porque sofro por você

achava que o medo melhorava com o tempo (melhora), mas descobri que ele só muda, se disfarça. fica ali à espreita, basta uma brecha e ZÁZ, cá estou me forçando a limpar a mente, foco no HOJE, AGORA.

o medo é assassino da mente. o medo é a pequena morte que traz total obliteração. enfrentarei meus medos, permitirei que passem sobre mim e através de mim, e quando tiverem passado farei com que o olho interior enxergue seu caminho, onde o medo esteve não restará nada. somente eu permanecerei. (litania contra o medo)

fizemos seu primeiro exame de sangue depois do período de UTI neonatal (você odiou, claro), e agora TUDO passa pela minha cabeça. será que está tudo bem? são tantas as histórias horríveis de crianças doentes que eu tenho que me esforçar pra não pensar, não projetar, não sofrer.

você não tem se mostrado uma criança sociável, o que para os padrões da nossa sociedade é um problema grande. não tem amigos, não dá bola pra nenhuma criança. fala pouco, só quando tem mesmo alguma coisa importante pra dizer. as pessoas comentam, cobram, acham diferente, e eu sofro. não só porque seu jeito não se adequa à expectativa dos outros, mas porque sei que o mundo privilegia os extrovertidos, que você pode ser visto como antisocial ou esquisito para o resto da vida.

como lidar com o mundo, com a expectativa, com o desconhecido, o acaso, o incontrolável?

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não sei. tento não me ocupar do que não está no meu controle, tento deixar para pensar e resolver coisas quando elas aparecem. mas o medo, ah.

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quero ajudar você a navegar nesse mundo. somos muitos diferentes, e talvez minha angústia seja a de não poder compartilhar com você minhas ferramentas, minha história — talvez nada do que serviu pra mim sirva pra você.

vou precisar aprender a navegar de outro jeito, ver o mundo com seus olhos, aprender novas formas de viver, pra poder ensinar pra você. aprender junto.

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mas o medo. ai.

mudar é preciso

e não temos (muito) medo de mudar. então lá vem outra…

mas antes, um pouco de contexto: pra quem me acompanha desde o começo, sabe que a escolha da escola do Otto foi um processo — a gente pesquisou, pensou, avaliou, e acabamos decidindo pela pedagogia Waldorf. os principais motivos foram (1) alimentação orgânica / natural (não servem nada industrializado nem com açúcar, os lanches são todos fruta, castanha ou cereal); (2) contato com a natureza (quintal grande, atividades direto na terra e com plantas); (3) acolhimento da criança sem o ambiente “escolar”, o grande foco é no brincar — não existe AULA, mas atividades lúdicas direcionadas, procurando imitar o ambiente familiar com a professora fazendo as vezes de “mãe” arquetípica.

nos encantamos tanto com a pedagogia que nos dispusemos, junto com outras 7 famílias, a criar uma associação Waldorf para nossas crianças, gerenciada por nós, o Espaço Livre EcoAra. a gestão associativa, com total participação dos pais e professores, é a base da pedagogia, e é uma experiência muito profunda. participar de forma ativa da criação e gestão do espaço no qual nossos filhos vivenciam os primeiros anos escolares é transformador. desde a valorização do trabalho que exige a criação e manutenção de uma escola até o senso de pertencimento e envolvimento, toda a vivência nos torna pessoas mais atentas, melhores, mais dedicadas. além disso tudo, ainda é possível conhecer pessoas do bem — mesmo com os inúmeros conflitos que são inevitáveis ao convívio em grupo, a gente percebe que ninguém erra por maldade, mas porque fazer coisas em grupo é complexo, e o ser humano é difícil.

foram 2 anos muito importantes pra nós, e estou certa que foram também pro Otto. sempre achamos que a pedagogia Waldorf seria muito boa pra ele até os 6 ou 7 anos, quando ainda não iniciam as atividades de alfabetização.

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ainda assim decidimos abandonar a pedagogia Waldorf para o Otto antes de completados os 7 anos. continuamos voluntários da associação, do Espaço EcoAra, e faremos tudo que for possível para que eles se mantenham e continuem esse projeto tão bonito.

o nosso motivo é basicamente um: quanto mais tivemos contato com a antroposofia, menos gostamos dela. fiz várias tentativas de ler textos, “artigos” e também alguns livros, e a cada tentativa minha frustração e incômodo se intensificavam. esta filosofia se diz científica, e tem um discurso pseudo científico que chega a enganar quem quer ser enganado, mas para quem realmente gosta de ciência e entende o método científico, não dá. eles acreditam em karma, alma, reencarnação, além de jesus como filho de deus, santos, anjos e mais uma lista enorme de coisas absolutamente fictícias (desculpa, pessoal crente. é ficção, até que seja provado). é uma mistura sem fim de dogmas e crenças, porém muito disfarçados de ciência, o que me incomodou ainda mais.

steiner é arcaico. pode ter sido uma figura importante e brilhante no seu tempo, mas ficou ultrapassado em vários sentidos, e não vejo na filosofia uma abertura à diversidade real, ao debate, o incentivo ao pensamento científico. as diretrizes da pedagogia, por exemplo, são extremamente rígidas e o espaço para o debate não existe. os princípios da pedagogia Waldorf têm 1 século e jamais foram revistos, atualizados, modernizados à luz de tantas vertentes pedagógicas novas — como pode? Steiner podia ser um homem inteligente, mas a humanidade continuou a evoluir, e a pedagogia está parada no tempo, cristalizada, obedecendo aos princípios que ele postulou.

não nos sentimos incluídos, nossas dúvidas (colocadas para várias pessoas “seguidoras” da antroposofia) jamais foram acolhidas, muito pelo contrário — nos sentimos mal por questionar, e isso nunca é bom para pessoas como nós, que acreditam que perguntas e questionamentos são a base da evolução, da ciência, do desenvolvimento. como submeter nosso filho a uma pedagogia que se baseia em princípios que sabemos ser fictícios? qual será o espaço que ele terá, depois dos 7 primeiros anos de brincar, para questionar e discordar?

tenho certeza que alguém do meio antroposófico vai dizer que nossa experiência não representa o todo, que a antroposofia é baseada na liberdade do indivíduo, mas não se engane: não é. o indivíduo que refuta a existência de deus e do espírito não tem espaço na antroposofia. concluímos, com certo pesar, que a antroposofia, a pedagogia Waldorf e todos os que de alguma forma entraram em conflito conosco a esse respeito não estavam errados — eles estão alinhados entre si, e coerentes. nós é que precisávamos mudar (ou aceitamos, ou saímos), e a decisão foi tomada. talvez existam educadores brilhantes o suficiente na pedagogia Waldorf que tenham condições de lidar com a diversidade de pensamento, e a clareza de admitir que a antroposofia é mais uma vertente espiritual, sem impor isso a seus alunos de forma indireta e subliminar (o que pra mim é pior do que uma escola declaradamente católica, por exemplo, ou judia). mas não vou confiar a educação científica* do meu filho a professores que (frequentemente) são parte da ficção espiritual de forma tão engajada.

(*) uma pausa para esse assunto: não temos nada contra crenças individuais (tudo contra religião. mas esse é assunto pra outro post) e fé seja no que for. mas estamos convictos que fé e crença devem ser ensinadas SOMENTE dentro do contexto familiar. à escola cabe o ensino das normas, do convívio, dos princípios da vida em sociedade, da ciência. não quero nenhum professor repassando ao meu filho suas crenças em seres imaginários, em especial quando isso é feito de forma indireta e muito frequentemente inconsciente.

mas voltando: depois da exposição às crenças antroposóficas / Waldorf, não ficamos felizes com as possibilidades do ensino neste método a partir dos 7 anos. até os 6 anos seria tudo ótimo, pois eles basicamente brincam e interagem entre si através das atividades dirigidas de artes, música, brincadeiras. poderíamos deixá-lo na Waldorf até os 6 anos pelo menos, mas aí entra uma característica do Otto: ele é um menino introvertido, que demora muito a se familiarizar com as pessoas e ambientes. após 4 anos na Waldorf com a mesma turma, ele seria transicionado para uma escola comum, no sistema de ensino tradicional (o que por si já seria um choque) e além de tudo começando a alfabetização, que é também uma mudança importante.

para evitar um choque tão abrupto, decidimos mudá-lo de escola neste ano, e deixá-lo se adaptar ainda no jardim, antes de iniciar a alfabetização.

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bom, não foi fácil a decisão. o sistema tradicional de ensino exige da criança uma maturidade que ela nem sempre tem, e isso é doído. o otto por exemplo tem interesse pelas letras e números, formas geométricas, já sabia desde 2 anos, então essa parte não nos preocupa. mas ele não é uma criança independente e extrovertida — não se veste sozinho, nem escova os dentes (direito, né. de qualquer jeito ele faz), lava as mãos, cuida das próprias coisas. muito dessa dependência é culpa nossa, claro, porque temos preguiça de deixar ele fazer (demora; tem que refazer) e fazemos por ele. agora ele está sendo pressionado a ter uma independência que não tem ainda, e confesso que tem sido difícil pra mim (talvez mais que pra ele).

ele agora vai para uma escola de curriculum internacional, em inglês, das 7:20 às 15:15h. almoça e toma lanche na escola, convive com crianças de várias nacionalidades, tudo em inglês e português. há alguns meses ele começou a se interessar muito pelo inglês por causa do desenho dora aventureira, então quando decidimos por esta escola ele ficou super feliz.

ele começou há 1 semana, e não precisamos buscá-lo mais cedo nenhum dia (ou seja, ficou sem chorar e sem reclamar muito), está comendo bem e quando perguntamos sobre a escola ele diz que está gostando. tem chegado feliz, dorme bem, está no geral ótimo, o que nos surpreendeu muito, pra ser sincera. achamos que a mudança seria sentida, que choraria, reclamaria, e ele está lidando muito melhor do que nós 🙂

fizemos nossa 1a reunião com as professoras no final da 1a semana, e elas disseram que ele está bem, não estranhou, mas notaram a falta de independência dele comparado às outras crianças. a culpa é toda nossa, e agora precisamos ajudá-lo a ser mais independente para se adaptar melhor. aparentemente ser tudo em inglês não incomodou ele de forma alguma — não reclamou, e uma das professoras comentou que ele “fala inglês” (rimos muito; ele se vira bem, aparentemente). vamos ver como segue. na 1a segunda-feira depois da 1a semana de aula ele chorou quando percebeu que ia pra escola — queria ficar mais em casa (eu também. nós todos também. como dar essa notícia pra ele?)

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assim como foi no começo, quando ele foi à escola pela 1a vez, percebo o quanto a tarefa de fabricar humanos é difícil e muitas vezes dolorida — todas as feridas, esquecidas há tanto tempo, abrem e voltam com força total. nestes dias de ansiedade e apreensão por ele, sinto falta da minha mãe. revivo memórias construídas (sempre amei a escola, mas como será que era levantar de manhã e sair de casa? nunca foi fácil na vida adulta, deve ter sido difícil quanto pequena também), tento ser pra ele uma mãe tão presente e carinhosa nessa hora da partida do ninho quanto minha mãe o foi (ser acordada pela minha mãe e tomar café da manhã é das lembranças mais lindas que tenho da infância). eu o acordo com todo carinho, visto sua roupa (ainda não consigo deixá-lo vestir, porque teria que acordar MUITO mais cedo), sento para tomar café da manhã junto. na volta, pergunto da escola, e tento mostrar que é um lugar (e uma experiência) super legal. ele nunca fala muito, mas diz que gosta, e eu tento acreditar.

anseio pelo dia em que ele faça amigos, e se interesse também pelo mundo dos outros, não somente o nosso, da nossa casa e nossa família. quero que ele navegue, tenha coragem, e sinta felicidade também em partir, não só em retornar.

enquanto isso, meu coração de mãe cabe num dedal.

</3

gênio pra quê?

Pensei tanto nessa notícia — a primeira reação é achar incrível, UAU, que máximo. Mas logo depois pensei: e quando essa criança brinca e socializa? Qual a vantagem de ler tantos livros e não dividir com ninguém? Pra quê contar até 200?

Li em algum lugar a respeito de crianças-gênio que chegam à vida adulta e se tornam simplesmente adultos acima da média, e não transformaram sua capacidade excepcional em nada significativo. E pior — tem problemas sociais.

Por que valorizamos tanto estes marcos e métricas individuais (ler, contar, quantos livros) e tão pouco as habilidades sociais e criativas?

jardim da infância, ano 1

já faz 1 ano que o otto começou na escola, nem acredito. pra nós ainda é tudo novidade, e nem sempre ir e ficar lá são tranquilos, mas tenho certeza que essa atividade é importante pra ele.

hoje fomos à reunião periódica com a professora da turma, e foi muito legal aprender um pouco como sobre ele se comporta quando não estamos junto. algumas coisas são exatamente iguais — a tendência de observar muito antes de tentar qualquer atividade, preferência por brincadeiras com poucas crianças e sem muito barulho, a tranquilidade e educação ao falar com as pessoas e explicar o que quer e não quer, todo o jeitão analítico bem caraterístico dele.

mas nos surpreendemos com coisas que ele só faz na escola, como por exemplo perguntar se pode levantar da mesa, se pode começar a comer, se pode pegar coisas que não são dele (nunca fez isso em casa, quem me dera!). soubemos que ele gosta de contar histórias para os amiguinhos, mas que conta com suspense, entonação, do início até o fim, perfeitamente, ao ponto de causar espanto. e que uma das brincadeiras que ele mais gosta é cuidar das bonecas e dos amigos menores, com a maior atenção. nunca imaginamos!

a professora fez piada chamando ele de “pequeno imperador”, dizendo que ele sabe muito bem o que quer e o que não quer, e expressa isso verbalmente sem o menor problema. e que DIRIGE os outros, inclusive os adultos, pra fazer as coisas do jeito dele. a minha irmã diz que o menino já nasceu gerente, e ela tem toda razão 🙂

mas a coisa que mais gostamos de ouvir é que ele brinca e se diverte com as demais crianças em atividades conjuntas, diferente do que achávamos (ele nos parece sempre muito isolado quando encontramos com outras crianças). só que não é qualquer criança — ele gosta de algumas (sempre as mais calmas), e simplesmente sai da brincadeira quando começa a virar muvuca.

e, claro, o apetite incansável e disposição para experimentar comidas e bebidas novas é sempre assunto. disseram que atualmente o problema das crianças no almoço é a famigerada beterraba, que todos querem trocar por outra coisa. menos o otto, claro, que além de comer tudo ainda faz questão de afirmar na mesa “eu ADORO beterraba!”

<3

diário do otto: 2 anos e 3 meses

otto,

tem sido mais difícil pra mim escrever mês a mês, porque agora tudo se mistura e já não lembro mais direito exatamente o que pertence a este mês. você nos surpreende diariamente com tiradas engraçadas, frases cada vez mais complexas e ideias curiosas vindas 100% da sua cabecinha 😀

todo dia tenho coisinhas novas pra contar sobre você. desconfio que essa sua fase de criança deve ser uma das mais divertidas. essa semana você cismou que se fala OTTO-borogodó (e morre de rir quando repete isso). também conheceu um amigo da mamãe que se chama hugo, como seu monstrinho de pano preferido, e ficou muito espantado com o nome, e repetia com olhos arregalados “ele chama HUGO, mamãe!”.

e você fala tão direitinho que dá gosto. “abre a rede pra eu balançar, vovó?” e 30seg depois “abre pra mim, vovó!”. (mas o ÍBULON eu não consigo corrigir, porque é fofo demais <3).

na escola está tudo bem, você gosta muito de ir e pergunta das tias e dos amigos E AMIGAS (aparentemente você não gostou dessa história de gênero masculino ser neutro no coletivo), embora às vezes fique grudento na hora de eu ir embora. na maior parte das vezes você fica bem, e até fala “TRABALHA, mamãe!”, me mandando embora 🙂 e você foi mordido pela 1a (e 2a…) vez na escola, o que nos deixou muito chateados, mas passou.

uma coisa que nos deixa muito felizes é que você é um menino carinhoso, que gosta de beijar, abraçar e ficar juntinho. nós adoramos! e por mais que eu reclame de ter que fazer você dormir todo dia (1 hora, 1 hora e meia…) e dormir com você na cama com muita frequência, tenho certeza que vou sentir falta quando você ficar independente e dormir na sua caminha. é gostoso abraçar você ou mesmo me ajeitar quando você resolve dormir EM CIMA de mim. o contato físico é uma das coisas que mais tenho gostado dessa história toda de ser mãe.

no geral você é uma criança educada, tranquila, obediente e muito divertida. não é montagem minha nas fotos — você está sorrindo sempre, fazendo graça e conversando com a gente. uma delícia de menino, que nos faz muito felizes!

sua alimentação agora é praticamente igual à nossa, que no geral é mesmo muito saudável. comemos em casa durante a semana, comida toda preparada aqui mesmo. muitos legumes, verduras, frutas, carne vermelha e branca, queijos, ovos (muitos ovos!) e peixes. nos fins de semana saímos para almoçar geralmente no domingo, e você se diverte bastante. já aprendeu a pedir comida pro garçom e não se faz de rogado: “moço, qué papá! uma shalada e batata fita!”. juro, é isso que você sempre pede. de vez em quando pede também carninha  ou farofa.

o sono mudou — você dorme agora a noite toda, mas nem sempre na sua cama. cansamos do esquema de fazer você dormir na sua cama, fazemos dormir na nossa cama, levamos pra sua e quando você acorda vem dormir comigo. seu pai foi expulso pro quarto de hóspedes, coitado. esperamos que essa fase não dure muito, mas francamente aceitamos qualquer arranjo que nos deixe finalmente dormir depois de 2 anos insones…

uma coisa que nos chama bastante a atenção é como você desenvolveu bastante nesse último mês a percepção sobre o funcionamento das coisas. aprendeu a abrir e fechar torneira, a embalagem de pomada (e agora alcança o interruptor, SOCORRO). entende o funcionamento das torneiras de água quente e fria (e identifica pelas letras…), diferencia esquerda e direita, entre muitas outras coisas. dia desses você pegou o garfo e falou “mindinho, seu vizinho, pai de todos, fura-bolo… (pausa) ele não tem mata-piolho!” 🙂

essa semana você teve estomatite pela primeira vez, algumas aftas apareceram na boca e você reclamou que “a língua incomoda, mamãe!”. seu pediatra avisou que podia ser vírus, e hoje você empipocou… mas fora isso, sua saúde é de ferro! fora o nariz meio travado quando muda o tempo (herança dos seus pais alérgicos), tudo muito bem.

uma coisa linda que aconteceu esse mês é que você começou a pedir pra que eu conte histórias sobre as pessoas. começou pedindo “conta a história do tio weno e da tia mawá po otto dumí?” e eu contei, claro. conto do meu jeito, com foco nas coisas que você conhece e talvez lembre…

“era uma vez o tio weno e a tia mawá que viraram palhaços! eles chamam frederico e cremilda, e quando se conheceram se adoraram tanto tanto que começaram a namorar…”

e você faz perguntas, e repete partes da história, é uma graça. até que essa semana você pediu “mamãe, conta a história do papai, da mamãe e do otto?” e seu pai (e eu também, ok) ficou todo emocionado.

agora a mamãe conta a nossa história toda noite no escuro antes de dormir, pra que um dia você se pergunte de onde vêm essas lembranças de antes de nascer, e de tão pequeno… e vou te contar, já bem maior, que grande parte das nossas lembranças de infância são memórias re-construídas, por mamães tagarelas e inventivas como eu.

nossos dias têm sido deliciosos, cheios de conversas e surpresas, pequenas coisas boas acontecendo todos os dias. e muito cansativos também, não vou mentir. trabalhar o dia todo + educar e brincar com você é bastante coisa pra uma mamãe quarentona só.

aqui estão as muitas fotos que tenho de você com 2 anos e 3 meses. cada dia mais lindo, e ainda loirão! achamos que você vai ter o cabelo do seu tio kito, que é castanho claro e fica loiro quando cresce.

um beijo cheio de amor da sua “mamãe zel” (e do “papai fer” também :)).

a primeira mordida

o otto começou a frequentar a escola em meados de setembro deste ano e todo um novo mundo de possibilidades e coisas inesperadas se abriu pra nós. desde a escolha da escola até a socialização com outros pais, passando pelo contato com as professoras dele e a iniciação ao mundo das outras-crianças-sem-educação.

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abre parêntese: sim, as outras, porque as nossas crianças são sempre educadas e maravilhosas, certo? 🙂

ironia à parte, o otto é um menino muito tranquilo e educado no geral. não sei até que ponto o bom comportamento é consequência da educação que tentamos dar pra ele ou simplesmente parte da personalidade, mas fato é que ele não dá trabalho e é muito tranquilo. não é daquelas crianças que gritam, correm, pulam em cima das coisas e pessoas, desobedece os pais, bate em outras crianças. ok, com alguma frequência ele TENTA fazer essas coisas, mas nós sempre corrigimos na hora e o problema acaba aí.

como toda criança, o otto logicamente teve episódios de gritão, chiliquento, mordedor, jogou coisas no chão, e ele enfrenta a gente sempre, periodicamente (que bom!), mas todos os comportamentos que não achamos “socialmente aceitáveis”, corrigimos na hora.

consideramos inaceitável: morder, bater, gritar (qualquer contexto. gritar é irritante), jogar coisas, sair correndo, subir em móveis, pegar objetos que são “proibidos”, não atender quando chamamos, não parar quando mandamos parar. certamente a lista vai aumentar quando ele crescer, mas por enquanto é isso aí.

e como fazemos? simplesmente não aceitamos que ele faça nenhuma dessas coisas sem consequências. quando ele faz, falamos com ele num tom bem bravo (mas sem gritar, que assusta e aí perde o foco), olho no olho, e explicamos que não pode, que não queremos que ele faça X ou Y. quando a questão é física (bater, subir em móveis, pegar coisas que não pode, etc.), além de explicar também seguramos/tiramos dele. sempre damos a opção dele largar ou parar sozinho, antes de segurar/tirar. a maior parte das vezes funciona, e ele prefere “fazer a coisa certa” por conta dele, ao invés de se submeter fisicamente.

sim, algumas vezes ele chora quando damos bronca nele. chora porque tem medo dos pais falando mais “bravos” com ele (e ainda estamos dosando a forma de falar, porque mesmo sem gritar, quando mudamos o tom de voz ele fica com medo), e chora simplesmente porque está frustrado por não conseguir fazer o que quer, do jeito que quer. mas muitas vezes ele já se manifesta verbalmente, e diz que está bravo ou triste, diz que queria fazer as coisas de outro jeito.

oras, é direito dele querer algo diferente do que consideramos aceitável, e procuramos respeitá-lo e acolhê-lo na frustração e tristeza, mas essas coisas continuam sendo não-não. e ponto final.

esse processo é chato, desgastante, cansativo. e dói em nós também, porque nada é mais incômodo do que seu filho triste, bravo, chorando. minto, tem uma coisa mais incômoda: pensar que seu filho pode se tornar um sem noção, mal-educado, que outras pessoas podem não gostar dele por esses motivos. e para que ele se torne uma pessoa que respeita regras de convívio minimamente que ensinamos que há coisas que não se pode fazer, pois machucam e/ou incomodam as outras pessoas.

se no futuro ele deliberadamente quiser ser inconveniente ou agressivo, saberá que há consequências, e terá de lidar com elas. hoje, o referencial dele somos nós, e nós não toleramos gritaria, correria, birra e agressão.

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fechei o parêntese — pois quando confrontados com o maravilhoso mundo da escola, o mundo real, descobrimos que nem todos os pais são como nós. mais especificamente, descobrimos que há pais que acham que impor limites aos seus filhos é um problema, e atribuem todo tipo de comportamento inadequado e inconveniente à idade, fase, gênero (sim, senhores e senhoras), signo. o motivo nunca é “nós não impomos limites de forma clara”, lógico.

na semana em que o otto entrou na escola, entrou também um menino que agredia as demais crianças. ele bate, morde, puxa cabelo. e o otto não ficou impune: nos primeiros dias levou tapas, e há poucos dias foi mordido 2 vezes (no braço numa semana, na perna na outra).

o fer, que é aquele tipo de paizão superprotetor assumido, ficou uma fera na 1a ocorrência, já queria matar alguém. foi explicado que o menino e a família “estão passando por uma fase complicada…” e que eles estariam mais atentos, e corrigindo o menino durante o período de aula, com uma professora adicional. a correção significa segurar as mãos/o menino e dizer que a mão não pode bater, que a boca não pode morder, lavar a mão com lavanda (…), toda uma abordagem bem suave. e estou de acordo com a abordagem da escola ser assim, especialmente (negrito, maestro zezinho!) porque a responsabilidade de educar e corrigir a criança é dos pais, e não da escola.

mas a escola precisa, sim, garantir que meu filho (e as demais crianças) não serão atacados pelo garoto-pitbull. seja lá qual for a fase (da criança ou da lua) que causa o problema, é preciso proteger as demais crianças de agressões, caramba. e é isso que exigimos, e fomos ouvidos, felizmente.

o que me preocupa é o excesso de explicações e justificativas para comportamentos inaceitáveis (ponto final. seja lá qual for a causa, a ação deve ser reprimida e corrigida), como se devêssemos aliviar ou permitir tais comportamentos porque existe uma causa. ora, trabalhem então nas causas e enquanto isso (mais um negrito, por favor?) ensinem a criança que não pode, não pode, não pode.

alguns amigos bem-intencionados sugeriram ensinar ao otto ficar longe do menino, impedir ou até revidar a agressão. eu certamente vou ensinar o otto a se defender, acho essencial, porém também acho que é muito cedo. ele simplesmente não entende agressão, e menos ainda a intenção de agressão. ele precisa estar um pouco maior pra que possamos explicar o que significa “se defender” em oposição a “atacar”. além disso, a agressão sempre acontece quando não estamos perto, não temos como usar a situação para ensinar. como vou, em casa, horas depois do ocorrido, apelar pra memória dele e ensinar a partir de algo que aconteceu muitas horas atrás? “olha, otto, lembra que fulaninho te mordeu? então, faz assim: na próxima vez que fulaninho chegar perto de você, saia correndo!”. sério que alguém acha que isso funciona?

percebi também que os bem-intencionados que arranjaram desculpas pro menino morder, e disseram que “criança é assim mesmo”, ou que é “da fase” são aqueles cujos filhos/sobrinhos/X são os agressores. é o cúmulo da racionalização. vamos falar às claras: morder e agredir NÃO PODE. não importa sua idade, seu signo, nem a fase da lua. não pode, e é obrigação dos pais ensinar que não pode e impedir que aconteça (exceções são OK; agressão como parte do comportamento normal, não pode), usando seja lá qual método quiser, desde que funcione. dê banho de pipoca, coloque no castigo, fale até a orelha da criança cair (nosso caso), vire-se. seu filho, seu problema.

além disso, parece que ensinar o otto a se defender ou se afastar é OK; ensinar o menino a não morder não dá, porque “é da fase”. olha… me poupem.

sei que aprendi muito com esse episódio. sobre a natureza humana, sobre educação de crianças, sobre o papel da escola e sobre mim mesma. porque sou do tipo de mãe que deixa a criança chafurdar na lama, e creio mesmo que brigas de crianças devem ser resolvidas por elas mesmas. morder, bater, cair, fazem parte da infância. mas quando é a mesma criança que continuamente agride o meu bebê, que é tão bonzinho, vou dizer: dá vontade mesmo é de socar. o pitbull, os pais do pitbull e as professoras que não ficaram atentas.

mas passa, e estou contente com o desenrolar da história. próximo passo: ensinar o otto a usar um taco de baseball*.

(*) JUST KIDDING 😀