sendo mãe em público

[6-julho-2015]

Sou mãe, adoro comer fora e concordo 100% com esse texto sobre o quanto a forma de alguns pais lidarem com seus filhos em restaurantes atrapalha todos nós. Esse tipo de segregação acaba acontecendo graças aos pais sem noção, que parece que esquecem que crianças fazem parte da sociedade como qualquer outra pessoa — é preciso respeitar o ambiente onde estamos, e suas regras. Se não é aceitável um adulto berrar, sair incomodando as pessoas desconhecidas no corredor ou lamber o saleiro, por que devemos aceitar isso de crianças como se fosse OK?

 

Inclusive considero as saídas para locais públicos como uma excelente oportunidade de ensinar ao meu filho como é esperado que um ser humano se comporte. Porém há lugares que não dá pra administrar as necessidades especiais de uma criança — um restaurante cujo ambiente é apertado, silencioso e que a comida demora a chegar não é lugar pra uma criança pequena que ainda não aprendeu a controlar seu tom e nem tem paciência. VAMOS PRA OUTROS LUGARES, e treinamos a criança, aos poucos.

 

Não é tão difícil, pessoal! Sejamos razoáveis, respeitemos os ambientes. Levar bebê e criança pequena pra concertos e locais em que o silêncio é importante para a experiência coletiva também não é legal. Há que ter consideração pelas outras pessoas e ensinar nossos filhos em ambientes mais adequados, com paciência.

 

Uma coisa que eu já sabia e até por isso fico bem tranquila a respeito: a vida não é igual depois de ter filhos. Você precisa se planejar mais, abrir mão de alguns programas por um tempo e ter paciência de ensinar ao seu filho algumas regras sociais, lembrando que demoram ANOS até que isso esteja OK. Prepare-se para intervir e procure lugares nos quais seja possível transformar a experiência em oportunidade de aprendizado.

sobre ser diferente

Lendo um livro sobre medo, na Livraria da Vila, uma das páginas fala sobre o medo de ser diferente — é uma menina com uma boneca na mão, numa prateleira cheia de bonecas iguais entre si, e diferentes dela.

 

O: “por que ela tem medo de ser diferente? Por que ela quer ser igual à boneca?”

 

Eu: “porque quando ela vê as bonecas todas iguais ela acha que ela também precisa ser assim pra ser bonita.”

 

O: “então ela não sabe que ser diferente é legal?”

 

 

Eu: “que bom você achar isso! Ela não sabe não, mas olha — ela encontra uma amiga parecida com ela e fica feliz.”

 

O: “mas se fôssemos (!) todos iguais ia ser chato, todo mundo ia falar a mesma coisa.”

 

Eu: (pensa num orgulho?) “é isso mesmo, meu amor. É super legal ser diferente.”

 

Quando a gente vê a importância de ler para uma criança os livros que falam sobre diferenças. Ele ama especialmente um que chama “O mundinho sem bullying”, que fala também sobre isso, e sobre respeitar cada um do jeito que é.

quadrilha

Otto se recusou a dançar na quadrilha, não queria nem sair de casa. Fernando fez ele ir lá e explicar pra professora e os amigos que não ia dançar, já que esperavam por ele.

 

Pois foi, explicou e não cedeu mesmo todo mundo insistindo.

 

Eu: “mas que pena, Otto! Você ensaiou e tudo, ia ser divertido, não acha?”

 

O: “é divertido sim, mas eu não quis mesmo assim.”

 

Não consigo nem achar ruim — adoro ver ele de caipira e fazendo as atividades, mas fico mais feliz vendo que ele sabe bem o que quer e não tem medo de se posicionar.

 

(Mas torço pelo dia em que ele vai realmente ter prazer na companhia dos amigos da escola)

porque sofro por você

achava que o medo melhorava com o tempo (melhora), mas descobri que ele só muda, se disfarça. fica ali à espreita, basta uma brecha e ZÁZ, cá estou me forçando a limpar a mente, foco no HOJE, AGORA.

o medo é assassino da mente. o medo é a pequena morte que traz total obliteração. enfrentarei meus medos, permitirei que passem sobre mim e através de mim, e quando tiverem passado farei com que o olho interior enxergue seu caminho, onde o medo esteve não restará nada. somente eu permanecerei. (litania contra o medo)

fizemos seu primeiro exame de sangue depois do período de UTI neonatal (você odiou, claro), e agora TUDO passa pela minha cabeça. será que está tudo bem? são tantas as histórias horríveis de crianças doentes que eu tenho que me esforçar pra não pensar, não projetar, não sofrer.

você não tem se mostrado uma criança sociável, o que para os padrões da nossa sociedade é um problema grande. não tem amigos, não dá bola pra nenhuma criança. fala pouco, só quando tem mesmo alguma coisa importante pra dizer. as pessoas comentam, cobram, acham diferente, e eu sofro. não só porque seu jeito não se adequa à expectativa dos outros, mas porque sei que o mundo privilegia os extrovertidos, que você pode ser visto como antisocial ou esquisito para o resto da vida.

como lidar com o mundo, com a expectativa, com o desconhecido, o acaso, o incontrolável?

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não sei. tento não me ocupar do que não está no meu controle, tento deixar para pensar e resolver coisas quando elas aparecem. mas o medo, ah.

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quero ajudar você a navegar nesse mundo. somos muitos diferentes, e talvez minha angústia seja a de não poder compartilhar com você minhas ferramentas, minha história — talvez nada do que serviu pra mim sirva pra você.

vou precisar aprender a navegar de outro jeito, ver o mundo com seus olhos, aprender novas formas de viver, pra poder ensinar pra você. aprender junto.

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mas o medo. ai.

mudar é preciso

e não temos (muito) medo de mudar. então lá vem outra…

mas antes, um pouco de contexto: pra quem me acompanha desde o começo, sabe que a escolha da escola do Otto foi um processo — a gente pesquisou, pensou, avaliou, e acabamos decidindo pela pedagogia Waldorf. os principais motivos foram (1) alimentação orgânica / natural (não servem nada industrializado nem com açúcar, os lanches são todos fruta, castanha ou cereal); (2) contato com a natureza (quintal grande, atividades direto na terra e com plantas); (3) acolhimento da criança sem o ambiente “escolar”, o grande foco é no brincar — não existe AULA, mas atividades lúdicas direcionadas, procurando imitar o ambiente familiar com a professora fazendo as vezes de “mãe” arquetípica.

nos encantamos tanto com a pedagogia que nos dispusemos, junto com outras 7 famílias, a criar uma associação Waldorf para nossas crianças, gerenciada por nós, o Espaço Livre EcoAra. a gestão associativa, com total participação dos pais e professores, é a base da pedagogia, e é uma experiência muito profunda. participar de forma ativa da criação e gestão do espaço no qual nossos filhos vivenciam os primeiros anos escolares é transformador. desde a valorização do trabalho que exige a criação e manutenção de uma escola até o senso de pertencimento e envolvimento, toda a vivência nos torna pessoas mais atentas, melhores, mais dedicadas. além disso tudo, ainda é possível conhecer pessoas do bem — mesmo com os inúmeros conflitos que são inevitáveis ao convívio em grupo, a gente percebe que ninguém erra por maldade, mas porque fazer coisas em grupo é complexo, e o ser humano é difícil.

foram 2 anos muito importantes pra nós, e estou certa que foram também pro Otto. sempre achamos que a pedagogia Waldorf seria muito boa pra ele até os 6 ou 7 anos, quando ainda não iniciam as atividades de alfabetização.

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ainda assim decidimos abandonar a pedagogia Waldorf para o Otto antes de completados os 7 anos. continuamos voluntários da associação, do Espaço EcoAra, e faremos tudo que for possível para que eles se mantenham e continuem esse projeto tão bonito.

o nosso motivo é basicamente um: quanto mais tivemos contato com a antroposofia, menos gostamos dela. fiz várias tentativas de ler textos, “artigos” e também alguns livros, e a cada tentativa minha frustração e incômodo se intensificavam. esta filosofia se diz científica, e tem um discurso pseudo científico que chega a enganar quem quer ser enganado, mas para quem realmente gosta de ciência e entende o método científico, não dá. eles acreditam em karma, alma, reencarnação, além de jesus como filho de deus, santos, anjos e mais uma lista enorme de coisas absolutamente fictícias (desculpa, pessoal crente. é ficção, até que seja provado). é uma mistura sem fim de dogmas e crenças, porém muito disfarçados de ciência, o que me incomodou ainda mais.

steiner é arcaico. pode ter sido uma figura importante e brilhante no seu tempo, mas ficou ultrapassado em vários sentidos, e não vejo na filosofia uma abertura à diversidade real, ao debate, o incentivo ao pensamento científico. as diretrizes da pedagogia, por exemplo, são extremamente rígidas e o espaço para o debate não existe. os princípios da pedagogia Waldorf têm 1 século e jamais foram revistos, atualizados, modernizados à luz de tantas vertentes pedagógicas novas — como pode? Steiner podia ser um homem inteligente, mas a humanidade continuou a evoluir, e a pedagogia está parada no tempo, cristalizada, obedecendo aos princípios que ele postulou.

não nos sentimos incluídos, nossas dúvidas (colocadas para várias pessoas “seguidoras” da antroposofia) jamais foram acolhidas, muito pelo contrário — nos sentimos mal por questionar, e isso nunca é bom para pessoas como nós, que acreditam que perguntas e questionamentos são a base da evolução, da ciência, do desenvolvimento. como submeter nosso filho a uma pedagogia que se baseia em princípios que sabemos ser fictícios? qual será o espaço que ele terá, depois dos 7 primeiros anos de brincar, para questionar e discordar?

tenho certeza que alguém do meio antroposófico vai dizer que nossa experiência não representa o todo, que a antroposofia é baseada na liberdade do indivíduo, mas não se engane: não é. o indivíduo que refuta a existência de deus e do espírito não tem espaço na antroposofia. concluímos, com certo pesar, que a antroposofia, a pedagogia Waldorf e todos os que de alguma forma entraram em conflito conosco a esse respeito não estavam errados — eles estão alinhados entre si, e coerentes. nós é que precisávamos mudar (ou aceitamos, ou saímos), e a decisão foi tomada. talvez existam educadores brilhantes o suficiente na pedagogia Waldorf que tenham condições de lidar com a diversidade de pensamento, e a clareza de admitir que a antroposofia é mais uma vertente espiritual, sem impor isso a seus alunos de forma indireta e subliminar (o que pra mim é pior do que uma escola declaradamente católica, por exemplo, ou judia). mas não vou confiar a educação científica* do meu filho a professores que (frequentemente) são parte da ficção espiritual de forma tão engajada.

(*) uma pausa para esse assunto: não temos nada contra crenças individuais (tudo contra religião. mas esse é assunto pra outro post) e fé seja no que for. mas estamos convictos que fé e crença devem ser ensinadas SOMENTE dentro do contexto familiar. à escola cabe o ensino das normas, do convívio, dos princípios da vida em sociedade, da ciência. não quero nenhum professor repassando ao meu filho suas crenças em seres imaginários, em especial quando isso é feito de forma indireta e muito frequentemente inconsciente.

mas voltando: depois da exposição às crenças antroposóficas / Waldorf, não ficamos felizes com as possibilidades do ensino neste método a partir dos 7 anos. até os 6 anos seria tudo ótimo, pois eles basicamente brincam e interagem entre si através das atividades dirigidas de artes, música, brincadeiras. poderíamos deixá-lo na Waldorf até os 6 anos pelo menos, mas aí entra uma característica do Otto: ele é um menino introvertido, que demora muito a se familiarizar com as pessoas e ambientes. após 4 anos na Waldorf com a mesma turma, ele seria transicionado para uma escola comum, no sistema de ensino tradicional (o que por si já seria um choque) e além de tudo começando a alfabetização, que é também uma mudança importante.

para evitar um choque tão abrupto, decidimos mudá-lo de escola neste ano, e deixá-lo se adaptar ainda no jardim, antes de iniciar a alfabetização.

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bom, não foi fácil a decisão. o sistema tradicional de ensino exige da criança uma maturidade que ela nem sempre tem, e isso é doído. o otto por exemplo tem interesse pelas letras e números, formas geométricas, já sabia desde 2 anos, então essa parte não nos preocupa. mas ele não é uma criança independente e extrovertida — não se veste sozinho, nem escova os dentes (direito, né. de qualquer jeito ele faz), lava as mãos, cuida das próprias coisas. muito dessa dependência é culpa nossa, claro, porque temos preguiça de deixar ele fazer (demora; tem que refazer) e fazemos por ele. agora ele está sendo pressionado a ter uma independência que não tem ainda, e confesso que tem sido difícil pra mim (talvez mais que pra ele).

ele agora vai para uma escola de curriculum internacional, em inglês, das 7:20 às 15:15h. almoça e toma lanche na escola, convive com crianças de várias nacionalidades, tudo em inglês e português. há alguns meses ele começou a se interessar muito pelo inglês por causa do desenho dora aventureira, então quando decidimos por esta escola ele ficou super feliz.

ele começou há 1 semana, e não precisamos buscá-lo mais cedo nenhum dia (ou seja, ficou sem chorar e sem reclamar muito), está comendo bem e quando perguntamos sobre a escola ele diz que está gostando. tem chegado feliz, dorme bem, está no geral ótimo, o que nos surpreendeu muito, pra ser sincera. achamos que a mudança seria sentida, que choraria, reclamaria, e ele está lidando muito melhor do que nós 🙂

fizemos nossa 1a reunião com as professoras no final da 1a semana, e elas disseram que ele está bem, não estranhou, mas notaram a falta de independência dele comparado às outras crianças. a culpa é toda nossa, e agora precisamos ajudá-lo a ser mais independente para se adaptar melhor. aparentemente ser tudo em inglês não incomodou ele de forma alguma — não reclamou, e uma das professoras comentou que ele “fala inglês” (rimos muito; ele se vira bem, aparentemente). vamos ver como segue. na 1a segunda-feira depois da 1a semana de aula ele chorou quando percebeu que ia pra escola — queria ficar mais em casa (eu também. nós todos também. como dar essa notícia pra ele?)

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assim como foi no começo, quando ele foi à escola pela 1a vez, percebo o quanto a tarefa de fabricar humanos é difícil e muitas vezes dolorida — todas as feridas, esquecidas há tanto tempo, abrem e voltam com força total. nestes dias de ansiedade e apreensão por ele, sinto falta da minha mãe. revivo memórias construídas (sempre amei a escola, mas como será que era levantar de manhã e sair de casa? nunca foi fácil na vida adulta, deve ter sido difícil quanto pequena também), tento ser pra ele uma mãe tão presente e carinhosa nessa hora da partida do ninho quanto minha mãe o foi (ser acordada pela minha mãe e tomar café da manhã é das lembranças mais lindas que tenho da infância). eu o acordo com todo carinho, visto sua roupa (ainda não consigo deixá-lo vestir, porque teria que acordar MUITO mais cedo), sento para tomar café da manhã junto. na volta, pergunto da escola, e tento mostrar que é um lugar (e uma experiência) super legal. ele nunca fala muito, mas diz que gosta, e eu tento acreditar.

anseio pelo dia em que ele faça amigos, e se interesse também pelo mundo dos outros, não somente o nosso, da nossa casa e nossa família. quero que ele navegue, tenha coragem, e sinta felicidade também em partir, não só em retornar.

enquanto isso, meu coração de mãe cabe num dedal.

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da páscoa e outras tradições familiares

Antes de ser mãe eu não percebia tão bem as pequenas nuances da criação da memória, e das lembranças afetivas. Não me dava conta da maravilha do ritual da preparação das refeições em família — porque no dia a dia era mecânico, prático, mas nas festividades, estar junto fazendo algo em comum era a essência da comemoração. O resultado (a comida, comer) era só mais uma coisa. O sabor daquelas refeições era maravilhoso porque o processo todo de preparação alimentava o coração. O estômago e a boca só acompanham e reverberam o amor e a felicidade de estar junto, mãos com mãos, fazendo um pouco da nossa história conjunta.

Faço absoluta questão de construir para o Otto essas memórias conjuntas. O preparo de um peixe, a poda das plantas, a canção cantada em coro. Porque nada do que eu deixar pra ele vai ser mais importante ou duradouro que as memórias profundas, aquelas que assaltam a gente no domingo de manhã ao provar um pedaço de chocolate.

Te amo Mami VeraKellyKitoArina. Mandem um beijo pro meu Papi aí. Manhãs de Páscoa me lembram vocês.

happiness only real when shared.

x

Esse ano, ao invés de patinhas, resolvi fazer charada  Como foi a 1a vez que o Otto teve contato, tivemos que dar dicas de como funciona. Quando ele entendeu, adorou, e correu pro castelo pra achar a cesta de ovos 

(E esse ano ele adorou a cenoura mas quis comer o chocolate! Hahahhahaha)

diário do otto: 3 anos e 3, 4 e 5 meses

otto,

agora parece que realmente perdeu o sentido escrever a cada mês, seja porque a fase mais intensa dos grandes marcos de desenvolvimento passaram, seja porque estou também envolvida com tantas outras coisas que o tempo me atropela. pode ser também que eu é que tenha deixado de me importar tanto em prestar atenção às “novidades” e aproveitar sua companhia, cada dia mais deliciosa <3

reiniciamos seu desfralde pela 2a vez há menos de 2 meses, e já considero como um sucesso. o xixi foi muito fácil, em 2 semanas estava resolvido, já o cocô demorou mais um pouco, com alguns episódios de fazer na roupa ou no chão <o>, mas hoje completamos 1 semana inteira sem nenhum incidente, inclusive saindo para passar o dia fora sem fralda! estamos muito orgulhosos de você. pode parecer uma coisa boba, mas é um controle importante do corpo, que sequer lembramos que aprendemos (depois de adultos, parece que sempre soubemos né?). agora você avisa que quer ir, e já sai correndo com a gente pra fazer direitinho. um moço!

nestas férias algumas coisas mudaram bastante — você começou a dormir um pouco mais tarde (porque nós deixamos, claro) e começou também a acordar BEM mais tarde (9h, 9:30h!), o que é uma maravilha para os seus pais que adoram dormir, mas será certamente um problema quando as aulas voltarem. teremos que fazer uma transição pra evitar choro e ranger de dentes na hora de acordar…

algumas coisas mudaram bastante nestes meses, você tem se interessado mais por histórias diferentes (novos filmes, ufa), mas continua encantado com o wall-e, a ponto de desenhar o robô o dia todo, de todas as formas. aliás, seus desenhos estão cada vez melhores e mais complexos, é muito legal de observar. e você adora desenhar, se deixar passa o dia todo com papel e caneta.

você também tem se desenvolvido bem na parte física, que nunca foi exatamente seu forte — já está andando de bicicleta direitinho (com as rodinhas) e sobe nas coisas de um jeito que não fazia antes. procuramos continuar incentivando você, que precisa mesmo ganhar mais confiança e testar seus limites!

a coisa mais linda que aconteceu esse mês foi seu interesse pela “ode à alegria” de beethoven, graças ao curta do burn-e, que nos emocionou muito. ver você apreciando música é a realização de um sonho nosso como pais, sendo o assunto tão importante pra nós. você nem sabe o quanto sua alegria nos faz felizes. aliás, acho que é impossível explicar para quem não tem filhos o que significa ver nossos filhos felizes — é uma alegria multiplicada por milhares, fogos de artifício imaginários, o que pode haver de mais delicioso na vida.

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sua rotina só mudou quanto ao sono, cada vez melhor, e ainda dormindo conosco (não canso de dizer o quanto é gostoso dormir com você, tão pequeno e carinhoso nos abraçando…), acordando com seu sorrisão de feliz <3

continua comendo tudo e mais um pouco, se interessando por coisas novas, sem medo de provar nada. mas também continua nos enfrentando bastante e colocando seus quereres, o que é muito legal e nos deixa felizes. você é um menino sensível e tranquilo, mas com bastante personalidade, que sabe se posicionar quando é necessário. bem melhor que seus pais, inclusive 😀

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nosso amor só cresce, e a cada noite depois que você vai dormir seu pai e eu nos olhamos e dizemos, como um coro: “como ele é querido, que menino mais especial!”. a gente procura sempre dizer o quanto ama você, espero que isso nunca seja fonte de dúvida pra você, mas que também fique registrado aqui, preto no branco: amamos você demais, e admiramos sua personalidade, seu jeito doce e ao mesmo tempo determinado. que você se mantenha assim, pois será de grande valia na sua vida para ser feliz <3

aqui estão fotos destes seus meses, todas tiradas e guardadas com muito amor: 3 anos e 3 meses, 3 anos e 4 meses, 3 anos e 5 meses.

um beijo maior que o mundo da sua mamãe que adora você mais que tudo.

a experiência antropológica mais completa

A Maria, nossa mais que querida funcionária que é mãe-avó-amiga-babá-etc. agora está com um problema pra sair com o Otto e passear no condomínio: ele só quer andar pelado. No meio do passeio ele decreta “tou com calor, vou tirar a roupa!”

Com muito custo ela convence o menino a pelo menos vestir uma cuequinha (ele cedeu sob protestos, parece), e ele anda de cueca pelo condomínio.

Pra além da graça toda da situação, e o fato dela agora chamar o menino de “curumim” , fiquei pensando no quanto a nudez é tabu. Ele e nós andamos sem roupa na casa com frequência. Eu inclusive ando sem roupa até quando temos visitas (evito quando tem homens, por pura convenção social), não tenho vergonha nenhuma.

Quando adultos, respeitamos as convenções sociais sem nem prestar atenção. Quando criamos uma criança, nós confrontamos com algumas regras que, pensando bem, não fazem sentido algum.

Pra que usar tanta roupa no verão? Por que não podemos andar pelados quando a roupa não serve para proteger? Por que tanto incômodo sobre o que vão pensar sobre nossos corpos?

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E percebo, encantada, que minha maior expectativa em relação a ser mãe se cumpriu: é a melhor experiência antropológica que pode haver.

rasgando livros e corações

estávamos lendo o livro fofo da coruja com o otto (“um tanto perdida”) antes de dormir, e na empolgação de passar a página (a história é cheia de surpresas) ele arrancou um pedaço dela fora, meia página! <o> (mesmo a gente tendo avisado mil vezes, antecipando o ocorrido). minha reação foi espontânea e tão de choque com o livro rasgado (como é impactante rasgar livro, não? que coisa!) que mesmo eu não tendo gritado e nem brigado com ele o menino ficou paralisado, coitado, olhando, mexendo na página rasgada com aquela cara de “OPS!”.

“dá pra consertar, mamãe?” — “dá sim, mas nunca vai ficar igual, meu amor”.

continuamos a história, mas ficamos todos meio chateados. acabou, guardou, vamos dormir, beijos, abraços, etc. a gente sempre dá a opção de escolher quem fica com ele para dormir, e surpreendentemente hoje ele escolheu o Fer (ele SEMPRE quer que eu fique, é um grude comigo nessa hora), e ficou repetindo “você me desculpa, papai?”, com aquela carinha de quem fez bobagem.

AI, GENTE. destruiu nosso coração. a gente não brigou com ele, nem gritou, nem NADA, mas não precisa fazer nada disso pra criança perceber que algo errado aconteceu, e tentar consertar. e convenhamos, é só um livro né?

o que reforça pra mim 2 coisas:

1) nenhuma criança precisa apanhar. a gente consegue transmitir a mensagem, eles entendem TUDO!

2) é preciso todo cuidado, amor e respeito do mundo ao lidar com crianças. elas sentem demais a nossa decepção, raiva, medo, apreensão, tensão, etc.

o Fer ficou lá, e eu vim aqui terminar um trabalho pra ver se meu coração cresce e fica do tamanho normal de novo, que agora ele está do tamanho de uma uva passa.

gênio pra quê?

Pensei tanto nessa notícia — a primeira reação é achar incrível, UAU, que máximo. Mas logo depois pensei: e quando essa criança brinca e socializa? Qual a vantagem de ler tantos livros e não dividir com ninguém? Pra quê contar até 200?

Li em algum lugar a respeito de crianças-gênio que chegam à vida adulta e se tornam simplesmente adultos acima da média, e não transformaram sua capacidade excepcional em nada significativo. E pior — tem problemas sociais.

Por que valorizamos tanto estes marcos e métricas individuais (ler, contar, quantos livros) e tão pouco as habilidades sociais e criativas?