biologia

Diálogo do Fernando com Otto:

 

O: “papai, por que as girafas não fazem som?”

 

F: “hmmm… tenho 2 hipóteses: ou elas não precisam fazer som, ou… o que as girafas têm de diferente dos outros bichos?”

 

O: “elas não fazem sons!”

 

F: “… e…?”

 

O: “… ahhhh elas têm o pescoço muito comprido!”

 

F: “essa é minha segunda hipótese!”

 

O: “eu acho que não é por isso, porque os avestruzes também têm pescoço comprido e fazem som!”

 

F: “… verdade. Então vamos pesquisar…”

 

😀

 

YOU GO, BOY! 👊🏻

Ensino Fundamental: dia 1

[fev-2017]

Começou o ensino fundamental e todos sofrem aqui em casa. Fomos orientados a definir regras claras pro Otto pra ajudar a equalizar um pouco o ambiente da escola com o de casa (ou seja — a escola começa a ter regras mais rígidas, e se aqui “pode tudo” fica difícil convencê-lo de que a escola pode ser legal).

 

O que entendemos é que mais importante que ser rígido / inflexível é que ele entenda que disciplina é parte da vida, seja onde ele estiver. A escola pega leve no 1o ano, mas tem “matérias” e tem tarefas.

 

Ele tá odiando, claro. E #todassofre.

 

Ele reclama que as tarefas são muito fáceis, que ele já sabe fazer tudo. E que “ele não é obrigado” (dê autonomia para um cerumaninho e ele agarra com unhas e dentes).

 

Expliquei que não é questão de “ser obrigado”, mas de estar lá exatamente pra isso: realizar as tarefas com os colegas e com as professoras. A experiência em si, não só o conteúdo. E se manifestar, falar com as professoras e os colegas. Que ele pode questionar e perguntar mas TEM QUE participar.

 

Chegando em casa, mostrei a grade de atividades da semana. Avisei que tem o intervalo pra brincar, mas que tem também agora outras coisas pra fazer.

 

Ele me olha bem sério e diz “mas mamãe — toda criança tem o direito de brincar!”

 

E começa a chorar, abraçado comigo.

 

**

 

Alguém faz uma intervenção, por favor, que estamos a um cabelo de pegar o menino e ir morar no mato feito curumim.

 

💔

 

**

 

Update: E não é que a escola é super rígida não, tá? Ele não quer ser dirigido, seguir instruções. Ele questiona TUDO, até porque tem que colocar o nome na folha!!!! 😱

o machismo na escola

Falemos sobre o machismo atrapalhando nossa vida e nos irritando, versão “todos perdem”.

 

Aqui em casa o Fernando é que faz a função “horário comercial” da casa, já que eu estou mergulhada até o topo da cabeça em trabalho das 8 às 18h. Eu busco o Otto na escola quase todo dia, mas o restante das atividades do Otto (levar pra escola, médico, dentista e outras atividades extras) e de funcionamento da casa (supermercado, manutenção) são dele, que tem flexibilidade.

 

A luta começa na direção da escola, que insiste em ligar pro meu celular quando há alguma emergência ou necessidade de contato — já aconteceu de eu sair correndo de reunião importante porque me ligaram da enfermaria (pequenos acidentes); tive que ligar pro Fer pra ele ir buscar, e aí fico arrancando os cabelos no trabalho preocupada, sem poder fazer muita coisa. Demorou meses pra ligarem pra ele e não pra mim.

 

Os recados “práticos” são todos direcionados à mãe. Mandar toalha, mandar garrafa, pensem aí em coisas pra fazer. Tudo a mãe. Nem o pai pedindo mandam pra ele.

 

Mas tem mais. O Fer quer (mentira; precisa) participar do grupo de WhatsApp DAS MÃES. Porque não existe grupo de “pais”, “cuidadores”, “responsáveis”, “GENITORES”. Não, são mães.

 

E as mães ficam mega resistentes em receber homens no grupo.

 

(Pausa para entender mulheres serem resistentes à presença de homens em qualquer lugar, dados os FATOS HORRÍVEIS que acontecem conosco todo dia, né)

 

Bem, mas aí o Fer procura essas mães e explica que ele é que cuida das coisas do dia a dia do Otto e que gostaria de participar. Depois de alguma resistência, aceitam.

 

MAS (é aqui que a coisa fica triste) elas interpretam que o Fer cuida do Otto **sozinho**. Que eu, a mãe, não existo, não ligo, não participo, sei lá, fugi com o circo.

 

Porque a única coisa que faz sentido numa história na qual o pai é protagonista na criação e cuidado do seu filho é aquela em que a mãe não existe, ou é uma porralouca, e o pai — ó, tenhamos compaixão dele e vamos “aceitá-lo” — é um herói solitário.

 

A ideia da existência de um arranjo tão simples quanto este que Fer e eu temos é muito menos provável pras pessoas do que a ideia de uma mãe que não existe na vida do filho.

 

Eu acordo com meu filho, resolvo várias coisas em conjunto com o pai sobre ele, vou às visitas do médico sempre que posso, pego ele quase todo dia na escola, levo ele na escola quando o pai não pode, ajudo na lição, dou jantar, dou banho, visto, leio histórias, durmo com ele, escovo os dentes, compro roupas e sapatos, separo roupas pequenas e velhas, organizo brinquedos, compro livros, falo com a terapeuta no WhatsApp, entro em contato com as mães dos amigos que são minhas amigas pra combinar programas, penso em programas de fim de semana, desenho, faço escultura, organizo festa, cozinho tudo que é coisa que ele gosta (de fim de semana e dia de semana), sento pra brincar com ele, mas…

 

… eu não tou livre todo dia pra dirigir e levá-lo pra escola na hora do almoço, e nem pra levar pra festinha no meio do dia. A ausente.

 

(Mais uma pausa aqui pra considerarmos o quanto a flexibilidade de horário faria bem à igualdade de gêneros, não é?)

 

Não culpo essas mulheres. Elas nem entendem o quanto a visão machista da função de criar um filho está cristalizada em suas mentes.

 

Culpo a sociedade, e faço minha parte pra mudá-la. Contarei essas histórias quantas vezes forem necessárias e pra quem quiser ouvir, porque os homens precisam ser mais presentes nas atividades domésticas e as mulheres precisam não só cobrar que eles sejam, mas valorizar isso. Nível “se você não limpa casa e não cuida de criança, não serve pra ser meu parceiro e pai dos meus filhos”.

 

O principal conselho que tenho para moças jovens é — escolham bem seus / suas parceiros/as.

O drama da escola (que ainda não acabou em 2017…)

[16-ago-2015]

Prestes a completar 5 anos, o Otto finalmente começou a gostar da escola a ponto de ficar desapontado no sábado quando descobriu que não ia! <3

 

Ainda é uma criança introvertida e diferente das demais (e não tenho nada contra; espero poder ajudá-lo a saber que ser diferente não é errado), mas já se integrou com as crianças, está mais solto em geral, se importa menos com barulho e bagunça, sabe se colocar e impor no meio das demais crianças e está ficando uma praguinha! Parece até que já tem seu primeiro amigo escolhido por ele mesmo (ele tem vários amigos filhos de pessoas queridas, mas que ele acolheu através de nós e não exatamente escolheu).

 

Foram 3 anos difíceis pra nós, desde que ele começou a ir à escola. Talvez mais pra mim — sou extrovertida, era daquelas crianças arroz de festa, relacionamentos sociais pra mim são muito fáceis. Foi muito difícil observar meu filho sendo tão fechado, resistente ao contato social. Só consigo pensar “ele vai sofrer!”, e ninguém quer nem pensar em ver o filho sofrer.

 

Procuramos ajuda, mudamos algumas pequenas coisas e subitamente ele começou a mudar. O que me deixa mais pasma é que a mudança foi sutil mas essencial: começamos a mostrar pra ele (através de feedback constante) que somos pessoas como ele, que têm vontades, desejos, frustrações; convidamos o menino a olhar pro outro, através de nós, e perceber a ação / reação, causa e conseqüência.

 

Minha interpretação é que nossa forma de lidar com ele até então foi de respeito, mas no fundo com condescendência — ele é criança, deixa ele, quando crescer ele aprende – entende. Esperávamos dele uma postura de adulto e ao mesmo tempo tratando como “café com leite”. Ele se expressa como adulto, mas com maturidade emocional de bebê, já que a gente não dava o retorno real, amenizava as conseqüências das pequenas atitudes. As “grandes coisas” a gente ensinou com regras claras, mas todas as pequenas coisas, do dia a dia, ficaram pra lá.

 

Quando começamos a ficar atentos e mostrar, nas pequenas coisas, como nos sentíamos, ele aprendeu rapidinho. Começamos a mostrar que esperávamos dele um comportamento de empatia conosco, que não íamos mais aceitar menos só porque ele é criança. Obrigado, por favor, com licença, ajudar em pequenas tarefas, esperar para ser ouvido, lidar com a frustração, compartilhar coisas / momentos / tarefas, terminar o que começou. São coisas simples, mas que fundamentam as regras de convívio sutilmente e nos fazem perceber que O OUTRO existe, e é importante. Que não somos isolados, que dependemos dos outros. Que é uma troca.

 

Por excesso de respeito e amor, por esquecer que antes de ser criança ele é uma pessoa neste mundo, independente de nós, potencializamos a introversão do menino.

 

Mas ele mudou, e rápido. Humanos são adaptáveis, extraordinários, não é à toa que dominamos esse mundo.

 

Também mudei. Ele, sem querer, me ensinou a observar mais, respeitar a capacidade do outro, apreciar o fato de que posso aprender com qualquer um, em especial com ele.

 

**

 

Resolvi ser mãe pela experiência antropológica, lembram? Deseje, e receba 😀

YOU MANIACS!

19:52h, depois de 1h de reclamação pra fazer uma tarefa de CÓPIA:

 

“EU ODEIO SER CRIANÇA!!!!!”

 

Experimenta pagar boleto, Otto, e a gente conversa.

 

**

 

“EU NUNCA VOU FAZER A TAREFA!”

 

(Gritando)

 

Fernando: “já falamos pra não gritar. Amanhã você fica sem desenho.”

 

Otto:

 

**

 

O: (chorando) “se vocês me amam tanto assim, não deviam fazer isso comigo!”

 

(Gastando o zap na 1a rodada, moleque?)

 

Eu: (ajoelhada e olhando bem no olho) “é exatamente porque a gente te ama muito que estamos te ensinando que precisa cumprir os combinados.”

 

Me abraçou em silêncio, bem forte.

 

Favor tocar uma música, Maestro Zezinho.

anarquistas graças a deus

Trabalhei feito uma condenada hoje, não consegui fazer ioga porque não tinha onde estacionar num raio de quilômetros do local da aula e chegando em casa tem um moleque há UMA HORA sentado na mesa chorando porque se recusa a terminar a tarefa da escola, que consiste em escrever os números de 1 a 50.

E o exercício é de disciplina, e não de matemática.

Só bebendo.

**
Otto se recusa a fazer tarefa de casa. E é MEGA simples, não tem nenhuma dificuldade, a revolta é filosófica mesmo, sobre a existência da tarefa de casa.

(Calvin, é você?)

Quando eu cheguei, ele já estava na mesa sentado na frente do caderno esbravejando há vários minutos. Quis me convencer a ajudá-lo a se livrar da tarefa, avisei que só tinha conversa depois da tarefa.

Ele chorou e rangeu dentes e discorreu sobre a injustiça da vida, sobre o amor, tentou negociar, quis falar sobre a guerra do Irã e sobre os pecados capitais, quis assoar o nariz:

“Beu dariz dá entubido!!!”

(Pára de chorar que pára! Quem tirou o acento de pára é um imbecil, não?)

Assoa o nariz, pega o papel sujo e faz bolinhas, enfia nas narinas e guarda as bolinhas “pra jogar boliche depois que acabar”, questiona de novo a existência da tarefa, pede chocolate, fala sobre o desenho que viu ontem, informa que precisamos fazer tudo que ele quer, e quando tentamos responder fica indignado porque “vocês não me deixaram terminar essa frase!”.

“Não quero que mandem em mim!”

E demora 20 minutos pra escrever 49-50, enquanto eu conto até 500 pra não sair dando uma de mãe louca.

Mami Vera, nesses dias eu te admiro de um tanto que nem sei. Desculpa qualquer coisa, hein?

sendo mãe em público

[6-julho-2015]

Sou mãe, adoro comer fora e concordo 100% com esse texto sobre o quanto a forma de alguns pais lidarem com seus filhos em restaurantes atrapalha todos nós. Esse tipo de segregação acaba acontecendo graças aos pais sem noção, que parece que esquecem que crianças fazem parte da sociedade como qualquer outra pessoa — é preciso respeitar o ambiente onde estamos, e suas regras. Se não é aceitável um adulto berrar, sair incomodando as pessoas desconhecidas no corredor ou lamber o saleiro, por que devemos aceitar isso de crianças como se fosse OK?

 

Inclusive considero as saídas para locais públicos como uma excelente oportunidade de ensinar ao meu filho como é esperado que um ser humano se comporte. Porém há lugares que não dá pra administrar as necessidades especiais de uma criança — um restaurante cujo ambiente é apertado, silencioso e que a comida demora a chegar não é lugar pra uma criança pequena que ainda não aprendeu a controlar seu tom e nem tem paciência. VAMOS PRA OUTROS LUGARES, e treinamos a criança, aos poucos.

 

Não é tão difícil, pessoal! Sejamos razoáveis, respeitemos os ambientes. Levar bebê e criança pequena pra concertos e locais em que o silêncio é importante para a experiência coletiva também não é legal. Há que ter consideração pelas outras pessoas e ensinar nossos filhos em ambientes mais adequados, com paciência.

 

Uma coisa que eu já sabia e até por isso fico bem tranquila a respeito: a vida não é igual depois de ter filhos. Você precisa se planejar mais, abrir mão de alguns programas por um tempo e ter paciência de ensinar ao seu filho algumas regras sociais, lembrando que demoram ANOS até que isso esteja OK. Prepare-se para intervir e procure lugares nos quais seja possível transformar a experiência em oportunidade de aprendizado.

sobre ser diferente

Lendo um livro sobre medo, na Livraria da Vila, uma das páginas fala sobre o medo de ser diferente — é uma menina com uma boneca na mão, numa prateleira cheia de bonecas iguais entre si, e diferentes dela.

 

O: “por que ela tem medo de ser diferente? Por que ela quer ser igual à boneca?”

 

Eu: “porque quando ela vê as bonecas todas iguais ela acha que ela também precisa ser assim pra ser bonita.”

 

O: “então ela não sabe que ser diferente é legal?”

 

 

Eu: “que bom você achar isso! Ela não sabe não, mas olha — ela encontra uma amiga parecida com ela e fica feliz.”

 

O: “mas se fôssemos (!) todos iguais ia ser chato, todo mundo ia falar a mesma coisa.”

 

Eu: (pensa num orgulho?) “é isso mesmo, meu amor. É super legal ser diferente.”

 

Quando a gente vê a importância de ler para uma criança os livros que falam sobre diferenças. Ele ama especialmente um que chama “O mundinho sem bullying”, que fala também sobre isso, e sobre respeitar cada um do jeito que é.

quadrilha

Otto se recusou a dançar na quadrilha, não queria nem sair de casa. Fernando fez ele ir lá e explicar pra professora e os amigos que não ia dançar, já que esperavam por ele.

 

Pois foi, explicou e não cedeu mesmo todo mundo insistindo.

 

Eu: “mas que pena, Otto! Você ensaiou e tudo, ia ser divertido, não acha?”

 

O: “é divertido sim, mas eu não quis mesmo assim.”

 

Não consigo nem achar ruim — adoro ver ele de caipira e fazendo as atividades, mas fico mais feliz vendo que ele sabe bem o que quer e não tem medo de se posicionar.

 

(Mas torço pelo dia em que ele vai realmente ter prazer na companhia dos amigos da escola)

porque sofro por você

achava que o medo melhorava com o tempo (melhora), mas descobri que ele só muda, se disfarça. fica ali à espreita, basta uma brecha e ZÁZ, cá estou me forçando a limpar a mente, foco no HOJE, AGORA.

o medo é assassino da mente. o medo é a pequena morte que traz total obliteração. enfrentarei meus medos, permitirei que passem sobre mim e através de mim, e quando tiverem passado farei com que o olho interior enxergue seu caminho, onde o medo esteve não restará nada. somente eu permanecerei. (litania contra o medo)

fizemos seu primeiro exame de sangue depois do período de UTI neonatal (você odiou, claro), e agora TUDO passa pela minha cabeça. será que está tudo bem? são tantas as histórias horríveis de crianças doentes que eu tenho que me esforçar pra não pensar, não projetar, não sofrer.

você não tem se mostrado uma criança sociável, o que para os padrões da nossa sociedade é um problema grande. não tem amigos, não dá bola pra nenhuma criança. fala pouco, só quando tem mesmo alguma coisa importante pra dizer. as pessoas comentam, cobram, acham diferente, e eu sofro. não só porque seu jeito não se adequa à expectativa dos outros, mas porque sei que o mundo privilegia os extrovertidos, que você pode ser visto como antisocial ou esquisito para o resto da vida.

como lidar com o mundo, com a expectativa, com o desconhecido, o acaso, o incontrolável?

**

não sei. tento não me ocupar do que não está no meu controle, tento deixar para pensar e resolver coisas quando elas aparecem. mas o medo, ah.

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quero ajudar você a navegar nesse mundo. somos muitos diferentes, e talvez minha angústia seja a de não poder compartilhar com você minhas ferramentas, minha história — talvez nada do que serviu pra mim sirva pra você.

vou precisar aprender a navegar de outro jeito, ver o mundo com seus olhos, aprender novas formas de viver, pra poder ensinar pra você. aprender junto.

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mas o medo. ai.