ET phone home

Otto — apavorado antes de dormir, chorando — me explica que o professor de informática mostrou pra turma o vídeo de um “alienígena com mão de faca” e que ele está morrendo de medo porque não quer sonhar com aquilo e que “nunca devia ter entrado naquela aula”.

E os minions preocupados com educação sexual.

Agora toca trazer todas as evidências pra convencer a criança que isso não é real.

😩

**

Ainda sobre os alienígenas, ficamos muito tempo conversando pra entender onde estava pegando pra ele a história, de onde vem o medo e por que ele estava com dificuldade de acreditar que aquilo que ele tinha visto não existia.

Foi bem mais longo, mas vou pinçar as partes críticas do diálogo:

Eu: “Otto, não existe nenhuma evidência de que aliens existam. Muita gente já buscou e continua buscando, e nada ainda apareceu.”

Ele: “mas vocês não podem ter CERTEZA que não existe!!”

(Inferno.)

Nós: “neste momento garanto que NINGUÉM confirmou a existência deles.”

Ele: “mas eu vi o vídeo! Ele tinha mão de faca!” (E chooooora)

Eu: “amor, é igual a todos os vídeos que você assiste, os filmes — é um personagem. É mentira. Alguém inventou.”

Fernando: “existem pessoas que criam personagens pra causar medo, mas não são reais, porque tem gente que gosta de sentir medo e assistir. Sabe quem é assim? Sua mãe.”

Otto: “MAS POR QUE ALGUÉM FARIA ISSO?!” (Chooooooora)

😬

 

**

 

Na conversa sobre ele acreditar no alienígena e não acreditar nos personagens de filmes, fiquei impressionada pela lógica perfeita:

Eu: “Otto, sabe o homem-tubarão do Flash? Ele não existe, certo? É a mesma coisa!”

Otto: “claro que ele não existe! Porque NA TERRA ele não tem como existir. Mas os alienígenas são diferentes!” (Choooora)

Fantástico.

Coisas bizarras na Terra ele sabe que são impossíveis, mas o que vem do espaço seria desconhecido, não se aplicam as mesmas regras.

 

**

 

Aproveitei pra reforçar pra ele sempre duvidar de coisas que parecem estranhas demais, e buscar entender, pesquisar, antes de acreditar.

É um conselho que vale pra ele, e pra todos nós, afinal.

conflito

Otto fazendo tarefa de

Interpretar texto, resumiu o Brasil (é sobre uma conversa entre bichos que são diferentes):

“Cada um tem uma ideia diferente e cada um só concorda com a sua própria ideia.”

Zerou.

como se tivesse 8 anos

O processo de buscar julgar menos é tão complexo, tão difícil. Precisa de um empenho enorme, além de paciência sem fim pra lidar com UM MUNDO de julgamentos sem intenção (mas ainda com impacto).

 

E dá um trabalho danado desfazer alguns estragos que parecem pequenos mas quando acumulados nos anos ficam imensos.

 

Enquanto fazia a tarefa de hoje, que era interpretar um texto sobre ecologia, Otto me diz que escutou na escola, enquanto falavam do impacto humano na natureza, que “quando damos comida aos animais silvestres, eles ficam PREGUIÇOSOS” e por isso não é boa ideia dar comida pra eles.

 

Animais preguiçosos. Pode até ser que a palavra seja adequada pro que acontece na prática, mas coloca um julgamento também, como se a “culpa” fosse do animal, como se ele escolhesse conscientemente não mais buscar comida.

 

Fui ler o texto, que dizia que os animais DESAPRENDEM a procurar comida na natureza, deixando-nos vulneráveis, e que isso é prejudicial.

 

Caramba, olha que explicação legal? Otto inclusive começou a perguntar sobre o que era desaprender, e  se escreve com hífen ou sem. Ele quis saber o que acontecia se tivesse pouca comida e os animais fossem muitos. “Eles vai brigar!” — ou vão dividir; ou vão buscar mais. “Eles encontram uma maneira”, expliquei.

 

Tive que conversar com ele pra dizer que não é que o animal fica preguiçoso — ele busca comida onde é mais fácil, e pode depois não saber (esquecer, desaprender) onde deve buscar. Que é importante que eles saibam procurar a comida e não dependerem dos humanos.

 

Fico me perguntando se as pessoas julgam (qualificam ou categorizam de forma extremamente simplista) porque lhes falta repertório pra entender a complexidade da vida e das coisas, sabe?

 

Dá trabalho, e requer PENSAR, pra explicar coisas de forma que uma criança de 8 anos entenda sem recorrer a qualificações simplistas.

 

Também não quero julgar nem crucificar quem disse isso pra ele na escola, mas eu adoraria que as pessoas tratassem meu filho (e crianças em geral) como pessoas que pensam e têm capacidade de entender ideias complexas, apesar de serem crianças ainda. Ser criança não significa ter capacidade cognitiva menor, só significa que têm menos repertório ainda.

 

Não acochambrem as coisas pra crianças, gente. Só expliquem de forma direta e simples, e deixem elas perguntarem.

indiana jones

Tomei uma decisão impulsiva e coloquei “Caçadores da Arca Perdida” pra ver com o Otto.

Gente, tem sangue pra caramba, piada inapropriada pra idade e bebida a rodo; nunca tinha percebido e nao lembrava! Bom, ele resolve depois na terapia né?! 😀

Pergunta do Otto que me deixou rindo aqui e deu uma super oportunidade: “mas ele [Indiana] é mocinho?”

Depende né? 🙂

Muito legal ter protagonistas ambíguos, diferente dos filmes clássicos de bem x mal.

Mas não sei como lidar com o final (que eu tinha esquecido) e o Fernando me lembrou… 😬

 

**

 

Reação do Otto no fim de “caçadores da arca perdida”:

– “Por que vocês me fizeram assistir um filme DE TERROR?!”

– “essas caixas… podiam mandar todas pro espaço né?”

– “o que são nazistas?”

 

Prêmio de piores escolhas em entretenimento para crianças <== podem me mandar todos. Ganhei.

mãe chata

No drama da lição de hoje, tivemos chiliques de ambos os lados por motivo de criança que se recusa a seguir instruções e quer fazer tudo do seu jeito.

 

Até que eu desisti e falei FODACE (ou em versão traduzida pra criança — não faz então, e sofra as consequências); e ele fez a porra da lição lá do jeito dele.

 

Nem jantar servi. Deixei ele se virar com a comida que deixei na mesa (normalmente eu sirvo, arrumo tudo, mãe de comercial de margarina).

 

— “também não vou guardar nada!”

 

(FODACE. Silêncio.)

 

— “… tá bom, tá bom, eu guardo.”

 

Guardou. Mas enquanto guardava…

 

O: “sabe, mamãe, você não tá sendo legal.”

 

Eu: (YOU HAVE NO IDEA, KIDDO) “nem você.”

 

O: “mas eu só não tou lendo legal AGORA. Nas outras horas eu sou.”

 

Eu: hm. “É verdade. E eu, sou chata sempre ou só agora?”

 

Quem mandou perguntar?

 

O: “sempre. Você não me deixa fazer só o que eu quero.”

 

Eu: “é, não mesmo.”

 

E hoje ainda é segunda.

 

Agora entendi porque meus pais enchiam a cara.

lição de casa

Momento lição do Otto. O texto é sobre diversidade cultural e respeito pelas diferenças.

 

O: “na minha escola não tem respeito NENHUM!”

 

Eu: “afe, por quê? O que acontece?”

 

O: “ninguém deixa a professora falar! Nem consigo fazer combinados, ninguém para de falar!”

 

Eu: (hahahhahaha) “entendi. Isso acontece porque as crianças ainda não aprenderam isso, Otto. Logo elas aprendem.”

 

O: (enfaticamente com as mãos) “mas eu sei isso faz MUITO tempo!”

 

😂😂😂

 

E aí teve essa pergunta aí sobre diferenças culturais. Ninguém pode dizer que ele não é assertivo, né?

respira!

Gente, que dó. É o Otto *todo santo dia*.

 

Ontem peguei ele na escola 10min mais cedo (eles têm o final do período pra brincar no pátio):

 

O: “ahhh mamãe, eu queria brincar mais um pouco!”

 

Eu: “não tem problema! Se quiser ficar mais a mamãe espera você, pode brincar e depois vamos.”

 

O: “mas eu não quero chegar em casa depois que o sol sumiu…”

 

Eu: “hmmm. Entendi. Mas aí tem que escolher né? Ou brinca mais aqui ou aproveita o sol lá em casa. As duas coisas não dá.”

 

Não pode brincar pra sempre? 💔

biologia

Diálogo do Fernando com Otto:

 

O: “papai, por que as girafas não fazem som?”

 

F: “hmmm… tenho 2 hipóteses: ou elas não precisam fazer som, ou… o que as girafas têm de diferente dos outros bichos?”

 

O: “elas não fazem sons!”

 

F: “… e…?”

 

O: “… ahhhh elas têm o pescoço muito comprido!”

 

F: “essa é minha segunda hipótese!”

 

O: “eu acho que não é por isso, porque os avestruzes também têm pescoço comprido e fazem som!”

 

F: “… verdade. Então vamos pesquisar…”

 

😀

 

YOU GO, BOY! 👊🏻

Ensino Fundamental: dia 1

[fev-2017]

Começou o ensino fundamental e todos sofrem aqui em casa. Fomos orientados a definir regras claras pro Otto pra ajudar a equalizar um pouco o ambiente da escola com o de casa (ou seja — a escola começa a ter regras mais rígidas, e se aqui “pode tudo” fica difícil convencê-lo de que a escola pode ser legal).

 

O que entendemos é que mais importante que ser rígido / inflexível é que ele entenda que disciplina é parte da vida, seja onde ele estiver. A escola pega leve no 1o ano, mas tem “matérias” e tem tarefas.

 

Ele tá odiando, claro. E #todassofre.

 

Ele reclama que as tarefas são muito fáceis, que ele já sabe fazer tudo. E que “ele não é obrigado” (dê autonomia para um cerumaninho e ele agarra com unhas e dentes).

 

Expliquei que não é questão de “ser obrigado”, mas de estar lá exatamente pra isso: realizar as tarefas com os colegas e com as professoras. A experiência em si, não só o conteúdo. E se manifestar, falar com as professoras e os colegas. Que ele pode questionar e perguntar mas TEM QUE participar.

 

Chegando em casa, mostrei a grade de atividades da semana. Avisei que tem o intervalo pra brincar, mas que tem também agora outras coisas pra fazer.

 

Ele me olha bem sério e diz “mas mamãe — toda criança tem o direito de brincar!”

 

E começa a chorar, abraçado comigo.

 

**

 

Alguém faz uma intervenção, por favor, que estamos a um cabelo de pegar o menino e ir morar no mato feito curumim.

 

💔

 

**

 

Update: E não é que a escola é super rígida não, tá? Ele não quer ser dirigido, seguir instruções. Ele questiona TUDO, até porque tem que colocar o nome na folha!!!! 😱

o machismo na escola

Falemos sobre o machismo atrapalhando nossa vida e nos irritando, versão “todos perdem”.

 

Aqui em casa o Fernando é que faz a função “horário comercial” da casa, já que eu estou mergulhada até o topo da cabeça em trabalho das 8 às 18h. Eu busco o Otto na escola quase todo dia, mas o restante das atividades do Otto (levar pra escola, médico, dentista e outras atividades extras) e de funcionamento da casa (supermercado, manutenção) são dele, que tem flexibilidade.

 

A luta começa na direção da escola, que insiste em ligar pro meu celular quando há alguma emergência ou necessidade de contato — já aconteceu de eu sair correndo de reunião importante porque me ligaram da enfermaria (pequenos acidentes); tive que ligar pro Fer pra ele ir buscar, e aí fico arrancando os cabelos no trabalho preocupada, sem poder fazer muita coisa. Demorou meses pra ligarem pra ele e não pra mim.

 

Os recados “práticos” são todos direcionados à mãe. Mandar toalha, mandar garrafa, pensem aí em coisas pra fazer. Tudo a mãe. Nem o pai pedindo mandam pra ele.

 

Mas tem mais. O Fer quer (mentira; precisa) participar do grupo de WhatsApp DAS MÃES. Porque não existe grupo de “pais”, “cuidadores”, “responsáveis”, “GENITORES”. Não, são mães.

 

E as mães ficam mega resistentes em receber homens no grupo.

 

(Pausa para entender mulheres serem resistentes à presença de homens em qualquer lugar, dados os FATOS HORRÍVEIS que acontecem conosco todo dia, né)

 

Bem, mas aí o Fer procura essas mães e explica que ele é que cuida das coisas do dia a dia do Otto e que gostaria de participar. Depois de alguma resistência, aceitam.

 

MAS (é aqui que a coisa fica triste) elas interpretam que o Fer cuida do Otto **sozinho**. Que eu, a mãe, não existo, não ligo, não participo, sei lá, fugi com o circo.

 

Porque a única coisa que faz sentido numa história na qual o pai é protagonista na criação e cuidado do seu filho é aquela em que a mãe não existe, ou é uma porralouca, e o pai — ó, tenhamos compaixão dele e vamos “aceitá-lo” — é um herói solitário.

 

A ideia da existência de um arranjo tão simples quanto este que Fer e eu temos é muito menos provável pras pessoas do que a ideia de uma mãe que não existe na vida do filho.

 

Eu acordo com meu filho, resolvo várias coisas em conjunto com o pai sobre ele, vou às visitas do médico sempre que posso, pego ele quase todo dia na escola, levo ele na escola quando o pai não pode, ajudo na lição, dou jantar, dou banho, visto, leio histórias, durmo com ele, escovo os dentes, compro roupas e sapatos, separo roupas pequenas e velhas, organizo brinquedos, compro livros, falo com a terapeuta no WhatsApp, entro em contato com as mães dos amigos que são minhas amigas pra combinar programas, penso em programas de fim de semana, desenho, faço escultura, organizo festa, cozinho tudo que é coisa que ele gosta (de fim de semana e dia de semana), sento pra brincar com ele, mas…

 

… eu não tou livre todo dia pra dirigir e levá-lo pra escola na hora do almoço, e nem pra levar pra festinha no meio do dia. A ausente.

 

(Mais uma pausa aqui pra considerarmos o quanto a flexibilidade de horário faria bem à igualdade de gêneros, não é?)

 

Não culpo essas mulheres. Elas nem entendem o quanto a visão machista da função de criar um filho está cristalizada em suas mentes.

 

Culpo a sociedade, e faço minha parte pra mudá-la. Contarei essas histórias quantas vezes forem necessárias e pra quem quiser ouvir, porque os homens precisam ser mais presentes nas atividades domésticas e as mulheres precisam não só cobrar que eles sejam, mas valorizar isso. Nível “se você não limpa casa e não cuida de criança, não serve pra ser meu parceiro e pai dos meus filhos”.

 

O principal conselho que tenho para moças jovens é — escolham bem seus / suas parceiros/as.