contra fatos não há argumentos

a maria, que é babá do otto desde que ele nasceu e que cuida de nós desde que mudamos para vinhedo (quase 5 anos, já!), é muito carinhosa com ele, e com todo mundo. daquelas pessoas bem doces, que diz “eu te amo”, abraça e beija. uma linda!

pois ontem ela, carinhosa como sempre, virou pro otto e disse: “o otto mora no meu coração!”. ele não titubeou: “não, maria! o otto mora na rua araxá XXX*, na casinha dele!” :D

(*) ele sabe o número certinho, só não coloquei por segurança. ele adora dizer pras pessoas onde mora, e no caminho de casa ele até dá instruções do caminho… “agora desce, agora vira, faz a CUIVA…” <3

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o mito da maternidade — meus 2 cents

circula por aí essa entrevista concedida pela filósofa marcia tiburi a respeito do mito da maternidade, e o movimento pela libertação das mães (MLM).

eu gostei muito da entrevista, e da perspectiva dela. aqui no meu espaço pessoal, me permito julgar só um pouquinho, e com base somente na leitura dessa entrevista, um aspecto que me chamou a atenção: a pena da mãe (da geração anterior a ela) e também da filha (a ponto de pedir desculpas por tê-la trazido a este mundo). suponho que ela tenha pena de si mesma também, por extrapolação, e realmente não gosto desse posicionamento da mulher como vítima da sociedade, #mimimi. me parece até que existe um incômodo com a condição de mulher/mãe/filha. mas isso é assunto pra terapia (a dela :) ).

e foi só isso que não gostei, de resto concordo muito com o posicionamento e a interpretação. gosto especialmente da clareza com que ela desconecta (e critica) o aspecto “natural” da maternidade do ato prático em si:

uma mulher até pode vir a gostar do filho depois do parto, mas não quer dizer que tenha gostado de pari-lo ou que tenha se encantado com sua condição de bebê. não podemos mais naturalizar isso. naturalizar é mistificar.

concordo tanto! já repeti isso com outras palavras aqui inúmeras vezes, e fico feliz em saber que outras mulheres também o percebem: maternidade não é sinônimo de instinto, amor incondicional e nem prazer em cuidar de bebês. até porque (me repito, sem parar) nossos filhos são bebês e crianças a menor parte de suas vidas. a maior parte das nossas vidas somos adultos, e continuamos a nos relacionar com nossos pais. não ser plena e feliz cuidando de bebês não quer dizer absolutamente nada sobre sua capacidade como mãe, ou seu amor, enfim.

adorei a insistência dela sobre ser mãe <> ter filhos! qualquer pessoa, independente do sexo ou da relação afetiva/genética, pode ser mãe, pode estar mãe em algum momento. pais, amigos, tios, professores podem ser mães. eu já tive mães outras em vários momentos da vida, já fui mãe pra minha mãe, inclusive.

e não posso deixar de mencionar a importância da questão do aborto e da opção de simplesmente não ter filhos (atenção — podemos continuar sendo mães sem ter filhos ;) ). e do quão é importante permitir essa opção sem julgamento. assim como é essencial para que sejamos livres, como mulheres, podermos trazer à luz nossos incômodos e dificuldades com a maternidade.

mas como assim, é incômodo ser mãe? como podemos dizer que é chato, cansativo e irritante às vezes? que tipo de mãe somos nós, que não padecemos no paraíso, que não idolatramos nossa placenta e nem os rebentos maravilhosos, raios-de-luz que trouxemos ao mundo? como temos coragem de optar  pela maternidade e não nos dedicarmos completamente a ela, aos nossos bebês? se era pra reclamar, por que parimos?

é incrível como mulheres que se acham modernas e humanas repetem (consciente ou inconscientemente) essa mística, esse discurso reducionista e ralo de que “ser mãe é se dedicar”. e que se não for para se dedicar completamente ou se for pra reclamar, “melhor não sê-lo”.

lutamos pelo direito a abortar um feto, mas criticamos opções de maternidade diferentes da visão mais idealizada da santa-mãe-dedicada? liberdade então só vale para quem ainda não é mãe, é isso? resolveu parir… embale! tsc, tsc, tsc.

que possamos ser livres, com ou sem filhos, para exercer nossa maternidade da forma que melhor nos couber, dentro das oportunidades que forem apresentadas e da nossa possibilidade. com responsabilidade, claro, que é o que se espera de um ser humano decente, em relação a qualquer outro par. mas sem culpa, sem cartilha, e sem julgamento.

pratiquemos a diferença, sejamos diferentes. se quisermos mudar o mundo, devemos mudar através de ações, não é preciso dizer aos outros como viver. as opções de vida e comportamento são infinitas, muito mais diversas e únicas que a nossa capacidade de interpretação ou projeção.

o mundo, as pessoas e os comportamentos não precisam fazer sentido pra todo mundo o tempo todo. precisamos parar de tentar “fazer caber” o comportamento alheio no nosso sistema, ou mapa mental.

como meta pessoal, pratico (com extrema dificuldade e várias falhas) não julgar, não rotular, concentrando em melhorar a mim mesma somente (o que já é muito e bem difícil). ao resto do mundo, reflito e respondo, usando minha perspectiva, na esperança de oferecer outro ponto de vista e assim eventualmente ajudar alguém.

vida longa a qualquer iniciativa de libertação, seja do que for. o que menos precisamos é de mais uma âncora-de-expectativa sobre o que devemos ser.

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família e princípios — essas coisas de antigamente

hoje no facebook me deparei com 2 artigos que motivaram textos distintos, mas que resolvi juntar por aqui, porque os assuntos são afins: de um lado, mais um programa de TV promovendo o consumismo infantil, para além de quaisquer limites do aceitável; de outro lado um artigo asqueroso de um jornal paranaense afirmando que crianças adotadas por homossexuais não fazem parte de uma família. família = mulher, homem, crianças.

(o título do artigo: a PERVERSÃO da adoção)

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sempre achei criança e o universo infantil um tanto enfadonho, enquanto adulta-e-sem-filhos. via crianças mal educadas e sem noção, e torcia o nariz pra elas. “criança no geral é chato, né?”. depois de ter meu filho e começar a conviver com crianças mais intensamente (a minha e as dos outros) percebi que meu incômodo fora mal direcionado a vida toda. crianças são incríveis (porém MUITO cansativas, isso é real), o problema são SEMPRE os adultos que as cercam, em especial os pais. os adultos ao redor transformam promessas de seres humanos normais em criaturas sem-noção-e-sem-discernimento.

vejam o exemplo do programa de TV: qual adulto empenhado em educar seu filho e transformá-lo num cidadão do mundo atual (redução de consumo, respeito pela diversidade, etc.) entraria nessa onda de “festas milionárias”? aliás, pra quê festas de criança tão consumistas e fora da realidade de 99% do mundo? o que as crianças aprendem, em eventos como esses? e eu sei, esse é o exagero do exagero, mas pensem nas festas “comuns” em buffets, totalmente pasteurizadas, deixando presente no baú da porta. as crianças nem recebem mais os presentes (e os abraços) dos convidados. o afeto deixou de ser foco FAZ TEMPO, virou coleta de presentes, comilança de frituras e uma zona de crianças sem limite, cuidadas por monitores que são pagos pra não estrangular nossos filhos sem noção.

e mesmo com tantos exemplos de “famílias” fazendo besteira atrás de besteira na educação dos seus filhos, procriando feito coelhos e colocando milhares de pessoas no mundo sem a menor preocupação de torná-las serem humanos decentes, o asno do artigo sobre adoção ainda defende a estrutura “familiar tradicional”. sem nenhum medo de errar afirmo que pais adotivos homossexuais e as tais comunidades hippies (ahn?!) serão melhores pais para os seus filhos que estes imbecis das festas milionárias, ou os tantos imbecis que simplesmente colocam crianças no mundo sem nenhum empenho em educá-las.

para se constituir família não é preciso ter filhos, pra começar, meu senhor. há famílias SEM filhos também. não é preciso 1 homem + 1 mulher + crianças. este senhor vive na idade das trevas, assim como seu coração seco e duro, apoiado pelo seu pobre cérebro limitado.

precisamos dar às crianças afeto, tempo, dedicação. dinheiros, coisas, e “famílias margarina” são dispensáveis, secundários e, no limite, irrelevantes.

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tá difícil ser gente decente nesse mundo, é muito difícil criar filhos ensinando valores diferentes destes que aparecem cada dia mais por aí. muita força nessa subida, viu.

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obrigada, meu filho não precisa de 100 mil reais

num mundo onde existem coisas como essas, eu não devia me espantar com um BBB de mamães e bebês. mas me espanto, felizmente, em especial por estar num programa que há pouco tempo promoveu opções bem radicais de maternidade, completamente opostas à relação destas mães com seus bebês e as “dicas” de desmame (ESQUEÇAM as bobagens que este senhor falou, por favor).

sim, acho esse programa ruim para os bebês, que são expostos a um ambiente antinatural, com clima estressante e competitivo, enquanto suas mães passam por provas que certamente não as tornam mães melhores. mas pra mim o pior mesmo é o que o programa faz com as mães, que são induzidas pela promessa de que estão fazendo algo de bom para o futuro dos seus filhos! vejam o “mote” do programa: “Esta edição traz muitas novidades para as mães que sonham em proporcionar um grande futuro para os seus bebês.” (grifo meu)

100 mil reais vão proporcionar um grande futuro para os nossos bebês? sério?

antes de dizer (e digo) que aquelas mães estão lá porque querem, oras, que são gananciosas ou simplesmente sem noção, penso que não existe mãe que não queira “proporcionar um grande futuro para o seu bebê”. seja lá como queremos fazer isso, é isso mesmo que queremos. mais do que a mera vaidade ou falta de noção, esse programa joga com o desejo poderoso de toda mãe de ver seus filhos sendo melhores, bem-sucedidos. felizes? aí já não sei.

sei que é um programa com duração limitada, e de verdade não acho que fará MAL a nenhum dos bebês. mas não paro de pensar que essas mães perderam a noção, o norte, quando se deixaram encantar pela promessa do dinheiro ou da fama numa foto de propaganda de pomada.

essa história me leva a pensar no quanto estamos longe de entender o que é felicidade e sucesso, o que é criar um ser humano que possa ser pleno e feliz. é preciso ter dinheiro, fama, estudar em harvard, visitar a disney? sério?

desde que me tornei mãe penso demais nisso: o que quero para o meu filho no futuro? devo comprar imóveis, guardar dinheiro, investir em ouro ou ações? preciso de um fundo de investimento para a faculdade dele, o MBA? será que devo colocá-lo numa escola que o prepare para o GMAT, ITA, USP desde já? devo colocá-lo numa escola bilíngue aos 2 anos, para que ele não precise estudar inglês e fale como nativo sem dificuldade?

de verdade, é isso tudo que está na cabeça dessas mães. são 100 mil para que meu filho seja melhor que o seu, melhor que elas próprias, que seja… feliz?

quanto mais penso nisso, mais acho que não devo me concentrar em TER e PAGAR nada além do necessário. que o que meu filho precisa para ser feliz e bem-sucedido é do meu incentivo e exemplo constantes. ele precisa aprender (sem que a escola precise insistir em formato de apostila para lerdos) a aprender, continuamente. precisa que eu o estimule a fazer perguntas, ser curioso sempre, investigar. precisa aprender disciplina (e nenhuma escola vai ensinar isso melhor do que nós, os pais), para ser livre e poder se indisciplinar o quanto quiser e puder.

obrigada, hipoglós e tv globo, mas meu filho não precisa de 100 mil reais, porque ele tem a nós, ele tem nosso tempo, nossa dedicação, nosso interesse. ele vai ganhar os 100 mil reais que precisar, quando precisar. mesmo que nós fôssemos pobres ele ainda assim não precisaria desse dinheiro, como meus pais e nós 3 nunca precisamos. não seriam 100 mil que mudariam nossa história, pois não é dinheiro na conta que muda a dinâmica de uma família, que forma caráter, valores e motivações de uma criança. e sem isso tudo, 100 mil são simplesmente 100 mil moedas.

todo meu dinheiro vai continuar sendo dedicado a confortos úteis e inúteis, livros, músicas, comida e viagens, muitas viagens. e isso tudo combinado com meu tempo, minha dedicação e exemplo certamente formarão um cidadão com vontade de aprender, com repertório de vida, história e bagagem que nenhum dinheiro consegue comprar.

tenho pena das mamães do programa do hipoglós. espero que elas percebam a tempo que nenhuma promoção de marca alguma no mundo proporciona nada além de ilusão de consumo vazia.

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PS 1: hipoglós nunca entrou nesta casa, e depois dessa não entrará mesmo; TV globo já não faz parte da nossa vida há muitos anos, e cada novo “evento” confirma a sapiência da nossa decisão.

PS2: a melhor forma de regular o consumo e dar o exemplo para os nossos filhos é não consumir, ou consumir o mínimo necessário. cabe a cada um de nós mudar o mundo.

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diário do otto: 2 anos e 3 meses

otto,

tem sido mais difícil pra mim escrever mês a mês, porque agora tudo se mistura e já não lembro mais direito exatamente o que pertence a este mês. você nos surpreende diariamente com tiradas engraçadas, frases cada vez mais complexas e ideias curiosas vindas 100% da sua cabecinha :D

todo dia tenho coisinhas novas pra contar sobre você. desconfio que essa sua fase de criança deve ser uma das mais divertidas. essa semana você cismou que se fala OTTO-borogodó (e morre de rir quando repete isso). também conheceu um amigo da mamãe que se chama hugo, como seu monstrinho de pano preferido, e ficou muito espantado com o nome, e repetia com olhos arregalados “ele chama HUGO, mamãe!”.

e você fala tão direitinho que dá gosto. ”abre a rede pra eu balançar, vovó?” e 30seg depois “abre pra mim, vovó!”. (mas o ÍBULON eu não consigo corrigir, porque é fofo demais <3).

na escola está tudo bem, você gosta muito de ir e pergunta das tias e dos amigos E AMIGAS (aparentemente você não gostou dessa história de gênero masculino ser neutro no coletivo), embora às vezes fique grudento na hora de eu ir embora. na maior parte das vezes você fica bem, e até fala “TRABALHA, mamãe!”, me mandando embora :) e você foi mordido pela 1a (e 2a…) vez na escola, o que nos deixou muito chateados, mas passou.

uma coisa que nos deixa muito felizes é que você é um menino carinhoso, que gosta de beijar, abraçar e ficar juntinho. nós adoramos! e por mais que eu reclame de ter que fazer você dormir todo dia (1 hora, 1 hora e meia…) e dormir com você na cama com muita frequência, tenho certeza que vou sentir falta quando você ficar independente e dormir na sua caminha. é gostoso abraçar você ou mesmo me ajeitar quando você resolve dormir EM CIMA de mim. o contato físico é uma das coisas que mais tenho gostado dessa história toda de ser mãe.

no geral você é uma criança educada, tranquila, obediente e muito divertida. não é montagem minha nas fotos — você está sorrindo sempre, fazendo graça e conversando com a gente. uma delícia de menino, que nos faz muito felizes!

sua alimentação agora é praticamente igual à nossa, que no geral é mesmo muito saudável. comemos em casa durante a semana, comida toda preparada aqui mesmo. muitos legumes, verduras, frutas, carne vermelha e branca, queijos, ovos (muitos ovos!) e peixes. nos fins de semana saímos para almoçar geralmente no domingo, e você se diverte bastante. já aprendeu a pedir comida pro garçom e não se faz de rogado: “moço, qué papá! uma shalada e batata fita!”. juro, é isso que você sempre pede. de vez em quando pede também carninha  ou farofa.

o sono mudou — você dorme agora a noite toda, mas nem sempre na sua cama. cansamos do esquema de fazer você dormir na sua cama, fazemos dormir na nossa cama, levamos pra sua e quando você acorda vem dormir comigo. seu pai foi expulso pro quarto de hóspedes, coitado. esperamos que essa fase não dure muito, mas francamente aceitamos qualquer arranjo que nos deixe finalmente dormir depois de 2 anos insones…

uma coisa que nos chama bastante a atenção é como você desenvolveu bastante nesse último mês a percepção sobre o funcionamento das coisas. aprendeu a abrir e fechar torneira, a embalagem de pomada (e agora alcança o interruptor, SOCORRO). entende o funcionamento das torneiras de água quente e fria (e identifica pelas letras…), diferencia esquerda e direita, entre muitas outras coisas. dia desses você pegou o garfo e falou “mindinho, seu vizinho, pai de todos, fura-bolo… (pausa) ele não tem mata-piolho!” :)

essa semana você teve estomatite pela primeira vez, algumas aftas apareceram na boca e você reclamou que “a língua incomoda, mamãe!”. seu pediatra avisou que podia ser vírus, e hoje você empipocou… mas fora isso, sua saúde é de ferro! fora o nariz meio travado quando muda o tempo (herança dos seus pais alérgicos), tudo muito bem.

uma coisa linda que aconteceu esse mês é que você começou a pedir pra que eu conte histórias sobre as pessoas. começou pedindo “conta a história do tio weno e da tia mawá po otto dumí?” e eu contei, claro. conto do meu jeito, com foco nas coisas que você conhece e talvez lembre…

“era uma vez o tio weno e a tia mawá que viraram palhaços! eles chamam frederico e cremilda, e quando se conheceram se adoraram tanto tanto que começaram a namorar…”

e você faz perguntas, e repete partes da história, é uma graça. até que essa semana você pediu “mamãe, conta a história do papai, da mamãe e do otto?” e seu pai (e eu também, ok) ficou todo emocionado.

agora a mamãe conta a nossa história toda noite no escuro antes de dormir, pra que um dia você se pergunte de onde vêm essas lembranças de antes de nascer, e de tão pequeno… e vou te contar, já bem maior, que grande parte das nossas lembranças de infância são memórias re-construídas, por mamães tagarelas e inventivas como eu.

nossos dias têm sido deliciosos, cheios de conversas e surpresas, pequenas coisas boas acontecendo todos os dias. e muito cansativos também, não vou mentir. trabalhar o dia todo + educar e brincar com você é bastante coisa pra uma mamãe quarentona só.

aqui estão as muitas fotos que tenho de você com 2 anos e 3 meses. cada dia mais lindo, e ainda loirão! achamos que você vai ter o cabelo do seu tio kito, que é castanho claro e fica loiro quando cresce.

um beijo cheio de amor da sua “mamãe zel” (e do “papai fer” também :) ).

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a primeira mordida

o otto começou a frequentar a escola em meados de setembro deste ano e todo um novo mundo de possibilidades e coisas inesperadas se abriu pra nós. desde a escolha da escola até a socialização com outros pais, passando pelo contato com as professoras dele e a iniciação ao mundo das outras-crianças-sem-educação.

**

abre parêntese: sim, as outras, porque as nossas crianças são sempre educadas e maravilhosas, certo? :)

ironia à parte, o otto é um menino muito tranquilo e educado no geral. não sei até que ponto o bom comportamento é consequência da educação que tentamos dar pra ele ou simplesmente parte da personalidade, mas fato é que ele não dá trabalho e é muito tranquilo. não é daquelas crianças que gritam, correm, pulam em cima das coisas e pessoas, desobedece os pais, bate em outras crianças. ok, com alguma frequência ele TENTA fazer essas coisas, mas nós sempre corrigimos na hora e o problema acaba aí.

como toda criança, o otto logicamente teve episódios de gritão, chiliquento, mordedor, jogou coisas no chão, e ele enfrenta a gente sempre, periodicamente (que bom!), mas todos os comportamentos que não achamos “socialmente aceitáveis”, corrigimos na hora.

consideramos inaceitável: morder, bater, gritar (qualquer contexto. gritar é irritante), jogar coisas, sair correndo, subir em móveis, pegar objetos que são “proibidos”, não atender quando chamamos, não parar quando mandamos parar. certamente a lista vai aumentar quando ele crescer, mas por enquanto é isso aí.

e como fazemos? simplesmente não aceitamos que ele faça nenhuma dessas coisas sem consequências. quando ele faz, falamos com ele num tom bem bravo (mas sem gritar, que assusta e aí perde o foco), olho no olho, e explicamos que não pode, que não queremos que ele faça X ou Y. quando a questão é física (bater, subir em móveis, pegar coisas que não pode, etc.), além de explicar também seguramos/tiramos dele. sempre damos a opção dele largar ou parar sozinho, antes de segurar/tirar. a maior parte das vezes funciona, e ele prefere “fazer a coisa certa” por conta dele, ao invés de se submeter fisicamente.

sim, algumas vezes ele chora quando damos bronca nele. chora porque tem medo dos pais falando mais “bravos” com ele (e ainda estamos dosando a forma de falar, porque mesmo sem gritar, quando mudamos o tom de voz ele fica com medo), e chora simplesmente porque está frustrado por não conseguir fazer o que quer, do jeito que quer. mas muitas vezes ele já se manifesta verbalmente, e diz que está bravo ou triste, diz que queria fazer as coisas de outro jeito.

oras, é direito dele querer algo diferente do que consideramos aceitável, e procuramos respeitá-lo e acolhê-lo na frustração e tristeza, mas essas coisas continuam sendo não-não. e ponto final.

esse processo é chato, desgastante, cansativo. e dói em nós também, porque nada é mais incômodo do que seu filho triste, bravo, chorando. minto, tem uma coisa mais incômoda: pensar que seu filho pode se tornar um sem noção, mal-educado, que outras pessoas podem não gostar dele por esses motivos. e para que ele se torne uma pessoa que respeita regras de convívio minimamente que ensinamos que há coisas que não se pode fazer, pois machucam e/ou incomodam as outras pessoas.

se no futuro ele deliberadamente quiser ser inconveniente ou agressivo, saberá que há consequências, e terá de lidar com elas. hoje, o referencial dele somos nós, e nós não toleramos gritaria, correria, birra e agressão.

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fechei o parêntese — pois quando confrontados com o maravilhoso mundo da escola, o mundo real, descobrimos que nem todos os pais são como nós. mais especificamente, descobrimos que há pais que acham que impor limites aos seus filhos é um problema, e atribuem todo tipo de comportamento inadequado e inconveniente à idade, fase, gênero (sim, senhores e senhoras), signo. o motivo nunca é “nós não impomos limites de forma clara”, lógico.

na semana em que o otto entrou na escola, entrou também um menino que agredia as demais crianças. ele bate, morde, puxa cabelo. e o otto não ficou impune: nos primeiros dias levou tapas, e há poucos dias foi mordido 2 vezes (no braço numa semana, na perna na outra).

o fer, que é aquele tipo de paizão superprotetor assumido, ficou uma fera na 1a ocorrência, já queria matar alguém. foi explicado que o menino e a família “estão passando por uma fase complicada…” e que eles estariam mais atentos, e corrigindo o menino durante o período de aula, com uma professora adicional. a correção significa segurar as mãos/o menino e dizer que a mão não pode bater, que a boca não pode morder, lavar a mão com lavanda (…), toda uma abordagem bem suave. e estou de acordo com a abordagem da escola ser assim, especialmente (negrito, maestro zezinho!) porque a responsabilidade de educar e corrigir a criança é dos pais, e não da escola.

mas a escola precisa, sim, garantir que meu filho (e as demais crianças) não serão atacados pelo garoto-pitbull. seja lá qual for a fase (da criança ou da lua) que causa o problema, é preciso proteger as demais crianças de agressões, caramba. e é isso que exigimos, e fomos ouvidos, felizmente.

o que me preocupa é o excesso de explicações e justificativas para comportamentos inaceitáveis (ponto final. seja lá qual for a causa, a ação deve ser reprimida e corrigida), como se devêssemos aliviar ou permitir tais comportamentos porque existe uma causa. ora, trabalhem então nas causas e enquanto isso (mais um negrito, por favor?) ensinem a criança que não pode, não pode, não pode.

alguns amigos bem-intencionados sugeriram ensinar ao otto ficar longe do menino, impedir ou até revidar a agressão. eu certamente vou ensinar o otto a se defender, acho essencial, porém também acho que é muito cedo. ele simplesmente não entende agressão, e menos ainda a intenção de agressão. ele precisa estar um pouco maior pra que possamos explicar o que significa “se defender” em oposição a “atacar”. além disso, a agressão sempre acontece quando não estamos perto, não temos como usar a situação para ensinar. como vou, em casa, horas depois do ocorrido, apelar pra memória dele e ensinar a partir de algo que aconteceu muitas horas atrás? “olha, otto, lembra que fulaninho te mordeu? então, faz assim: na próxima vez que fulaninho chegar perto de você, saia correndo!”. sério que alguém acha que isso funciona?

percebi também que os bem-intencionados que arranjaram desculpas pro menino morder, e disseram que “criança é assim mesmo”, ou que é “da fase” são aqueles cujos filhos/sobrinhos/X são os agressores. é o cúmulo da racionalização. vamos falar às claras: morder e agredir NÃO PODE. não importa sua idade, seu signo, nem a fase da lua. não pode, e é obrigação dos pais ensinar que não pode e impedir que aconteça (exceções são OK; agressão como parte do comportamento normal, não pode), usando seja lá qual método quiser, desde que funcione. dê banho de pipoca, coloque no castigo, fale até a orelha da criança cair (nosso caso), vire-se. seu filho, seu problema.

além disso, parece que ensinar o otto a se defender ou se afastar é OK; ensinar o menino a não morder não dá, porque “é da fase”. olha… me poupem.

sei que aprendi muito com esse episódio. sobre a natureza humana, sobre educação de crianças, sobre o papel da escola e sobre mim mesma. porque sou do tipo de mãe que deixa a criança chafurdar na lama, e creio mesmo que brigas de crianças devem ser resolvidas por elas mesmas. morder, bater, cair, fazem parte da infância. mas quando é a mesma criança que continuamente agride o meu bebê, que é tão bonzinho, vou dizer: dá vontade mesmo é de socar. o pitbull, os pais do pitbull e as professoras que não ficaram atentas.

mas passa, e estou contente com o desenrolar da história. próximo passo: ensinar o otto a usar um taco de baseball*.

(*) JUST KIDDING :D

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diário do otto: 2 anos e 1+2 meses

otto,

bebê, esses 2 meses foram tão intensos e cheios de novidades que a mamãe não conseguiu escrever 2 posts, um para cada mês. tá tudo misturado e acumulado, como acho que será daqui pra diante.

você começou na escola, e contei aqui um pouco sobre seu primeiro dia. foi lindo e muito fofo, mas não durou. 10 dias depois, seu pai viajou a trabalho e você começou a dar trabalho para ficar na escola. ficou dengoso e muito grudento comigo, e reclamando de ir pra escola — “não góta da ecólinha!” virou seu mote. nos disseram que é normal, pois quando a novidade vira rotina, a maior parte das crianças já não quer mais mesmo ir. mas insistimos, e seu pai recomeçou sua adaptação… até que você pegou uma gripe e ficou bem caidinho. preferimos manter você em casa até melhorar, e foram mais 10 dias de molho (culminando com uma amigdalite bacteriana bem chata). e logo depois que você ficou doente a mamãe também adoeceu e precisou fazer uma cirurgia (retirada da vesícula), o que acabou causando mudanças e incômodos. mas 5 dias depois a mamãe estava ótima e tudo voltou ao normal — você voltou pra escola e a mamãe pro trabalho.

mas houve uma mudança enorme logo após sua gripe — você começou a dormir a noite toda, sem interrupção para mamar ou trocar fralda! graças ao seu nariz entupido, decidimos parar com o leite (que piora a secreção de muco) e ver o que acontecia, até porque você estava recusando leite quando percebia o que era. e funcionou! agora estamos tentando compensar o leite com queijo e iogurte, estamos progredindo.

você continua comendo bem, porém está numa fase muito chata de ser do contra pra tudo (inclusive pra comer), como contei nesse post. agora temos que deixar você fazer as coisas do seu jeito, ou não oferecer muitas opções, prs que você se sinta no controle da situação e decida sempre que possível. chega a ser muito engraçado, mas tem horas que realmente irrita, pois tudo demora mais e dá trabalho. mas vamos seguindo tentando rir e nos divertir com sua independência e ideiazinhas próprias.

seu vocabulário e articulação melhoraram muito! você continua falando pausadamente, e pensando bem antes de falar, mas cada vez melhor e mais certinho. você usa os tempos verbais corretamente na maior parte das vezes, os plurais, e entende bem alguns opostos (em cima/embaixo, quente/frio, fora/dentro, pesado/leve, etc.). já sabe os nomes de todos seus amiguinhos na escola, das professoras e volta falando sobre eles. “o que você fez hoje na escola, otto?” “brinquei com os amigos e as amigas!” :)

você agora é fã de gelatina e de pudim de pão, além das coisas que já gostava. ah, e sorvete de SOCOLÁTI também agrada sempre :)

agora vemos você mais comprido que gordinho, com os braços e pernas mais proporcionais, já se parece mesmo um menino e não um bebê. cada dia mais lindo, mais engraçado, interagindo com a gente, inventando brincadeiras (sua preferida atualmente é esconde-esconde, embora você só queira ser achado, e não se esconder :) ) e falando coisas malucas da sua cabecinha. estamos amando essa fase, mais que todas as outras, e tenho certeza que teremos saudade dessa sua idade.

apesar de você estar se tornando um menino, e se comportar como um mini-adulto, ainda é meu bebê e dorme abraçadinho, pede colo e procura a mamãe quando está com medo, triste ou quer um beijo. é impossível não ficar besta de paixão e amar você mais e mais a cada dia.

por mais que seja difícil e chata essa sua fase de dizer não pra tudo e querer fazer tudo sozinho, é motivo também de muito orgulho e alegria perceber você entendendo que é um indivíduo e procurando seu espaço. tudo o que mais quero é que você seja um menino (e um adulto) feliz, independente, dono do seu nariz. que saiba que pode contar conosco sempre, mas que também saiba que queremos que você encontre seu caminho, sua forma de viver.

aqui tem fotos dos seus 25 meses, e aqui dos 26 meses. divirta-se, meu amor!

te amo muito, um beijo da mamãe.

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o que vive na escuridão

acho muito bonita essa interpretação astrológica para o mito da hidra, um dos trabalhos de hércules. embora não esteja certa que a hidra foi enfraquecida pela simples exposição à luz (como menciona a interpretação astrológica), essa versão vai ao encontro da minha argumentação, e vou usá-la :)

aviso: não sou psicóloga, aliás, não sou especialista em nada, então por favor sempre me leiam considerando que são somente minhas opiniões, baseadas no que sei e vivi. isso não é um tratado, é somente uma reflexão pessoal.

a hidra é um monstro venenoso, horrível e mortal, que se esconde no pântano, na lama, na escuridão. fica submerso, tornando ainda mais difícil vê-lo e obviamente matá-lo. a estratégia do herói é a de trazer o monstro à luz do sol, fora do seu ambiente tenebroso, cortando uma cabeça de cada vez e cauterizando cada corte, evitando assim que as cabeças tornem a crescer. e ao expô-lo à luz, sua última cabeça torna-se fraca o suficiente para ser possível neutralizá-la. (curioso que parece que essa última cabeça não é exterminada, mas enterrada)

é impossível pra mim não fazer um paralelo entre a hidra e o inconsciente. não que eu veja nosso inconsciente todo exatamente como um monstro, mas penso que tudo aquilo que desconhecemos, o que habita nosso pântano, pode se tornar um problema sem solução até que consigamos trazer o monstro à luz. se vamos matá-lo ou se ele vai se revelar nada mais que um coelhinho da páscoa é outra história…

suponho que nosso pântano seja cheinho de “montros”, e não tenho certeza que do que faz com que eles saiam de lá e venham nos enfrentar à luz do dia. não sei inclusive se eles saem por si próprios ou se nós os arrancamos de lá, na marra, quando fica impossível viver com eles nos assombrando.

há muitos anos venho escrevendo no meu blog pessoal sobre a famigerada tpm, e a apelidei de “maré baixa” lá em 2002. o que acontece na maré baixa, já viram? quem é de praia sabe bem como é — tudo que ficou preso no fundo do lodo, da areia, se expõe. e nem sempre é bonito de ver, porque aparece lixo, coisa podre, bicho morto, e a lama ao sol, gente, fede. tudo aquilo que fica escondidinho quando a maré está cheia, parecendo que está tudo bem e lindo e cheiroso, vira o horror na maré baixa. daí minha metáfora — o problema não é a tpm, ela é apenas a maré baixa; o problema é o lixo que acumulou, o peixe morreu preso ali, etc. e quando baixa a maré, é hora de limpar, arrumar, organizar, pra que na próxima vez o estrago seja mínimo.

pois eu, que achava que os problemas com a maré baixa estavam resolvidos definitivamente após essa minha “descoberta” (mantenha a “casa” limpa e organizada e a crise na tpm é mínima. funciona!), me deparei com uma forma muito mais intensa e dramática de descobrir hidras muito bem acondicionadas nos seus devidos pântanos — a maternidade.

esses monstros que vêem à tona quando nos tornamos pais/mães são geralmente idosos e cascudos, nasceram lá quando nós éramos crianças, adolescentes e ficaram quietinhos, não nos atrapalhavam a ponto de termos necessidade de arrastá-los para a luz e matá-los. quando deixamos de ser filhos somente e nos tornamos pais, alguns destes monstros acordam e se manifestam de forma inconveniente, irritante e — o pior dos piores — como repetição de histórias que odiamos e queríamos esquecer para sempre.

é no meio de uma crise de birra e choro do seu filho que você vai escutar saindo da sua boca — para espanto absoluto seu, inclusive — a frase, aos gritos, ”pára de chorar, que não tem motivo nenhum pra você estar chorando!”. ou (com sorte) vai perceber que acaba de dizer pro seu filho que esse jeito que você acaba de ensiná-lo a, digamos, desenhar uma bola, é o CERTO.

certo versus errado; repressão de sentimentos; relação com comida, afeto, animais, idosos, deficientes, pretos; — quer continuar a lista?

não sei dizer quantas coisas eu me vejo dizendo, fazendo ou mostrando para o otto que revelam MUITO sobre mim mesma, sobre como fui criada, sobre todas as limitações e restrições da educação que recebi. às vezes me vejo como se estivesse de fora, e me assusto. todo dia, toda hora é uma surpresa. sabe aquela música dos 80′s, “eu realmente não sabia que eu pensava assim”? pois é. eu não sabia que pensava e sentia muita coisa. estou revendo minha própria educação, modelos, valores passar bem na frente dos meus olhos quando procuro meu próprio caminho para educar o otto.

e esse filme, apesar do roteiro legalzinho ;) , nem sempre é bonito.

conhecer-se é fundamental para ser feliz, e também para ser um bom educador. ou pelo menos o melhor educador que você puder ser. porque erros serão cometidos, é inevitável. mas buscar o acerto, e a melhoria de si mesmo, continuamente, é essencial.

mais do que simplesmente “acertar” com meu filho, quero ser a melhor mãe que ele pode ter, e pra isso preciso me tornar melhor sempre, a cada dia. me conhecer, rever, mudar. preciso primeiro perceber que as hidras existem, expô-las à luz e acabar com elas.

até que venha a próxima. ser pai, e mãe, é ser herói de si mesmo, e esse trabalho — diferente do caso do hércules — não tem fim.

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dialética aos 2 anos

pra quem não sabe, entre 18 e 30 meses a maior parte dos bebês passa por um período de mudança significativo de comportamento, apelidado pelos americanos de terrible twos (referência aos 2 anos de idade). achei um artigo interessante sobre essa fase aqui.

a principal característica dessa fase é a demonstração de independência, exercício da vontade através do “não” e reforço do “eu”. e isso deve ser considerado positivo pelos pais — significa que o bebê está de fato se desenvolvendo neurologicamente conforme o esperado, pois é justamente nesta fase que o bebê entende que é um ser separado dos pais (mais especialmente da mãe), que tem suas próprias vontades, pensamentos, desejos e que pode exercitá-los. já vi quem chamasse essa fase de “adolescência do bebê” e faz todo o sentido, já que a adolescência é mesmo marcada pelo desejo do jovem de destacar-se da sua família, e criar seu próprio mundo e espaço independentes.

o otto já apresenta sinais de independência há muitos meses, mas nada muito marcante, são pequenas coisas que percebemos no dia a dia: dizer não para coisas que ele normalmente gosta ou resistir a trocar a fralda na hora que precisa trocar. com um pouco de jeito e alguma técnica é possível contornar sem stress.

mas ontem ele chegou a um novo nível: além de dizer “não” pra absolutamente tudo que era pedido ou oferecido, na hora do jantar ele olha o prato de salada (que adora) e diz “não qué querê!” :) e comeu tudo, como sempre, mas no seu tempo, do seu jeito.

temos dormido juntos na minha cama, antes de colocá-lo no seu berço (ele demora pra dormir, acho mais prático fazer assim que ficar plantada do lado do berço dele). deitado na cama, no escuro, ele vira pra mim e diz: “tá do contra!” (repetindo algo que falaram pra ele durante o dia, com certeza). eu ri, e falei que não tem problema, que pode ser “do contra” também.

normalmente ele dorme abraçado comigo, ou segurando no meu braço. mas ontem quando o abracei, como faço toda noite, ele disse “não abaça, dumí shójinho!”. me segurei pra não rir, falei “claro, pode dormir sozinho, a mamãe tá aqui se você precisar”. dei um beijo de boa noite e deixei ele quieto. em alguns minutos ele pediu a hilda (coruja de pano) e o hugo (monstro de pano), que fazem companhia pra ele no berço. peguei os dois, e ele realmente não veio me abraçar – ficou tentando conversar comigo (depois de dar boa noite eu não converso mais com ele, só fico ali junto) e depois de insistir na conversa e ver que não ia funcionar, ele virou e dormiu sozinho com seus bichinhos!

achei uma graça (e muito significativo) que logo depois de começar na escola ele também tenha começado a manifestar seu poder de decisão, sua individualidade, a ponto de querer dormir (a parte mais complicada de toda sua rotina, desde que nasceu) so-zi-nho. e que tenha iniciado o ritual de separação da mãe, através da transferência do apego para os  bichinhos (achamos que ele ia pular essa fase, mas pelo jeito ainda está por vir).

minha forma de lidar com essa necessidade de independência é oferecendo opções quando possível (leia o último link que coloquei nesse texto), pra que ele possa de fato exercer sua vontade. deixo que ele diga não, e não forço quando não é preciso. adio um pouco a troca da fralda, deixo que ele escolha no prato o que quer comer, misturo fruta com salada com sopa, pra que ele decida o que quer primeiro, deixo que ele tenha pelo menos a sensação de que está no controle de algumas coisas. na grande maioria das vezes funciona — ele fica muito feliz de poder fazer as coisas do seu jeito, fica confiante e normalmente não confronta de novo.

ele tem testado um pouco mais os limites físicos também, e tenta fazer coisas “perigosas” (o que têm potencial de causar acidentes). quando o risco do acidente é baixo, tenho procurado deixar acontecer, sob supervisão (cair, por exemplo), pra que ele entenda causa-consequência.

mas não sou do tipo que negocia tudo o tempo inteiro: tem hora que não dá pra ceder, nem conversar, nem negociar. certas coisas são NÃO mesmo, com letras maiúsculas, e aí simplesmente exerço autoridade e pronto. às vezes é preciso trocar fraldas à força (porque não posso discutir naquele momento, e temos que sair, por exemplo), tirar coisas perigosas da mão dele ou desgrudá-lo do armário que ele resolveu se pendurar (e pode cair em cima dele). sempre converso e explico os motivos, mas quando precisa ser rápido, é inconveniente ou arriscado, não dou opção.

aliás, se tem coisa que detesto é observar essas mães bovinas, que falam com voz mole e com a bunda imóvel na cadeira, enquanto vêem os filhos fazendo merda. “fulaninhooô, coloca o sapaaaaato que a gente precisa ir pra casa. vou contar até 2 milhões, hein?!”. quero morrer. tem que colocar o sapato e sair e a criança tá enrolando? levanta essa bunda e coloca à força, pronto. depois, em casa, conversa e explica.

por enquanto estamos conseguindo lidar bem com a fase “do contra”. cedendo às vezes, confrontando outras. até pra que ele saiba que sim, pode e deve exercitar suas vontades, mas não sempre. que às vezes ele precisa sim se adequar às pessoas ao redor, mesmo que fique chateado.

como não tenho medo de cara feia e nem ligo pra chororô, quando ele fica bravo ou chora eu consolo, pego no colo e explico: eu sei que é difícil ser contrariado, não fazer o que a gente quer. pode chorar, a mamãe te entende.

mas não é e continua sendo não.

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o 1o dia na escola

decidimos desde que o otto nasceu que ele ficaria em casa, com a babá, até completar 2 anos. a decisão foi tomada junto com o pediatra, que nos aconselhou a evitar escola antes dessa idade principalmente porque o sistema imunológico do bebê não está completamente desenvolvido até os 24 meses e a incidência de doenças é muito grande, dando um trabalho danado para os pais (lembre que a maior parte das escolas e creches não aceitam crianças doentes, elas precisam ficar em casa quando estão com febre, por exemplo).

mas só pra esclarecer: nós somos adeptos da filosofia de que a exposição aos germes é importante para a saúde, deixamos o menino lamber o chão, beijar o cachorro, comer terra, enfim. nossa decisão tinha mais a ver com comodidade que qualquer outra coisa.

além disso, a maior parte das crianças toma iniciativas de socialização com outras crianças por volta de 2 anos somente. antes disso, elas brincam fisicamente juntas, mas cada uma no seu próprio mundinho, sem de fato socializar. ou seja — ele não estaria perdendo muita coisa nesse aspecto.

chegando perto dos 2 anos, percebemos que o otto começou a se interessar mais por outras crianças, e principalmente que estava ficando mimado demais (tudo é dele, não aceita ser contrariado, etc,.). sabemos que faz parte da idade, e sendo filho único fica complicado não dar atenção excessiva e mimar. mas ficar o dia todo com uma babá que é praticamente avó dele (faz tudo que ele quer e mais um pouco) estava nos preocupando. somos bastante rígidos com ele (ou pelo menos tentamos!) e temos horror de crianças mimadas. colocá-lo na escola logo que completasse 2 anos era essencial pra nós.

depois de uma pequena pesquisa na cidade (moramos em vinhedo), optamos por uma escola waldorf. vimos opções construtivistas também, que achamos interessantes, mas além da abordagem pedagógica (da qual falo daqui a pouco), o que mais nos encantou na escola que escolhemos foi o espaço físico, com poucas crianças e o menu de almoço. a escola é uma pequena chácara, com 2 turmas somente (maternal e jardim) e 1/2 período. muito espaço verde, todos os brinquedos de madeira e pano (materiais naturais) e um cardápio orgânico muito próximo da forma como alimentamos o otto em casa até o momento: nada industrializado no dia a dia, sem temperos excessivos, sem açúcar e doces. muitas frutas, comidas preparadas em casa.

novamente, não somos radicais-odara. o otto come pipoca, feijoada, bolo, chocolate, já comeu salsicha e linguiça, mortadela, enfim. mas nada disso é regra, é sempre exceção. no dia a dia, ele come arroz, feijão, proteínas variadas na semana (frango e ovo só orgânico), verduras e legumes orgânicos na sua maoria (quando não tem também não estressamos, come o que tem), sem sal e sem açúcar, pouco tempero, muitas frutas e de vez em quando bolo simples feito em casa. ele não come “sobremesa”, somente frutas depois das refeições, não come frituras e nem embutidos. suco só damos de laranja natural (feito na hora) e de uva orgânico (ele nem gosta tanto assim de suco, na verdade). mas quando comemos fora damos batata frita, bolo. o que nunca demos e não pretendemos dar antes que ele seja bem maior é refrigerante (tratamos como bebida alcoólica — é de adulto e ponto final) e balas/pirulitos. de resto, é isso: fazemos o melhor no dia a dia, e concedemos exceções sem problema.

voltando à escola: a alimentação segue os mesmos princípios que nós seguimos, com a vantagem de colocá-lo pra comer na mesa, junto aos coleguinhas (seja o que zeus quiser quando ele começar a almoçar lá… a bagunça vai ser épica). uma das coisas que nos animou quanto ao sistema waldorf foi que eles não têm “aulas” para crianças até os 6 anos completos. eles não ensinam letras, números, absolutamente nada que se pareça com alfabetização ou coisa assim. as crianças aprendem atividades manuais e criativas somente, são livres para brincar e desenvolver outras habilidades tais como pintar, cantar, tocar instrumentos, desenhar e até cozinhar.

quem tem a expectativa de ver seu prodígio fazendo contas e lendo antes dos 7 anos não deve ficar muito contente com a abordagem, mas pra nós ela pareceu perfeita. somos muito mentais, eu e o fer. fomos alfabetizados muito cedo, somos ambos excelentes em matemática e sempre estivemos entre os primeiros das nossas turmas. valorizamos bastante o intelecto, e exatamente por isso achamos que precisamos balancear de alguma forma esse nosso modus operandi inconsciente para com nosso filho. é natural que o otto aos 2 anos conte até 40 (e aumentando a cada semana…) e já saiba todas as letras do alfabeto. isso aconteceu sem que a gente percebesse, mas certamente tem influência nossa, mesmo que inconsciente.

sabemos que nosso filho não é um gênio (esses são gênios, vejam os números 8 e 9. o número 8 aos 2 anos fazia operações algébricas…), ele simplesmente responde ao ambiente em que vive. queremos que ele tenha oportunidade também de ser exposto e experimentar coisas que nós não oferecemos de forma natural (aquarela, e outras atividades criativas) simplesmente porque somos quem somos. nós vamos querer ensinar o otto a andar de bicicleta, plantar, cozinhar, ver filmes, ler livros e gibis, fazer contas e jogar jogos. são as coisas que nós gostamos de fazer, nossa zona de conforto.

não sabemos ainda se essa pedagogia vai nos deixar confortáveis depois dos 6 anos. pretendemos visitar as opções de escolas waldorf na região para crianças maiores, e então decidir. mas por enquanto estamos confiantes que essa é a melhor opção pra ele, que já se mostra um menino bastante organizado e um tanto perfeccionista (impressionante como isso já se manifesta aos 2 anos!).

**

é claro que estávamos tensos com sua primeira experiência na escola. ele sempre foi muito mimado e protegido, não só por ser filho único mas porque nasceu numa circunstância muito preocupante. ainda há o fantasma de possíveis seqüelas do parto (por mais que os pediatras que consultamos tenham nos assegurado que tudo está indo muito bem), qualquer bobagem que todo mundo diz que é normal, como ele começar a falar somente aos 20 meses, nos preocupa.

e existem as outras crianças do mundo, aquelas que podem morder, bater ou simplesmente chatear nosso filhinho querido. ele vai chorar? vai sofrer? como podemos poupá-lo, afinal?

não sou uma mãe diferente das outras, é claro que me preocupo com meu filho. mataria e morreria por ele. mas quando me comparo ao pai dele, percebo que não sou superprotetora, e que desejo com certa ansiedade que ele comece a enfrentar dificuldades típicas de tornar-se um ser humano: confrontar diferenças, lidar com a frustração, aprender a dividir, aprender a defender-se, entender que o mundo não gira em torno dele, aprender a negociar e lidar com o outro.

por mais que eu vá sofrer quando ele sofrer (é inevitável. não é possível ser mãe e não se doer pela dor do seu filho), estou absolutamente certa que enfrentar frustrações e dificuldades o quanto antes fará dele um adulto melhor, vai ajudá-lo a lidar melhor com as adversidades para o resto da vida. minha missão como mãe é prepará-lo para ser um adulto independente, que sabe ultrapassar obstáculos porque tem confiança em si mesmo e sabe que é sempre possível tentar de novo, mudar, adaptar-se. se conseguir isso, considero minha missão como mãe e educadora cumprida.

e parte dessa missão é deixá-lo responder do jeito dele às barreiras e desafios. orientando e acolhendo, sempre, mas sem sufocá-lo ou protegê-lo da realidade.

e foi com esse espírito que no 5o dia da adaptação na escolinha eu coloquei ele no chão, ajeitei a mochilinha nas suas costinhas pequenas e deixei andar SHOJINHO (sozinho, como ele pediu, e eu respeitei) até sua professora. lá dentro, eu o convenci a guardar a mochila e entrar na sala (ele queria ir para o quintal, claro), avisei que iria trabalhar e que ele ficaria lá com os amiguinhos e as professoras. e ele me deu um beijo contrariado (não por eu ir embora, mas por ele não poder ir para onde queria) e saiu andando, sem nem olhar pra trás.

tive tanto orgulho dele! e tive orgulho também de mim, porque não sofri nem um pouco e fui muito feliz naqueles instantes de demonstração da independência dele. tive toda a certeza de que sou e serei uma boa mãe, que não sufocarei meu filho e nem terei crises de depressão no dia em que ele for viver sua vida independente da minha.

foi só um instante, um beijo e um tchau, mas foi também a projeção de um futuro possível e totalmente coerente com tudo que acredito. que ser mãe não é padecer no paraíso, nem sofrer. ser mãe é contribuir para um mundo melhor através da criação de pessoas cada vez melhores, mais felizes, confiantes e independentes.

vá ser feliz, chorar, sofrer e descobrir as maravilhas do mundo, meu filho querido. não estarei sempre do seu lado fisicamente, mas estarei sempre junto cada vez que você virar as costas e andar sem mim, pois minha missão foi muito bem cumprida se você simplesmente souber que é capaz de tudo que quiser.

PS 1: a propósito, hoje cedo deixei ele de novo na escolinha e fui embora (desta vez ele fica a manhã toda). novamente ele fez questão de usar a mochila ele mesmo, mas me deu a mão para entrar. entrou sozinho, me deixou ajudar com a mochila e me deu um beijão e um sorriso de tchau, antes de ir cuidar da sua vidinha.

PS 2: ele agora não pode entrar no carro que quer ir para a “ecolinha”. voltou ontem da escola sorrindo e repetindo o caminho todo “tá feliz! tá feliz!”. como não ser feliz junto?

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