peter pan

Otto ontem deitado na cama (“a hora da filosofia”) me disse, chorando — “mamãe, eu não quero crescer. Os adultos trabalham mais do que brincam, e eu quero continuar brincando mais do que trabalho!”.

 

😞

 

Expliquei, claro, que ele vai ter oportunidade de trabalhar com algo que o divirta também, é uma questão de escolha. Dei seu exemplo, Elias, que trabalha fazendo algo que adora e o diverte.

 

Mas ele tem tanta razão. A gente não pode esquecer de que é preciso se divertir, não deixar a vida adulta nos embotar.

a que será que se destina?

Deito com o Otto, apago a luz. “Boa noite, meu amor.”

 

O: “mas antes eu tenho uma perguntinha, mamãe”

 

(Nunca é uma “perguntinha”. Nunca)

 

Eu: “tá bom, mas depois dormir tá?”

 

O: “então… que eu nasci da barriga eu já sei. O que eu quero saber é: eu existo pra quê?”

 

~ existimos / a que será que se destina?

 

Eu: “você quer dizer mais ou menos como o propósito, a função que alguém tem, como por exemplo o Wall-e, que faz cubos?”

 

O: “é. Pra que eu existo aqui?”

 

Não sei nem por onde começar. Mas enfim: ser mãe é também buscar sentido e organizar o caos, no sentido mais amplo.

 

Eu: “não existe um sentido, um propósito, meu amor. Nós só estamos aqui, e estando aqui podemos fazer o que quisermos. Ler, nadar, brincar, criar, fazer arte, inventar coisas, construir, fazer amigos.”

 

O: “qualquer coisa?”

 

Eu: “qualquer. Nós somos livres pra fazer o que escolhermos fazer”

 

O: “mas eu preciso fazer tarefa. E o wall-e não tem tarefa!”

 

(Eu sabia que essa conversa ia se voltar contra mim…)

 

Eu: “o wall-e tem tarefa sim: ele faz cubos, pra limpar a Terra; e a EVA busca plantas. É a tarefa deles. Lembra que ele sai de manhã e volta de tarde, depois que acabou?”

 

O: “MAS NÃO É UMA TAREFA!”

 

(Ele não gostou da minha lógica, falou assim mesmo em Caps Lock)

 

Eu: “é sim. Todo mundo tem tarefas, e nem todas a gente gosta. Mas tem coisas que temos que fazer.”

 

O: …

 

Eu: “tudo bem? Podemos dormir?”

 

O: “não sei de gostei da resposta, mas podemos. Boa noite.”

 

Ainda bem que amanhã é Páscoa, porque uma leve overdose de chocolate não vai fazer mal a ninguém depois dessa.

a morte, ela.

SOCORRO, FEYSSE!

 

Otto neste momento fazendo lição:

 

O: “papai, a morte é gostosa?”

 

F: “explica melhor a pergunta, pra eu poder responder”

 

O: “quero saber se a morte é ruim ou gostosa, porque se eu morrer antes dos cientistas descobrirem como não morrer, eu quero saber como é”

 

Os dois pais, silenciosamente:

 

AHHHHHHHHHHHHH MEODEOS.

 

Como lidar?

 

**

 

UPDATE: ele queria saber sobre depois da morte mesmo, como nos sentimos.

 

Explicamos que depois da morte, ninguém sabe. Mas que uma parte interessante da morte é que nosso corpo se transforma em outras coisas, e voltamos pro universo.

 

E que muita coisa pode mudar até à época dele morrer, que ainda temos muito que descobrir.

 

Ele ficou interessado nos cientistas, e nas descobertas. Menos mal, parece mais curioso que preocupado.

 

Aguardemos até o próximo capítulo…