Nutricionista Mirim

Otto sempree comeu super bem, como todo mundo que acompanha o crescimento do menino deve saber. Quanto menor, melhor comia, não rejeitava quase nada (só não gostou nunca de azeitona ou purê, pela consistência), comia as coisas mais loucas pra um bebê ou criança, um espetáculo.

Conforme a idade foi avançando, ele foi ficando mais seletivo, os gostos dele foram ficando mais claros e ele se posiciona melhor sobre o que gosta ou desgosta.

Apesar de ainda comer bem e de forma variada, quando comparo com outras crianças da idade, ele tem comido mais doces do que eu acho OK, ficou mais restritivo com ingredientes e está mega resistente a comer carne. Ovo come todo dia se tiver, mas carne foi ficando cada vez mais complicado, até o momento dele relacionar a carne com o bicho, e aí ferrou.

Ele não pode perceber que a carne é um bicho, senão não come, e ainda nos crítica — “por que vocês comem os animais?!”.

Peixe, camarão, frango e porco já está sendo difícil. Nem vou oferecer mais polvo e outros animais mais óbvios.

Como ele come bem os vegetais, ovo e arroz e feijão, eu não encano muito com menos proteína, mas o Fer se preocupa, e de fato não há evidências científicas de que uma dieta restritiva pra crianças não tem impacto negativo. E proteína é super importante para o crescimento das crianças, então é bom ter atenção.

Ao mesmo tempo, acho foda impor alimentos pra criança, de qualquer tipo. Alimentar-se é uma das poucas coisas que não vejo (nem acho saudável) obrigar. Então estamos tentando explicar pro Otto a importância de cada categoria de alimento (carboidratos, vitaminas, proteínas, etc.) e mostrar que é importante comer de tudo um pouco.

Bom, era nesse ponto que estávamos: nem força nem deixa pra lá.

Hoje no almoço minha mãe fez linguiça de pernil assada. Cortamos em fatias e colocamos no prato dele. Tinha umas rodelas de linguiça, couve refogada, arroz, feijão e farofa. Ele matou o prato de salada todo, foi pro prato quente e comeu a linguiça e a couve.

O: “tou satisfeito!”

Eu: “mas nem comeu arroz nem feijão, tá gostoso…”

O: “olha, eu nem queria a linguiça mas resolvi comê-la [juro por zeus que ele falou assim] porque sei que vocês ficam felizes quando eu como proteína, tá? Já comi, tou satisfeito.”

Todos na mesa gargalharam sem querer, não teve jeito. Ele sério.

Eu: “mas tava boa a linguiça pelo menos?”

O: “não muito, mas se vocês ficam felizes eu como.”

Não sabemos se rimos ou choramos.

No jantar:

O: “mamãe, no jantar quero só arroz, farofa e feijão, tá?”

Tá, lógico, meu amor. Vamos negociando, cada dia um dia.

Ser mãe e pai dessa criança ensina habilidades, pessoal 😀 e testa a paciência.

Primeiro grau

Otto assistindo Flash:

– “eu adoro ciências!”

– “eu adoro espaço-tempo!”

O dia que conseguirmos reconciliar as ideias de ciências, aprendizado e ESCOLA, nossa vida tá ganha.

Cinema em discussão

Otto se interessou pelo Senhor dos Anéis, graças a uma versão estendida que temos em DVD, que parece uma pilha de livros antigos, tem até mapa dentro, uma lindeza. Ele se encantou.

Sugerimos ver o Hobbit primeiro, pra ver se ele ia curtir e acompanhar a história do começo, como Tolkien quis 😀 Pois ele assistiu, adorou, e quis começar o LotR, muito bem.

2h depois do 1o filme, ainda faltando 1h pra acabar o PRIMEIRO filme, demos uma pausa, ele foi dormir. Na cama com Fernando​​:

O: “Mas péra aí! Então eles vão passar todos aqueles discos [todos os DVDs que ele já viu que existem] caminhando, e caminhando, e caminhando, e caminhando, até a montanha!?”

Otto, 8, crítico de cinema, nailing it.

😂😂😂😬

Nomeando sentimentos

Nem acredito que vou dizer isso, mas depois de SEIS ANOS finalmente o Otto melhorou o comportamento em relação à escola e às tarefas de casa.

Não é que ele ama, não chega nem a gostar, mas aceita e faz as atividades, e até (quando se distrai da reclamação padrão) se diverte.

Ontem aceitou fazer a lição de boa, fez, e no meio havia uma questão sobre um depoimento: uma mulher de 64 anos contando que não sabia ler nem escrever, e nem contar direito, porque passou a infância cuidando dos irmãos. A pergunta era: “qual é o problema com essa situação?”

Ele respondeu na hora — ela nunca foi pra escola.

Aproveitei né? — “viu? Muito importante ir pra escola!”

O: — “mas eu aprendi isso aqui e não na escola!”

Eu: — “imagina, a escola te ensina muita coisa sim! Olha aqui, tou vendo seus desafios [sao as provas, vieram pra assinar, e ele foi muito bem em tudo], você se saiu muito bem, a mamãe tá muito orgulhosa de você!”

Ele então fez uma carinha triste e saiu correndo pro quintal, se escondeu. Eita. Fui lá, chamei, pedi pra voltar pra conversarmos.

Eu: — “por que você tá bravo, ou triste, com elogio da mamãe?”

O: — “acho que não tou triste nem bravo, é que eu tou com vontade de chorar e saí correndo.”

Eu: — (own!!!) “meu amor, isso que você tá sentindo se chama EMOÇÃO. Você tá emocionado, e tá tudo bem. Vem cá que te abraço e melhora.”

Abracei, abracei, e queria que durasse pra sempre. Quando é que a gente aprende a nomear as emoções? Eu ainda tou aprendendo, aos 46. <3

Apanhado

Tenho buscado reduzir meu tempo de redes sociais, e Facebook rodou, porque é de longe onde eu mais gastava tempo.

Tá sendo bom, mas ao mesmo tempo atrapalha escrever as coisinhas rápidas que colocava lá e depois trazia aqui.

Mas a gente se adapta, aos poucos vou escrevendo mais de novo aqui!

**

Hora de dormir, Otto me abraça muito e diz: “eu te amo muito, mamãe! Eu amo vocês todos. Até mesmo o Papai.”

HAHHAHAHAHAHHAA eu ri, porque é ele, o pai, que tá lá todo santo dia e deita com o Otto pra dormir. E ele é tão inocente que fala isso pro pai, como se fosse assim um favor né? 🙂

**

Otto tá com mania de cortar as unhas com os dentes. Ele não “come” a unha, ele só quer cortar ele mesmo, com os dentes. Diz que é divertido. A gente tá de toda forma tentando explicar que não é bom por causa dos germes todos das mãos sujas e também porque pode se machucar.

Eu: “tá vendo aqui? Você puxa a unha, a pelinha vem junto e vai puxar carne, vai te machucar.”

O: “carne?! Isso é modo de falar né?”

Eu: (penso: vai dar ruim) “não, nós temos carne, todos os animais têm carne. Esse fofinho aqui é nossa carne ao redor dos ossos.”

O: “igual à que a gente come? A gente come a carne dos bichos?”

Eu: “sim, isso mesmo.”

O: (horrorizado) “por que alguém faria isso?!”

Eu: “é uma tradição dos seres humanos caçar os bichos e comer a carne. Mas quem não quer comer carne não precisa. São vegetarianos.”

O: …

Já não come quase nada de carne, agora então…

Accountability

Otto ficou em casa com minha mãe pra gente ir pro ensaio do bloco. Combinamos dele tomar banho e fazer a rotina normal, só não precisava dormir.

Antes de chegarmos ela manda esse diálogo com ele:

Vó: Otto, vamos pra cama, jajá papai e mamãe chegam e vão ficar bravos com você.

Otto: …. não não não…..

Vó: chega amanhã eles não vão deixar ver desenho

Otto: eu não, vão brigar com você que não arrumou um jeito de me convencer!

Pode???

Precisamos falar sobre a Turma da Mônica

Me sinto até um pouco boba falando disso. É tanto massacre (ainda mais esse ano) sobre a gente ser exagerada — como mãe, mulher, feminista — que dá insegurança. Mas quanto mais leio os gibis e vejo os desenhos, mais estou certa que a Turma da Mônica tem problemas graves de repetição de padrões atrasados, e que deviam ser repensados e mudados.

Nem vou falar sobre o Cascão, único personagem de origem claramente negra da turma tradicional, ser sujo e fedido. Entendo que fica complicado mudar algo no personagem nessa altura da história, mas, PORRA.

O que me incomoda demais, até porque vejo os reflexos disso no Otto, é a relação de competição e briga constante entre meninos e meninas (que na prática, até agora nos 8 anos do Otto, eu não vi acontecer de forma natural) e a naturalização dos xingamentos.

A Magali é comilona; a Mônica é mandona, baixinha e gorducha. Os xingamentos são sempre dirigidos às meninas, e quando não são relacionados a características físicas (tipicamente é assim que ofendemos mulheres, afinal), os xingamentos também fazem parte do universo do que é malvisto em mulheres: comer e dominar.

É ridículo estar em 2018 e ainda ter que falar disso, explicar, porque tem muita gente que sequer compreende o teor da crítica.

Por que gorducha e baixinha são xingamentos? Eu fiz essa pergunta pro Otto, ele não soube responder. A resposta é complexa, e ele não vai conseguir mesmo elaborar, porque aqui nessa casa ninguém NUNCA fez comentários de julgamento sobre aparência física. Bullying é um problema grave entre crianças e jovens, e nós todos como educadores devíamos buscar eliminar essa prática, ensinar as crianças a serem mais inclusivas. Aí uma história em quadrinhos super famosa e com alcance enorme faz o contrário: inventa uma relação estúpida entre as crianças tal que os meninos estão constantemente contra as meninas, em especial a Mônica, SEM PARAR. A vida desses meninos é infernizar a vida dela.

Mas o pior pra mim é que eles sequer são colocados como vilões (o que seria uma forma de ensinar que o que fazem é errado); eles são AMIGOS dela. Inclusive na sequência da Mônica jovem eles são NAMORADOS.

Percebem o padrão? Meninas sendo ensinadas que os meninos as agridem porque gostam delas, meninos sendo ensinados que agressão é forma de expressar interesse. Tá na hora da gente educar melhor essas pessoas pro mundo também melhorar, sabe?

É um trabalho insano ficar aqui explicando pro Otto que xingar NÃO É legal, que amigos não xingam, que ninguém gosta de ser xingado. Explicar que ser gorducha não é motivo de vergonha (e reparem que o corpo da Mônica é IGUAL aos demais. Ela nem é gorducha, caramba, mas e se fosse?).

Tenho que ficar mostrando pra ele que existem outras formas de se relacionar que não sejam pela briga e disputa.

Que difícil, gente. Por que não dá pra fazer histórias sem tanto julgamento, xingamento, relações tortas?

Muda, Maurício de Souza! Presta atenção que já vivemos em outros tempos, e queremos coisas novas e melhores.

Halloween

Amo e odeio. Amo porque não tem nada pra não amar numa festa à fantasia de terror né? E com doces. Mas odeio porque aquela correria das crianças querendo pegar doces me irrita. Porque o Otto quer conversar (*) com as pessoas que oferecem doces, e com as crianças sobre as fantasias, e todo mundo só tá preocupado em distribuir e pegar doces. Porque os doces são horrorosamente doces. Porque interagir com humanos é cada vez mais difícil.

(*) ele fez um bilhete de agradecimento pra cada pessoa que deu doces. Imagine isso no meio do furacão das crianças.

tempo

“Mamãe, você sabia que algumas vezes quando as coisas se quebram, só o tempo consegue consertar?”

 

Ô se sei, meu amor. Como sei.

 

❤️

supervilões

Tanto orgulho do Otto, que começou o jogo novo de Vilões de Lego, e escolheu uma personagem mulher! <3 (o nome dela é CINDER. Não me perguntem de onde vem. Olha que linda!)