4o ano, com pandemia e tudo

Hoje Otto voltou pra aula, inaugurou no 4o ano ❤️

Tudo remoto, porém agora a maior parte das aulas no modo síncrono.

Surpreendentemente ele não causou, e não reclamou. Parece tudo bem, mas vamos ver até o final da semana.

Já o Fernando ganhou algumas dezenas
de cabelos brancos novos e em breve submeterá um artigo científico sobre um método inovador de criação de vacina contra COVID que permitirá devolver as crianças à escola mais rápido 藍

Perguntas são sempre boas

Essa semana vi um post em algum lugar sobre reprimir crianças que têm questões sobre o gênero das pessoas (se é homem ou mulher). A sugestão era dizer pra criança que isso não é da conta dela, ou que não importa.

De fato, o gênero de alguém não é da conta de ninguém, e a pessoa tem direito de não falar sobre isso. Mas isso não quer dizer que a pergunta não importa e nem que a criança não tem direito de fazê-la.

Primeiro: o gênero das pessoas importa, sim, e muito, na nossa sociedade. Somos cercados por todos os lados de regras e privilégios de gênero, desde de antes do nascimento. Tem cor, roupa, jogo, brinquedo separado por gênero. Festa de revelação de gênero. Há uma celebração dos gêneros binários, um Fla-Flu mesmo. Você pertence ao TIME quando nasce. Conforme a criança cresce, e esses conceitos vão se cristalizando graças a toda informação constantemente bombardeada, a criança quer de encaixar. Nosso cérebro é feito pra julgar e categorizar, e sendo dadas somente 2 opções, é assim que a criança entende o mundo.

Quantos de nós temos no convívio, na mídia, nas histórias, da família, pessoas não binárias, e falamos sobre isso, para que a criança aprenda a respeito?

Na sociedade em que vivemos, é absolutamente esperado que uma criança identifique 2 gêneros.

E aí vem a segunda parte — como a criança vai aprender a respeito se não puder perguntar quando se depara com o diferente? As crianças são curiosas e aprendem explorando, observando, perguntando, testando hipóteses. Como os cientistas. Como todos nós devíamos fazer, aliás, ao invés de julgar e parar de perguntar.

Quando uma criança tem dúvida sobre o gênero de alguém, é porque ela percebeu uma ambiguidade que causou curiosidade. Alimentar a curiosidade e explorar o assunto é uma ótima forma de aprender e ensinar. E pra isso não é preciso causar constrangimento a ninguém — basta conversar com a criança como se conversa sobre qualquer assunto, e mostrar que a realidade é mais complexa que os 2 gêneros predominantes.

O mesmo vale pra sexualidade, a orientação sexual — as perguntas são bem vindas! Elas ajudam a abrir horizontes. Deixem as crianças perguntar, e vamos responder ensinando sobre o mundo.

Otto já perguntou para uma amiga se ela era menino ou menina. Ela foi ótima, e com toda tranquilidade devolveu a pergunta pra ele — “o que você acha?” e ele elaborou a dúvida, a ambiguidade. Ela disse que era menina, mas que ele não era o primeiro a ter essa dúvida por causa de alguns fatores. Foi uma conversa fácil, rápida, tranquila. Ela podia também ter respondido que não se sentia confortável falando sobre isso, e ele aprenderia que isso é uma resposta aceitável.

Crianças têm curiosidade sobre gênero, faz parte da construção do gênero deles também. E é responsabilidade de todos nós educar nossas crianças, ajudá-las a entender o mundo.

Me parece absurdo (e contraproducente socialmente) ensinar uma criança que certas coisas não se perguntam, que algumas dúvidas não são válidas. Todas as perguntas são válidas, todas as dúvidas são válidas. O que pode acontecer é que algumas perguntas causam desconforto social, e temos que aprender a lidar com isso também. O jeito de lidar é dialogando.

Otto fez um comentário (só um mesmo, até hoje!) sobre a aparência de uma pessoa (pra mim, não pra pessoa). Expliquei pra ele que todos têm direito a ter opinião, mas que comentar sobre a aparência física de alguém não é adequado, porque é uma opinião não solicitada. E que julgar as pessoas pela aparência não faz sentido, afinal isso não diz nada sobre ninguém.

Como podemos ensinar uma criança (e aprender nós mesmos) sem nos permitir tentar, e às vezes errar?

Da minha parte me comprometo a sempre levar de forma positiva qualquer pergunta que alguma criança me fizer, mesmo que me incomode. E sempre incentivarei meu filho a fazer perguntas e investigar respostas. Ensinando a considerar os sentimentos das pessoas no caminho, claro.

10 anos. Uma década, em meio à pandemia

A parte ruim de fazer o aniversário de 10 anos do menino 100% virtual: não poder abraçar ninguém 😭

A parte boa de fazer a festa 100% virtual: em 20min a casa tava limpa e arrumada e a louça toda lavando na máquina 😁

Fizemos a live mais louca do mundo, com 2 grupos de chat, nave-mãe comandada pelo Vinicius com direito a filmes de transição para cada planeta, conexões da TARDIS com os planetas e satélites do sistema solar e parabéns  virtual.

Teve gente fantasiada, teve brigadeiro que deu errado, teve coxinha do tamanho de um elefante bebê, teve menino vestido de Dr Who 12a temporada (o mais velho, lógico 🤣) e teve muito amor que chega de qualquer forma até a gente.

Muito obrigada pelos votos, pelo carinho com o Otto e conosco. Vamos juntos nessa viagem bem louca, e nos divertindo e brincando, senão ninguém segura esse rojão.

(Atenção à gambiarra pra se conectar no meio da sala 🤣)

❤️💜🌈

10 anos

Construindo

Maria me liga pra falar com o Otto e ele mui educadamente (só que não) avisa pra ela que “tá muito ocupado construindo e não pode falar”. Consegui roubar uns 30seg dele, e depois fiquei conversando e contando as novidades.

Fui pro outro quarto e falávamos da escola, e contei que ATÉ O OTTO tava querendo voltar pra escola (Maria acompanhou a saga toda in loco por 8 anos né), e o menino grita lá do outro quarto:

“Pra você ver que o NÍVEL DE CHATICE tá tão alto que até eu quero voltar pra escola!”

🤣🤣🤣🤣

Maria: “não mudou nada, ele, né?”

😬

Receitinha

Otto é super metódico com a comida, apesar de comer bem e coisas muito boas. Peixe, por exemplo, não é todo tipo que ele gosta (eu idem, não posso nem reclamar) — ama salmão, cru ou grelhado, e filé de peixe frito empanado. O resto que lute 🤣

Hoje o que tinha era bacalhau fresco, que fiz no forno em papelote (envolto no papel alumínio) com cebola, salsinha, azeite, cogumelos fatiados, sal e limão, e coloco shoyu só na finalização.

Bacalhau é delicioso, mas tem uma textura mais fibrosa, fiquei tensa, mas arrisquei. O bacalhau salgado ele não gosta de jeito nenhum (amo).

Mas gente — não só comeu como pediu mais, o que é uma raridade, ele costuma comer o que tem no prato e só. Amou o cogumelo, comeu tudo, repetiu e elogiou.

Se tem coisa mais gostosa que filho comendo e elogiando a comida da gente, não conheço ❤️

Assinado: mãe italiana 🤣

Aulas na pandemia

Nos foi dada a opção de escolher, na escola do Otto, e decidimos manter a educação à distância pelos próximos 3 meses e depois reavaliar.

Além do medo de adoecermos sozinhos e longe da nossa família (temos amigos maravilhosos aqui que sabemos que podemos contar, mas não é a mesma coisa né?), achamos impossível o Otto seguir as diretrizes de distanciamento social com as professoras, usar máscara e principalmente conseguir seguir tudo isso no almoço na escola.

Vai ser puxadíssimo pro Fernando que tá assumindo a enorme responsabilidade de ser tutor do menino, mas é a única opção que faz sentido pra nós nesse momento. Muita maracujina 🤣

A boa notícia é que o ensino à distância da escola é bem estruturado e a equipe pedagógica é espetacular. As professoras dele nos ajudaram a tomar a decisão e concordam conosco, o que é fundamental.

Força pra todos nós com crianças na escola nesse momento, e força dupla pra quem não tem pelo menos um dos pais que pode assumir essa bucha.

Um dos deuses mais lindos

Sincronicidade, ou sinapses muito loucas: o trecho é roubado da Daniela, e ressoou aqui por outro motivo, mas que é o mesmo, como vocês talvez vejam.

“Como não tive filhos, a coisa mais importante que me aconteceu na vida foram os meus mortos, e com isso me refiro à morte dos meus entes queridos. Talvez você ache isso lúgubre, mórbido. Eu não vejo assim. Muito pelo contrário: para mim é uma coisa tão lógica, tão natural, tão certa. Apenas nos nascimentos e nas mortes é que saímos do tempo. A Terra detém sua rotação e as trivialidades em que desperdiçamos as horas caem no chão feito purpurina. Quando uma criança nasce ou uma pessoa morre, o presente se parte ao meio e nos permite espiar por um instante pela fresta da verdade –monumental, ardente e impassível.”
(Rosa Montero em “A Ridícula Ideia de Nunca Mais Te Ver”)

Hoje, no almoço:

O: “tirando o círculo, que eu sei que é o que vocês iam dizer, o que não tem começo, meio e nem fim?”

Eu: “o infinito!”

O: “hmmmm não exatamente. São os números. Porque tem todos os menos antes do zero, e os mais depois.”

Eu e Fernando: (eita!) “hmm interessante. É verdade — considerando todos os números, não tem meio mesmo não. Mesmo o zero, é só uma referência, não é o meio, se os positivos e negativos são infinitos cada um pro seu lado…”

(Nossos cérebros explodindo de ideias e o conceito do zero e tantas outras coisas)

O: “isso. Como no mundo do MineCraft, que o ponto zero não é o meio, é só o lugar onde eu cheguei no mundo”

Eu: …

**

Quais são seus pontos zero? A chegada dessa criança tão peculiar definitivamente é um dos meus.

Poliglota

Essa semana Otto declarou, muito espantado (na hora que acorda, sempre… uma animação que me irrita 🤣) — “percebi que a minha voz é diferente quando eu falo inglês. E a sua?!”

A minha voz é BEM diferente quando falo inglês, português ou espanhol. Cada uma tem sua tonalidade, sua cadência. Em inglês minha voz é mais grave que em português, e em espanhol também — não só mais grave mas um pouco mais anasalada.

Achei lindo ele perceber essa sutileza; cada idioma que se incorpora em nós traz a subjetividade do contexto, da idade em que aprendemos, das nossas referências sobre ele.

Tenho dificuldade de memorizar números em inglês, só os números. Quando me sinto à vontade e relaxada numa conversa, frases em português escapam sem querer, é muito louco.

Não existe língua mais fácil, mais difícil, melhor, pior. Idiomas são mais que regras, pronúncia, são expressões culturais e afetivas.

Apanhado da semana

Tenho umas histórias boas pra contar do Otto essa semana… segurem essa marimba.

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Otto deitado comigo na cama:

O: “mamãe, seu braço parece de homem!”

(Eu: uepa! Forte?!)

Eu: “ah é, por quê?”

O: “porque tem pêlos aqui, ó” — mostra a axila

Eu: fuén. “E por que você acha que ter pêlos na axila é coisa de homem?”

O: “porque eu nunca vejo mulheres com pêlos aí, ué”

Faz sentido. Expliquei que todos os humanos têm pêlos, com diferenças de quantidade, cada um é um.

O: “mais um motivo pra não ser adulto! Não quero ter pêlos, não!”

Eu ia mostrar que ele já tem, deixei pra lá 

**

O: “mamãe, o que é bee’s fight?”

Eu: “pode ser mais de uma coisa, como é a frase toda?”

O: “é o S de plural, e não de pertencimento!”

OWN MODEUSO ❤️

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Otto perdeu mais um dente, dessa vez começando a cair os que vêm depois dos caninos. Ele ficou todo feliz, colocou debaixo do travesseiro pra Fada do Dente pegar e os pais de cesárea ESQUECERAM DE COLOCAR DINHEIRO E PEGAR O DENTE 

Ele acordou, reclamou comigo, e eu rapidamente inventei que de repente a fada se confundiu, porque afinal ele mudou de país e tals, e que ele podia escrever um bilhete pra ela e esperar mais uma noite.

Pois ele escreveu um bilhete ÓTIMO (depois atualizo com foto; tá lá debaixo do travesseiro) dizendo que ficou bravo e que espera a troca essa noite 😀

Acho que ele ficou meio chateado!

Fico aqui me perguntando quão puto ele vai ficar quando descobrir que é tudo lenda — fada, papai Noel, coelho… não quero nem ver.