porque sofro por você

achava que o medo melhorava com o tempo (melhora), mas descobri que ele só muda, se disfarça. fica ali à espreita, basta uma brecha e ZÁZ, cá estou me forçando a limpar a mente, foco no HOJE, AGORA.

o medo é assassino da mente. o medo é a pequena morte que traz total obliteração. enfrentarei meus medos, permitirei que passem sobre mim e através de mim, e quando tiverem passado farei com que o olho interior enxergue seu caminho, onde o medo esteve não restará nada. somente eu permanecerei. (litania contra o medo)

fizemos seu primeiro exame de sangue depois do período de UTI neonatal (você odiou, claro), e agora TUDO passa pela minha cabeça. será que está tudo bem? são tantas as histórias horríveis de crianças doentes que eu tenho que me esforçar pra não pensar, não projetar, não sofrer.

você não tem se mostrado uma criança sociável, o que para os padrões da nossa sociedade é um problema grande. não tem amigos, não dá bola pra nenhuma criança. fala pouco, só quando tem mesmo alguma coisa importante pra dizer. as pessoas comentam, cobram, acham diferente, e eu sofro. não só porque seu jeito não se adequa à expectativa dos outros, mas porque sei que o mundo privilegia os extrovertidos, que você pode ser visto como antisocial ou esquisito para o resto da vida.

como lidar com o mundo, com a expectativa, com o desconhecido, o acaso, o incontrolável?

**

não sei. tento não me ocupar do que não está no meu controle, tento deixar para pensar e resolver coisas quando elas aparecem. mas o medo, ah.

**

quero ajudar você a navegar nesse mundo. somos muitos diferentes, e talvez minha angústia seja a de não poder compartilhar com você minhas ferramentas, minha história — talvez nada do que serviu pra mim sirva pra você.

vou precisar aprender a navegar de outro jeito, ver o mundo com seus olhos, aprender novas formas de viver, pra poder ensinar pra você. aprender junto.

**

mas o medo. ai.

diário do otto: 4 anos e 6 meses

otto,

os últimos 6 meses foram intensos, com mudanças importantes. seria impossível escrever uma cartinha por ano somente, então acho que vou manter a frequência semestral.

você mudou de escola, e os motivos estão todos aqui. ficamos com muito medo da mudança, mas depois de 4 semanas na escola nova estamos mais tranquilos — apesar da mudança radical (período integral, em inglês, tudo novo) você ficou todos os dias na escola sem reclamar, desde o primeiro dia. não chorou (como fez tantas vezes na 1a escola), não resistiu, e quando chega da escola está sempre muito feliz e animado. parece que está gostando, inclusive do aprendizado de inglês. sua socialização ainda não aconteceu do jeito que todos consideram normal — você continua introspectivo, não se interessa muito pelas outras crianças e sempre procura os adultos para conversar ou brincar. isso ainda nos preocupa, porque ficamos apreensivos sobre como será conforme você crescer. ter amigos é tão importante! ainda mais pra quem não tem irmãos e nem primos da mesma idade. mas tentamos respeitar seu tempo e estilo, vamos acompanhando.

um dos motivos da escola da escola nova é que você tem se interessado muito em falar inglês, por causa do desenho da dora, a aventureira. começou a repetir cores e expressões em inglês (os números você já sabia), e a querer aprender mais. achamos super legal seu interesse e vamos incentivar — como gostamos muito de viajar, temos vários amigos estrangeiros e poder falar/ler em inglês é também útil no dia a dia, será ótimo pra você.

segundo suas professoras você é bem tranquilo na escola, e as moças que ajudam na entrada e saída se referem a você como “o príncipe do K4” (que é o nome da sua turma). pelo jeito tem mais gente apaixonada pelo seu jeitão sério 🙂

mudamos também de casa no primeiro mês do ano, depois de 13 meses de obra, e estamos terminando. a mudança não foi muito súbita porque já visitávamos nossa casa nova praticamente todos os dias, então fomos nos acostumando com ela. nosso jardim é lindo, e você está se divertindo bastante. nossa casa é clara, ventilada, muito ampla e feliz <3

viajamos para Marília rapidamente no final do ano, para o natal na casa da vó Malu, pois nossa obra estava quase acabando. nossas férias esse ano vão ser muito bem planejadas, pois estamos numa contenção enorme de despesas (tudo que temos está sendo colocado na casa!). você visitou a família toda, brincou muito, tomou banho de mangueira, comeu fruta no pé, como as férias devem ser.

seus dias agora têm sido na escola das 7:20 às 15:15. tomamos café da manhã os 3 juntos, a mamãe faz o seu lanchinho (2, sempre bem caprichados e você come tudo), o papai leva você pra escola, você almoça por lá e então volta pra casa. encontra com a maria, brinca um pouquinho, então eu chego e podemos ficar juntos até a hora de dormir.

agora você dorme no seu quarto! colocamos um colchão de casal no chão, um tapetão e você normalmente fica a noite toda muito bem. às vezes acorda de manhã cedinho, e aparece no nosso quarto falando “oi, pessoal! vamos dormir juntinhos, os 3?” e a gente aceita sempre, claro.

(confesso que morro de saudade de dormir com você. de vez em quando eu acordo durante a noite achando que você chamou e vou pra sua cama, pra matar a saudade)

sua alimentação continua ótima — você já não come tanto quanto antes (em quantidade), mas continua comendo direitinho, adora frutas, legumes, verduras, arroz e feijão, etc. ainda não conseguimos convencer você a comer sanduíche e comidinhas-tranqueira, aos poucos vamos fazendo a sua des-educação!

quanto mais passa o tempo, mais gosto de passar tempo com você. é uma delícia ouvir suas ideiazinhas, brincar com as coisas que você gosta, ler histórias. você ainda está na idade de ter chiliques (que são muito engraçados em retrospectiva, mas ainda são bem irritantes), não lida bem em especial com o cansaço e o sono. quanto mais cansado, mais manhoso e bravo você fica, e ainda não reconhece que está na hora de dormir. esse momento é sempre tenso, de convencimento, cheio de rituais que ajudam o processo mas ainda são necessários porque você quer mesmo é que o dia dure “para sempre”, que o sol nunca vá embora e que seja sempre fim-de-semana.

ainda não posso te contar esse segredo, mas quando você puder ler esse texto, saiba que nós também queremos que os dias sejam eternamente um domingo ensolarado e azul, e que a segunda-feira seja “um dia”, e não amanhã.

um beijo cheio de amor da sua mamãe.

**

aqui as fotos dos seus 4 anos, até agora. tem muito mais pela frente! 🙂

apanhado do facebook: agosto

Chegou dia 1, que eu adoro em todos os meses , mas chegou também pra meu espanto (onde foi o resto do ano?) Agosto, que há 4 anos virou meu mês favorito.

Há 4 anos eu estava em casa, com uma barriga do tamanho do mundo, arrumando o quarto do menino, lavando roupas minúsculas e vendo a jabuticabeira florir.

Todos os anos, agora, passo esse mês de Agosto tentando lembrar da vida antes de ser mãe desse rapazinho, e parece outra vida. Era boa, às vezes era inclusive melhor, mas era outra.

No meio do inverno, me aqueço com as lembranças e esse amor tão novo, tão intenso.

**

Fiquei tão feliz hoje — fomos a um encontro com pessoas do meu trabalho e suas famílias, e como sempre não tive grandes esperanças do Otto ser sociável, em especial com as crianças da idade dele (com adultos o processo é lento mas acontece).

Além do evento ser uma delícia, o Otto não só se interessou pelas crianças (OK, não as da idade dele, mas pelo menos eram crianças!), como chegou a ir sozinho falar com elas e chamar para brincar! \o/

Mas, sempre estilo Otto-o-diferente: vendo as crianças brincando juntas, um monte de meninos, ele chega perto e fala: “Meninos, cheguei!”

(Bonitinho é ver os meninos tão receptivos, chamando ele e tentando enturmar. Dá um quentinho no coração vendo crianças do bem ♥)

**

Fernando está criando um monstro.

Eu gosto de trazer coisinhas pro Otto de vez em quando, quando chego da rua. Às vezes é um adesivo, um brinquedinho, um papel, um giz, algo de comer. E ele adora, claro, então vira e mexe, quando eu chego, ele além de me dar o melhor sorriso e abraço do mundo (nada se compara à carinha de feliz do filho quando a gente chega ♥), ele quer saber se “eu trouxe alguma coisinha”. Às vezes tem, às vezes não, e tudo bem.

Hoje tinha — comprei um monte de frutas lindas que tem perto do meu trabalho, e em especial um saquinho de cerejas pra ele.

Cheguei, abracei, beijei, ele pergunta: “tem alguma coisinha?” e lembrei que tinha.

Eu, mega empolgada: “Tem! Trouxe cereja!!”
Otto, desapontadíssimo: “oba.”
(Assim, com minúscula mesmo)
Eu, -fuén-: “O que você queria?”
Otto: “M&M, tem????”

Fer: “Tem, o papai trouxe!”

OLHA, TECONTAR! 😛

**

Otto enlouquecido com a visita do vô Gê, batendo papo agorinha:

Otto: “tem planetas lá fora?”
Vô: “o que você acha? Você conhece os planetas?”
Otto: “conheço, e acho que eles estão chegando!”

(Está anoitecendo e as estrelas começam a aparecer)

**

Hoje meu menininho completa 4 anos. Ontem eu disse que ele faria aniversário, e ele falou “mas eu quero que seja seu aniversário também!”

Expliquei pra ele que era meu aniversário também, já que no dia em que ele nasceu uma mamãe nasceu também. Que todo ano, no dia 27 de Agosto, eu também comemoro meu aniversário de mãe e fico muito feliz.

Eu, que amo o dia do meu aniversário, também tenho há 4 anos mais um dia no ano que é o dia mais feliz <3

**

Presentes de aniversário: bonequinhos da Eva e Wall-e.

“Ela é linda!” (Sobre a Eva)

“Eu adorei!”

Não dá pra explicar a felicidade de ver o filho da gente feliz. É sobrenatural.

**

Fiquei tão impressionada com o Wall-e que o Otto desenhou que fui perguntar pro Fer e Maria se eles não tinham desenhado!

**

Texto muito didático sobre essa técnica que eu uso há alguns anos (e não sabia que tinha esse nome), e é maravilhosa. Aprendi em cursos sobre feedback e depois lendo o livro “a auto-estima do seu filho” tudo fez ainda mais sentido.

Não é fácil aplicar, já aviso. Tenho dificuldade por exemplo com a escuta empática. Mas é essencial praticar, mesmo que nem sempre dê certo. A intenção é tão ou mais importante que o resultado.

**

Meu filho, esse que eu amo mais que tudo, me matando de vergonha: todo mundo chegando pra festa de aniversário com presente, e ao entregar pro Otto escuta algo como — “mas sabe o que eu queria MESMO de presente? O Chick Hicks”.

A gente escuta a mesma coisa há meses, e não achamos pra comprar. Encomendamos com a Raquel, e nem sei o que será quando o bendito chegar.