diário do otto: 2 anos e 9 meses

otto,

ah, menino, o famoso terrible twos veio com força no último mês! como toda criança aprendendo sobre o mundo, você faz tentativas e testes dos limites ao seu redor. físicos (sua cabeça cheia de galos que o diga) e emocionais. e nós, seus pais sempre atentos, estamos aqui pra garantir que os limites existam, apesar do trabalho danado que dá fazer isso.

um dia, se resolver ter filhos, você vai descobrir o quanto é difícil (e interessante, não vou negar) criar um ser humano. ou melhor — transformá-lo num cidadão, e não simplesmente num membro da mesma espécie. seria mais simples ceder, dizer sempre sim e seguir fingindo que estamos educando. mas optamos por ensinar você a ser um cara legal, consciente da existência de pessoas ao redor. um carinha que diz OI e TCHAU, que fala por favor e obrigado, que senta para comer com outros seres humanos. que se comporta a maior parte do tempo como um ser humano normal e sociável.

maior parte, eu digo, porque você está na fase de nos contradizer, de contradizer o mundo e a realidade. constatamos “olha, está chovendo!” e você dá um chilique-monstro, afirmando “NÃO TÁ CHOVENDO, TÁ SOL”. discute as cores (“isso não é vermelho, é AZUL”. e é vermelho), inverte as músicas todas (“NÃO atirei o pau no gato-to, mas o gato-to MORREU-REU-REU”). e assim vamos, virando os olhos e suspirando, pra não contrariar você. até porque não adianta — se concordamos que o azul é vermelho, você muda de ideia e o vermelho vira então vermelho mesmo, era o azul que estava errado. porque o importante é ser do contra, e discordar e dizer não.

o que fazemos? deixamos você ser do contra, a maior parte do tempo, sem stress. o problema é a menor parte do tempo, quando confrontamos por necessidade, e temos que lidar com sua frustração por ser contrariado. grito, choro, chilique e ranger de dentes. tudo muito chato e desagradável, mas enfim, sabemos que faz parte. e que um dia ainda contaremos essas histórias e você vai (com sorte) achar graça também.

neste mês, estivemos de férias, viajando bastante, e foi muito legal (fora os chiliques, claro). você amou a praia como sempre, viu golfinhos, nadou “sozinho” (de bóia de braço) na piscina e no mar, que era igual a uma piscina, tomou sorvete, dormiu até tarde, andou de avião… muitas coisas legais, pra gente guardar de lembrança. nestas férias também visitamos seus avós em marília e seu tio e avô em ubatuba. visitamos o projeto tamar, que você adorou (as tartarugas são lindas!), comemos bem, dormimos bem. tudo bem gostoso!

as conversas com você continuam muito divertidas, e cada vez mais complexas. você anda inventando mais histórias malucas que nos fazem morrer de rir 🙂 essa semana, me contou a história do bote dos indiozinhos em outra versão: o bote VIROU, e o jacaré comeu os pés e pernas dos indiozinhos. quando perguntei o que acontecia depois, disse que eles ficaram “estragados” e não podiam sentar, e aí encerrou dizendo que “consertaram” eles, e tudo voltou ao normal. há uns dias você virou pra mim e disse “mamãe, você é uma figura!”. como não amar?

neste fim de semana, pela primeira vez na vida toda, você viu um filme INTEIRO! \o/ colocamos detona ralph (desenho totalmente nerd, eu e seu pai AMAMOS) e você não só assistiu tudo como ficava comentando, nas horas “tensas” do filme: “o que vai acontecer agora?” <3

o seu desfralde, em compensação, vai na mesma: xixi quase sob controle, cocô progresso zero %. estamos tentando não nos estressar com isso, mas confesso que com o frio chegando a história piora, e fica mais complicada (roupa pra lavar, roupa molhada). mas vamos lá, nunca vi nenhum adulto normal usando fralda 😀

sua alimentação continua ótima no geral, em comparação com o que vemos por aí, mas você está mais seletivo desde que começou a fase “do contra”. come em menor quantidade, e escolhe mais. como sempre oferecemos muita variedade, não tem sido exatamente um problema, pois alguma coisa você sempre come (especialmente o que você escolhe, claro). mas algumas refeições você recusa quase tudo, e nossa política não mudou: come o que tem, ou não come. e aí só come na próxima refeição, nada de exceções. o que acontece na prática é que na próxima refeição você está com fome, e come o que tiver. e se não comer… só na próxima 🙂

continuamos firmes no propósito de minimizar açúcar e comidas não-saudáveis, e tem funcionado bem. você come o que tiver, sem grandes dramas. e por enquanto ainda não pede doces (e como não temos em casa, facilita bastante manter o controle em dias normais).

seu sono está bem, desde que durma na cama conosco. estamos ensaiando a sua mudança de volta pro quarto, mas ainda com bastante medo. afinal, nós só começamos a dormir depois que você veio dormir conosco. estamos escaldados, e relutantes em abrir mão de um sono tranquilo… vamos ver como segue nos próximos meses.

no mais, você está um menino lindo, educado (a maior parte do tempo, pelo menos), feliz, muito sorridente e carinhoso. é um prazer muito grande estar com você a maior parte do tempo 😀 na hora do chilique, a mamãe sempre pensa em chamar a mamãe-saruê pra um acampamento.

as fotos dos seus 2 anos e 9 meses você acha aqui.

beijo enorme da sua mamãe-figura.

diário do otto: 2 anos e 7 meses + 8 meses

menino-otto,

agora você é um menino. ainda não sabe usar o banheiro, é verdade, mas não fosse isso já poderia considerar você um ser humaninho, e não mais a criatura pertencente à espécie toda especial que são os bebês. pra nós — eu e seu pai — essa sua nova fase é infinitamente mais interessante e deliciosa. estamos apaixonados pela sua versão criança, por mais que você-bebê fosse lindo, louro e fofo.

agora é possível conversar com você! negociar, explicar, ouvir suas ideias, suas questões. nas últimas semanas você começou com questionamentos mais claros, e perguntou pra mim pela primeira vez “por que aquela luz tá piscando, mamãe?”. era um carro, na minha frente, e fiquei tão emocionada que expliquei pra você quase o código de trânsito 🙂

você agora pergunta “o-quês”, “porquês” e “comos”. e nós respondemos, cheios de encantamento e espanto. repito — pra quem não passou pela experiência de acompanhar um ser crescer daquela minhoquinha que é um recém-nascido para uma criança aprendendo sobre o mundo, é difícil explicar o quanto é incrível. tão incrível quanto ver um cavalinho sair de dentro da sua mãe e andar/correr (ok, os cavalos são mais incríveis). nosso cérebro é uma máquina espantosa, assustadora. observar você crescendo nos torna ainda mais amantes da natureza e da vida.

agora você canta músicas, da sua cabecinha, inventa palavras pra gente rir, conta histórias de forma eloquente e sempre bem-pau-sa-do, explicando tu-do. e fala com as mãozinhas <3 enfatizando seu ponto de vista com dedos, braços, caras e bocas. você é muito expressivo, sério e engraçado no seu método. nos últimos meses você tem sido mais “moleque”, sobe nas coisas, alcança coisas no alto, se arrisca mais. bem diferente do seu comportamento de sempre, o que nos deixa muito felizes. achamos que é a escola que está ajudando você a se soltar mais, e ser menos sério e contido.

ultimamente você tem se interessado ainda mais por livros, histórias, e pede que contemos a mesma coisa várias vezes. começou a achar filmes (TV ou ipad) mais interessante, até senta pra ver um pouco. a TV você não gosta muito porque quando tem intervalos (comerciais) você reclama e se desinteressa; quando precisamos que você dê sossego por um tempo mais longo, o ipad é tiro e queda — são horas (mesmo, se a gente deixar!) de desenhos, vídeos, músicas e jogos. mas você continua se interessando pelos carrinhos, dominó, pião e outros brinquedos.

e hoje, do nada durante o café da manhã, você anunciou “vou ler!”, e foi para o seu quarto. sentou, sozinho, com 2 livrinhos, 1 deles no colo e outro do lado, e ficou lá, “lendo”. sozinho. tranquilo. e nos convidou pra ler junto, pra rever as mesmas histórias, uma depois da outra. não sei descrever a emoção de ver você “lendo”, no seu quarto, como uma pequena pessoinha, não mais um bebê. com vontade própria, calmo, independente.

conviver com você tem sido fácil, na maior parte do tempo (tirando o desfralde, por enquanto sem progressos além do xixi). alimentar você é moleza (come de tudo, e muito), divertir você é fácil, seja na rua ou em casa. dormir ainda é aquela novela de 1 a 2 horas, na nossa cama. mas você dorme a noite toda, o que acaba nos deixando tão felizes depois de 2 anos de drama que a gente até esquece que você devia dormir na sua caminha 😀

a paixão pelas letrinhas e números continua, e você agora conta bonitinho em inglês (até 10, que tem num livrinho que você ganhou), e até corrige o meu THREE (“é FREE, mamãe!”). fala o SEVEN com o “n” bem marcadinho, chega a ser engraçado.

e recita as músicas e a “oração” de agradecimento pelo almoço, que fazem na escola. junta as mãozinhas e fecha o olho, agradecendo “a cleonice pelo almoço gostoso que ela preparou!”. é de apertar muito, de tanta fofura!

já não sei mais se vou conseguir escrever a cada mês. a impressão que tenho é que algo mudou, alguma chave, e aqueles marcos de desenvolvimento tão claros dos primeiros meses agora se misturam, e seu tornar-se menino é fluido, cada vez mais próximo dos seres humanos que somos nós, seu pai e eu. o sorriso de um, o cenho franzido do outro. mais que só mistura, você é uma ponte, um caminho que traz e leva mensagens de um para o outro, cria mundos e questões que não existiam antes de você existir.

acho que finalmente estamos aprendendo a ser pais, e não só filhos. incorporamos estes novos (e difíceis) papéis na nossa existência. e quanto mais você se destaca como ser independente de nós, mais nossa condição se aprofunda e evidencia. temos um compromisso, uma meta, um desejo — que você seja feliz, autônomo, confiante. um menino louro e sorridente no meio desse mundo enorme.

observo você sozinho pela casa, comendo, brincando, se escondendo. atravessando a escuridão de um corredor enorme e escuro, e sem medo algum, ficando na ponta dos pés para acender a luz. sozinho, tão confiante e tranquilo. ia dizer que tenho muito orgulho, mas a verdade é que não é isso, não; é admiração pela sua independência, seja nos passos do escuro, seja no dizer claramente que “não” quando necessário. porque, diferente da sua mãe, você diz não e sim com a mesma facilidade e tranquilidade. anda na escuridão, e enfrenta com alegria (e óculos escuros) a luz do sol do meio-dia.

menino solar, molequinho cheio de opinião, gatinho doce e carinhoso da mamãe — cada dia amamos mais você e suas descobertas. viver com você tem sido um grande presente!

beijo da mamãe.

PS: e as fotos e vídeos continuam! divirta-se com seus 2 anos e 7 meses e 2 anos e 8 meses.

diário do otto: 2 anos e 4 meses

otto-borogodó,

(ou piolhinho, tatu, tatuzinho, belzebu, bebê, godinho, meugato, gatito, pequeninho, menino, moleque)

sim, você agora se apresenta com nome e sobrenome. ouviu alguém falando “ó do borogodó”, e obviamente assumiu que era OTTO borodogó, e assim chama a si mesmo às vezes. mas aprendeu também a falar seu nome e sobrenome completo, “otto marvalhas balestrero” e é a coisa mais linda do mundo <3

neste último mês houve uma mudança significativa, que nos surpreendeu: subitamente você começou a cantar! não sabíamos que podia acontecer assim, do dia pra noite, mas com você assim foi. não cantava nada, absolutamente nada, só ouvia, atento, mexendo a boquinha imitando, mas sem som. e de repente, BUM: canta uma música toda, todinha. atirei o pau no gato, a casa, fui no tororó, e até clareana (“água, terra, fogo e aaaaaaarrrrr…”). sim, é claro que você só cantaria, ou arriscaria, com a certeza absoluta de acertar. nosso pequeno perfeccionista, você nasceu com a mãe certa, que vai insistir até seu último suspiro que se arrisque, tente, erre muito, pra poder acertar mais que errar, e se divertir mais que ter medo.

também mudou outra coisa, você começou a fazer perguntas diretas: “o que é isso?” ou “como chama esse?”. não começamos ainda os porquês, mas estamos aguardando ansiosamente, já que gostamos muito de perguntas-e-respostas.

você agora dorme juntinho comigo, desistimos da troca cama-berço-berço-cama. dormimos, e expulsamos o papai por enquanto. até que você se acostume com seu berço, e que queira dormir na sua cama. e por mais que haja quem pense que não muda, você já pede pra ir para o seu quarto, e de dia dorme bem no seu berço. e por enquanto, confesso que aproveito essa fase, tão curta, pra abraçar você, e ficar pertinho, de um jeito que sei que não será mais possível dentro em breve. meu bebê grande, menino carinhoso da mamãe.

sim, você é um menino observador, tranquilo, muito carinhoso e piadista (sabe tirar sarro da gente, entende piadas simples…). gosta cada vez mais das atividades físicas (com nosso incentivo), e continua apaixonado pelas letras e números, mas sem tanta fascinação agora que aprendeu todas as letras e contou até 20, ou mais. acho excelente que você conta errado, de propósito, subverte a ordem e não incentivamos que seja certo ou errado. queremos que você seja feliz, ria, se divirta. isso é mais importante que saber, fazer, decorar.

continua comendo muito bem, não recusa nada, não tem medo de tentar coisas novas. tenta, às vezes gosta e às vezes não. às vezes come tudo (mais frequente), às vezes recusa tudo, e diz não-não-não. ou NÃAAAA, que é a nova do mês. e chacoalha a cabeça, sai correndo, morrendo de rir de fugir das coisas e de ser do contra. essa sua idade, que chamam de “terrible twos”, às vezes é realmente terrível, especialmente quando tudo é NÃO, e se aplica até para coisas que você quer e gosta. está com fome, e fala NÃO só pra exercitar seu poder de fazê-lo. achamos que é importante que você o faça (e é engraçado às vezes), mas tem hora que cansa, confesso.

sua rotina de dormir agora é simples: você dorme na nossa cama, e acabou. planejamos levar você de volta pra sua cama, agora que já entende que é sua caminha, seu quarto e tal, vamos ver como funciona. mas desencanamos, e vamos esperar que você manifeste o desejo de ter seu espaço qualquer hora. por enquanto, não nos atrapalha (e dormimos, ufa, finalmente).

você tem lembrado da escola, professoras e amigos, o que é muito fofo. parece ter saudade da escola, e ficamos muito felizes. ficamos amigos dos pais de um dos seus amigos, ambos dinamarqueses vivendo no brasil, eles são muito legais e parecidos conosco, o que é uma surpresa. tínhamos medo dessa parte, dos pais dos seus amigos, mas por enquanto, tudo bem. até o aniversário dele (halfdan) foi legal, divertido, pra você e pra nós.

este mês foi dezembro, o primeiro natal que realmente você entendeu alguma coisa, apesar de não falarmos de papai noel e você ter dormido antes da ceia 🙂 mas ganhou presentes, gostou muito, e passamos uns dias na praia. sua visita à praia foi um acontecimento: já tínhamos ido à praia, mas desta vez você realmente participou, e AMOU. a cada onda você pulava, gritava e gargalhava de felicidade, foi a coisa mais linda. e nadou no rio “sozinho” (com bóias, né), brincou na areia, tomou picolé, se divertiu demais. e nadou no marzão aberto, num passeio de barco a parati, com os peixinhos (como na música). o pescador que nos levou mergulhou e trouxe um lindo ouriço, que você adorou, e lembrou dele por dias e dias (“o toninho mergulhou no mar e trouxe um ouriço!”). visitamos os aquários de ubatuba e SP, pra que você visse os peixinhos que tanto gosta. mas o que mais o encantou foram os cavalos-marinhos (e como não?)

temos nos divertido bastante cuidando de você, cantando, contando histórias, brincando na piscina, na rua, no jardim, conversando. cada dia é mais legal, melhor, e aprendemos mais sobre você, sua personalidade, e nos divertimos com suas ideiazinhas. você agora pede as músicas que quer ouvir e está especialmente apaixonado por “peixinhos do mar” (do milton nascimento) e “canto do povo de algum lugar”, do caetano, que foi a 1a música que ouviu fora da barriga, quando estava na UTI e seu pai cantava sempre, enquanto olhava você e segurava seus pezinhos, mãozinhas, enquanto aprendíamos a amar essa criaturinha incrível que você era e é.

aqui estão as fotos dos seus 2 anos e 4 meses. sempre achamos que não é possível amar mais, mas olha… nosso amor só aumenta! e todos os dias nos divertimos (e cansamos :D) muito com você, temos sido muito felizes.

um beijo com amor da sua mamãe.

dialética aos 2 anos

pra quem não sabe, entre 18 e 30 meses a maior parte dos bebês passa por um período de mudança significativo de comportamento, apelidado pelos americanos de terrible twos (referência aos 2 anos de idade). achei um artigo interessante sobre essa fase aqui.

a principal característica dessa fase é a demonstração de independência, exercício da vontade através do “não” e reforço do “eu”. e isso deve ser considerado positivo pelos pais — significa que o bebê está de fato se desenvolvendo neurologicamente conforme o esperado, pois é justamente nesta fase que o bebê entende que é um ser separado dos pais (mais especialmente da mãe), que tem suas próprias vontades, pensamentos, desejos e que pode exercitá-los. já vi quem chamasse essa fase de “adolescência do bebê” e faz todo o sentido, já que a adolescência é mesmo marcada pelo desejo do jovem de destacar-se da sua família, e criar seu próprio mundo e espaço independentes.

o otto já apresenta sinais de independência há muitos meses, mas nada muito marcante, são pequenas coisas que percebemos no dia a dia: dizer não para coisas que ele normalmente gosta ou resistir a trocar a fralda na hora que precisa trocar. com um pouco de jeito e alguma técnica é possível contornar sem stress.

mas ontem ele chegou a um novo nível: além de dizer “não” pra absolutamente tudo que era pedido ou oferecido, na hora do jantar ele olha o prato de salada (que adora) e diz “não qué querê!” 🙂 e comeu tudo, como sempre, mas no seu tempo, do seu jeito.

temos dormido juntos na minha cama, antes de colocá-lo no seu berço (ele demora pra dormir, acho mais prático fazer assim que ficar plantada do lado do berço dele). deitado na cama, no escuro, ele vira pra mim e diz: “tá do contra!” (repetindo algo que falaram pra ele durante o dia, com certeza). eu ri, e falei que não tem problema, que pode ser “do contra” também.

normalmente ele dorme abraçado comigo, ou segurando no meu braço. mas ontem quando o abracei, como faço toda noite, ele disse “não abaça, dumí shójinho!”. me segurei pra não rir, falei “claro, pode dormir sozinho, a mamãe tá aqui se você precisar”. dei um beijo de boa noite e deixei ele quieto. em alguns minutos ele pediu a hilda (coruja de pano) e o hugo (monstro de pano), que fazem companhia pra ele no berço. peguei os dois, e ele realmente não veio me abraçar — ficou tentando conversar comigo (depois de dar boa noite eu não converso mais com ele, só fico ali junto) e depois de insistir na conversa e ver que não ia funcionar, ele virou e dormiu sozinho com seus bichinhos!

achei uma graça (e muito significativo) que logo depois de começar na escola ele também tenha começado a manifestar seu poder de decisão, sua individualidade, a ponto de querer dormir (a parte mais complicada de toda sua rotina, desde que nasceu) so-zi-nho. e que tenha iniciado o ritual de separação da mãe, através da transferência do apego para os  bichinhos (achamos que ele ia pular essa fase, mas pelo jeito ainda está por vir).

minha forma de lidar com essa necessidade de independência é oferecendo opções quando possível (leia o último link que coloquei nesse texto), pra que ele possa de fato exercer sua vontade. deixo que ele diga não, e não forço quando não é preciso. adio um pouco a troca da fralda, deixo que ele escolha no prato o que quer comer, misturo fruta com salada com sopa, pra que ele decida o que quer primeiro, deixo que ele tenha pelo menos a sensação de que está no controle de algumas coisas. na grande maioria das vezes funciona — ele fica muito feliz de poder fazer as coisas do seu jeito, fica confiante e normalmente não confronta de novo.

ele tem testado um pouco mais os limites físicos também, e tenta fazer coisas “perigosas” (o que têm potencial de causar acidentes). quando o risco do acidente é baixo, tenho procurado deixar acontecer, sob supervisão (cair, por exemplo), pra que ele entenda causa-consequência.

mas não sou do tipo que negocia tudo o tempo inteiro: tem hora que não dá pra ceder, nem conversar, nem negociar. certas coisas são NÃO mesmo, com letras maiúsculas, e aí simplesmente exerço autoridade e pronto. às vezes é preciso trocar fraldas à força (porque não posso discutir naquele momento, e temos que sair, por exemplo), tirar coisas perigosas da mão dele ou desgrudá-lo do armário que ele resolveu se pendurar (e pode cair em cima dele). sempre converso e explico os motivos, mas quando precisa ser rápido, é inconveniente ou arriscado, não dou opção.

aliás, se tem coisa que detesto é observar essas mães bovinas, que falam com voz mole e com a bunda imóvel na cadeira, enquanto vêem os filhos fazendo merda. “fulaninhooô, coloca o sapaaaaato que a gente precisa ir pra casa. vou contar até 2 milhões, hein?!”. quero morrer. tem que colocar o sapato e sair e a criança tá enrolando? levanta essa bunda e coloca à força, pronto. depois, em casa, conversa e explica.

por enquanto estamos conseguindo lidar bem com a fase “do contra”. cedendo às vezes, confrontando outras. até pra que ele saiba que sim, pode e deve exercitar suas vontades, mas não sempre. que às vezes ele precisa sim se adequar às pessoas ao redor, mesmo que fique chateado.

como não tenho medo de cara feia e nem ligo pra chororô, quando ele fica bravo ou chora eu consolo, pego no colo e explico: eu sei que é difícil ser contrariado, não fazer o que a gente quer. pode chorar, a mamãe te entende.

mas não é e continua sendo não.