Super-herói da mamãe 

Passamos para o próximo nível do videogame da maternidade:
Ontem o Otto capturou uma taturana dentro de casa e levou pro jardim, porque a mamãe tem medo.
E avisou:
“Você vai ver, mamãe, as lagartas são boazinhas”
❤️❤️❤️

Regras de amizade

A hora de dormir, essa hora tão bizarra quando se tem crianças pequenas.
Depois de um mega chilique (rios de lágrimas) porque mencionei que (1) éramos bichos (ele não se conforma) e (2) ele nasceu da barriga (ele não se conforma DE JEITO NENHUM), lemos um livro e acalmou.
A história falava de cartas e melhores amigos, e perguntei:
Eu: “Otto, quem é seu melhor amigo?”
O: “o Pedro.”
Eu: “ele sabe? Conta pra ele, acho que vai ficar feliz”
O: “na verdade ele é meu amigo preferido. Ele só faz barulho às vezes.”
(Hahahhahahahha Fernando e eu gargalhamos e falamos ao mesmo tempo, baixinho “esse é um critério pra escolher amigos…”)
Me abraçou e beijou muito, pediu um último abraço antes de dormir e eu abracei e beijei.
O: “mamãe, regra número um dos beijos e abraços: quando abraçar não pode beijar ao mesmo tempo!”
Ah, mas vai ser difícil a vida dessa criança, pessoal. Já tou fazendo o fundo-terapia pra ele, tsc.

Psiu

Nós no carro ouvindo música, no intervalo entre uma e outra eu mostro uma foto engraçada pro Fernando e a gente gargalha…
O: “vocês estão falando muito alto, e eu não escuto!”
“Opa, desculpa aí, Otto!”
O: “vocês tão parecendo os alunos na escola…”
(Hahhahahhahahahha)

Discussão de gênero

Otto tem um único boneco de pelúcia que considera como “amigo”, o Penguin (que é – dãr – um pinguim).
Dia desses se segue o diálogo abaixo:
O: “mamãe, o Penguin é menino?”
(Sempre chamamos de “ele”, já que pinguim em português é masculino)
Eu: “não sei, boa pergunta. Acho que dá pra escolher!”
O: “então eu quero que ele seja menina. Você pode me dar um vestido pra ele colocar nele?”
(E a confusão dos artigos? Hahahahhaa)
Eu: “posso fazer um vestido, me ajuda a escolher o tecido e eu costuro um vestido pra ele. Ela. Sei lá”
O: “tá bom, eu ajudo! Quero de Natal.”

**

Já falei algumas vezes pra ele que nascemos menino / menina e que há pessoas que mudam depois. Ele não gostou da ideia PRA ELE (já contei aqui — ele acha ser menina “muito complicado”).

Pelo jeito pra um pinguim a ideia é tranquila.

Teremos o primeiro pinguim transgênero da história, senhoras; que momento único! 😉

Não, obrigado

Vocês sabem o quando a gente se preocupa com a socialização do Otto com crianças, né? Estamos sempre atentos e incentivando, e claro que quando as coisas dão certo a gente fica super feliz.
As professoras têm nos informado que a interação dele melhora a cada dia, em especial quando ele foi pro período da tarde sentiram muita diferença (acertamos! \o/).
Ele gosta sempre de 2, no máximo 3 crianças, que ele comenta com a gente. Um deles, LF, é um dos que fazem bagunça — ele reclama do amigo ser bagunceiro, mas adora.
Hoje Fernando foi buscar ele, e viu que estava brincando de bonecos com 2 amigos, um deles o LF. Observou pra ver como estava e ficou contente em ver que estavam brincando de boa, conversando e fazendo aquelas coisas loucas que crianças fazem com bonecos (vozes, lutas, sei lá).
LF precisava ir embora, pegou sua mochila e deu tchau; Otto fala “tchau! Vou sentir sua falta!”
(Hahahhahaha!)
Adultos ao redor todos derretem, a prof fala pro amigo: “vai lá, dá um abraço no Otto, ele vai sentir sua falta!”
LF vai, de braços abertos. Otto estende o braço, coloca a palma da mão aberta no peito do LF e avisa: “eu não quero abraço.”
(Te amo, me larga e não me encosta. Sou assim. Mea culpa)

Cadê o Neve?

[alerta de informação em excesso, modo MÃE]
Otto há algumas semanas faz cocô e se limpa so-zi-nho! (Querendo privacidade, inclusive)
Acho que esse é um dos grandes marcos da vida, não?
Estou muito orgulhosa dele 🙂
(E tensa com o resultado, claro, hahahahhahaha)

Lógica

Esse post é dedicado ao tio Gui.
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(À esquerda na foto estão os Piratas dos Sonhos, a à direita o Sandy pilotando sua estrela cadente em direção à Terra)
Eu: “… Sandy estava certo da colisão. Podia escutar a gargalhada dos Piratas dos Sonhos e se sentiu amedrontado e indefeso.”
Otto: “mas mamãe, como o Sandy escutou os Piratas? Está muito longe.”
Eu: “er… sei lá? no espaço se ouve melhor?!”
Fernando: (baixinho) “o som não se propaga no espaço…”
Eu: “ih, verdade, Otto! O som não propaga no espaço… então: é mágica!”
**
Passam algumas páginas:
Eu: “… mas as sereias sabiam como ajudar o amigo…”
Otto: “mas como elas podiam saber?”
(Ai cacete)
Eu: “as sereias são muito sábias e sabem muitas coisas. Elas deduziram que uma canção ajudaria o amigo!”
**
Tá tenso ler ficção pra esse menino. Acho que vou ler “Uma História de Quase Tudo” a partir de agora.

Bê-a-bá

Otto faz uns meses começou a se interessar em de fato ler palavras. Ele sempre adorou letras e números mas por questão de princípio nossa não queríamos antecipar a alfabetização (em especial numa criança tão “velha” :D).
Aí que ele agora na leitura diária quer achar palavras em cada página, uma brincadeira divertida. Só que ele não sabe ler, e a gente no máximo o estimula a lembrar com qual letra a palavra começa, pra ajudar na procura.
Mas o rapazinho (desde bem menor) tem o dom de decorar tudo exatamente do jeito que foi contado / lido pra ele. Inclusive se você mudar qualquer coisa ele corrige. Então quando damos uma palavra pra procurar ele vai recitando mentalmente (ou nem tanto — a gente ouve ele murmurando hahahaha), seguindo palavra por palavra até achar a que pedimos.
Então agora as histórias demoram o dobro, porque a cada página ele quer achar uma palavra… e pra ajudar, ele começou a questionar a lógica das histórias. Essa eu conto daqui a pouco, que requer foto da página.

Benjamin Button

Estávamos em silêncio comendo, e ele começa:
O: “Papai, o que é o seu trabalho?”
Fernando: “nossa que pergunta legal, Otto! Eu entrevisto pessoas sobre alguns assuntos e faço um resumo pra outras pessoas sobre o que elas pensam.”
O: “eu não quero trabalhar. Trabalhar é chato!”
(Tão novo, tão acordado)
Eu: “por que você acha chato? Você já trabalhou?”
O: “eu fiz um trabalho na escola e não gostei, achei chato”
(Só porque você está atento, meu querido. I feel your pain)
Eu: “que parte foi chata? Conta mais?”
O: “sabe, eu só brinco com os amigos pra você ficar feliz Papai, porque eu não gosto de brincar com eles”
(Podiam ter arrancado meu coração batendo nessa hora e tava OK, ia doer menos)
Eu: “ô meu amor, a gente é feliz com você de qualquer forma. Você não precisa tentar fazer a gente feliz tá?
Mas me diz qual é o problema com os amigos — por que você não gostou de brincar e fazer o trabalho?”
O: “eu não gosto do LF. Ele não ouve a prof, não faz as coisas que precisa fazer e faz bagunça”
(Meu filho, bem vindo ao mundo. Lamento que você tenha vindo pra organizar e não pra bagunçar. Sua vida será difícil)
Eu: “ele é uma criança, meu amor. Ele tá aprendendo — ele vai aprender a seguir as regras e fazer as coisas junto. É questão de tempo, tem que ter paciência”
(Ou não, né. Tá aí um monte de mané que só faz merda, mas o menino já tá desanimado o suficiente e não precisa de mais realidade na vida)
**
Não lembro como a conversa terminou. Sei que morri um pouco com a seriedade e clareza dele sobre o que incomoda. Eu me senti assim várias vezes em relação às pessoas de forma geral (em especial na escola, já na pós graduação), mas eu tinha 30 fucking anos. O menino tem SEIS.
Me dá uma tristeza enorme ele observar o mundo desde ângulo, e não se encaixar.
Uma professora Waldorf, quando ele estava com 2 anos, nos falou “esse menino é muito pequeno pra ser tão ‘acordado’,” como eles falam. Acordado = entendendo o mundo como ele é, sem a lente da infância. Ele não sente / se comporta como uma criança pequena que é.
Espero de coração que ele encontre sua criança interna com os anos 💔