sendo mãe em público

[6-julho-2015]

Sou mãe, adoro comer fora e concordo 100% com esse texto sobre o quanto a forma de alguns pais lidarem com seus filhos em restaurantes atrapalha todos nós. Esse tipo de segregação acaba acontecendo graças aos pais sem noção, que parece que esquecem que crianças fazem parte da sociedade como qualquer outra pessoa — é preciso respeitar o ambiente onde estamos, e suas regras. Se não é aceitável um adulto berrar, sair incomodando as pessoas desconhecidas no corredor ou lamber o saleiro, por que devemos aceitar isso de crianças como se fosse OK?

 

Inclusive considero as saídas para locais públicos como uma excelente oportunidade de ensinar ao meu filho como é esperado que um ser humano se comporte. Porém há lugares que não dá pra administrar as necessidades especiais de uma criança — um restaurante cujo ambiente é apertado, silencioso e que a comida demora a chegar não é lugar pra uma criança pequena que ainda não aprendeu a controlar seu tom e nem tem paciência. VAMOS PRA OUTROS LUGARES, e treinamos a criança, aos poucos.

 

Não é tão difícil, pessoal! Sejamos razoáveis, respeitemos os ambientes. Levar bebê e criança pequena pra concertos e locais em que o silêncio é importante para a experiência coletiva também não é legal. Há que ter consideração pelas outras pessoas e ensinar nossos filhos em ambientes mais adequados, com paciência.

 

Uma coisa que eu já sabia e até por isso fico bem tranquila a respeito: a vida não é igual depois de ter filhos. Você precisa se planejar mais, abrir mão de alguns programas por um tempo e ter paciência de ensinar ao seu filho algumas regras sociais, lembrando que demoram ANOS até que isso esteja OK. Prepare-se para intervir e procure lugares nos quais seja possível transformar a experiência em oportunidade de aprendizado.

maternidade não tão real

Bem interessante esse artigo — ainda me lembro de comentários no meu blog quando eu contava que me sentia aliviada de poder voltar a trabalhar; que me sentia cansada de estar com meu filho por muito tempo; que não curtia bebês (essa é praticamente heresia).

 

Porque, repare: a mulherada faz gracinha sobre como é puxado ser mãe, urru, “a vida como ela é”, mas é raro alguma admitir que não curte a função e que tem vontade de sumir, sair correndo. Mesmo que não seja (como é meu caso) uma coisa que eu odeie em sim, eu só acho chato quando fico muito tempo na função. Amo essa criatura mais que tudo na vida, mas tem muitas horas que tou cansada e de saco cheio e só queria era deitar no sofá e comer Doritos (ao invés de dar banho e ler história).

 

E olha que amo dar banho e ler histórias.

 

Não tem nada de errado em gostar de dividir a função, de querer tempo pra não fazer nada e achar chato pra caramba brincar de pega-pega. As pessoas são diferentes e MULHER NÃO NASCE PRA SER MÃE NEM CUIDADORA.

 

A gente aprende e se adapta à necessidade, do nosso jeito. Se eu soubesse disso quando pensei em ter filho teria sofrido muito menos antes e durante.

um post de maternidade desmotivacional

desde que começou essa história, esse blog, fiz questão de não glamurizar o processo, o ato, os fatos. ser mãe nunca foi um sonho pra mim, foi mais o desejo da experiência incrível (e é impossível se arrepender dela, pelo menos por mais de 10 segundos…) de gerar e criar um humano. antropologicamente imperdível, mas com tantos (tantos. TANTOS) momentos difíceis que justificam com muita folga a opção de “não, obrigada, fica pra próxima encarnação”.

no facebook eu compartilho frequentemente minhas dificuldades, peripécias e também as fofurices do Otto, mas hoje foi um dia especial: depois do post reproduzido (ops) abaixo, nasceu (ops!) um outro post derivado, brincando com a ideia de ajudar quem não quer ter filhos a se manter firme neste propósito, caso bata a dúvida ou apareça uma tentaçãozinha.

o post ficou engraçado, mas os comentários ficaram impagáveis. não vou conseguir reproduzir a dinâmica das respostas e dos diálogos paralelos, que me fizeram rir o dia todo, mas não podia perder a oportunidade de registrar as ideias sensacionais destas mães que se uniram pra rir de si mesmas, e dos absurdos da maternidade.

espero que vocês gostem, porque eu gostei demais, e ri tudo de novo compilando a lista 🙂

**

o post original:

Você quer de alguma forma reafirmar seu desejo de não procriar?

Bate um papo comigo sobre a rotina da manhã nessa casa e eu garanto um bom tempo sem essa ideia insana de ter filhos passar pela sua cabeça.

— daí veio a ideia de criar um workshop inédito: palestras (des)motivacionais para quem NÃO quer ter filhos.

nos painéis estão listadas todas/os que colaboraram, porque isso foi escrito a sei lá quantas mãos. muitas. todas elas sujas de ranho.

**

você está determinada/o e não ter filhos, mas recebe pressão da família ou do/a parceiro/a e precisa de ajuda para se manter firme no seu proósito? este workshop foi feito pra você!

venha conhecer a realidade de pais e mães sincerões, que vão contar a real do mundo das pessoas-com-filhos tirando a parte que todo mundo já conhece: filhos-são-a-melhor-coisa-do-mundo 😀

(este post não é patrocinado pela JONTEX, mas estamos abertos a propostas)

há painéis / palestras disponíveis para todo tipo de interesse, os assuntos são intermináveis:

  • Cama compartilhada: como dormir em 10cm, com pé de criança na sua boca. Renata Corrêa
  • Tempo para si mesmo depois de ter filhos: uma ilusão. Carla
  • A arte de manter vivo um ser humano que não acredita em alimentação sólida. Tina
  • Sobrevivendo às manhãs de choro, chilique e ranger de dentes, todos os dias por anos a fio. Zel
  • What Not To Wear protagonizado por crianças e sua correlação com a pressão alta em mães. Por Silvia M.
  • Como sobreviver sem assassinar nenhum parente de 1o grau após 3 anos sem dormir uma noite completa. Angela R.
  • Como criar adolescentes e vencer o monstro do mau humor generalizado. Simone M.
  • Planejamento Estratégico e Alocação de recursos, módulo básico: tirando férias das férias das crianças através da chantagem com os avós. (palestrante ainda em aberto — sugestão de Ila F.)
  • Xixi e cocô na hora das refeições — planejando um cronograma efetivo para driblar interrupções. Camila B.
  • Como dirigir na hora do rush enquanto acalma as crianças no banco de trás: conheça relatos verídicos de pessoas que não enlouqueceram. Rita P.
  • Relato de vivência: “Bati o carro para não bater nas crianças que gritavam no banco de trás”. Silvia M.
  • Nutrição, módulo 1: comida fria e restos devolvidos pelo filho ainda são melhores que não comer. Simone M.
  • Multitarefa, módulo 1: Como escrever um texto enquanto seus filhos brigam e se pegam – A arte de otimizar o uso de seus braços, ouvidos e fala. Stella R.
  • Multitarefa, módulo 2: Como se fingir de morta enquanto trabalha e os filhos põem a casa abaixo. Silvia M.
  • Módulo de vivência des-motivadora: Brincando com o filho dos outros – a arte de devolver mais sujo que pegou. Vevê M.
  • Especialização rápida para crianças descabeladas: Desembaraçando Cabelos Cacheados. Rita P.
  • Privacidade, uma fábula pós-maternidade: Como se concentrar enquanto seu filho te chama/abraça/chora/fica no seu colo/faz gracinhas enquanto você realiza atividades fisiológicas ou de higiene pessoal. Por Emili G.
  • Maternidade Zen Saco: Como manter a paz interior enquanto seu filho, sem nenhum motivo aparente ou lógico, bate a cabeça no chão, na parede, no vidro do carro, no vidro do restaurante, na rua, na chuva, na fazenda ou numa casinha de sapê. Por Fernanda W.
  • Short e camiseta regata aos 11o C: Quebrando a resistência ao guarda-roupa de frio. Por Camila L.
  • Os 7 anos: como sobreviver às vontades próprias, birras e o poder de argumentação dos pequenos seres dessa idade. Vanessa M.
  • O poder da oxitocina, módulo básico: Achando fofo a criança que cospe água do chuveiro — a estética da primeira infância. Por Carla
  • Sexo e Tesão, após a maternidade: ele existe ou resiste? Por Luanna
  • Como ouvir 58 vezes por hora MAAAAÃEEEE + reclamação e/ou pedido sem perder a paz de espírito. Por Dani F.
  • Como lidar com o marido que quer ser outro filho. Consuelo
  • Negociação básica: Como dizer não à criança que acha que comida do seu prato é mais gostosa que a do dela sem causar uma calamidade pública. Por Dani F.
  • Negociação avançada: Como mandar seus filhos tomar banho, pentear o cabelo e escovar os dentes de mil formas diferentes — Do amor à ameaça de morte. Por Naomi
  • Negociação, técnicas anti-terrorismo: Aprenda que usar cachaça não é mais permitido e entenda como sobreviver. Mesa de palestrantes mista em formato de sessão de descarrego, regada a muito vinho
  • Das fraldas sujas da primeira infância ao chulé da adolescência: como sobreviver sem máscara de oxigênio. Por Mariana D.
  • Odontopediatria para leigos: “20 dentes, esses inimigos causadores do caos”. Lorena R.
  • Marketing pessoal, nível avançado: Como convencer todas as pessoas na rua que você não espancou e torturou seu filho, ele só tomou uma vacina. Angela R.
  • Técnicas de Feedback indireto: táticas para antecipar momento SINCERÃO do seu rebento e evitar dissabores pela rua. Naomi, COM LOUVOR.

Estudos de caso:

– C. 7 anos, sobre a escolha de música da Kate Perry para a festa de uma amiga: “eu acho essa música inadequada para crianças”

– O. 4 anos, para visitantes em sua casa: “eu acho que vocês deviam ir para suas casas agora”

– Filhos da Naomi, idade irrelevante: “não sei porque gente burra teima em dar opinião!”; “moça, você sabia que o seu perfume fede?”; “se a barriga dele não fosse tão grande, caberia mais gente no elevador né, mamãe?”

– Y. 4 anos, almoçando na casa da madrinha: “essa sua comida ficou um pouco ruim”

**

aguardamos a presença de todas/os 🙂 (quem quiser que coloque link no post me avisa, e eu atualizo)

porque sofro por você

achava que o medo melhorava com o tempo (melhora), mas descobri que ele só muda, se disfarça. fica ali à espreita, basta uma brecha e ZÁZ, cá estou me forçando a limpar a mente, foco no HOJE, AGORA.

o medo é assassino da mente. o medo é a pequena morte que traz total obliteração. enfrentarei meus medos, permitirei que passem sobre mim e através de mim, e quando tiverem passado farei com que o olho interior enxergue seu caminho, onde o medo esteve não restará nada. somente eu permanecerei. (litania contra o medo)

fizemos seu primeiro exame de sangue depois do período de UTI neonatal (você odiou, claro), e agora TUDO passa pela minha cabeça. será que está tudo bem? são tantas as histórias horríveis de crianças doentes que eu tenho que me esforçar pra não pensar, não projetar, não sofrer.

você não tem se mostrado uma criança sociável, o que para os padrões da nossa sociedade é um problema grande. não tem amigos, não dá bola pra nenhuma criança. fala pouco, só quando tem mesmo alguma coisa importante pra dizer. as pessoas comentam, cobram, acham diferente, e eu sofro. não só porque seu jeito não se adequa à expectativa dos outros, mas porque sei que o mundo privilegia os extrovertidos, que você pode ser visto como antisocial ou esquisito para o resto da vida.

como lidar com o mundo, com a expectativa, com o desconhecido, o acaso, o incontrolável?

**

não sei. tento não me ocupar do que não está no meu controle, tento deixar para pensar e resolver coisas quando elas aparecem. mas o medo, ah.

**

quero ajudar você a navegar nesse mundo. somos muitos diferentes, e talvez minha angústia seja a de não poder compartilhar com você minhas ferramentas, minha história — talvez nada do que serviu pra mim sirva pra você.

vou precisar aprender a navegar de outro jeito, ver o mundo com seus olhos, aprender novas formas de viver, pra poder ensinar pra você. aprender junto.

**

mas o medo. ai.

a história da chupeta

chupeta sempre foi um assunto que eu considerei simples antes de ser mãe: não darei  para o meu filho, já que não tem nenhum benefício.

mas aí seu filho nasce num parto complicadíssimo e passa 8 dias na UTI, onde você pode visitá-lo somente a cada 3h, e as coisas mudam. ele chorava, sem ninguém amamentando ou pegando no colo, então as enfermeiras deram chupeta pra ele e uma boa parte do tempo isso era suficiente pra ele não chorar. quando a fome apertava ele chorava MUITO — quando eu chegava pra amamentar, ouvia de longe o menino gritando de fome, e além da preocupação com a situação (ele estava na UTI em observação, pra ver se não havia nenhuma seqüela do parto) eu ainda sofria horrores de não poder dar o peito na hora que ele quisesse.

dessa forma, minha opinião sobre a chupeta tornou-se irrelevante e cedi. não suportava a ideia de deixá-lo chorando sem colo e sem peito. a chupeta é um substituto ruim, mas me pareceu melhor que a alternativa. não me arrependo.

voltando para casa, tínhamos muito medo e total inexperiência. a chupeta não atrapalhou em nada a amamentação (ele pegou o peito perfeitamente de primeira, e assim foi até que decidiu desmamar por conta própria aos 9 meses), mas acredito que pelos 8 dias na UTI ele associou o peito a comida e não ao efeito calmante, e simplesmente não aceitava mamar como forma de conforto ou mesmo para dormir. mamar, pro Otto, sempre foi objetivo: acabou a fome, acabou o peito. os incômodos e o sono nunca foram resolvidos com o peito, ele não pegava de forma nenhuma sem fome. colo sempre foi essencial, ele ficava mais calmo e muitas vezes parava de chorar estando no colo (andando, de preferência), mas o peito era buffet mesmo.

acho até que por isso aos 9 meses, quando ele já tinha muitos dentes (>7 com certeza) e comia de tudo, desinteressou do peito. pegava pra mamar, e ele mordia o peito, cuspia e ria. não queria mesmo, pra minha frustração (se pudesse, teria amamentado até sei lá quando, era muito legal, em especial depois da 1a fase de mamar a cada 2h).

mas enfim, devido a esse detalhe do peito não acalmar a criança, a chupeta tornou-se uma âncora, porque acalmava o menino imediatamente. talvez se tivéssemos suportado o choro nos primeiros dias e “ensinado” pra ele que o peito era uma boa alternativa à chupeta, ele tivesse aprendido. mas se você tem filhos e lembra o que a gente sente quando o recém-nascido chora, há de ter empatia com nossa situação e entender que a chupeta já não parecia tão ruim.

conforme a época crítica de RN foi passando, reduzimos o uso da chupeta para apenas a hora de dormir (e sempre que podíamos, tirávamos da boca dele enquanto dormia). quando ele parou de mamar no peito, adotamos a mamadeira (que ele aceitou na boa, bem parecida com a chupeta) para dar leite, porém paramos quando ele completou 2 anos. por mais que tivéssemos cedido à chupeta e à mamadeira, sempre tivemos a preocupação de minimizar o uso e evitar problema buco-maxilares. e escovamos os dentes dele pelo menos 2x/dia desde que os dentes nasceram, aos 6 meses.

(além de acharmos bem complicado a criança usar chupeta o tempo todo)

aos 3 anos levamos o otto a uma dentista pela primeira vez, e pra nosso alívio ela afirmou que não havia nenhuma consequência do uso da chupeta na dentição, nem nada que fosse visível. ele tem os mesmos problemas alérgicos de nariz que eu e o pai, que não acho que têm relação com chupeta, a genética explica 100% (mas veja que disse ACHO, já que não investigamos nem sou especialista no assunto). sorte, ou é porque o uso da chupeta nunca foi muito intenso.

o otto sempre deu trabalho pra dormir, e a chupeta também era uma muleta enorme. naquele momento crítico do sono, da chatice do cansaço, a chupeta ajudava a acalmar e ele dormia. não nos parecia OK deixá-lo chorando pedindo a chupeta e simplesmente não dar, ele parecia tão pequeno ainda! nós estávamos aqui há mais de ano sofrendo com o momento de tirar a chupeta, já que tampouco nos parecia legal inventar alguma história maluca pra tirar a chupeta (dar pro papai noel, pro coelho da páscoa, pros ETs…).

até que há 1 ou 2 meses a boquinha dele apareceu meio assada, como que rachada de frio. achamos que podia ser de dormir com a chupeta, pois ficava bem vermelho acima do lábio superior. decidimos tirar a chupeta por uns dias pra ver como ficava, e explicar pra ele que não ia usar a chupeta porque estava machucando a boquinha. não era uma tentativa de tirar a chupeta, era mesmo um jeito de testar uma hipótese.

na 1a noite ele pediu a tetê, e explicamos a situação. ele reclamou (não lembro se chorou, mas reclamou), explicamos de novo, ele acabou cedendo. pra nosso espanto (e alívio) dormiu normalmente, sem chupeta. fizemos o mesmo no próximo dia, e nos demais, até que a boquinha melhorou. ele continuou pedindo a tetê, mas cada vez menos enfaticamente. continuamos explicando, e quando a boca melhorou percebemos que podíamos eliminar a chupeta sem drama. alguns dias depois, ele já não pediu mais, como se a chupeta nunca tivesse existido! e o sono continua bom, normal, dormindo rápido quando cansado e mais devagar quando está menos cansado.

no fim a assadura na boca não era da chupeta, é causada por ele mesmo, que passa muito a língua no lábio quando o tempo está muito seco. tenho passado batom hidratante e melhora 🙂

não sei se tiramos a chupeta tarde demais, e nem se existe algum problema causado por ela que nem descobrimos, mas essa foi mais uma das muitas lições de ilusão de controle e certeza que a maternidade me trouxe: nem sempre a gente consegue fazer as coisas do jeito que considera ideal; as coisas acontecem no tempo em que precisam acontecer, e não quando a gente quer — precisamos estar atentos se agir na hora certa quando ela aparece!

entrevista sobre ser mãe

uma amiga me indicou para ser entrevistada sobre a experiência de ser mãe, e como não sei se a entrevista vai mesmo ser publicada (sou uma entre várias entrevistadas), fica aqui para registro e caso alguém queira saber 🙂

(se sair alguma parte dela na revista eu coloco o link aqui depois)

**
Você escreveu no seu blog algumas vezes que não tinha o sonho de ser mãe, mas ama a experiência, hoje, de ver o filho crescer e descobrir coisas. Como é essa descoberta? Como foi essa mudança?

Nunca tive sonho de engravidar e ser mãe, não fazia parte das minhas metas, desejos. Mas aos 36 anos mais ou menos (meu marido, 34) começamos a conversar sobre o assunto e achamos que apesar de nenhum de nós ter esse desejo apaixonado a experiência devia ser muito interessante. Brincamos que foi uma “experiência antropológica”, e é mais ou menos isso mesmo. Não fomos do tipo que celebra a gravidez e a nova vida, aquela coisa de cinema. Sempre fomos bem pragmáticos e encaramos a experiência como uma jornada, uma novidade, sabendo que muda tudo na vida e é um outro caminho. Depois do nascimento do Otto as descobertas foram diárias, às vezes muito incríveis de tão legal e às vezes muito chatas e desagradáveis. Como não romantizamos a experiência, acho que pudemos viver tudo — a parte linda e a parte muito chata de ser pai e mãe.

Como foi sua gestação? Nessa fase, quais foram as “surpresas”, coisas que você não esperava e acabou tendo de se adaptar?

A gestação foi tranquila, engravidamos poucos meses depois de decidir que íamos ter filhos. Não posso reclamar de quase nada da gravidez em si, porque tive poucos incômodos (azia o período todo, enjoo no começo, e o final é inevitavelmente difícil fisicamente, pelo volume). Só uma lembrança de incômodo é bem forte: fiquei com nojo de alho, então comer fora era difícil e chegar perto de gente que tinha comido alho acabava com meu dia! Felizmente passou. Fora isso foi vida completamente normal, trabalhando e fazendo tudo que sempre fiz.

O mundo da maternidade tem várias “regras”, que já viraram às vezes até piada. No seu blog, por exemplo, você sempre fala de #paidecesarea. Como você vê essa história da escolha do parto? Como lidou com isso?

Eu já tinha lido e acompanhado muito sobre parto humanizado bem antes da ideia de ter filhos, e na minha família quase todas as mulheres fizeram parto normal de vários filhos (apesar de não serem nada humanizados, ao contrário). Pra mim era claro que queria um parto humanizado sem intervenção desnecessária (no meu corpo ou no corpo do bebê), de preferência, como é a recomendação da OMS. Tendo engravidado com 37 anos, minha gravidez automaticamente era considerada de risco, o que complicava a opção de parto em casas de parto (muito recomendada por várias pessoas) e eu não queria fazer parto em casa também. Fiz acompanhamento inicial na casa Moara (muito boa, recomendo), mas eles não atendem no interior, onde moro. Achei então uma obstetra na região alinhada com meu plano de parto (uma dificuldade enorme, a propósito), visitei hospital, falei com pediatra chefe, fizemos um plano completo de parto. Ou seja — nos engajamos muito no processo todo, sabendo das dificuldades de evitar intervenção. Mas no final das contas, acabei fazendo uma cesárea emergencial, pois no processo de trabalho de parto houve uma complicação grave. O Otto nasceu de 41 semanas e 5 dias e ficou 8 dias na UTI em observação, graças ao parto complicado, mas eu fiquei muito bem e ele também. Saiu tudo diferente do que eu planejei, mas estou certa que o processo que adotamos foi o melhor possível, e isso é que é importante: ser protagonista da gestação, do parto, e ser acolhida pelos profissionais que estão dando o apoio (ao contrário de ser coagida, por medo).

Depois do nascimento do Otto, como ficou sua rotina? Havia algo que você imaginava e que foi totalmente diferente?

A rotina mudou completamente, a vida virou outra. Fiquei de licença por 7 meses, então tive muito tempo de tentar me adaptar (e não adiantou nada, porque quando estava entendendo o que estava acontecendo, mudei a rotina!). Eu não tinha ideia de como seria, só sabia que seria diferente e cansativo. O Otto mamava muito (amamentei em livre demanda), mais ou menos de 2 em 2h, e demorava 40min para mamar, o que torna o processo muito desgastante fisicamente. O Fernando (meu marido) foi um suporte essencial, pois ele fazia tudo que não fosse dar de mamar, e nossa funcionária e nossa família ajudaram muito também. Sem ajuda é uma tarefa impossível. Jamais esquecerei o ditado africano que diz “é preciso uma aldeia para criar uma criança”, porque é 100% verdade. Ajuda é fundamental — mas precisa ser ajuda de verdade, e não palpite e julgamento. É preciso de espaço e tranquilidade para errar e acertar, e conhecer aquele ser humano que acaba de chegar e muda toda a dinâmica da família, da casa, do relacionamento. Eu não tinha ideia de que ficaria sem dormir (ou dormindo picadinho) por tanto tempo, pra ser honesta. As pessoas nunca dizem a verdade pra gente, e repetem que “o amor incondicional compensa tudo”. Não me senti assim, e apesar de toda a alegria que traz a chegada de um filho, há também o medo e o cansaço, que são muito grandes.

Como foi lidar com questões cheias de expectativas, como rotina de sono e amamentação?

A amamentação foi muito tranquila, desde que o Otto começou a mamar (ainda na UTI). O início, quando ele estava com soro ou recebendo meu leite por caninho, e eu tinha que ordenhar, foi MUITO difícil, assim com letras maiúsculas mesmo. O processo de ordenha é muito mais difícil que amamentar, mas felizmente eu tive um apoio maravilhoso das enfermeiras no hospital, foi essencial para o processo e para a minha sanidade mental. Estar com filho na UTI, recém-parida (com dor, por causa da cesárea) e ainda ter dor e dificuldade para ordenhar é um horror. Mas quando ele veio para o peito (5 dias depois do parto, somente) foi muito tranquilo, ele mamou bem e de forma simples, e foi assim até parar de mamar por conta própria aos 9 meses. Então fora a dor na lombar (tenho uma hérnia) que voltou nos meses da amamentação e o cansaço da frequência, amamentar foi tranquilo. Já o sono foi infernal, eu sempre adorei dormir muito, e me senti um zumbi por vários meses. Fiquei sem dormir uma noite completa (6h seguidas) até perto do menino completar 2 anos, quando decidimos (tarde demais, na minha opinião) fazer cama compartilhada. Depois que ele veio dormir na nossa cama, nossa vida mudou: melhorou MUITO, pois já não acordávamos mais durante a madrugada para fazê-lo voltar a dormir. Deixá-lo chorando sozinho nunca foi uma opção pra nós, então o processo todo foi muito desgastante. Se tivesse nos ocorrido que dormir junto seria tão simples, teria mantido assim ao invés de colocá-lo no berço no seu quarto aos 5 meses, como fizemos.

Você conta também da expectativa de o filho ser parecido com você, e que, diferentemente, ele é introvertido. Como você lida com isso?

Isso é uma das coisas mais difíceis e mais bonitas da maternidade, na minha opinião. O Otto é completamente diferente de mim, em personalidade, e mais parecido com o pai. Mas o pai é adulto, e já aprendeu a “navegar” no mundo dos extrovertidos. Pra mim é um mundo novo, complexo, misterioso, e com o qual não me sinto 100% à vontade, sempre fica a paranoia de que o menino “tem problema” porque não é extrovertido e super sociável. Por mais que a pediatra afirme que ele é ótimo, e várias pessoas confirmem que isso é só personalidade, eu não consigo entender, então fico tensa. Mas está melhorando, conforme eu leio, converso com amigos introvertidos e (o mais importante) presto atenção aos meus preconceitos. É isso que tenho feito: me educado, e aprendido a conviver com a diferença (o que me faz muito bem na vida de forma geral, não só como mãe). Mas nunca tive grandes expectativas concretas sobre meu filho, até porque nem pensava em tê-lo. Sou muito flexível e gosto de improvisar, seja pra mim mesma ou pra família, então não fico fazendo planos ou pensando no que ele vai fazer, o que vai estudar, essas coisas. Eu quero mesmo é que ele seja saudável, feliz, seguro, e isso ele já é desde muito pequeno. Apesar de introvertido, ele é muito assertivo, objetivo, se expressa bem, sabe o que quer, sabe dizer não (coisa que eu aprendi aos 30!). Não podia querer nada além disso.

Hoje, com ele maior, como é a rotina de vocês? Como os cuidados com ele se encaixam em seu dia a dia (viagens, trabalho etc.)?

Minha rotina é bem estruturada, mas não é exatamente rígida (ou seja, a gente adapta quando precisa). Eu trabalho fora o dia todo, sou gerente de TI de uma multinacional para a América do Sul, o trabalho me exige muito. Mas já na gravidez decidi que seria mais regrada com minha dedicação ao trabalho, e procuro fazer poucas horas adicionais, sempre dou muito foco em ser produtiva ao máximo no horário de trabalho, e desligar quando vou pra casa — é assim que tenho feito, e funciona muito bem. Nossa família foi organizada de um jeito muito moderno, e diferente da maioria que conheço — eu trabalho das “8 às 17h” e meu marido é freelancer, desde antes do Otto nascer. Então é ele que cuida de coisas da casa, supermercado, que leva e traz o Otto para a escola, que resolve todas essas coisas do dia a dia, que cuida dele quando eu viajo a trabalho (raro, mas acontece). Temos ajuda de uma super funcionária (segunda a sexta), que cuida da casa e ajuda com o Otto quando o pai não está. Eu chego à noite e só brinco e cuido do Otto, junto com ele. No fim de semana, passeamos, fazemos coisas juntos, nada muito planejado — fazemos o que temos vontade. Não gosto de criar “calendário” para a criança, já basta a nossa vida de adulto cheia de compromissos. Então, temos nossa rotina do dia a dia bem fixa (horário de escola, almoço, lanche, jantar, dormir), mas estamos sempre dispostos a improvisar e nos fins de semana fazemos o que der vontade. Quanto às viagens, é uma das atividades que mais amamos, desde que casamos, e o Otto foi incluso nessa rotina a partir de 1 ano. Viajamos todos os anos, para diversos lugares diferentes, outros países ou aqui mesmo, sem muito planejamento, improvisando no caminho. A experiência é diferente com uma criança (quanto menor, mais difícil), mas é também muito bonita — ver o mundo através dos olhos da criança (além dos seus) é mágico, e muito interessante. Dá trabalho? Dá, mas vale a pena.

Uma coisa que vale para todas as perguntas que você me fez, vale em especial aqui: para ser feliz na experiência de ser mãe e pai é preciso parar de perseguir a perfeição, o “certo”, e ver alegria e beleza na surpresa, na diferença e até na dificuldade (mesmo que seja olhando depois). Criar uma criança é reviver nossa própria história, e muitas vezes fazer as pazes com o passado. Caso você insista em condenar o passado, e for muito perfeccionista, o sofrimento é inevitável. Eu escolhi ser feliz 🙂

filho virginiano com ascendente em virgem, mãe pisciana com lua em sagitário

acho astrologia super divertido, do mesmo jeito que gosto de tarô: não como futurologia, mas como forma de autoconhecimento e análise através de arquétipos e mitos. o legal é ver o mapa todo, o signo solar isolado não faz muito sentido, como sempre diz o Acuio.

aprendi, quando me tornei mãe, que a nossa lua no mapa é uma representação da mãe que somos, e a minha é sagitário. sempre adorei minha lua, que representa meu lado bem-humorado e otimista até nas tormentas mais horrorosas. jamais me abato (ou me abato somente temporariamente, dura pouquíssimo o desânimo), e vejo a vida com muito humor. como mãe, sou mesmo muito palhaça, brincalhona, não levo as birras muito a sério, sou geralmente bem flexível.

(mas não queira nunca me ver brava)

contei essa história toda porque sou mãe-palhaça de uma criança que — coincidência ou não — nasceu virginiana, com ascendente em… virgem. pra quem não sabe, virgem é pureza, método, análise (mas é também amor pela natureza e apego físico, tão bonito!). virgem é um pouco literal. o otto, talvez pela idade, é MUITO literal. muito analítico e, bem, nem sempre muito bem-humorado 

**

hoje eu ri sozinha de um (de muitos) típico confronto da mãe-palhaça com a criança-analítica, e registro pra um dia contar pra ele e rir (sozinha, claro, já que ele não vai achar nenhuma graça):

Otto: “mamãe, vou fazer uma comida pra você com essa panela e essa pá. você sabia que a minha pá tem olhos?”

(a panela é um potinho de plástico, e a tal “pá” é um negócio cheio de buracos, uns 10, usada pra fazer múltiplas bolhas de sabão. parece mesmo uma pá, mas com buracos)

Eu: “ah é? e quantos olhos ela tem?”

Otto: (ar de “que pergunta óbvia”) “dois, mamãe…”

Eu: “ah, igual a gente… mas sabe quantos olhos tem uma ARANHA, Otto?”

Otto: (em tom de reprimenda) “mamãe, NÃO TEM aranha NA COZINHA, viu?”

Eu: (mimimi)

**

Vai ver é isso que me cabe, de fato: levar um pouco de surrealismo pra vida desse menino tão sério e que sabe tudo. Aiai.

da páscoa e outras tradições familiares

Antes de ser mãe eu não percebia tão bem as pequenas nuances da criação da memória, e das lembranças afetivas. Não me dava conta da maravilha do ritual da preparação das refeições em família — porque no dia a dia era mecânico, prático, mas nas festividades, estar junto fazendo algo em comum era a essência da comemoração. O resultado (a comida, comer) era só mais uma coisa. O sabor daquelas refeições era maravilhoso porque o processo todo de preparação alimentava o coração. O estômago e a boca só acompanham e reverberam o amor e a felicidade de estar junto, mãos com mãos, fazendo um pouco da nossa história conjunta.

Faço absoluta questão de construir para o Otto essas memórias conjuntas. O preparo de um peixe, a poda das plantas, a canção cantada em coro. Porque nada do que eu deixar pra ele vai ser mais importante ou duradouro que as memórias profundas, aquelas que assaltam a gente no domingo de manhã ao provar um pedaço de chocolate.

Te amo Mami VeraKellyKitoArina. Mandem um beijo pro meu Papi aí. Manhãs de Páscoa me lembram vocês.

happiness only real when shared.

x

Esse ano, ao invés de patinhas, resolvi fazer charada  Como foi a 1a vez que o Otto teve contato, tivemos que dar dicas de como funciona. Quando ele entendeu, adorou, e correu pro castelo pra achar a cesta de ovos 

(E esse ano ele adorou a cenoura mas quis comer o chocolate! Hahahhahaha)

a experiência antropológica mais completa

A Maria, nossa mais que querida funcionária que é mãe-avó-amiga-babá-etc. agora está com um problema pra sair com o Otto e passear no condomínio: ele só quer andar pelado. No meio do passeio ele decreta “tou com calor, vou tirar a roupa!”

Com muito custo ela convence o menino a pelo menos vestir uma cuequinha (ele cedeu sob protestos, parece), e ele anda de cueca pelo condomínio.

Pra além da graça toda da situação, e o fato dela agora chamar o menino de “curumim” , fiquei pensando no quanto a nudez é tabu. Ele e nós andamos sem roupa na casa com frequência. Eu inclusive ando sem roupa até quando temos visitas (evito quando tem homens, por pura convenção social), não tenho vergonha nenhuma.

Quando adultos, respeitamos as convenções sociais sem nem prestar atenção. Quando criamos uma criança, nós confrontamos com algumas regras que, pensando bem, não fazem sentido algum.

Pra que usar tanta roupa no verão? Por que não podemos andar pelados quando a roupa não serve para proteger? Por que tanto incômodo sobre o que vão pensar sobre nossos corpos?

**

E percebo, encantada, que minha maior expectativa em relação a ser mãe se cumpriu: é a melhor experiência antropológica que pode haver.

sobre sua mãe

Achei linda essa carta da moça para sua mãe que já se foi, por vários motivos, mas achei especialmente bonito a filha (que perdeu a mãe tão cedo) admirar nela o ímpeto de ser independente e fazê-lo. A mãe, uma vez por ano, a deixava com parentes para fazer viagens só.

Em tempos de tanta cobrança para que as mães sejam onipresentes e as crianças sejam o centro do universo é bonito ver um contraponto exatamente de quem perdeu a mãe.

O pouco tempo que ela teve com a mãe serviu também pra levar um exemplo de auto-suficiência, independência e desejo de realizar seus sonhos individuais. Porque tornar-se mãe não é necessariamente igual a viver em função dos filhos. Há quem viva, há quem não, não existe regra, colega. Sua opção não é melhor nem pior que a dos outros.