito foco em ser produtiva ao máximo no horário de trabalho, e desligar quando vou pra casa — é assim que tenho feito, e funciona muito bem. Nossa família foi organizada de um jeito muito moderno, e diferente da maioria que conheço — eu trabalho das “8 às 17h” e meu marido é freelancer, desde antes do Otto nascer. Então é ele que cuida de coisas da casa, supermercado, que leva e traz o Otto para a escola, que resolve todas essas coisas do dia a dia, que cuida dele quando eu viajo a trabalho (raro, mas acontece). Temos ajuda de uma super funcionária (segunda a sexta), que cuida da casa e ajuda com o Otto quando o pai não está. Eu chego à noite e só brinco e cuido do Otto, junto com ele. No fim de semana, passeamos, fazemos coisas juntos, nada muito planejado — fazemos o que temos vontade. Não gosto de criar “calendário” para a criança, já basta a nossa vida de adulto cheia de compromissos. Então, temos nossa rotina do dia a dia bem fixa (horário de escola, almoço, lanche, jantar, dormir), mas estamos sempre dispostos a improvisar e nos fins de semana fazemos o que der vontade. Quanto às viagens, é uma das atividades que mais amamos, desde que casamos, e o Otto foi incluso nessa rotina a partir de 1 ano. Viajamos todos os anos, para diversos lugares diferentes, outros países ou aqui mesmo, sem muito planejamento, improvisando no caminho. A experiência é diferente com uma criança (quanto menor, mais difícil), mas é também muito bonita — ver o mundo através dos olhos da criança (além dos seus) é mágico, e muito interessante. Dá trabalho? Dá, mas vale a pena.

Uma coisa que vale para todas as perguntas que você me fez, vale em especial aqui: para ser feliz na experiência de ser mãe e pai é preciso parar de perseguir a perfeição, o “certo”, e ver alegria e beleza na surpresa, na diferença e até na dificuldade (mesmo que seja olhando depois). Criar uma criança é reviver nossa própria história, e muitas vezes fazer as pazes com o passado. Caso você insista em condenar o passado, e for muito perfeccionista, o sofrimento é inevitável. Eu escolhi ser feliz 🙂

diário do otto: 4 anos

“as entradas no meu rosto

e os meus cabelos brancos

aparecem a cada ano

no final do mês de agosto”

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otto,

há 4 anos eu ainda não tinha 40 anos, e ainda era exclusivamente filha. as jabuticabeiras todas estavam em flor, o varal cheio de roupinhas minúsculas, o seu quarto já estava arrumado e nós esperávamos o desconhecido. lembro daqueles dias de fim de inverno, cheio de luz, flores, muitos tomates (adorava comer tomates durante sua gravidez) e uma espera que parecia interminável. é engraçado lembrar como eu não sabia, não tinha ideia, nem de leve, do que seria a vida algumas poucas horas depois.

agosto nunca foi um mês especial pra mim, mas depois de você tornou-se o mês mais intenso do ano aqui por dentro. o mês de março, que é meu aniversário, é cheio de alegria e euforia (amo completar mais um ano!), mas seu mês é puro sentimento. seja pela espera, chegada ou entrada em nossas vidas junto com a primavera.

tornei-me mãe de supetão (a gravidez não me preparou para o que viria. será que prepara alguém?), mesmo achando que estava preparada. ao chegar de forma completamente diferente do que eu tinha planejado, você já me ensinou que nem sempre temos controle de tudo; o período na UTI me lembrou que toda minha força e fé estão em mim, nos outros humanos que nos cercam, e não em algum deus ou entidade superior (sempre tive esperança que tudo aconteceria da forma mais perfeita e possível, que tudo ficaria bem); sua chegada em casa criou uma nova família, um mundo novo, pessoas novas.

não foram 4 anos fáceis, em especial os primeiros meses. percebo agora que (exatamente como temia) não estava preparada para ceder, doar, deixar ir a vida anterior. resisti, e por isso machucou tanto. não é que seja fácil (não é. lembre, caso eu não esteja mais aqui quando e se você decidir ser pai), mas tudo se torna muito mais difícil quando não deixamos a correnteza nos levar, e eu nadei à toa por muito tempo, até entender que jamais as coisas seriam iguais, e isso não é necessariamente ruim.

pois agora, 4 anos depois, quero repetir pra você uma frase que meu professor de ioga sempre dizia e demorei a internalizar: a dor é inevitável (física ou não), mas o sofrimento é opcional. em muitos momentos esqueci a dor (existência ou ausência) e me dediquei a sofrer. sofri com as noites insones, o cansaço, o medo, a preocupação. melhor seria ter simplesmente sentido tudo que cada um desses fatos trazia, e deixar passar, feito água.

muito mais fácil falar que fazer, meu amor. mas vale a tentativa, porque depois de passado o tempo, que dá perspectiva e lucidez, vejo que podia ter sofrido muito menos se fosse simplesmente menos controladora.

neste seu aniversário, mais que sua festa, presentes, abraços e amor, deixo aqui um conselho para a vida: não tente controlar nada. planeje, sonhe, realize, brigue pelo que você acredita e quer, mas não se machuque resistindo ao que é inevitável, ou muito difícil. tente ser flexível, sinta quando o pensamento não ajudar mais. olhe pra dentro, e liberte-se dos limites ou metas que você se auto-impôs.

seja feliz, seja livre.

amo você mais que o mundo, mais que tudo.

um beijo, mamãe.

 

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preciso também contar como foram esses meses, não? foram lindos. teve escola, família, construção da casa nova (tá quase pronta! mais 3 meses e acho que mudamos), mudanças pequenas e grandes no dia a dia, sua personalidade cada vez se mostrando mais — assertivo, direto, introvertido, carinhoso, sério. um menino especial, muito diferente das demais crianças que conhecemos, e em especial muito diferente de mim. o que é fonte de inúmeras preocupações (não sei lidar com o que não conheço, e sofro) e espanto (encantamento, medo, surpresa. você traz um mundo de aprendizado pra mim diariamente).

você tem brincado muito com bonecos e carrinhos, inventando roteiros e histórias, sozinho na maior parte do tempo. ainda não vemos você muito interessado em outras crianças da sua idade, mas num período de 3 meses passamos de “muito preocupados” com sua falta de interesse por amigos para “ok, é assim que ele é” depois de uma mudança significativa no seu comportamento bem no meio das férias. você se tornou subitamente mais falante, interativo, chama as pessoas (adultos ou crianças maiores) para brincar, faz perguntas até para desconhecidos e parece mais confortável em locais desconhecidos. ainda achamos que você deve ter mais interações sociais da sua idade, mas nossa preocupação com isso diminuiu muito. esperamos que você cada vez mais se solte, e consiga transitar sem problema em ambientes sociais, não porque é o “certo” mas porque vai ajudá-lo muito na vida 🙂

sobre as férias: fomos para ubatuba visitar o vovô Ivan e tio Kito , paramos em angra e no rio, e na volta conhecemos petrópolis, terminando com um divertido acampamento em itatiaia. foi sua primeira vez acampando, e você amou cada momento. foram 20 dias de férias com você, e pela primeira vez em muito tempo eu não cansei das férias, e confesso que queria ficar junto mais um pouquinho, aproveitando nosso tempo juntos como família.

nossos dias têm sido bons, meu filho querido, não me canso de fotografar e contar como somos felizes na maior parte do tempo. é lindo ver um ser humano crescer, e é mais lindo ainda quando podemos contribuir e participar <3

aqui você encontra fotos de todo o período: 3a9m, 3a10m, 3a11m.

e a partir de agora me comprometo a continuar contando as histórias frequentemente, mas o diário deve ficar anual (ou semestral). espero que você goste de um dia acompanhar como foi sua infância em tantos detalhes 🙂

apanhado do facebook: julho

Existe um outro tipo de felicidade, que descobri faz pouco tempo: a que vem da felicidade do nosso filho  É tão gostosa, tão emocionante. É louco sentir-se feliz simplesmente porque outro o é (e diferente de quando amamos qualquer outra pessoa. Amor de filho é uma coisa bem fora do radar, bem louca).

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O dia foi louco: acordamos na barra, fizemos castelos de areia, passamos por aquela linda estrada velha para a Tijuca (mágica!), andamos de metrô, encontramos amiga querida de forma planejada, subimos aquela maluquice do Pão de Açúcar (medo, paúra — Otto amou), e descemos quando já era noite. Foi a 1a vez que vi a cidade se acender do alto da montanha.

No meio da rua, à noitinha, enquanto corremos atrás de um menino doido de sono e de um táxi, somos encontrados pela Fernanda, que nos reconheceu e nos abraçamos no meio da rua pela primeira vez (espero que 1a de muitas), com sua filha que de tão linda parece uma ninfa.

Depois disso, entramos num táxi para o universo paralelo e tivemos um episódio de chilique homérico com direito a gritos de aaaaaiiiiiii, chutes e desejos secretos do serviço carioca de disque-homem-do-saco, que só se tornou mais surreal quando passou subitamente com um pedido de “quero um leite com ovomaltine”, na maior calma do universo.

E o dia não seria completo sem o toque final do banho e pijama (novo chilique) seguidos da mãe de cesárea que não percebeu que o shampoo tinha vazado na necessaire e a escova de dentes do menino virou uma mistura de pasta Weleda e sabão (só percebi algo errado quando a escovação virou uma espuma incomum).

O final, previsível, foi infeliz: “ok, tudo sob controle, Otto. Toma aqui um gole de água e COSPE A ÁGUA DE SABÃO, que nem os bichinhos de Madagascar, tá?”

“Pode engolir, mamãe?”

“NÃOOOO!”

Ele engoliu o sabão, é claro.

Boa noite.

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Fomos hoje pela 1a vez ao cinema com o Otto! \o/ Vimos “como treinar seu dragão 2” e ele assistiu bonzinho do começo ao fim. Levantou, sentou no colo e no chão, mas falou sussurrando como ensinamos (uma graça!), e foi um lorde.


OBS: mas ele reclamou de uma coisa (com a qual eu super concordo) — “o som é muito alto, mamãe!”.

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Não que eu precisasse de prova, mas essa semana achei lindo ver como o exemplo funciona melhor que o ensinamento: Otto queria entrar no banheiro, e o Fernando estava tomando banho. Ele foi sozinho, eu só escutei: ele bateu na porta e perguntou “posso entrar?”, como uma pessoinha grande! Nunca ensinamos isso pra ele, nenhuma vez, porque achamos que ele ainda é pequeno, e porque raramente as portas aqui são fechadas 

Achei tão lindo!

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(História do Fernando , mas que eu preciso contar. Basta eu sair dessa casa por umas horinhas e coisas assim acontecem!)

Diz que o Otto queria de todo jeito experimentar uns docinhos que temos num pote de vidro junto à cafeteira, pra fazer graça pra visitas. São docinhos de anis, que ambos odiamos (compramos porque o vidro é lindo, e os docinhos também, nem olhamos o sabor), mas o Fer deixou ele provar. Ele gostou (!!) e ganhou mais 1, e a orientação de não pegar mais.

Fer foi pra cozinha lavar louça e deixou o menino livre. Segundo me explicou, o “senso aranha” de pai apitou e ele foi conferir o que o moleque estava fazendo. Ele estava com um pote de açúcar em cubos na mão, e mastigando, entretido.

Apesar do flagra, não se abalou e informou ao pai: “desse eu não gostei…”

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Otto é um menino muito surpreendente. Ontem ele pegou algumas pecinhas de Lego, juntou com 2 peças que têm rodinhas, fez um quadrado em cima e trouxe pra me mostrar: “olha, mamãe, é o Wall-e!” (realmente muito parecido com a forma do robô, com as rodas embaixo).

Brincando comigo e com o “Wall-e” na cama, eu estava deitada no meio do caminho da brincadeira, e ele então me diz (exatamente assim, perfeito): “o Wall-e está querendo ir nessa direção, mamãe, eu acho que você deveria dar licença”.

Até a gente estranha um pouco esse jeito sério, mas não consigo deixar de achar fascinante essa personalidade tão peculiar dele <3

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O paladar do Otto é totalmente ogro mesmo: hoje comeu joelho de porco com chucrute (pela 1a vez) e gostou, e escolhendo sorvete pela cor, quis o verde. Era pistache (eu adoro, mas…), então pedi pra moça dar um tico pra ele provar antes. “Eu gostei!” e mandou ver no pistache.

Curry, pimenta, queijos fedidos, chocolate amargo, alho, cebola e pistache: check.

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Hoje por puro acaso o Otto assistiu seu primeiro concerto, uma peça de Ravel para 2 pianos. A sala era pequena, com cadeiras, aquele esquema “adulto”, e ficamos um pouco apreensivos com o comportamento dele, mas resolvemos tentar (explicamos antes, e sentamos em local fácil de sair se necessário).

Ele ficou em silêncio, assistiu a peça toda e aplaudiu muito feliz no final Na verdade ele falou, sussurrando, como ensinamos, pra perguntar: “vocês estão felizes? Eu estou feliz!”

Na sequência tocariam uma peça de Saint-Saëns, mas preferimos não arriscar  Uma vitória por vez.

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A gente ficou pensando essa semana como é louco que o Otto já viajou com 3a10m mais que a maioria das pessoas desse mundo, mais que a maior parte dos que conhecemos. O álbum de férias dele é um espanto  Espero que a gente consiga manter nossa meta de deixar como herança pra ele o gosto por viajar e o interesse por outras pessoas e culturas no mundo.

Não tem nada mais legal que viajar.

apanhado do facebook: junho

Morri de fofura extrema: Otto nos chamou pra brincar de adivinhar qual é o bicho fazendo mímica!   

(Pense num menininho deste tamanhinho imitando elefante, cachorro e macaco!)

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É tão pequeno, mas eu amo muito quando o Otto se refere a mim como “a minha mamãe” 

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Todo dia é um drama pra acordar o Otto, às 6:40h, nível novela, com direito a criança se jogando com a cara enterrada no travesseiro, gritando “quero dormiiiiiiiiirrrrr!”.

Sábado, 1o dia das férias. Horário que o menino acorda, felizão:

SEIS DA MANHÃ.

Olha, só amando muito mesmo.

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Otto hoje me perguntando sobre os sabonetes em formato de mini-corações do lavabo:

“Pra que servem esses… coracinhos?”