um post de maternidade desmotivacional

desde que começou essa história, esse blog, fiz questão de não glamurizar o processo, o ato, os fatos. ser mãe nunca foi um sonho pra mim, foi mais o desejo da experiência incrível (e é impossível se arrepender dela, pelo menos por mais de 10 segundos…) de gerar e criar um humano. antropologicamente imperdível, mas com tantos (tantos. TANTOS) momentos difíceis que justificam com muita folga a opção de “não, obrigada, fica pra próxima encarnação”.

no facebook eu compartilho frequentemente minhas dificuldades, peripécias e também as fofurices do Otto, mas hoje foi um dia especial: depois do post reproduzido (ops) abaixo, nasceu (ops!) um outro post derivado, brincando com a ideia de ajudar quem não quer ter filhos a se manter firme neste propósito, caso bata a dúvida ou apareça uma tentaçãozinha.

o post ficou engraçado, mas os comentários ficaram impagáveis. não vou conseguir reproduzir a dinâmica das respostas e dos diálogos paralelos, que me fizeram rir o dia todo, mas não podia perder a oportunidade de registrar as ideias sensacionais destas mães que se uniram pra rir de si mesmas, e dos absurdos da maternidade.

espero que vocês gostem, porque eu gostei demais, e ri tudo de novo compilando a lista 🙂

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o post original:

Você quer de alguma forma reafirmar seu desejo de não procriar?

Bate um papo comigo sobre a rotina da manhã nessa casa e eu garanto um bom tempo sem essa ideia insana de ter filhos passar pela sua cabeça.

— daí veio a ideia de criar um workshop inédito: palestras (des)motivacionais para quem NÃO quer ter filhos.

nos painéis estão listadas todas/os que colaboraram, porque isso foi escrito a sei lá quantas mãos. muitas. todas elas sujas de ranho.

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você está determinada/o e não ter filhos, mas recebe pressão da família ou do/a parceiro/a e precisa de ajuda para se manter firme no seu proósito? este workshop foi feito pra você!

venha conhecer a realidade de pais e mães sincerões, que vão contar a real do mundo das pessoas-com-filhos tirando a parte que todo mundo já conhece: filhos-são-a-melhor-coisa-do-mundo 😀

(este post não é patrocinado pela JONTEX, mas estamos abertos a propostas)

há painéis / palestras disponíveis para todo tipo de interesse, os assuntos são intermináveis:

  • Cama compartilhada: como dormir em 10cm, com pé de criança na sua boca. Renata Corrêa
  • Tempo para si mesmo depois de ter filhos: uma ilusão. Carla
  • A arte de manter vivo um ser humano que não acredita em alimentação sólida. Tina
  • Sobrevivendo às manhãs de choro, chilique e ranger de dentes, todos os dias por anos a fio. Zel
  • What Not To Wear protagonizado por crianças e sua correlação com a pressão alta em mães. Por Silvia M.
  • Como sobreviver sem assassinar nenhum parente de 1o grau após 3 anos sem dormir uma noite completa. Angela R.
  • Como criar adolescentes e vencer o monstro do mau humor generalizado. Simone M.
  • Planejamento Estratégico e Alocação de recursos, módulo básico: tirando férias das férias das crianças através da chantagem com os avós. (palestrante ainda em aberto — sugestão de Ila F.)
  • Xixi e cocô na hora das refeições — planejando um cronograma efetivo para driblar interrupções. Camila B.
  • Como dirigir na hora do rush enquanto acalma as crianças no banco de trás: conheça relatos verídicos de pessoas que não enlouqueceram. Rita P.
  • Relato de vivência: “Bati o carro para não bater nas crianças que gritavam no banco de trás”. Silvia M.
  • Nutrição, módulo 1: comida fria e restos devolvidos pelo filho ainda são melhores que não comer. Simone M.
  • Multitarefa, módulo 1: Como escrever um texto enquanto seus filhos brigam e se pegam – A arte de otimizar o uso de seus braços, ouvidos e fala. Stella R.
  • Multitarefa, módulo 2: Como se fingir de morta enquanto trabalha e os filhos põem a casa abaixo. Silvia M.
  • Módulo de vivência des-motivadora: Brincando com o filho dos outros – a arte de devolver mais sujo que pegou. Vevê M.
  • Especialização rápida para crianças descabeladas: Desembaraçando Cabelos Cacheados. Rita P.
  • Privacidade, uma fábula pós-maternidade: Como se concentrar enquanto seu filho te chama/abraça/chora/fica no seu colo/faz gracinhas enquanto você realiza atividades fisiológicas ou de higiene pessoal. Por Emili G.
  • Maternidade Zen Saco: Como manter a paz interior enquanto seu filho, sem nenhum motivo aparente ou lógico, bate a cabeça no chão, na parede, no vidro do carro, no vidro do restaurante, na rua, na chuva, na fazenda ou numa casinha de sapê. Por Fernanda W.
  • Short e camiseta regata aos 11o C: Quebrando a resistência ao guarda-roupa de frio. Por Camila L.
  • Os 7 anos: como sobreviver às vontades próprias, birras e o poder de argumentação dos pequenos seres dessa idade. Vanessa M.
  • O poder da oxitocina, módulo básico: Achando fofo a criança que cospe água do chuveiro — a estética da primeira infância. Por Carla
  • Sexo e Tesão, após a maternidade: ele existe ou resiste? Por Luanna
  • Como ouvir 58 vezes por hora MAAAAÃEEEE + reclamação e/ou pedido sem perder a paz de espírito. Por Dani F.
  • Como lidar com o marido que quer ser outro filho. Consuelo
  • Negociação básica: Como dizer não à criança que acha que comida do seu prato é mais gostosa que a do dela sem causar uma calamidade pública. Por Dani F.
  • Negociação avançada: Como mandar seus filhos tomar banho, pentear o cabelo e escovar os dentes de mil formas diferentes — Do amor à ameaça de morte. Por Naomi
  • Negociação, técnicas anti-terrorismo: Aprenda que usar cachaça não é mais permitido e entenda como sobreviver. Mesa de palestrantes mista em formato de sessão de descarrego, regada a muito vinho
  • Das fraldas sujas da primeira infância ao chulé da adolescência: como sobreviver sem máscara de oxigênio. Por Mariana D.
  • Odontopediatria para leigos: “20 dentes, esses inimigos causadores do caos”. Lorena R.
  • Marketing pessoal, nível avançado: Como convencer todas as pessoas na rua que você não espancou e torturou seu filho, ele só tomou uma vacina. Angela R.
  • Técnicas de Feedback indireto: táticas para antecipar momento SINCERÃO do seu rebento e evitar dissabores pela rua. Naomi, COM LOUVOR.

Estudos de caso:

– C. 7 anos, sobre a escolha de música da Kate Perry para a festa de uma amiga: “eu acho essa música inadequada para crianças”

– O. 4 anos, para visitantes em sua casa: “eu acho que vocês deviam ir para suas casas agora”

– Filhos da Naomi, idade irrelevante: “não sei porque gente burra teima em dar opinião!”; “moça, você sabia que o seu perfume fede?”; “se a barriga dele não fosse tão grande, caberia mais gente no elevador né, mamãe?”

– Y. 4 anos, almoçando na casa da madrinha: “essa sua comida ficou um pouco ruim”

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aguardamos a presença de todas/os 🙂 (quem quiser que coloque link no post me avisa, e eu atualizo)

entrevista sobre ser mãe

uma amiga me indicou para ser entrevistada sobre a experiência de ser mãe, e como não sei se a entrevista vai mesmo ser publicada (sou uma entre várias entrevistadas), fica aqui para registro e caso alguém queira saber 🙂

(se sair alguma parte dela na revista eu coloco o link aqui depois)

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Você escreveu no seu blog algumas vezes que não tinha o sonho de ser mãe, mas ama a experiência, hoje, de ver o filho crescer e descobrir coisas. Como é essa descoberta? Como foi essa mudança?

Nunca tive sonho de engravidar e ser mãe, não fazia parte das minhas metas, desejos. Mas aos 36 anos mais ou menos (meu marido, 34) começamos a conversar sobre o assunto e achamos que apesar de nenhum de nós ter esse desejo apaixonado a experiência devia ser muito interessante. Brincamos que foi uma “experiência antropológica”, e é mais ou menos isso mesmo. Não fomos do tipo que celebra a gravidez e a nova vida, aquela coisa de cinema. Sempre fomos bem pragmáticos e encaramos a experiência como uma jornada, uma novidade, sabendo que muda tudo na vida e é um outro caminho. Depois do nascimento do Otto as descobertas foram diárias, às vezes muito incríveis de tão legal e às vezes muito chatas e desagradáveis. Como não romantizamos a experiência, acho que pudemos viver tudo — a parte linda e a parte muito chata de ser pai e mãe.

Como foi sua gestação? Nessa fase, quais foram as “surpresas”, coisas que você não esperava e acabou tendo de se adaptar?

A gestação foi tranquila, engravidamos poucos meses depois de decidir que íamos ter filhos. Não posso reclamar de quase nada da gravidez em si, porque tive poucos incômodos (azia o período todo, enjoo no começo, e o final é inevitavelmente difícil fisicamente, pelo volume). Só uma lembrança de incômodo é bem forte: fiquei com nojo de alho, então comer fora era difícil e chegar perto de gente que tinha comido alho acabava com meu dia! Felizmente passou. Fora isso foi vida completamente normal, trabalhando e fazendo tudo que sempre fiz.

O mundo da maternidade tem várias “regras”, que já viraram às vezes até piada. No seu blog, por exemplo, você sempre fala de #paidecesarea. Como você vê essa história da escolha do parto? Como lidou com isso?

Eu já tinha lido e acompanhado muito sobre parto humanizado bem antes da ideia de ter filhos, e na minha família quase todas as mulheres fizeram parto normal de vários filhos (apesar de não serem nada humanizados, ao contrário). Pra mim era claro que queria um parto humanizado sem intervenção desnecessária (no meu corpo ou no corpo do bebê), de preferência, como é a recomendação da OMS. Tendo engravidado com 37 anos, minha gravidez automaticamente era considerada de risco, o que complicava a opção de parto em casas de parto (muito recomendada por várias pessoas) e eu não queria fazer parto em casa também. Fiz acompanhamento inicial na casa Moara (muito boa, recomendo), mas eles não atendem no interior, onde moro. Achei então uma obstetra na região alinhada com meu plano de parto (uma dificuldade enorme, a propósito), visitei hospital, falei com pediatra chefe, fizemos um plano completo de parto. Ou seja — nos engajamos muito no processo todo, sabendo das dificuldades de evitar intervenção. Mas no final das contas, acabei fazendo uma cesárea emergencial, pois no processo de trabalho de parto houve uma complicação grave. O Otto nasceu de 41 semanas e 5 dias e ficou 8 dias na UTI em observação, graças ao parto complicado, mas eu fiquei muito bem e ele também. Saiu tudo diferente do que eu planejei, mas estou certa que o processo que adotamos foi o melhor possível, e isso é que é importante: ser protagonista da gestação, do parto, e ser acolhida pelos profissionais que estão dando o apoio (ao contrário de ser coagida, por medo).

Depois do nascimento do Otto, como ficou sua rotina? Havia algo que você imaginava e que foi totalmente diferente?

A rotina mudou completamente, a vida virou outra. Fiquei de licença por 7 meses, então tive muito tempo de tentar me adaptar (e não adiantou nada, porque quando estava entendendo o que estava acontecendo, mudei a rotina!). Eu não tinha ideia de como seria, só sabia que seria diferente e cansativo. O Otto mamava muito (amamentei em livre demanda), mais ou menos de 2 em 2h, e demorava 40min para mamar, o que torna o processo muito desgastante fisicamente. O Fernando (meu marido) foi um suporte essencial, pois ele fazia tudo que não fosse dar de mamar, e nossa funcionária e nossa família ajudaram muito também. Sem ajuda é uma tarefa impossível. Jamais esquecerei o ditado africano que diz “é preciso uma aldeia para criar uma criança”, porque é 100% verdade. Ajuda é fundamental — mas precisa ser ajuda de verdade, e não palpite e julgamento. É preciso de espaço e tranquilidade para errar e acertar, e conhecer aquele ser humano que acaba de chegar e muda toda a dinâmica da família, da casa, do relacionamento. Eu não tinha ideia de que ficaria sem dormir (ou dormindo picadinho) por tanto tempo, pra ser honesta. As pessoas nunca dizem a verdade pra gente, e repetem que “o amor incondicional compensa tudo”. Não me senti assim, e apesar de toda a alegria que traz a chegada de um filho, há também o medo e o cansaço, que são muito grandes.

Como foi lidar com questões cheias de expectativas, como rotina de sono e amamentação?

A amamentação foi muito tranquila, desde que o Otto começou a mamar (ainda na UTI). O início, quando ele estava com soro ou recebendo meu leite por caninho, e eu tinha que ordenhar, foi MUITO difícil, assim com letras maiúsculas mesmo. O processo de ordenha é muito mais difícil que amamentar, mas felizmente eu tive um apoio maravilhoso das enfermeiras no hospital, foi essencial para o processo e para a minha sanidade mental. Estar com filho na UTI, recém-parida (com dor, por causa da cesárea) e ainda ter dor e dificuldade para ordenhar é um horror. Mas quando ele veio para o peito (5 dias depois do parto, somente) foi muito tranquilo, ele mamou bem e de forma simples, e foi assim até parar de mamar por conta própria aos 9 meses. Então fora a dor na lombar (tenho uma hérnia) que voltou nos meses da amamentação e o cansaço da frequência, amamentar foi tranquilo. Já o sono foi infernal, eu sempre adorei dormir muito, e me senti um zumbi por vários meses. Fiquei sem dormir uma noite completa (6h seguidas) até perto do menino completar 2 anos, quando decidimos (tarde demais, na minha opinião) fazer cama compartilhada. Depois que ele veio dormir na nossa cama, nossa vida mudou: melhorou MUITO, pois já não acordávamos mais durante a madrugada para fazê-lo voltar a dormir. Deixá-lo chorando sozinho nunca foi uma opção pra nós, então o processo todo foi muito desgastante. Se tivesse nos ocorrido que dormir junto seria tão simples, teria mantido assim ao invés de colocá-lo no berço no seu quarto aos 5 meses, como fizemos.

Você conta também da expectativa de o filho ser parecido com você, e que, diferentemente, ele é introvertido. Como você lida com isso?

Isso é uma das coisas mais difíceis e mais bonitas da maternidade, na minha opinião. O Otto é completamente diferente de mim, em personalidade, e mais parecido com o pai. Mas o pai é adulto, e já aprendeu a “navegar” no mundo dos extrovertidos. Pra mim é um mundo novo, complexo, misterioso, e com o qual não me sinto 100% à vontade, sempre fica a paranoia de que o menino “tem problema” porque não é extrovertido e super sociável. Por mais que a pediatra afirme que ele é ótimo, e várias pessoas confirmem que isso é só personalidade, eu não consigo entender, então fico tensa. Mas está melhorando, conforme eu leio, converso com amigos introvertidos e (o mais importante) presto atenção aos meus preconceitos. É isso que tenho feito: me educado, e aprendido a conviver com a diferença (o que me faz muito bem na vida de forma geral, não só como mãe). Mas nunca tive grandes expectativas concretas sobre meu filho, até porque nem pensava em tê-lo. Sou muito flexível e gosto de improvisar, seja pra mim mesma ou pra família, então não fico fazendo planos ou pensando no que ele vai fazer, o que vai estudar, essas coisas. Eu quero mesmo é que ele seja saudável, feliz, seguro, e isso ele já é desde muito pequeno. Apesar de introvertido, ele é muito assertivo, objetivo, se expressa bem, sabe o que quer, sabe dizer não (coisa que eu aprendi aos 30!). Não podia querer nada além disso.

Hoje, com ele maior, como é a rotina de vocês? Como os cuidados com ele se encaixam em seu dia a dia (viagens, trabalho etc.)?

Minha rotina é bem estruturada, mas não é exatamente rígida (ou seja, a gente adapta quando precisa). Eu trabalho fora o dia todo, sou gerente de TI de uma multinacional para a América do Sul, o trabalho me exige muito. Mas já na gravidez decidi que seria mais regrada com minha dedicação ao trabalho, e procuro fazer poucas horas adicionais, sempre dou muito foco em ser produtiva ao máximo no horário de trabalho, e desligar quando vou pra casa — é assim que tenho feito, e funciona muito bem. Nossa família foi organizada de um jeito muito moderno, e diferente da maioria que conheço — eu trabalho das “8 às 17h” e meu marido é freelancer, desde antes do Otto nascer. Então é ele que cuida de coisas da casa, supermercado, que leva e traz o Otto para a escola, que resolve todas essas coisas do dia a dia, que cuida dele quando eu viajo a trabalho (raro, mas acontece). Temos ajuda de uma super funcionária (segunda a sexta), que cuida da casa e ajuda com o Otto quando o pai não está. Eu chego à noite e só brinco e cuido do Otto, junto com ele. No fim de semana, passeamos, fazemos coisas juntos, nada muito planejado — fazemos o que temos vontade. Não gosto de criar “calendário” para a criança, já basta a nossa vida de adulto cheia de compromissos. Então, temos nossa rotina do dia a dia bem fixa (horário de escola, almoço, lanche, jantar, dormir), mas estamos sempre dispostos a improvisar e nos fins de semana fazemos o que der vontade. Quanto às viagens, é uma das atividades que mais amamos, desde que casamos, e o Otto foi incluso nessa rotina a partir de 1 ano. Viajamos todos os anos, para diversos lugares diferentes, outros países ou aqui mesmo, sem muito planejamento, improvisando no caminho. A experiência é diferente com uma criança (quanto menor, mais difícil), mas é também muito bonita — ver o mundo através dos olhos da criança (além dos seus) é mágico, e muito interessante. Dá trabalho? Dá, mas vale a pena.

Uma coisa que vale para todas as perguntas que você me fez, vale em especial aqui: para ser feliz na experiência de ser mãe e pai é preciso parar de perseguir a perfeição, o “certo”, e ver alegria e beleza na surpresa, na diferença e até na dificuldade (mesmo que seja olhando depois). Criar uma criança é reviver nossa própria história, e muitas vezes fazer as pazes com o passado. Caso você insista em condenar o passado, e for muito perfeccionista, o sofrimento é inevitável. Eu escolhi ser feliz 🙂

sobre sua mãe

Achei linda essa carta da moça para sua mãe que já se foi, por vários motivos, mas achei especialmente bonito a filha (que perdeu a mãe tão cedo) admirar nela o ímpeto de ser independente e fazê-lo. A mãe, uma vez por ano, a deixava com parentes para fazer viagens só.

Em tempos de tanta cobrança para que as mães sejam onipresentes e as crianças sejam o centro do universo é bonito ver um contraponto exatamente de quem perdeu a mãe.

O pouco tempo que ela teve com a mãe serviu também pra levar um exemplo de auto-suficiência, independência e desejo de realizar seus sonhos individuais. Porque tornar-se mãe não é necessariamente igual a viver em função dos filhos. Há quem viva, há quem não, não existe regra, colega. Sua opção não é melhor nem pior que a dos outros.

criação com apego

Com algumas diferenças, essa foi a opção que fizemos aqui na forma de criar o Otto. Ele sempre odiou sling, então ficava muito no colo. Sempre pegamos no colo quando chorava, nunca deixamos chorando. Mamava quando queria. Dorme na nossa cama até agora. Sempre escutamos o que ele quer, e negociamos o que fazer e não fazer os 3, ele não é menos considerado por ter 3 anos.

E não, ele não pode fazer tudo o que quer. Aqui adotamos o castigo (sentamos junto com ele pra pensar e conversar sobre o que aconteceu). Quando ele não é legal conosco ou com outras pessoas, procuramos fazer com que haja consequências que ele entenda. Tiramos coisas que ele gosta, por exemplo. Pedimos que ele diga obrigado e por favor, aqui, porque é assim que o tratamos e queremos tratamento igual da parte dele. Não gritamos com ele e não deixamos que ele grite conosco.

E por enquanto estamos contentes com o resultado. Alguns dias são mais difíceis que outros, mas no geral o comportamento dele é bem alinhado com o nosso, a convivência com as outras pessoas também é boa e tranquila. As pessoas elogiam o comportamento dele, que é uma criança bem querida.

Cada família tem uma dinâmica, não acho que exista forma “certa” de educar. Importante é ter mais gente feliz, confiante e boa com seus semelhantes neste mundo. Essa é a nossa meta pra ele, e esse caminho eu acho que leva pra lá 🙂

o mito da maternidade — meus 2 cents

circula por aí essa entrevista concedida pela filósofa marcia tiburi a respeito do mito da maternidade, e o movimento pela libertação das mães (MLM).

eu gostei muito da entrevista, e da perspectiva dela. aqui no meu espaço pessoal, me permito julgar só um pouquinho, e com base somente na leitura dessa entrevista, um aspecto que me chamou a atenção: a pena da mãe (da geração anterior a ela) e também da filha (a ponto de pedir desculpas por tê-la trazido a este mundo). suponho que ela tenha pena de si mesma também, por extrapolação, e realmente não gosto desse posicionamento da mulher como vítima da sociedade, #mimimi. me parece até que existe um incômodo com a condição de mulher/mãe/filha. mas isso é assunto pra terapia (a dela :)).

e foi só isso que não gostei, de resto concordo muito com o posicionamento e a interpretação. gosto especialmente da clareza com que ela desconecta (e critica) o aspecto “natural” da maternidade do ato prático em si:

uma mulher até pode vir a gostar do filho depois do parto, mas não quer dizer que tenha gostado de pari-lo ou que tenha se encantado com sua condição de bebê. não podemos mais naturalizar isso. naturalizar é mistificar.

concordo tanto! já repeti isso com outras palavras aqui inúmeras vezes, e fico feliz em saber que outras mulheres também o percebem: maternidade não é sinônimo de instinto, amor incondicional e nem prazer em cuidar de bebês. até porque (me repito, sem parar) nossos filhos são bebês e crianças a menor parte de suas vidas. a maior parte das nossas vidas somos adultos, e continuamos a nos relacionar com nossos pais. não ser plena e feliz cuidando de bebês não quer dizer absolutamente nada sobre sua capacidade como mãe, ou seu amor, enfim.

adorei a insistência dela sobre ser mãe <> ter filhos! qualquer pessoa, independente do sexo ou da relação afetiva/genética, pode ser mãe, pode estar mãe em algum momento. pais, amigos, tios, professores podem ser mães. eu já tive mães outras em vários momentos da vida, já fui mãe pra minha mãe, inclusive.

e não posso deixar de mencionar a importância da questão do aborto e da opção de simplesmente não ter filhos (atenção — podemos continuar sendo mães sem ter filhos ;)). e do quão é importante permitir essa opção sem julgamento. assim como é essencial para que sejamos livres, como mulheres, podermos trazer à luz nossos incômodos e dificuldades com a maternidade.

mas como assim, é incômodo ser mãe? como podemos dizer que é chato, cansativo e irritante às vezes? que tipo de mãe somos nós, que não padecemos no paraíso, que não idolatramos nossa placenta e nem os rebentos maravilhosos, raios-de-luz que trouxemos ao mundo? como temos coragem de optar  pela maternidade e não nos dedicarmos completamente a ela, aos nossos bebês? se era pra reclamar, por que parimos?

é incrível como mulheres que se acham modernas e humanas repetem (consciente ou inconscientemente) essa mística, esse discurso reducionista e ralo de que “ser mãe é se dedicar”. e que se não for para se dedicar completamente ou se for pra reclamar, “melhor não sê-lo”.

lutamos pelo direito a abortar um feto, mas criticamos opções de maternidade diferentes da visão mais idealizada da santa-mãe-dedicada? liberdade então só vale para quem ainda não é mãe, é isso? resolveu parir… embale! tsc, tsc, tsc.

que possamos ser livres, com ou sem filhos, para exercer nossa maternidade da forma que melhor nos couber, dentro das oportunidades que forem apresentadas e da nossa possibilidade. com responsabilidade, claro, que é o que se espera de um ser humano decente, em relação a qualquer outro par. mas sem culpa, sem cartilha, e sem julgamento.

pratiquemos a diferença, sejamos diferentes. se quisermos mudar o mundo, devemos mudar através de ações, não é preciso dizer aos outros como viver. as opções de vida e comportamento são infinitas, muito mais diversas e únicas que a nossa capacidade de interpretação ou projeção.

o mundo, as pessoas e os comportamentos não precisam fazer sentido pra todo mundo o tempo todo. precisamos parar de tentar “fazer caber” o comportamento alheio no nosso sistema, ou mapa mental.

como meta pessoal, pratico (com extrema dificuldade e várias falhas) não julgar, não rotular, concentrando em melhorar a mim mesma somente (o que já é muito e bem difícil). ao resto do mundo, reflito e respondo, usando minha perspectiva, na esperança de oferecer outro ponto de vista e assim eventualmente ajudar alguém.

vida longa a qualquer iniciativa de libertação, seja do que for. o que menos precisamos é de mais uma âncora-de-expectativa sobre o que devemos ser.