Porco-espinho

[16-maio-2014]

Ser mãe é passar vexame. Fomos hoje comer pizza com os amigos queridos Alexandre, Patricia e suas meninas. O Otto adora eles, cheguei bem animada com ele, estavam os 4 nos esperando.
Eu: “olha, Otto! A Paty, o Alê, as meninas, dá oi!”

Otto: “oi.”

Eu: “vamos lá, escolhe onde você vai querer sentar?” (eles todos na mesma fila, pra ficar de frente pra gente)

Otto: “quero sentar EM OUTRA MESA”

(cara da mãe cai no chão)

Eu: “ha-ha-ha” (senta, moleque, argh)
Aí a Clara (6 anos) trouxe um band-aid de presente pra ele e tudo deu certo.
Desculpe, universo, pelo meu filho ser assim um porco-espinho.

Manhê!

[16-maio-2013]

Otto começou a brincar sozinho, com seus livros e brinquedos, e não sei nem explicar como isso é legal. Até agora as brincadeiras sempre tinham que envolver mais gente, meio que “dirigindo”. Agora ele decide, faz coisas e inventa histórias sozinho, é tão legal <3
E do nada, agorinha, ele me chama: “MANHÊÊ! Vem aqui!”. Me dei conta que ele aprendeu com o porquinho do Cocoricó (que ele ama) e quase morro de fofura.
Lembrei de você, Mami Vera Lu, que não agüentava a gente gritando MANHÊ o dia todo… 🙂

Íbulon

[15-maio-2013]

Essa fase da criança de aprender a falar e principalmente expressar idéias é incrível, e muito divertida. O Otto semana passada veio com a seguinte pérola: “precisa passar protetor CELULAR antes da piscina!” <3
E algumas coisas simplesmente não consigo corrigir. Como o ípsilon, que era íbulon, e virou íspilon; e o interruptor, que é tupitôr.
No meio disso tudo, tem os chiliques típicos da idade, porque a banana quebrou ou o arroz misturou com o feijão. Aiai.
Minha conclusão até o momento sobre a maternidade se mantém — ser mãe é alternar rapidamente entre momentos extremos de fofura e amor e o desejo de ligar pro disque-homem-do-saco 🙂

Feliz dia das mães

Antes de ter filho eu já percebi que minha mãe mora em mim. Não exatamente ela, a minha Mami Vera Lu, que é uma pessoa maravilhosa, admirável e que amo muito, mas a mãe que eu construí quando criança. Aos poucos, conforme eu crescia, fui percebendo que a minha mãe que morava do lado de dentro não era a mesma que morava do lado de fora. É isso é bom, porque me deu a oportunidade de perdoar os erros da minha mãe humana, e admirar ainda mais os acertos. Quando a gente endeusa as pessoas, minimiza muito as qualidades (é assim que ídolos devem ser, certo?) e não se conforma com os erros (ídolos não têm direito de errar).
Mas é legal ter a mãe da gente morando aqui dentro. Ela fala comigo, me conforta e dá bronca. Às vezes ela me domina e me vejo gritando pro Otto coisas como — “SE EU TIVER QUE IR ATÉ AÍ…” 🙂 Minha mãe nunca vai me abandonar enquanto eu viver. E uma parte dela viverá com o Otto também, através de mim.
(E sei que isso é possível porque eu pude conviver com a minha mãe, e internalizá-la. Abraço todos e todas que não tiveram essa oportunidade por perderem as mães muito cedo. 💔)
Abraço também os que têm mães tóxicas. Essas mães que (provavelmente sem querer — não consigo conceber uma mãe sã magoando seus filhos de propósito) massacram seus filhos, que não aceitam deles nada menos que tudo. Que não acolhem o erro, o desvio da meta, o diferente. Que cobram o impossível, que não enxergam que o filho que ela sonhou não existe; que aquele filho que ali está é perfeito como é.
A mãe carrasca mora na gente também, e sopra julgamentos quando comemos um bombom a mais, quando dormimos sem tomar banho, quando as coisas dão errado.
“Eu avisei.”
“Eu sempre soube.”
Em 2010 me tornei mãe, e sabia que seria difícil — a maternidade idealizada nunca existiu pra mim. Só não sabia que seria TÃO difícil. De tudo que é difícil, a parte fácil é que dá trabalho: cuidar, limpar, ficar sem dormir. A parte impossível é lidar com um amor feroz, muito movido pelo medo, o pavor de ser responsável por alguém. Pavor de sentir um amor tão grande que parece que vai explodir pelos poros todos, que faz a gente sentir o coração ocupar o tórax todo, um amor que transforma a própria morte em apenas um inconveniente que vai afetar aquele ser, o filho.
Eu tinha medo de morrer. Morrer não é legal, a gente evita e tal. Mas quando temos um filho, a ideia inconcebível e que sequer se pode nomear de perdê-lo para a morte transforma a nossa própria morte em uma opção excelente. Por favor que eu morra antes, muito antes, se necessário. Minha única preocupação com minha morte desde que me tornei mãe é “ele vai sofrer”.
Eu morreria 10 mortes por ele, sem hesitar.
(Mas não me peça pra tirar uma taturana de perto dele, esse teste já aconteceu e eu falhei miseravelmente. Saí correndo.)
Quando ele nasceu, eu nasci também. Minha porção mãe nasceu (já dizendo “SE EU TIVER QUE IR AÍ…”), e a cada ano que passa admiro mais meus pais. Que tarefa hercúlea é criar humanos estando presente. Porque humanos sobrevivem muito bem em ambientes hostis, somos muito resistentes. Mas criar humanos com amor pra serem seres humanos do bem é muito difícil.
Nosso corpo transmite a carga genética automaticamente para nossos filhos, e essa é a parte fácil. Humanos, diferentes dos animais, precisam de uma outra “carga”, que toma anos de investimento — somos nós, pais, educadores, família, amigos, a sociedade, que fazemos essa carga. Ensinamos e moldamos, a maior parte do tempo sem querer.
Eu gasto a maior parte do tempo com meu filho fazendo cargas de afeto, conhecimento, ensinando o que é ser humano dentro do meu sistema. Ele é resultado da minha carga genética e também da minha carga afetiva e intelectual. Esse processo é intensivo, e a cada ano que passa se torna mais difícil, mais complexo.
(E é também por isso que não é necessário engravidar pra ser mãe. A maior parte da construção da maternidade se dá no fazer. E se intensifica quando a criança cresce)
Somos como uma grande casa, cheia de cômodos escondidos. Ser mãe abriu cômodos que nem sabia que existia, cheios de pó e coisas misteriosas. Criar o Otto trouxe luz por novas janelas, e me obrigou a arrumar e limpar tralha que eu nem sabia que tinha.
Ele continua crescendo dentro de mim, iluminando cantos escuros. E tenho certeza que dentro dele há uma parte de mim, como um DNA alienígena, que vai ajudar e atrapalhar, carrega qualidades e defeitos. Ele vai me levar onde for.
Ser mãe é a experiência de autoconhecimento mais incrível e assustadora que jamais sonhei viver.
Alguém me disse uma vez, quando nem queria ter filhos, que ser mãe me faria bem pois me faria ver o mundo de outro ponto de vista. Achei meio óbvio, claro que a maternidade dá outro ponto de vista, mas hoje entendo o recado: o mundo não gira ao meu redor. E nada dá essa dimensão de forma mais radical que ser mãe.
Ser mãe é como aprender que há outros planetas, entender a lei da gravidade e fazer aquele “zoom out” comparando a si mesma com o sol. E sair da Via Láctea. A gente ri de nervoso, porque é tudo tão imenso e incompreensível que a gente retoma a vida e vai trocar fraldas, porque as pequenas coisas da vida trazem conforto e plantam nossos pés no chão.
Para este dia das mães, convido vocês a ler (ou reler, espero) O Delírio, de Memórias Póstumas de Brás Cubas.
Toda mãe é Pandora.
http://sanderlei.com.br/PT/Machado-de-Assis/Memorias-Postumas-de-Bras-Cubas-007

Sobre o dia das mães

A Claudia, há uns 15 anos, me contou a melhor história sobre ser mãe:
Ela era mãe recente, e como todas nós, desesperada e culpada por não saber tanta coisa e não ser a melhor mãe do mundo.
O pediatra então explicou pra ela que aquele bebê não tinha outra mãe e nem teria, que ela era sim a melhor mãe que ela teria e poderia ter. Toda mãe é a melhor que é possível ser.
**
Erro muito e todo dia, mas sei que sou a melhor mãe que eu posso ser, e a cada dia sou melhor que antes.
Ser mãe é uma função bem louca. A gente reencontra a própria mãe de verdade, a mãe idealizada (e mata ela, com sorte), a nossa criança interior (e faz as pazes com ela, também com um pouco de sorte e empenho) e conhece um novo ser humano neste mundo, novinho pra começar toda uma vida.
Ontem mesmo, sincronamente, li de João Guimarães Rosa e bateu fundo em mim: “um menino nasceu. O mundo tornou a começar”.
Ser mãe é ver o mundo começar de novo, do zero.
Feliz dia das mães <3

Esquadrinhando

[12-maio-2015]

“É claro que você conhece os guardiões da infância!”
Já li esse livro pro Otto umas 20, 30 vezes (é lindo, não enjoei ainda), mas hoje o Fernando fez um gesto de “espera, ouve”, e eu silenciei antes de começar a frase que abre o livro.
E o Otto começou a contar a história, perfeitamente. Uma, duas, três páginas inteiras. Ele pula uma ou outra palavra, mas mantém o sentido das frases, conta a história todinha.
(“Esquadrinhou os céus com seu telescópio…”)
Eu virei as páginas e escutei, incrédula. Com lágrimas nos olhos e um sorriso no rosto, não porque ele tenha memorizado a história tão lindamente, mas porque ele conta a história usando a minha entonação, inflexões, pausas expressivas, e até os gestos que eu uso em partes mais dramáticas.
Idêntico. Um espelho. E a imagem que eu vi de mim mesma foi tão linda que até agora, escrevendo, eu me emociono.
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Leiam para os seus filhos, sobrinhos, amigos pequenos. Leiam com o coração, encontrem o drama, a comédia e o terror dentro de vocês, impressionem uma criança.
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(Tentarei filmar. Mas parece que ele sabe que quando filma é preciso representar, e não é a mesma coisa)

Ai!

Maria, hoje cedo me contando:
M: “sabe o que seu filho me disse quando eu perguntei como estava na escola, se ele estava gostando?”
Eu: “hahhahaha, não, mas coisa boa não há de ser…”
Maria: ” ‘Maria, você precisa mesmo tocar nesse assunto?!’ ”
HAHAHHAHAHAHHAHA! ❤️

Culpa, teu nome devia ser mãe 

Otto estava super sentimental nos últimos 2 dias. Chorando à toa, reclamão (normalmente ele reclama mais objetivamente, não é generalizado). Dormiu mal antes de ontem e ontem foi horror — demorou pra dormir, acordou de noite, 6 da manhã já me chamou.
Abracei ele, hm, quente demais. 37C, olheiras, nariz meio entupido. Falei que ele podia ficar em casa, não precisava ir pra escola.
“Maria, eu estou DOENTE e não vou pra escola, tá?” ❤️
(Pelo tom, antevejo várias doenças imaginárias vindo por aí..)
Variou hoje o dia entre 37C e 38C, mas sem sintomas novos. Cheguei da ioga e o menino já foi dormir com o pai, tou eu aqui contente porque tive um dia produtivo, uma sessão de meditação e ioga muito boa, mas culpadíssima porque a quiança tá doentinha e eu não cuidei dela quase nada no dia de hoje.
Feliz dia das mães, que devia chamar feliz dia daquelas-que-só-sabem-sentir-culpa-mesmo-e-principalmente-quando-não-é-necessário. 

Açúcar e afeto

Tem amigos que fazem parte da vida da gente pra sempre, não só pelo amor e tals, mas por pequenos detalhes.
Em algum momento antes dos 2 anos a avó Vera deu gelatina colorida pro Otto, pra nosso horror (somos desses que seguraram doce pra criança até onde deu), mas ele aparentemente gostou. A verdade é que gosta até hoje, a gente é que esquece de oferecer mais.
Aos 4 anos, o Otto ganhou seu primeiro pirulito da tia Patricia. Ele nunca tinha comido, não sabia nem que era de comer, quis comer com o plástico, coitado. Mas provou e viciou completamente, nível crack para crianças, pra desespero da Paty que nem percebeu que o presente tinha um plus a mais 😀
Aí aos 5 anos a tia Paula sem querer ofereceu H2O (Otto não toma refrigerante, nunca tinha provado), e ele aceitou, pra horror dos pais. Tomou um gole e quase cuspiu, odiou — “é salgado!!!” — e nunca mais pediu. #WIN
Aí, até ontem, Otto nunca tinha comido bolacha recheada. Nunca compramos, então nunca comeu. Aí a tia Vera armou uma barraca no quintal, com mantinha, almofada e um pacote de bolacha de chocolate, e é isso que ele tá fazendo na foto: dentro da barraca, no edredom, comendo bolacha.
(Comeu só uma e não quis mais. Mas drogas pesadas às vezes demoram a conquistar os usuários :D)
Vocês todas fazem parte da história da quiança, viu? Ele ama vocês 😀