a noite

Otto agora quer dormir cedo porque tem medo da noite e “dos alienígenas”.

COMO NUNCA PENSEI NISSO ANTES?!

#mãedecesárea

 

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Descobri a causa do medo de alienígena:

SONO.

🙄

 

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Além do medo da noite e do alienígena ter voltado (conferimos na escola; teve uma brincadeira de encontrar o alienígena escondido entre os humanos, tipo jogo dos 7 erros. Ele não lidou bem), mais um episódio da famigerada hora de dormir.

 

Hoje ele quis fazer uma apresentação no show de talentos da escola ❤ e cantou e dançou ao som de “put on your sunday clothes”.

 

A amiga dele comentou que ele “dançava que nem o Michael Jackson” (own! <3) e eu fui mostrar quem era o Michael.

 

Mostrei o clipe de Bad:

 

O: “gostei. Ele é menino ou menina?”

 

Eu: “menino.”

 

O: “hmmmm não parece.”

 

Eu: “ué, é assim que é. E aí, o que achou?”

 

O: “legal! Mas ele ainda… existe?”

 

Eu: “ele já morreu. Mas ele deixou um montão de coisas pra gente assistir, foi um dos melhores dançarinos e cantores da nossa época.”

 

O: “(já chorando) mas eu queria MUITO que ele ainda estivesse aqui! Eu queria cumprimentar ele!”

 

(Improvável, e mesmo que fosse possível eu não deixaria meu filho, um dia te explico)

 

Eu: “é uma pena mesmo, amor. Mas podemos assistir as coisas que ele deixou.”

 

**

 

Agora temos uma questão com a noite que nunca existiu.

 

Ou seja: vai começar a dormir mais cedo, porque pelamor, ninguém merece ir dormir chorando por causa do Michael Jackson ter morrido.

 

🙄

ET phone home

Otto — apavorado antes de dormir, chorando — me explica que o professor de informática mostrou pra turma o vídeo de um “alienígena com mão de faca” e que ele está morrendo de medo porque não quer sonhar com aquilo e que “nunca devia ter entrado naquela aula”.

E os minions preocupados com educação sexual.

Agora toca trazer todas as evidências pra convencer a criança que isso não é real.

😩

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Ainda sobre os alienígenas, ficamos muito tempo conversando pra entender onde estava pegando pra ele a história, de onde vem o medo e por que ele estava com dificuldade de acreditar que aquilo que ele tinha visto não existia.

Foi bem mais longo, mas vou pinçar as partes críticas do diálogo:

Eu: “Otto, não existe nenhuma evidência de que aliens existam. Muita gente já buscou e continua buscando, e nada ainda apareceu.”

Ele: “mas vocês não podem ter CERTEZA que não existe!!”

(Inferno.)

Nós: “neste momento garanto que NINGUÉM confirmou a existência deles.”

Ele: “mas eu vi o vídeo! Ele tinha mão de faca!” (E chooooora)

Eu: “amor, é igual a todos os vídeos que você assiste, os filmes — é um personagem. É mentira. Alguém inventou.”

Fernando: “existem pessoas que criam personagens pra causar medo, mas não são reais, porque tem gente que gosta de sentir medo e assistir. Sabe quem é assim? Sua mãe.”

Otto: “MAS POR QUE ALGUÉM FARIA ISSO?!” (Chooooooora)

😬

 

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Na conversa sobre ele acreditar no alienígena e não acreditar nos personagens de filmes, fiquei impressionada pela lógica perfeita:

Eu: “Otto, sabe o homem-tubarão do Flash? Ele não existe, certo? É a mesma coisa!”

Otto: “claro que ele não existe! Porque NA TERRA ele não tem como existir. Mas os alienígenas são diferentes!” (Choooora)

Fantástico.

Coisas bizarras na Terra ele sabe que são impossíveis, mas o que vem do espaço seria desconhecido, não se aplicam as mesmas regras.

 

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Aproveitei pra reforçar pra ele sempre duvidar de coisas que parecem estranhas demais, e buscar entender, pesquisar, antes de acreditar.

É um conselho que vale pra ele, e pra todos nós, afinal.

conflito

Otto fazendo tarefa de

Interpretar texto, resumiu o Brasil (é sobre uma conversa entre bichos que são diferentes):

“Cada um tem uma ideia diferente e cada um só concorda com a sua própria ideia.”

Zerou.

como se tivesse 8 anos

O processo de buscar julgar menos é tão complexo, tão difícil. Precisa de um empenho enorme, além de paciência sem fim pra lidar com UM MUNDO de julgamentos sem intenção (mas ainda com impacto).

 

E dá um trabalho danado desfazer alguns estragos que parecem pequenos mas quando acumulados nos anos ficam imensos.

 

Enquanto fazia a tarefa de hoje, que era interpretar um texto sobre ecologia, Otto me diz que escutou na escola, enquanto falavam do impacto humano na natureza, que “quando damos comida aos animais silvestres, eles ficam PREGUIÇOSOS” e por isso não é boa ideia dar comida pra eles.

 

Animais preguiçosos. Pode até ser que a palavra seja adequada pro que acontece na prática, mas coloca um julgamento também, como se a “culpa” fosse do animal, como se ele escolhesse conscientemente não mais buscar comida.

 

Fui ler o texto, que dizia que os animais DESAPRENDEM a procurar comida na natureza, deixando-nos vulneráveis, e que isso é prejudicial.

 

Caramba, olha que explicação legal? Otto inclusive começou a perguntar sobre o que era desaprender, e  se escreve com hífen ou sem. Ele quis saber o que acontecia se tivesse pouca comida e os animais fossem muitos. “Eles vai brigar!” — ou vão dividir; ou vão buscar mais. “Eles encontram uma maneira”, expliquei.

 

Tive que conversar com ele pra dizer que não é que o animal fica preguiçoso — ele busca comida onde é mais fácil, e pode depois não saber (esquecer, desaprender) onde deve buscar. Que é importante que eles saibam procurar a comida e não dependerem dos humanos.

 

Fico me perguntando se as pessoas julgam (qualificam ou categorizam de forma extremamente simplista) porque lhes falta repertório pra entender a complexidade da vida e das coisas, sabe?

 

Dá trabalho, e requer PENSAR, pra explicar coisas de forma que uma criança de 8 anos entenda sem recorrer a qualificações simplistas.

 

Também não quero julgar nem crucificar quem disse isso pra ele na escola, mas eu adoraria que as pessoas tratassem meu filho (e crianças em geral) como pessoas que pensam e têm capacidade de entender ideias complexas, apesar de serem crianças ainda. Ser criança não significa ter capacidade cognitiva menor, só significa que têm menos repertório ainda.

 

Não acochambrem as coisas pra crianças, gente. Só expliquem de forma direta e simples, e deixem elas perguntarem.

mãe chata

No drama da lição de hoje, tivemos chiliques de ambos os lados por motivo de criança que se recusa a seguir instruções e quer fazer tudo do seu jeito.

 

Até que eu desisti e falei FODACE (ou em versão traduzida pra criança — não faz então, e sofra as consequências); e ele fez a porra da lição lá do jeito dele.

 

Nem jantar servi. Deixei ele se virar com a comida que deixei na mesa (normalmente eu sirvo, arrumo tudo, mãe de comercial de margarina).

 

— “também não vou guardar nada!”

 

(FODACE. Silêncio.)

 

— “… tá bom, tá bom, eu guardo.”

 

Guardou. Mas enquanto guardava…

 

O: “sabe, mamãe, você não tá sendo legal.”

 

Eu: (YOU HAVE NO IDEA, KIDDO) “nem você.”

 

O: “mas eu só não tou lendo legal AGORA. Nas outras horas eu sou.”

 

Eu: hm. “É verdade. E eu, sou chata sempre ou só agora?”

 

Quem mandou perguntar?

 

O: “sempre. Você não me deixa fazer só o que eu quero.”

 

Eu: “é, não mesmo.”

 

E hoje ainda é segunda.

 

Agora entendi porque meus pais enchiam a cara.

lição de casa

Momento lição do Otto. O texto é sobre diversidade cultural e respeito pelas diferenças.

 

O: “na minha escola não tem respeito NENHUM!”

 

Eu: “afe, por quê? O que acontece?”

 

O: “ninguém deixa a professora falar! Nem consigo fazer combinados, ninguém para de falar!”

 

Eu: (hahahhahaha) “entendi. Isso acontece porque as crianças ainda não aprenderam isso, Otto. Logo elas aprendem.”

 

O: (enfaticamente com as mãos) “mas eu sei isso faz MUITO tempo!”

 

😂😂😂

 

E aí teve essa pergunta aí sobre diferenças culturais. Ninguém pode dizer que ele não é assertivo, né?

respira!

Gente, que dó. É o Otto *todo santo dia*.

 

Ontem peguei ele na escola 10min mais cedo (eles têm o final do período pra brincar no pátio):

 

O: “ahhh mamãe, eu queria brincar mais um pouco!”

 

Eu: “não tem problema! Se quiser ficar mais a mamãe espera você, pode brincar e depois vamos.”

 

O: “mas eu não quero chegar em casa depois que o sol sumiu…”

 

Eu: “hmmm. Entendi. Mas aí tem que escolher né? Ou brinca mais aqui ou aproveita o sol lá em casa. As duas coisas não dá.”

 

Não pode brincar pra sempre? 💔

dirty job

Toda uma DR sobre hora de assistir desenho, comportamentos mais ou menos adequados e a importância da tarefa para a boa manutenção do relacionamento filho <> pais. Tudo aparentemente OK.

 

Eu: “ótimo, Otto! Então vá lá fazer sua tarefa e depois jantar.”

 

O: (bufando) “ain. O trabalho sujo sempre sobra pra mim!”

 

🙄😂

Ensino Fundamental: dia 1

[fev-2017]

Começou o ensino fundamental e todos sofrem aqui em casa. Fomos orientados a definir regras claras pro Otto pra ajudar a equalizar um pouco o ambiente da escola com o de casa (ou seja — a escola começa a ter regras mais rígidas, e se aqui “pode tudo” fica difícil convencê-lo de que a escola pode ser legal).

 

O que entendemos é que mais importante que ser rígido / inflexível é que ele entenda que disciplina é parte da vida, seja onde ele estiver. A escola pega leve no 1o ano, mas tem “matérias” e tem tarefas.

 

Ele tá odiando, claro. E #todassofre.

 

Ele reclama que as tarefas são muito fáceis, que ele já sabe fazer tudo. E que “ele não é obrigado” (dê autonomia para um cerumaninho e ele agarra com unhas e dentes).

 

Expliquei que não é questão de “ser obrigado”, mas de estar lá exatamente pra isso: realizar as tarefas com os colegas e com as professoras. A experiência em si, não só o conteúdo. E se manifestar, falar com as professoras e os colegas. Que ele pode questionar e perguntar mas TEM QUE participar.

 

Chegando em casa, mostrei a grade de atividades da semana. Avisei que tem o intervalo pra brincar, mas que tem também agora outras coisas pra fazer.

 

Ele me olha bem sério e diz “mas mamãe — toda criança tem o direito de brincar!”

 

E começa a chorar, abraçado comigo.

 

**

 

Alguém faz uma intervenção, por favor, que estamos a um cabelo de pegar o menino e ir morar no mato feito curumim.

 

💔

 

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Update: E não é que a escola é super rígida não, tá? Ele não quer ser dirigido, seguir instruções. Ele questiona TUDO, até porque tem que colocar o nome na folha!!!! 😱

diário do otto: 7 anos e 5 meses

otto,

você já aprendeu que sua mãe é cabeça de vento, e lembra disso quando me distraio. sua mãe se dispersa, e começa coisas e não termina… e está tudo bem. as pessoas são diferentes, e você também vai aprender que alguns defeitos são também qualidades (é por ser cabeça de vento que consigo me desapegar de problemas, e seguir, ser feliz hoje, sem me preocupar tanto com o futuro ou remoer o passado).

mas já me distraí — seu último diário foi escrito com 4 anos e meio, mais ou menos, e nem consigo começar a dizer o quanto tudo mudou desde então.

naquela ocasião você tinha mudado de escola, e nós tínhamos mudado de casa. a casa que construímos juntos, a casa azul.

foram 2 anos naquela casa, 2 anos em que percebemos que tanto a casa nova quanto a escola nova não estavam funcionando como queríamos. você continuava tão curioso e inteligente como sempre, mas ainda muito resistente com a escola. socializando um pouco melhor, mas longe do ideal. nossa casa era linda, mas enorme, e muito mais custosa do que nós queríamos.

você aprendeu inglês, fez aulas de música com o Elias — criamos juntos partituras malucas, tocadas a 8 mãos (e pés, e corpos :)). amávamos aqueles sábados de manhã, tocando e cantando, mesmo sendo tão difícil pra você ser membro da orquestra, e não o maestro. você amava desenhar nas portas enormes de vidro da sala, histórias incríveis de naves espaciais e planetas. você fez seu primeiro amigo de verdade, o pedrinho, com quem você ainda brinca e de quem gosta muito. e nós amamos os pais dele, o que nos ajudou a aproximar vocês. conhecemos também a vitória, com quem você gostava muito de brincar, uma menina divertida e amorosa.

foram dias cheios de sol e tentativas frustradas, mas teve muita beleza e alegria também. e se tem alguma coisa que eu quero te contar desse período todo, meu querido, é que não se pode desistir. dificuldades fazem parte de estar vivo, pensar e sentir. dificuldades nos obrigam a rever onde estamos, pra onde vamos, pra onde queremos ir, e mudar. eu sei que mudar e sair da rotina é difícil pra você, mas acredite em mim: é bom. avaliar as coisas e perceber que algo não vai bem é fundamental para crescer e ser feliz.

às vezes acho que minha maior missão como sua mãe é ensiná-lo a se adaptar. a perceber o entorno, aprender, e mudar. sua mãe é muito boa nisso, meu amor, e farei meu melhor para ensiná-lo sobre como se adaptar.

mas foram dias difíceis; você sempre odiou acordar cedo pra ir pra escola, e cada dia era uma batalha. decidimos então mudar, de novo, e encontramos outra turma (ainda na mesma escola) à tarde, pra reduzir seu tempo na escola e evitar o stress da manhã. iniciamos seu tratamento de terapia ocupacional física com a Giovana, já que sua coordenação grossa não era nada boa (a fina sempre foi muito boa). as coisas melhoraram sim, mas muito lentamente e menos do que queríamos. nesta turma não encontramos nenhum amigo pra você e nem pra nós. descobrimos que essa turma era muito fechada e não nos aceitou (nem a você nem a nós).

neste meio tempo vendemos nossa casa azul e encontramos uma nova casa, menor, porém com quintal muito maior e muito verde, exatamente como queríamos. nos mudamos para o meio das colinas, na casa em que estamos hoje. nossa vida é mais tranquila, e depois de 1 ano aqui, construímos nossa pequena piscina. foi aqui que você começou a aprender a nadar, ensinado pelo seu pai <3

ao mudarmos, decidimos começar uma terapia de família, para aprender como ajudá-lo a se aproximar de outras crianças, que é ainda uma questão pra você. foi quando encontramos a Mariana, que vem nos ajudando a ajudar você (lembre que seus pais não tinham amigos com crianças, nem primos, nem vizinhos com crianças… nós isolamos você num mundo de adultos!). fomos aos poucos aprendendo o que você precisa para se relacionar melhor, o que nos levou a mais uma mudança… sua escola não estava ajudando em nada nos pontos em que você precisava. apesar de legais, suas professoras não tinham condições de ajudar você por falta de apoio da escola.

você, meu querido, aqui nesta fotografia dos seus 7 anos, tem dificuldade de se relacionar com crianças da sua idade. negociar seu espaço, e seus desejos, e ser flexível para os desejos dos outros é difícil pra você. e por isso é tão importante neste momento da sua vida ter apoio não só nosso, como seus pais, mas da terapia e especialmente da escola, onde as suas relações sociais acontecem. sua escola precisa ajudar você, e a nós também como pais, a integrá-lo com as crianças.

estamos neste momento procurando uma nova escola pra você, que possa nos apoiar a iniciar essa nova fase da sua vida. você nunca teve dificuldade na parte cognitiva, muito pelo contrário, sempre foi um menino muito inteligente, curioso, aprende rápido e muitas vezes sozinho. mas a socialização é também parte do aprendizado dessa fase, e estamos buscando essa ajuda numa nova escola.

seu relacionamento com as pessoas melhorou conforme você cresceu, e tenho certeza que vai melhorar mais e mais. você é um menino inteligente, carinhoso, divertido. escreve histórias, faz desenhos muito legais e cheios de movimentos e ação. você ama lego, e jogos de resolver problemas. adora filmes (voltou a amar o wall-e, mas nos últimos 2 anos sua paixão eram os filmes de lego — batman, ninjago, e todos os heróis dessas franquias), adora música, e continua comendo bem, embora agora cheio de vontades (“eu não gosto mais de beterraba”; “agora eu gosto de pepino de novo”). nunca sei como vai estar seu gosto naquela refeição, mas uma coisa não mudou: o amor pelo macarrão e pela comida japonesa 🙂

você tem dormido melhor, mas ainda nos chama às vezes à noite. e quer companhia na hora de dormir. por enquanto, continuamos dando o que você pede. não é fácil, mas pra nós é também gostoso estar pertinho de você nessa hora tão divertida, no final do dia, quando você faz as perguntas mais malucas. e parece entrar num estado de devaneio filosófico, fazendo perguntas sobre o sentido da vida.

inclusive aproveito e te conto que acho que a vida não tem sentido, viu, otto? não é hora de dizer isso pra você assim, na lata, mas de forma indireta tentamos mostrar exatamente isso pra você: o que existe é o agora, este instante. e por mais que nos preocupemos, como quaisquer pais, e façamos vários esforços no sentido de prepará-lo para a vida da melhor forma, estamos aqui e agora amando os momentos que temos. estamos oferecendo o que podemos neste instante, e torcendo muito pra que tudo que podemos oferecer seja suficiente para que você seja independente e, eventualmente, feliz.

amamos você mais que tudo, meu querido. a vida é boa, e você também.

um beijo da mamãe.