o maior de todos os medos

fui pesquisar no blog se já tinha falado de medo antes, pra não me repetir demais, e descobri que a palavra apareceu bastante. não me espantei, porque uma das coisas que descobri é que depois de ser mãe/pai o medo toma uma proporção completamente diferente e muito maior.

o medo é definido como uma emoção causada pela percepção de perigo ou ameaça, um mecanismo de sobrevivência básico. a menos que você venha com defeito de fábrica, sente medo, a emoção não devia ser novidade pra ninguém. mas eu não sabia o quanto o medo podia ser tão maior, e apavorante, quando se trata dos nossos filhos.

o medo de perder um filho é mais forte que o medo de perder a própria vida. sério: a ideia de morrer é muito melhor que a de perder um filho. se houvesse escolha, estou certa que os pais escolheriam morrer no lugar dos seus filhos.

eu não sentia esse medo antes do otto sair da barriga, quando ele ainda era feto. mas depois que ele nasceu, e vi seu rosto, pele, cabelos bagunçados, ouvi sua voz e senti seu cheiro, um “clic” aconteceu. e não é amor (pra mim, o amor veio gradualmente), é algo como uma pré-programação, é não-racional. no momento em que aquele ser existe e respira, ele é sua responsabilidade, e você moverá montanhas pra que ele sobreviva. está no nosso código genético, na programação do nosso cérebro, e você agirá de forma tal que a prioridade número 1 da sua vida será aquele bebê. mesmo com toda ajuda do mundo, é você o responsável. aquele bebê precisa sobreviver.

a seleção natural é um poderoso instrumento de formação de seres perfeitamente adaptados para garantir que seus descendentes sobrevivam, através do imperativo genético.

antes mesmo de engravidar, quando estava tentando, eu tinha pesadelos recorrentes de que carregava nos braços uma criança imunda, magrinha e chorando, porque eu não conseguia cuidar dela e nem alimentá-la. eu andava desesperada pelas ruas, pedindo ajuda com a criança nos braços, em vão.

e antes de sequer querer engravidar, tive um sonho apavorante que levei pra terapia: eu acordava no meu quarto, na penumbra, e no canto havia uma criança (4, 5 anos) parada, quieta no cantinho, olhando pra mim. não havia nada de mau, feio, sinistro na criança, tipo demian (mas era um menino :)). era só inusitado (no meu quarto, escondida, à noite), mas eu sequer chegava a questionar o motivo — sentia um medo visceral, uma vontade de sair correndo, horrível. e ao elaborar mais a imagem, sobre a criança, veio à tona meu enorme medo de ser mãe, de ser responsável por alguém, de sentir medo pela segurança e saúde de outra pessoa que não fosse eu mesma.

o contexto de nascimento do otto foi muito especial, e apavorante. bem normal que eu tivesse medo dele morrer, ou ter alguma sequela. mas quando ele voltou pra casa, o tempo passou e ficou claro que não havia nenhum problema grave (segundo o pai, só ficaremos 100% tranquilo quando o menino fizer MBA, hahahhaaha!), o medo deveria passar. mas não passou — eu conferia se ele respirava; qualquer suspiro me fazia sentir ansiedade; quando ele chorava eu chorava junto. tinha vontade de fazer ele voltar pra barriga (no meu controle, claro, dentro do MEU corpo), pra proteger, cuidar, preservar.

o tempo passou e descobri que o medo na verdade não passa. o que acontece é que a gente acostuma com ele, e outras coisas práticas e mais urgentes se sobrepõem a ele, ficam mais evidentes. o medo fica em background, é incorporado como parte do dia a dia.

ouvi uma vez uma história muito interessante sobre percepção da realidade, através dos sentidos: alguém que nunca enxergou na vida, se de repente tivesse a capacidade de visão restaurada de uma só vez, enlouqueceria. a quantidade de informação que recebemos é imensa, e só conseguimos lidar com o fluxo de informação porque desenvolvemos a capacidade de filtro, pouco a pouco, desde recém-nascidos. os bebês escutam, vêem e sentem de forma diferente, o sistema neural aprende a captar e decodificar os sinais externos pouco a pouco, é um mecanismo de absorção gradativa, até pra não dar tilt no cérebro. aos poucos, aprendemos a focar no que é importante (ou nos interessa) e “desfocamos” tudo que é segundo, terceiro plano. as coisas continuam existindo, mas com menor importância e impacto, pra que a gente consiga sobreviver num mundo com infinitos estímulos.

já li também que pessoas que têm algum tipo de disfunção de percepção/decodificação e filtro sofrem muito (alguns autistas, por exemplo), e os bebês que mais choram e precisam de colo/conforto nos primeiros meses são justamente os que têm dificuldade de lidar com o excesso de estímulo. ou seja — seus filtros não são formados ainda e eles são sensíveis em excesso.

mas voltando ao assunto: creio que o mesmo se aplica ao medo. ele continua lá, enorme e sempre presente, mas em segundo plano, porque afinal a vida chama e as coisas práticas precisam ser feitas.

no último fim de semana o otto se machucou — andava no nosso terreno, onde construiremos nossa casa, e caiu. eu e o pai estávamos atentos, prestando atenção a onde ele ia, etc., mas não olhamos com tanta atenção assim, assumindo que no chão havia o que há nos chãos: terra, pedras, gramas, insetos. pois que no pedaço de chão que ele caiu, escondidos entre as gramas e as terras e pedras, havia pedaços de ferro de fundação cortados. com pontas. de 10cm. enferrujados, afiados. e ele caiu por cima de 2 destes ferros, quando tropeçou (havia mais). aquele corpinho frágil, fofinho, delicado de criança de 3 anos caiu em cima de ferros afiados e enferrujados. e tudo o que aconteceu foram 2 arranhões — um pequeno, na barriga (a roupa segurou) e o outro enorme, no bracinho descoberto. rasgou a pele, num machucado bem feio mas que aparentemente não doeu e que pouco sangrou. ele foi bem corajoso, não reclamou do machucado (mas reclamou da assepsia no posto de saúde, e muito).

a coragem dele, tão pequenininho, foi o que me sustentou e impediu de chorar, não quando vi o machucado (apesar de ter morrido de pena), mas quando vi os ferros no chão, e pensei nas 1001 possibilidades de terror daquela queda. ferros no peito, na cabeça, no olho, no rosto, no pulmão, e etc. etc. etc. e o medo me invadiu como uma cachoeira, voltando de enxurrada ao primeiro plano. pra me lembrar que não, ele não sumiu, ele está sempre lá, me espreitando, e que vai me pegar cada vez que uma situação de risco normal se transforma em desastre potencial ou real.

abracei aquele corpinho frágil, morrendo de medo e culpa (COMO eu não vi os ferros? como eu deixei meu bebê, minha prole, meu descendente, se arriscar?), e um pouco morta por dentro. fiquei com medo de novo por 1 ou 2 dias, e depois ele voltou ao segundo plano. até a próxima.

**

(o assunto abaixo não é diretamente relacionado ao medo, mas acabou aparecendo enquanto escrevia esse texto, resolvi deixar aí)

algumas pessoas comparam o amor/preocupação com filhos e com animais de estimação. tenho ambos, e tive animais antes de sequer pensar em ter filhos, e entendo a comparação. mesmo depois de ter filhos, não me ofendo com a comparação, pois entendo que as pessoas sem filhos querem de alguma forma mostrar que sentem empatia pela sua situação, o trabalho que dá, etc. não é a mesma coisa, isso é fato, mas a correlação ajuda a achar coisas em comum a 2 universos paralelos.

(e ainda acho que ter ferrets dá mais trabalho que ter filhos, em alguns aspectos :))

digo que são paralelos porque, de fato, não dá pra comparar o amor, preocupação (e o medo) que se sente em relação a um filho com aquele que se sente em relação a um animal de estimação. perder um animal é triste, perdi nada menos que 10 nos últimos 12 anos. mas nada, nada sequer se parece com o medo de perder seu filho, é basicamente o fim do mundo e da vida.

se você tem filhos, eu não preciso explicar isso; se você não tem, não adianta explicar.

9 thoughts on “o maior de todos os medos

  1. Perdi uma filha, tenho mais um casal. Nada se compara a essa dor. Nada. E, te garanto, “imaginar” não chega aos pés do acontecer.
    Cuide de seu Otto. Ele é lindo.

  2. querida lou, sinto tanto 🙁 eu não consigo sequer imaginar. minha tia (que já tinha 3 filhas), teve o 4o filho e ele morreu ainda bebê (<3m). ela nunca mais foi a mesma, e acho que não dá mesmo. é a pior tristeza da vida, com certeza. beijo grande em você.

  3. Pelo fato de ter dois pequenos resolvi me afastar de tudo que toma tempo, mesmo que eu goste muito….tipo net, Flickr, face e eu tinha aberto um blog….de tanto as meninas falarem pra eu abrir e lá só mostrava as coisas de artesanato como no Flickr, eu nem sei se eu to certa mas, para o momento, eu acho que preferi, vejo tantas pessoas me falarem que o tempo voa e quando eu ver eles já estarão grandes!
    E mesmo ficando em casa com eles, o tempo é corrido, tenho rotina com eles e ai já viu ….o tempo fica curto, comecei a fazer artesanatos pra distrair e até peguei umas encomendas….
    Mas pouca coisa porque e um tal de mãeeee kkkk.
    Ivanise adoro vir ler nos seus blogs, é muito bom!
    E é bem isso …acredito que o tempo vai passando e o amor aumentando e com ele o medo camuflado ….imagino a sua culpa de estar do lado dele e ele se machucar, mas é inevitável….eles sempre vão as vezes se machucar mesmo qdo estivermos por perto …faz parte do aprendizado deles ….e nosso rs.
    Ivanise um super bjssssss

    Dri 🙂

  4. suspiros, com esse teu post.
    O ultimo paragrafo, descreve exatamente o que eu penso da comparação entre filhos/pets e acho tb que só quem tem filhos consegue perceber essa diferença. Acho que só quando o bebê está aqui do lado de fora que a gente leva a cacetada na cabeça para entender que agora “é tudo contigo”. Eu não consigo sequer imaginar o que é perder um filho, e todas as mães que conheço que já perderam um filho são muito diferentes do que foram um dia, uma tristeza sem fim.

  5. Zel,

    Chorei lendo o seu texto. Me identifiquei tanto, tanto, tanto. Lembro de ter feito essa síntese em algum momento quando o Uli era ainda bebê: quando nasce um filho, nasce junto o medo. Não dá mesmo pra explicar. A seguir, percebi que a ação é o que nos tira desse foco do medo, e ela é necessária o tempo inteiro quando se tem filhos. Escolha e ação, escolha e ação, sem fim, sem parar. Foi (e tem sido, claro), um ótimo aprendizado para uma pessoa tão pouco prática como eu. É quase me reinventar.

    Lembro de um show da Badi Assad em que ela disse que o medo é o reverso do amor: se há amor, não há medo. Achava que ela podia ter razão até Uli nascer. Depois disso descobri que eles são parte da mesma coisa.

    Há uns tres dias, Beto estava atravessando a rua com Clarisse no bebê conforto e a alça quebrou – mesmo, tipo crec – assim que ele chegou na calçada. A altura não era muita, ela tava com o cinto preso, portanto não caiu no chão. Mas o medo, o pavor, voltou inteirinho. E se fosse na rua? E se? E se?

    Haja respiração pra não deixar as fantasias nos assolarem!

    Beijos pra vocês!

    • Teca querida, e eu chorei escrevendo. Porque o medo é tão grande que se a gente não colocar foco na ação… ai. não dá pra viver né? Beijo enorme.

  6. Uma das primeiras coisas que eu pedi quando me descobri grávida foi forças para não criar uma criança medrosa como eu. E eu não curti direito minha gravidez porque sempre estava com medo: enquanto a bebê não mexia, eu tinha medo dela estar morta na barriga. Depois que passou a mexer, eu fui ensinada a contar os movimentos por dia, e se ela se mexesse menos de 10 vezes por dia lá ia eu ligar chorando pro médico (pode acreditar, é esse o nível de medo que eu sinto das coisas). Eu tenho medo de tudo. Sou a única menina entre 4 irmãos, então imagina a minha criação. As frases clássicas que eu ouvia (e que repito, minhas amigas dizem que essas frases são a minha cara): “Cuidado com os dentes!” e “Cuidado com o olhos!”. Eu tinha tanto medo/me colocavam tanto medo, que eu fui uma criança que nunca deu uma cambalhota na vida, acredita? Tinha medo de quebrar o pescoço e morrer.
    Então, na maternidade eu vivo um exercício contrário: diferente de mim, gostaria muito que minha filha fosse destemida. Corajosa. Para tudo, para dar cambalhota, defender o que ama, se arriscar… Morro de medo de tudo, mas a incentivo a fazer tudo. Recentemente percebi que ela não sabe subir as escadas e escorregar em um escorregador sozinha, sabe por que? Porque meu medo dela cair sempre faz com que eu esteja atrás segurando, ou colocando ela em cima do escorregador. Não sei se dá pra entender onde eu quero chegar, falei, falei e acho que não expressei nada. Enfim, tenho, claro! muito, muito medo de perder minha filha. Mas meu medo maior é criar uma criança medrosa, como eu. Não é legal ter medo de tudo…

    • mari, a gente também é superprotetor 🙁 não sei se é pela condição do nascimento do otto, ou porque somos pais velhos (somos. e pensamos demais), ou porque ele é filho único… e pra piorar, o otto é bem cauteloso por natureza, ele já não é de se arriscar, não é do tipo que vai lá e faz, sabe? ele observa, pensa, pergunta, analisa. enquanto isso, as demais crianças (bem menores e mais novas que ele) vão lá e fazem, pulam, passam por cima. é difícil pra gente, ainda não aprendemos a lidar. uma coisa que foi boa é a escola, e na escola eles incentivam muito ele a arriscar e ser mais ousado, e a gente gosta. em casa não conseguimos muito, é um esforço da nossa parte (abaixa o garfo! não sobe na mesa! não corre! vai cair!).

      te entendo muito! beijo.

  7. Pingback: porque sofro por você | fabricando

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