Mudanças (e a constatação que essa criança nasceu velha)

Enquanto o mundo tá essa loucura ali fora, aqui no meu microcosmos as coisas tão loucas também: decidimos mudar o Otto de turma na escola, depois de muito pensar (e consultá-lo).
Acordar não naturalmente, antes de 6:30h, é um problema desde que começou na escola. Ele sempre acorda cedo (nunca depois de 8:30, mas quase nunca antes de 6:30), mas levantar e estar PRONTO demora muito mais que dá pra demorar pra sair pra escola. E assim, nossas manhãs são sempre um inferno. Sempre atrasados, sempre brigando, por 4 longos anos.
No último ano ele estava numa escola internacional, das 7:20 às 15h. Tudo em inglês. E chegava em casa esgotado (não física, mas mentalmente), apesar de não reclamar da escola. Logo após as últimas férias — suponho que mais maduro, crescendo — ele começou a pedir: posso sair mais cedo da escola? Eles podem falar português? “Eu queria tudo que é pra eu fazer.”
A percepção dele de que estava cansativo e que não estava entendendo como queria (apesar da professora JURAR que ele entende) foi a gota d’água, e resolvemos trocar de horário e de curso. Decidimos manter na mesma escola, pra não radicalizar demais, e observar.

Começamos essa semana. Por enquanto tudo bem, mas… 

**

… houve a mudança de horário, de turma, depois de muito pensarmos e conversarmos com o Otto. Ele afirmou que queria “estudar à tarde e em português”.
A professora dele quase chorou, porque AMA ele (“ele é incrível!”), e combinou de fazer um piquenique de despedida com a outra turma, que segundo ela estava inconformada com a saída dele. Uma amiguinha mandou uma mensagem pra ele via WhatsApp da mãe, dizendo que estava triste e adorava ele. Fofos, todos eles, ficamos comovidos.
As salas são próximas, e uma parte do horário coincide. Ao chegar ontem na escola pra deixar o Otto, Fernando ficou de olho enquanto ele entrava e viu a seguinte cena: ele, distraído, ao invés de ir pra sala nova, foi pra sala antiga. As crianças, quando viram ele chegando, correram loucamente pra ele, felizes, “o Otto voltou, o Otto voltou!” e ele, quando se deu conta, saiu correndo de volta pra sala nova, **se esquivando das tentativas de abraço**.
Já administrada a situação, ele esclarece aos amigos da turma anterior, num clima de “circulando”:
“Eu agora TENHO OUTRA EQUIPE.”
Vocês não me perguntem qual é a mágica que essa criança faz pra ser tão amada por todo mundo na escola, mesmo sendo tão mala, porque só pode ser feitiçaria e não fui eu quem fez.

Engenharia

Otto tá lá entretido nos legos, veio me mostrar o que tava fazendo:
Otto: “tou fazendo um monstro pra ajudar a SHIELD a derrotar a HYDRA”
(Hahahhahha)
Eu: “coloca os braços do Dr Octopus nele!”
Otto: “não, vou colocar essas flores aqui, porque ele precisa voar!”
Eu: “uia, as flores fazem ele voar? Que lindo!” (Eu e minha interpretação humanas)
Otto: “não, mamãe, vou fazer de conta que as flores são PROPULSORES DE VÔO!”
HAHHAHAHAHHAHAHA!!!
(Toma, mãe de humanas!)

Pais

Otto fez na escola uma lembrancinha de dia dos pais (que conste: sou contra. Dos pais, das mães, sou contra. A data é puramente comercial, há outras formas de pensar e celebrar a família, enfim, pula), e achou que o dia dos pais era sexta. Não discutimos, ele quis dar a lembrança por pai, e deu, bonitinho e tals.
No mesmo dia, mais tarde, ele corre pra mim e fala “mamãe, eu quero te dar um abraço de dia dos pais!” e me abraça mil vezes, bem forte.
Eu ri, mas deixei, porque achei tão bonito ele não entender a lógica do “dia dos pais” e comemorar com a mãe também!
Sei lá o que passa na cabeça da criança, mas minha interpretação é que ele não vê diferença entre os papéis, somos só pessoas diferentes fazendo a mesma coisa.
E não é assim que devia ser? Sei que há mães que se sentirão indignadas com isso (oh, o arquétipo), mas… é a mesma coisa.
(A propósito, aconteceu várias vezes dele chamar eu ou o Fer de “Maria”, e vice versa. Acho que ele coloca nós 3 todos no mesmo balaio: as pessoas que cuidam e amam <3)

Sansão

Sei que tá cheio de gentes que amam crianças pequenas de cabelos compridos, por inúmeros motivos que não cabe a mim julgar (embora silenciosamente eu julgue e tenha cá minhas teorias), mas eu-enquanto-mãe-e-cuidadora sou contra, e defenderei sempre o cabelo não-longo para crianças.
Porque quem lava e cuida sou eu/pai; criança não lava nem penteia nem cuida de cabelo (quem não sabe limpar a bunda não sabe cuidar de cabelo, vamos combinar?); criança não devia estar preocupada em cuidar de cabelo, que sendo comprido dá muito trabalho, devia estar fazendo coisas de criança; cabelo pode ter um componente enorme de vaidade, que eu prefiro neutralizar e não incentivar (ou seja: se puder NÃO comentar sobre aparência da criança, eu prefiro).

Acho que cabelo de criança tem que ser prático, funcional, e não objeto de vaidade. Mas enfim, essa é a minha forma de enxergar esse assunto, e ATÉ O MOMENTO sempre cortei o cabelo do Otto curto, até porque ele é super calorento, é ótimo.

Mas apareceu o Thor, e as coisas se complicaram, porque o Otto cismou que quer ter o cabelo igual ao do herói. Compriiiiiiiido.

“OK, ” eu disse. “Mas então você vai aprender a cuidar do seu cabelo sem reclamar — ter cabelo comprido é trabalhoso, e você precisa aprender a cuidar.”

Otto: OK! Eu cuido.

E cuida mesmo. Do jeito dele (lava que nem o nariz, penteia pior), mas faz.

Tá comprido, e essa semana percebi que tava incomodando ele (caindo no olho, coçando), tentei jogar um H:

Eu: “ô Otto, vamos cortar o cabelo?”

Otto: “não! Eu quero o cabelo igual ao do Thor, comprido!”

Eu: “Mas tá caindo no olho, incomodando…”

Otto: “o Thor não se incomoda!”

(Ou seja: ele jamais vai admitir que incomoda)

Tou lascada, ele vai virar a Maria Bethânia e vou pagar meus pecados.

Das delicadezas

Entender o modo de funcionamento do Otto é um desafio pra mim. É meio como encontrar um alienígena, ou alguém de alguma cultura muito louca que eu desconheço.
Ele pensa pra falar, e escolhe cuidadosamente o que quer dizer, o que me deixa ansiosa e exasperada às vezes — ele começa as frases e demora a terminar, ajusta palavras. Imagina você ler um livro enquanto o autor edita? É meio isso. Difícil pra mim e, imagino, pra todo mundo. Tento então mostrar pra ele que esse método não funciona, as pessoas não vão acompanhar e achar OK esse processo.
Hoje tivemos um momento desses. Ele me contando sobre a aula de educação física:
O: “… Eu saltei e pulei, e o Mr. Du nem teve que… usar as mesmas palavras… falar…”
Eu: “Otto, pensa primeiro o que você quer dizer, e aí diga a frase toda!”
(…)
O: “o Mr. Du nem teve que INSISTIR, mamãe, repetir várias vezes. Era o que eu queria dizer”
Eu: “Que bom, amor, que legal! Bom que deu certo e você se divertiu!”
A precisão, a palavra exata pra expressar as coisas é muito importante pra ele. Só me espanto, e penso como fazer pra ajudar esse menino a trafegar por esse mundo que pode ser tão raso, rápido, insensível às sutilezas que ele tão bem percebe.

❤️💔

O primeiro dia do resto…

Chegou de novo Agosto, aquele mês que nunca significou nada pra mim (nem sorte nem azar, até porque não acredito em nenhum deles), até 2010.
Em 2010 Agosto se tornou o mês mais importante do ano, um mês de ruptura física e emocional, marco eterno que redefiniu em mim o significado de antes/depois.
Tempo das jabuticabeiras cheias, dos dias nem frios nem quentes, mas às vezes ambos no mesmo dia; mês de despedida do meu amado inverno, com sentimentos controversos porque afinal quem não ama a primavera?; mês de espera e ansiedade, de uma calma e pausa que nunca fizeram parte de mim.
Eu morri um pouco naquele 27 de agosto. Uma parte de mim, importante, morreu, se foi, sublimou feito fênix e nasceu outra. Não foi um nascimento bonito, orgânico, a-dor-dá-criação, não. Foi sangue, medo, pavor, horror, pânico, ansiedade. Agosto foi composto de 26 dias de amorosa espera e 5 intermináveis dias de medo.
Mas chegou Setembro, como sempre chega, e com ele uma nova vida — literal e figurativa. Esperança e medo, tudo junto, é o que sinto todo mês de Agosto. Medo do desconhecido, do que não queremos nomear; esperança que não sei de onde vem, mas brota feito nascente teimosa, e escorre.
Todo dia 1o é lindo, é mágico, mas 1o de Agosto pra mim é uma celebração pessoal do horror e magia da vida.
Que nosso mês seja suave.

Dias eternos, anos que voam

Otto, prestes a completar 6 anos, não dorme sozinho. Depois de passar quase 2 anos tentando fazer ele dormir sozinho e na própria cama, desistimos e trouxemos ele pra nossa cama. Foi quando ele finalmente dormiu a noite toda.
Quando mudamos pra cá, há 1 ano e meio, propusemos que ele dormisse na própria cama, que é um colchão de casal no chão. Ele amou e topou, mas ainda quis que fossemos deitar com ele na hora de dormir. No meio da noite é bem frequente ele levantar e vir me chamar pra ir dormir com ele (sempre vou).
De vez em quando Fer e eu nos questionamos se essa história dele nunca dormir 100% sozinho é bom, tá correto, sabem como é — todo mundo critica, diz que ele precisa dormir sozinho, que já é grande, que não tem cabimento, e tals.
Hoje lá foi o Fer, e o Otto enrolou ele por 40min. Estava visivelmente cansado mas se recusou a dormir porque “quero a mamãe”. Fui lá, ele ficou TÃO feliz <3 me abraçou, beijou, disse “eu te amo” umas mil vezes. Ele tá enrolando, que eu sei, mas o amor também é legítimo. Saí antes dele acordar, e cheguei 18:30h. Ele vai pra cama às 20:30h.
Ainda assim, tentei argumentar:
Eu: “Otto, vou ficar aqui com você, mas sabia que você já é um menino grande? A maioria dos papais e mamães não dormem com seus filhos! Alguma hora você precisa dormir sozinho.”
O: “mas por quê, mamãe? Eu não quero dormir sozinho. Por que outros papais e mamães não dormem com as crianças?”
E eu não tinha uma boa resposta. A única resposta honesta seria: porque eles não querem.
Mas eu quero.
Respondi algo como “não sei mas sei que é assim”, porque ele me desconcertou.
Deitamos, ele me abraçou pelo pescoço bem juntinho e dormiu em poucos minutos. Fiquei ali uns minutos que pareceram uma vida, pensando que em muito menos tempo que eu imagino esse menino vai pro mundo, e não só não o verei todos os dias como nem nos falaremos todos os dias. Estes anos dos abraços sem fim, beijos e pedidos de aconchego vão acabar, e outras coisas virão.
Não sei sobre os outros pais e mães, mas essa mãe aqui vai lá dormir com o menino até quando ele pedir, e espero que dure muito. 💔

Virá, que eu vi

A gente tem um problema do meu lado da família, que é grave: tudo lembra alguma música. Qualquer frase, pergunta, colocação, evoca alguma música relacionada (direta ou indiretamente) com o tema ou a frase, palavra. E quando a gente lembra de uma música a gente pre-ci-sa cantá-la, certo?
É meio que a maldição do musical involuntário — a tia fala “olha que lua linda hoje…” e algum de nós puxa ~ LUA DE SÃO JORGEEEE / LUA DELIRANTEEEE ~
(Essas situações são muito menos constrangedoras nos filmes)
Otto hoje disse que ia me chamar pra dormir com ele de madrugada (sempre chama, sempre vou <3), perguntou “você vem?” e eu, amaldiçoada, respondi com um “venho, a mamãe sempre vem…” e, ops: ~ VIRÁ QUE EU VI ~ e já emendei a canção toda.
O menino riu RIU RIU de ficar com soluço e me fez repetir mil vezes. Amanhã eu mostro esse vídeo e se tudo der certo ele amará um pouco mais o quarteto.
(Deve ser assim que a gente passa a maldição adiante, suponho?)

Pega eu

Reli um postantigo daqui a respeito de como eu pessoa humana me sinto sobre os diversos chapéus que vestimos nessa vida (mãe, profissional, mulher e tals) e rolou uma pequena discussão porque uma leitora declarou estar “cansada das minhas certezas” e que agora que eu estava expressando dúvidas ela estava achando legal e mandou um “bem-vinda ao clube”. No caso o “clube das mães”.
Achei o comentário imbecil em várias dimensões. Vou elaborar, senta aí.

A primeira é a postura de superioridade que às vezes se adota quando se é mãe. Desde quando ser mãe torna alguém melhor que outra pessoa não mãe? De repente você se torna uma versão melhor de você mesma, ok, mas convenhamos que se você for uma idiota isso não vai necessariamente deixar de ser verdade.

Segunda: Ela me “aprovou” pra entrar no clube, pessoal. Porque esta pessoa se sente no direito de me “dar aval”, afinal ela foi mãe-antes-de-mim (veterana? Estamos na escola?) e é MÃE DE DOIS (vocês ouviram anjos cantando? Já repararam que o número de filhos parece condecoração de exército? “Você tem um filho só? Ahhh não sabe de nada…”). Não, gata, você não é melhor nem “sabe mais” sobre maternidade porque tem mais filhos.

(Por que essa competição sobre quem é mãe “melhor”? 6 anos na função e ainda não entendi)

Terceiro, o clube. Olha, tem pouca coisa nessa vida que eu odeie mais que clubes, panelas, “coletivos” (socorro) e tudo que gira ao redor disso. Não participo nem de clube de livro. Odeio regras. Eu mudo de ideia, eu me contradigo e eu repenso tudo que já disse, por diversão. Fiz parte de uma associação e comprovei que é só na diferença e no respeito genuíno que as coisas florescem.

Eu meio que mandei ela enfiar o clube e a opinião a meu respeito no próprio cu. Fui um pouco menos grossa, sei lá porque, mas foi isso.

(Sabe o que é divertido? Essa moça do comentário criou um clubinho mesmo :D)

Quarto: por que incomoda tanto as pessoas a gente ser segura, auto confiante? Aliás, seja feliz e expresse sua felicidade abertamente e você conhecerá o ódio das pessoas contra você. As pessoas odeiam gente segura e gente feliz. Se você estiver insegura, triste e/ou reclamando vai ter um monte de gente pra mandar mensagem “edificante”. Nenhuma delas vai te emprestar dinheiro, lavar sua louça ou te levar pra passear, tá? Elas vão fazer cara de dó e te dar conselhos inúteis, basicamente. Parece que ser miserável deixa as pessoas que observam bastante satisfeitas.

Duvida? Repara quais posts seus dão mais IBOPE. Repara quão poucas são as pessoas que se alegram com sua alegria e botam a mão na massa quando o bicho pega.

Sou segura, confiante, me amo e me valorizo, pega eu. Mas pega MESMO, hein? 😉

(E me inclua fora dos clubes. Só gosto do clube do livro não ortodoxo, melhor clube <3)

Na prática a teoria é outra

Da série #cuspipracima: Sempre disse que meu filho ia guardar os próprios brinquedos porque QUE ABSURDO mãe que guarda os brinquedos do filho!
Até que chega a hora de guardar os brinquedos antes da hora de dormir, que eu devia ter combinado de guardar antes mas não combinei por motivos de mãe loka, e eu guardo tudo correndo antes que ele saia do banho, feito aquela época que éramos crianças e arrumávamos a bagunça antes de mãe chegar (eu socava tudo em qualquer gaveta / armário / caixa e rezava pra ela não conferir).
Pedir pra criança guardar os brinquedos na hora que você quer que ela se prepare pra dormir é CILADA, BINO. Precisa ser mãe com poderes telepáticos nível Prof Xavier, porque tudo que a criança não quer é seguir a rotina e dormir. Guardar a porra dos brinquedos se transforma numa guerra, num drama e numa potencial fonte de culpa que não preciso para viver — “mas mamãe, deixa eu brincar SÓ MAIS UM MINUTO”.
Ceda ao “UM MINUTO” e você entenderá a teoria da relatividade de Einstein.
Modosque enquanto ele enrola pra sair do banho eu guardo os brinquedos do meu filho, e nego tudo que disse antes de ser mãe. Ser mãe, inclusive, é muito mais fácil quando a gente não tem filhos 🙂