o que NÃO é autismo

Excelente artigo sobre disgnósticos precipitados (e incorretos) de autismo, quando o que a criança apresenta é simplesmente comportamento tipicamente masculino e introvertido. Também esclarece um pouco sobre comportamento típico de crianças de 1-3 anos.

Muito interessante para que observar e respeitar características inatas de cada criança, sem necessidade de rótulo, porém lembrando que existem algumas inclinações, sim, e elas são perfeitamente naturais. Nem todos serão extrovertidos e verbais.

“The stereotype of boys as logical, inflexible, and businesslike in their communication habits is more than just a stereotype. A recent massive study out of the University of Florida involving fifty-four hundred children in the United States ages eight to sixteen indicates that twice as many boys as girls fit this thinking-type temperament. Conversely, twice as many girls as boys fit the feeling-type temperament— tactful, friendly, compassionate, and preferring emotion over logic.”

o mito da maternidade — meus 2 cents

circula por aí essa entrevista concedida pela filósofa marcia tiburi a respeito do mito da maternidade, e o movimento pela libertação das mães (MLM).

eu gostei muito da entrevista, e da perspectiva dela. aqui no meu espaço pessoal, me permito julgar só um pouquinho, e com base somente na leitura dessa entrevista, um aspecto que me chamou a atenção: a pena da mãe (da geração anterior a ela) e também da filha (a ponto de pedir desculpas por tê-la trazido a este mundo). suponho que ela tenha pena de si mesma também, por extrapolação, e realmente não gosto desse posicionamento da mulher como vítima da sociedade, #mimimi. me parece até que existe um incômodo com a condição de mulher/mãe/filha. mas isso é assunto pra terapia (a dela :)).

e foi só isso que não gostei, de resto concordo muito com o posicionamento e a interpretação. gosto especialmente da clareza com que ela desconecta (e critica) o aspecto “natural” da maternidade do ato prático em si:

uma mulher até pode vir a gostar do filho depois do parto, mas não quer dizer que tenha gostado de pari-lo ou que tenha se encantado com sua condição de bebê. não podemos mais naturalizar isso. naturalizar é mistificar.

concordo tanto! já repeti isso com outras palavras aqui inúmeras vezes, e fico feliz em saber que outras mulheres também o percebem: maternidade não é sinônimo de instinto, amor incondicional e nem prazer em cuidar de bebês. até porque (me repito, sem parar) nossos filhos são bebês e crianças a menor parte de suas vidas. a maior parte das nossas vidas somos adultos, e continuamos a nos relacionar com nossos pais. não ser plena e feliz cuidando de bebês não quer dizer absolutamente nada sobre sua capacidade como mãe, ou seu amor, enfim.

adorei a insistência dela sobre ser mãe <> ter filhos! qualquer pessoa, independente do sexo ou da relação afetiva/genética, pode ser mãe, pode estar mãe em algum momento. pais, amigos, tios, professores podem ser mães. eu já tive mães outras em vários momentos da vida, já fui mãe pra minha mãe, inclusive.

e não posso deixar de mencionar a importância da questão do aborto e da opção de simplesmente não ter filhos (atenção — podemos continuar sendo mães sem ter filhos ;)). e do quão é importante permitir essa opção sem julgamento. assim como é essencial para que sejamos livres, como mulheres, podermos trazer à luz nossos incômodos e dificuldades com a maternidade.

mas como assim, é incômodo ser mãe? como podemos dizer que é chato, cansativo e irritante às vezes? que tipo de mãe somos nós, que não padecemos no paraíso, que não idolatramos nossa placenta e nem os rebentos maravilhosos, raios-de-luz que trouxemos ao mundo? como temos coragem de optar  pela maternidade e não nos dedicarmos completamente a ela, aos nossos bebês? se era pra reclamar, por que parimos?

é incrível como mulheres que se acham modernas e humanas repetem (consciente ou inconscientemente) essa mística, esse discurso reducionista e ralo de que “ser mãe é se dedicar”. e que se não for para se dedicar completamente ou se for pra reclamar, “melhor não sê-lo”.

lutamos pelo direito a abortar um feto, mas criticamos opções de maternidade diferentes da visão mais idealizada da santa-mãe-dedicada? liberdade então só vale para quem ainda não é mãe, é isso? resolveu parir… embale! tsc, tsc, tsc.

que possamos ser livres, com ou sem filhos, para exercer nossa maternidade da forma que melhor nos couber, dentro das oportunidades que forem apresentadas e da nossa possibilidade. com responsabilidade, claro, que é o que se espera de um ser humano decente, em relação a qualquer outro par. mas sem culpa, sem cartilha, e sem julgamento.

pratiquemos a diferença, sejamos diferentes. se quisermos mudar o mundo, devemos mudar através de ações, não é preciso dizer aos outros como viver. as opções de vida e comportamento são infinitas, muito mais diversas e únicas que a nossa capacidade de interpretação ou projeção.

o mundo, as pessoas e os comportamentos não precisam fazer sentido pra todo mundo o tempo todo. precisamos parar de tentar “fazer caber” o comportamento alheio no nosso sistema, ou mapa mental.

como meta pessoal, pratico (com extrema dificuldade e várias falhas) não julgar, não rotular, concentrando em melhorar a mim mesma somente (o que já é muito e bem difícil). ao resto do mundo, reflito e respondo, usando minha perspectiva, na esperança de oferecer outro ponto de vista e assim eventualmente ajudar alguém.

vida longa a qualquer iniciativa de libertação, seja do que for. o que menos precisamos é de mais uma âncora-de-expectativa sobre o que devemos ser.

família e princípios — essas coisas de antigamente

hoje no facebook me deparei com 2 artigos que motivaram textos distintos, mas que resolvi juntar por aqui, porque os assuntos são afins: de um lado, mais um programa de TV promovendo o consumismo infantil, para além de quaisquer limites do aceitável; de outro lado um artigo asqueroso de um jornal paranaense afirmando que crianças adotadas por homossexuais não fazem parte de uma família. família = mulher, homem, crianças.

(o título do artigo: a PERVERSÃO da adoção)

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sempre achei criança e o universo infantil um tanto enfadonho, enquanto adulta-e-sem-filhos. via crianças mal educadas e sem noção, e torcia o nariz pra elas. “criança no geral é chato, né?”. depois de ter meu filho e começar a conviver com crianças mais intensamente (a minha e as dos outros) percebi que meu incômodo fora mal direcionado a vida toda. crianças são incríveis (porém MUITO cansativas, isso é real), o problema são SEMPRE os adultos que as cercam, em especial os pais. os adultos ao redor transformam promessas de seres humanos normais em criaturas sem-noção-e-sem-discernimento.

vejam o exemplo do programa de TV: qual adulto empenhado em educar seu filho e transformá-lo num cidadão do mundo atual (redução de consumo, respeito pela diversidade, etc.) entraria nessa onda de “festas milionárias”? aliás, pra quê festas de criança tão consumistas e fora da realidade de 99% do mundo? o que as crianças aprendem, em eventos como esses? e eu sei, esse é o exagero do exagero, mas pensem nas festas “comuns” em buffets, totalmente pasteurizadas, deixando presente no baú da porta. as crianças nem recebem mais os presentes (e os abraços) dos convidados. o afeto deixou de ser foco FAZ TEMPO, virou coleta de presentes, comilança de frituras e uma zona de crianças sem limite, cuidadas por monitores que são pagos pra não estrangular nossos filhos sem noção.

e mesmo com tantos exemplos de “famílias” fazendo besteira atrás de besteira na educação dos seus filhos, procriando feito coelhos e colocando milhares de pessoas no mundo sem a menor preocupação de torná-las serem humanos decentes, o asno do artigo sobre adoção ainda defende a estrutura “familiar tradicional”. sem nenhum medo de errar afirmo que pais adotivos homossexuais e as tais comunidades hippies (ahn?!) serão melhores pais para os seus filhos que estes imbecis das festas milionárias, ou os tantos imbecis que simplesmente colocam crianças no mundo sem nenhum empenho em educá-las.

para se constituir família não é preciso ter filhos, pra começar, meu senhor. há famílias SEM filhos também. não é preciso 1 homem + 1 mulher + crianças. este senhor vive na idade das trevas, assim como seu coração seco e duro, apoiado pelo seu pobre cérebro limitado.

precisamos dar às crianças afeto, tempo, dedicação. dinheiros, coisas, e “famílias margarina” são dispensáveis, secundários e, no limite, irrelevantes.

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tá difícil ser gente decente nesse mundo, é muito difícil criar filhos ensinando valores diferentes destes que aparecem cada dia mais por aí. muita força nessa subida, viu.

sujeito-verbo-predicado

o otto vem arriscando frases aos poucos, do jeito perfeccionista dele, mas normalmente ele fala de si mesmo na terceira pessoa (o otto quer, o otto pegou), e chama cada um pelo seu próprio “título”: a tia paula, a mamãe, o papai, etc.

o jeitinho dele montar as frases é um caso à parte: sempre muito lentamente, saboreando cada palavra e quase podemos ver os neuroniozinhos trabalhando pra articular as coisas “direito”. isso porque não ficamos corrigindo o menino, a gente no máximo repete o que ele fala do jeito certo, sutilmente, por exemplo: ele diz “venhanta, mamãe!” e eu repito “ah, é pra mamãe LEVANTAR?” e assim vai. eu em especial tenho uma preocupação em deixá-lo se arriscar, tentar mais, já que ele é tão contido.

e essa semana ele me pegou de surpresa, com uma frase tão completa, corretinha e cheia de significado. todo dia tomamoa banho juntos na banheira, eu e ele, antes de dormir. nesta hora, entre 18:30 e 19:00 começa o ritual de preparação da hora de dormir. ele adora a hora da banheira — corre pra ver a banheira enchendo de água, joga os brinquedos dentro, “ajuda” (aham) a pegar pijama, fralda, escova de dentes, água, etc.

pois entramos no banho os 2, ele sempre comenta que a água “tá quente”, e começamos a brincar. nesse dia ele sentou e olhou bem fixo pra mim (eu já pude “ver” a cabecinha dele funcionando, antes dele começar a falar, pela carinha) e disse, bem pausadamente:

“eu gosto de tomar banho com você!”

eu sorri, abracei ele e disse que gostava muito de tomar banho com ele também. e comecei a rir muito, porque a carinha dele foi tão engraçada, e a frase tão certinha! e comecei ao mesmo tempo a chorar, emocionada, porque me dei conta que ele tinha dito EU e não “o otto” e VOCÊ e não “a mamãe”. e, é claro, porque pela primeiríssima vez ele estava expressando verbalmente seu apreço por mim, pela minha companhia.

quão incrível é poder presenciar tantas primeiras vezes na vida de alguém?

a emoção de ver um ser humano distinguir a si mesmo do outro, e expressar seus sentimentos em palavras escolhidas por ele mesmo, é imensa. é claro que ele expressa seu amor de muitas outras formas, como só as crianças conseguem. me sinto muito amada por ele, várias vezes por dia. mas essa expressão de gostar da minha companhia foi emocionante demais pra mim. mais emocionante que o nascimento dele, andar ou mesmo falar a primeira palavra.

há coisa mais incrível e humana que se comunicar?

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e pouco tempo depois dessa experiência intensa, leio esse lindo artigo (em inglês) sobre “as últimas vezes” dos nossos filhos. e chorei, chorei, porque é tão verdadeiro e a gente simplesmente não se dá conta.

ele fala sobre o quanto valorizamos as primeiras vezes (como essa minha história) e esquecemos das últimas vezes. por exemplo — quando será a última vez que o otto vai pedir para dormir na cama junto conosco? quando será a última vez que vai pedir “denguinho” (abraço apertado, no colo) pra mamãe e pro papai?

as crianças crescem, as fases mudam, e todos os dias deve haver uma “última vez” sem que a gente perceba. na ânsia da próxima novidade, do próximo “marco de desenvolvimento”, deixamos de viver este momento incrível e, aliás, único de fato existente, que é o presente.

o passado não existe, é só lembrança; o futuro é um sonho. mais, muito mais, vale a vivência de agora. seja num abraço, numa frase incompleta, no riso e no choro, no cansaço. o sono deste imediato instante é mais valioso que as tardes preguiçosas de anos atrás e que as férias no fim do ano.

e é verdade: para cada fase e momento que eu desejei ardentemente que acabasse há alguma coisa que eu sinto falta.