o machismo na escola

Falemos sobre o machismo atrapalhando nossa vida e nos irritando, versão “todos perdem”.

 

Aqui em casa o Fernando é que faz a função “horário comercial” da casa, já que eu estou mergulhada até o topo da cabeça em trabalho das 8 às 18h. Eu busco o Otto na escola quase todo dia, mas o restante das atividades do Otto (levar pra escola, médico, dentista e outras atividades extras) e de funcionamento da casa (supermercado, manutenção) são dele, que tem flexibilidade.

 

A luta começa na direção da escola, que insiste em ligar pro meu celular quando há alguma emergência ou necessidade de contato — já aconteceu de eu sair correndo de reunião importante porque me ligaram da enfermaria (pequenos acidentes); tive que ligar pro Fer pra ele ir buscar, e aí fico arrancando os cabelos no trabalho preocupada, sem poder fazer muita coisa. Demorou meses pra ligarem pra ele e não pra mim.

 

Os recados “práticos” são todos direcionados à mãe. Mandar toalha, mandar garrafa, pensem aí em coisas pra fazer. Tudo a mãe. Nem o pai pedindo mandam pra ele.

 

Mas tem mais. O Fer quer (mentira; precisa) participar do grupo de WhatsApp DAS MÃES. Porque não existe grupo de “pais”, “cuidadores”, “responsáveis”, “GENITORES”. Não, são mães.

 

E as mães ficam mega resistentes em receber homens no grupo.

 

(Pausa para entender mulheres serem resistentes à presença de homens em qualquer lugar, dados os FATOS HORRÍVEIS que acontecem conosco todo dia, né)

 

Bem, mas aí o Fer procura essas mães e explica que ele é que cuida das coisas do dia a dia do Otto e que gostaria de participar. Depois de alguma resistência, aceitam.

 

MAS (é aqui que a coisa fica triste) elas interpretam que o Fer cuida do Otto **sozinho**. Que eu, a mãe, não existo, não ligo, não participo, sei lá, fugi com o circo.

 

Porque a única coisa que faz sentido numa história na qual o pai é protagonista na criação e cuidado do seu filho é aquela em que a mãe não existe, ou é uma porralouca, e o pai — ó, tenhamos compaixão dele e vamos “aceitá-lo” — é um herói solitário.

 

A ideia da existência de um arranjo tão simples quanto este que Fer e eu temos é muito menos provável pras pessoas do que a ideia de uma mãe que não existe na vida do filho.

 

Eu acordo com meu filho, resolvo várias coisas em conjunto com o pai sobre ele, vou às visitas do médico sempre que posso, pego ele quase todo dia na escola, levo ele na escola quando o pai não pode, ajudo na lição, dou jantar, dou banho, visto, leio histórias, durmo com ele, escovo os dentes, compro roupas e sapatos, separo roupas pequenas e velhas, organizo brinquedos, compro livros, falo com a terapeuta no WhatsApp, entro em contato com as mães dos amigos que são minhas amigas pra combinar programas, penso em programas de fim de semana, desenho, faço escultura, organizo festa, cozinho tudo que é coisa que ele gosta (de fim de semana e dia de semana), sento pra brincar com ele, mas…

 

… eu não tou livre todo dia pra dirigir e levá-lo pra escola na hora do almoço, e nem pra levar pra festinha no meio do dia. A ausente.

 

(Mais uma pausa aqui pra considerarmos o quanto a flexibilidade de horário faria bem à igualdade de gêneros, não é?)

 

Não culpo essas mulheres. Elas nem entendem o quanto a visão machista da função de criar um filho está cristalizada em suas mentes.

 

Culpo a sociedade, e faço minha parte pra mudá-la. Contarei essas histórias quantas vezes forem necessárias e pra quem quiser ouvir, porque os homens precisam ser mais presentes nas atividades domésticas e as mulheres precisam não só cobrar que eles sejam, mas valorizar isso. Nível “se você não limpa casa e não cuida de criança, não serve pra ser meu parceiro e pai dos meus filhos”.

 

O principal conselho que tenho para moças jovens é — escolham bem seus / suas parceiros/as.

O drama da escola (que ainda não acabou em 2017…)

[16-ago-2015]

Prestes a completar 5 anos, o Otto finalmente começou a gostar da escola a ponto de ficar desapontado no sábado quando descobriu que não ia! <3

 

Ainda é uma criança introvertida e diferente das demais (e não tenho nada contra; espero poder ajudá-lo a saber que ser diferente não é errado), mas já se integrou com as crianças, está mais solto em geral, se importa menos com barulho e bagunça, sabe se colocar e impor no meio das demais crianças e está ficando uma praguinha! Parece até que já tem seu primeiro amigo escolhido por ele mesmo (ele tem vários amigos filhos de pessoas queridas, mas que ele acolheu através de nós e não exatamente escolheu).

 

Foram 3 anos difíceis pra nós, desde que ele começou a ir à escola. Talvez mais pra mim — sou extrovertida, era daquelas crianças arroz de festa, relacionamentos sociais pra mim são muito fáceis. Foi muito difícil observar meu filho sendo tão fechado, resistente ao contato social. Só consigo pensar “ele vai sofrer!”, e ninguém quer nem pensar em ver o filho sofrer.

 

Procuramos ajuda, mudamos algumas pequenas coisas e subitamente ele começou a mudar. O que me deixa mais pasma é que a mudança foi sutil mas essencial: começamos a mostrar pra ele (através de feedback constante) que somos pessoas como ele, que têm vontades, desejos, frustrações; convidamos o menino a olhar pro outro, através de nós, e perceber a ação / reação, causa e conseqüência.

 

Minha interpretação é que nossa forma de lidar com ele até então foi de respeito, mas no fundo com condescendência — ele é criança, deixa ele, quando crescer ele aprende – entende. Esperávamos dele uma postura de adulto e ao mesmo tempo tratando como “café com leite”. Ele se expressa como adulto, mas com maturidade emocional de bebê, já que a gente não dava o retorno real, amenizava as conseqüências das pequenas atitudes. As “grandes coisas” a gente ensinou com regras claras, mas todas as pequenas coisas, do dia a dia, ficaram pra lá.

 

Quando começamos a ficar atentos e mostrar, nas pequenas coisas, como nos sentíamos, ele aprendeu rapidinho. Começamos a mostrar que esperávamos dele um comportamento de empatia conosco, que não íamos mais aceitar menos só porque ele é criança. Obrigado, por favor, com licença, ajudar em pequenas tarefas, esperar para ser ouvido, lidar com a frustração, compartilhar coisas / momentos / tarefas, terminar o que começou. São coisas simples, mas que fundamentam as regras de convívio sutilmente e nos fazem perceber que O OUTRO existe, e é importante. Que não somos isolados, que dependemos dos outros. Que é uma troca.

 

Por excesso de respeito e amor, por esquecer que antes de ser criança ele é uma pessoa neste mundo, independente de nós, potencializamos a introversão do menino.

 

Mas ele mudou, e rápido. Humanos são adaptáveis, extraordinários, não é à toa que dominamos esse mundo.

 

Também mudei. Ele, sem querer, me ensinou a observar mais, respeitar a capacidade do outro, apreciar o fato de que posso aprender com qualquer um, em especial com ele.

 

**

 

Resolvi ser mãe pela experiência antropológica, lembram? Deseje, e receba 😀

YOU MANIACS!

19:52h, depois de 1h de reclamação pra fazer uma tarefa de CÓPIA:

 

“EU ODEIO SER CRIANÇA!!!!!”

 

Experimenta pagar boleto, Otto, e a gente conversa.

 

**

 

“EU NUNCA VOU FAZER A TAREFA!”

 

(Gritando)

 

Fernando: “já falamos pra não gritar. Amanhã você fica sem desenho.”

 

Otto:

 

**

 

O: (chorando) “se vocês me amam tanto assim, não deviam fazer isso comigo!”

 

(Gastando o zap na 1a rodada, moleque?)

 

Eu: (ajoelhada e olhando bem no olho) “é exatamente porque a gente te ama muito que estamos te ensinando que precisa cumprir os combinados.”

 

Me abraçou em silêncio, bem forte.

 

Favor tocar uma música, Maestro Zezinho.

anarquistas graças a deus

Trabalhei feito uma condenada hoje, não consegui fazer ioga porque não tinha onde estacionar num raio de quilômetros do local da aula e chegando em casa tem um moleque há UMA HORA sentado na mesa chorando porque se recusa a terminar a tarefa da escola, que consiste em escrever os números de 1 a 50.

E o exercício é de disciplina, e não de matemática.

Só bebendo.

**
Otto se recusa a fazer tarefa de casa. E é MEGA simples, não tem nenhuma dificuldade, a revolta é filosófica mesmo, sobre a existência da tarefa de casa.

(Calvin, é você?)

Quando eu cheguei, ele já estava na mesa sentado na frente do caderno esbravejando há vários minutos. Quis me convencer a ajudá-lo a se livrar da tarefa, avisei que só tinha conversa depois da tarefa.

Ele chorou e rangeu dentes e discorreu sobre a injustiça da vida, sobre o amor, tentou negociar, quis falar sobre a guerra do Irã e sobre os pecados capitais, quis assoar o nariz:

“Beu dariz dá entubido!!!”

(Pára de chorar que pára! Quem tirou o acento de pára é um imbecil, não?)

Assoa o nariz, pega o papel sujo e faz bolinhas, enfia nas narinas e guarda as bolinhas “pra jogar boliche depois que acabar”, questiona de novo a existência da tarefa, pede chocolate, fala sobre o desenho que viu ontem, informa que precisamos fazer tudo que ele quer, e quando tentamos responder fica indignado porque “vocês não me deixaram terminar essa frase!”.

“Não quero que mandem em mim!”

E demora 20 minutos pra escrever 49-50, enquanto eu conto até 500 pra não sair dando uma de mãe louca.

Mami Vera, nesses dias eu te admiro de um tanto que nem sei. Desculpa qualquer coisa, hein?

sendo mãe em público

[6-julho-2015]

Sou mãe, adoro comer fora e concordo 100% com esse texto sobre o quanto a forma de alguns pais lidarem com seus filhos em restaurantes atrapalha todos nós. Esse tipo de segregação acaba acontecendo graças aos pais sem noção, que parece que esquecem que crianças fazem parte da sociedade como qualquer outra pessoa — é preciso respeitar o ambiente onde estamos, e suas regras. Se não é aceitável um adulto berrar, sair incomodando as pessoas desconhecidas no corredor ou lamber o saleiro, por que devemos aceitar isso de crianças como se fosse OK?

 

Inclusive considero as saídas para locais públicos como uma excelente oportunidade de ensinar ao meu filho como é esperado que um ser humano se comporte. Porém há lugares que não dá pra administrar as necessidades especiais de uma criança — um restaurante cujo ambiente é apertado, silencioso e que a comida demora a chegar não é lugar pra uma criança pequena que ainda não aprendeu a controlar seu tom e nem tem paciência. VAMOS PRA OUTROS LUGARES, e treinamos a criança, aos poucos.

 

Não é tão difícil, pessoal! Sejamos razoáveis, respeitemos os ambientes. Levar bebê e criança pequena pra concertos e locais em que o silêncio é importante para a experiência coletiva também não é legal. Há que ter consideração pelas outras pessoas e ensinar nossos filhos em ambientes mais adequados, com paciência.

 

Uma coisa que eu já sabia e até por isso fico bem tranquila a respeito: a vida não é igual depois de ter filhos. Você precisa se planejar mais, abrir mão de alguns programas por um tempo e ter paciência de ensinar ao seu filho algumas regras sociais, lembrando que demoram ANOS até que isso esteja OK. Prepare-se para intervir e procure lugares nos quais seja possível transformar a experiência em oportunidade de aprendizado.

sobre ser diferente

Lendo um livro sobre medo, na Livraria da Vila, uma das páginas fala sobre o medo de ser diferente — é uma menina com uma boneca na mão, numa prateleira cheia de bonecas iguais entre si, e diferentes dela.

 

O: “por que ela tem medo de ser diferente? Por que ela quer ser igual à boneca?”

 

Eu: “porque quando ela vê as bonecas todas iguais ela acha que ela também precisa ser assim pra ser bonita.”

 

O: “então ela não sabe que ser diferente é legal?”

 

 

Eu: “que bom você achar isso! Ela não sabe não, mas olha — ela encontra uma amiga parecida com ela e fica feliz.”

 

O: “mas se fôssemos (!) todos iguais ia ser chato, todo mundo ia falar a mesma coisa.”

 

Eu: (pensa num orgulho?) “é isso mesmo, meu amor. É super legal ser diferente.”

 

Quando a gente vê a importância de ler para uma criança os livros que falam sobre diferenças. Ele ama especialmente um que chama “O mundinho sem bullying”, que fala também sobre isso, e sobre respeitar cada um do jeito que é.

quadrilha

Otto se recusou a dançar na quadrilha, não queria nem sair de casa. Fernando fez ele ir lá e explicar pra professora e os amigos que não ia dançar, já que esperavam por ele.

 

Pois foi, explicou e não cedeu mesmo todo mundo insistindo.

 

Eu: “mas que pena, Otto! Você ensaiou e tudo, ia ser divertido, não acha?”

 

O: “é divertido sim, mas eu não quis mesmo assim.”

 

Não consigo nem achar ruim — adoro ver ele de caipira e fazendo as atividades, mas fico mais feliz vendo que ele sabe bem o que quer e não tem medo de se posicionar.

 

(Mas torço pelo dia em que ele vai realmente ter prazer na companhia dos amigos da escola)

porque sofro por você

achava que o medo melhorava com o tempo (melhora), mas descobri que ele só muda, se disfarça. fica ali à espreita, basta uma brecha e ZÁZ, cá estou me forçando a limpar a mente, foco no HOJE, AGORA.

o medo é assassino da mente. o medo é a pequena morte que traz total obliteração. enfrentarei meus medos, permitirei que passem sobre mim e através de mim, e quando tiverem passado farei com que o olho interior enxergue seu caminho, onde o medo esteve não restará nada. somente eu permanecerei. (litania contra o medo)

fizemos seu primeiro exame de sangue depois do período de UTI neonatal (você odiou, claro), e agora TUDO passa pela minha cabeça. será que está tudo bem? são tantas as histórias horríveis de crianças doentes que eu tenho que me esforçar pra não pensar, não projetar, não sofrer.

você não tem se mostrado uma criança sociável, o que para os padrões da nossa sociedade é um problema grande. não tem amigos, não dá bola pra nenhuma criança. fala pouco, só quando tem mesmo alguma coisa importante pra dizer. as pessoas comentam, cobram, acham diferente, e eu sofro. não só porque seu jeito não se adequa à expectativa dos outros, mas porque sei que o mundo privilegia os extrovertidos, que você pode ser visto como antisocial ou esquisito para o resto da vida.

como lidar com o mundo, com a expectativa, com o desconhecido, o acaso, o incontrolável?

**

não sei. tento não me ocupar do que não está no meu controle, tento deixar para pensar e resolver coisas quando elas aparecem. mas o medo, ah.

**

quero ajudar você a navegar nesse mundo. somos muitos diferentes, e talvez minha angústia seja a de não poder compartilhar com você minhas ferramentas, minha história — talvez nada do que serviu pra mim sirva pra você.

vou precisar aprender a navegar de outro jeito, ver o mundo com seus olhos, aprender novas formas de viver, pra poder ensinar pra você. aprender junto.

**

mas o medo. ai.

mudar é preciso

e não temos (muito) medo de mudar. então lá vem outra…

mas antes, um pouco de contexto: pra quem me acompanha desde o começo, sabe que a escolha da escola do Otto foi um processo — a gente pesquisou, pensou, avaliou, e acabamos decidindo pela pedagogia Waldorf. os principais motivos foram (1) alimentação orgânica / natural (não servem nada industrializado nem com açúcar, os lanches são todos fruta, castanha ou cereal); (2) contato com a natureza (quintal grande, atividades direto na terra e com plantas); (3) acolhimento da criança sem o ambiente “escolar”, o grande foco é no brincar — não existe AULA, mas atividades lúdicas direcionadas, procurando imitar o ambiente familiar com a professora fazendo as vezes de “mãe” arquetípica.

nos encantamos tanto com a pedagogia que nos dispusemos, junto com outras 7 famílias, a criar uma associação Waldorf para nossas crianças, gerenciada por nós, o Espaço Livre EcoAra. a gestão associativa, com total participação dos pais e professores, é a base da pedagogia, e é uma experiência muito profunda. participar de forma ativa da criação e gestão do espaço no qual nossos filhos vivenciam os primeiros anos escolares é transformador. desde a valorização do trabalho que exige a criação e manutenção de uma escola até o senso de pertencimento e envolvimento, toda a vivência nos torna pessoas mais atentas, melhores, mais dedicadas. além disso tudo, ainda é possível conhecer pessoas do bem — mesmo com os inúmeros conflitos que são inevitáveis ao convívio em grupo, a gente percebe que ninguém erra por maldade, mas porque fazer coisas em grupo é complexo, e o ser humano é difícil.

foram 2 anos muito importantes pra nós, e estou certa que foram também pro Otto. sempre achamos que a pedagogia Waldorf seria muito boa pra ele até os 6 ou 7 anos, quando ainda não iniciam as atividades de alfabetização.

**

ainda assim decidimos abandonar a pedagogia Waldorf para o Otto antes de completados os 7 anos. continuamos voluntários da associação, do Espaço EcoAra, e faremos tudo que for possível para que eles se mantenham e continuem esse projeto tão bonito.

o nosso motivo é basicamente um: quanto mais tivemos contato com a antroposofia, menos gostamos dela. fiz várias tentativas de ler textos, “artigos” e também alguns livros, e a cada tentativa minha frustração e incômodo se intensificavam. esta filosofia se diz científica, e tem um discurso pseudo científico que chega a enganar quem quer ser enganado, mas para quem realmente gosta de ciência e entende o método científico, não dá. eles acreditam em karma, alma, reencarnação, além de jesus como filho de deus, santos, anjos e mais uma lista enorme de coisas absolutamente fictícias (desculpa, pessoal crente. é ficção, até que seja provado). é uma mistura sem fim de dogmas e crenças, porém muito disfarçados de ciência, o que me incomodou ainda mais.

steiner é arcaico. pode ter sido uma figura importante e brilhante no seu tempo, mas ficou ultrapassado em vários sentidos, e não vejo na filosofia uma abertura à diversidade real, ao debate, o incentivo ao pensamento científico. as diretrizes da pedagogia, por exemplo, são extremamente rígidas e o espaço para o debate não existe. os princípios da pedagogia Waldorf têm 1 século e jamais foram revistos, atualizados, modernizados à luz de tantas vertentes pedagógicas novas — como pode? Steiner podia ser um homem inteligente, mas a humanidade continuou a evoluir, e a pedagogia está parada no tempo, cristalizada, obedecendo aos princípios que ele postulou.

não nos sentimos incluídos, nossas dúvidas (colocadas para várias pessoas “seguidoras” da antroposofia) jamais foram acolhidas, muito pelo contrário — nos sentimos mal por questionar, e isso nunca é bom para pessoas como nós, que acreditam que perguntas e questionamentos são a base da evolução, da ciência, do desenvolvimento. como submeter nosso filho a uma pedagogia que se baseia em princípios que sabemos ser fictícios? qual será o espaço que ele terá, depois dos 7 primeiros anos de brincar, para questionar e discordar?

tenho certeza que alguém do meio antroposófico vai dizer que nossa experiência não representa o todo, que a antroposofia é baseada na liberdade do indivíduo, mas não se engane: não é. o indivíduo que refuta a existência de deus e do espírito não tem espaço na antroposofia. concluímos, com certo pesar, que a antroposofia, a pedagogia Waldorf e todos os que de alguma forma entraram em conflito conosco a esse respeito não estavam errados — eles estão alinhados entre si, e coerentes. nós é que precisávamos mudar (ou aceitamos, ou saímos), e a decisão foi tomada. talvez existam educadores brilhantes o suficiente na pedagogia Waldorf que tenham condições de lidar com a diversidade de pensamento, e a clareza de admitir que a antroposofia é mais uma vertente espiritual, sem impor isso a seus alunos de forma indireta e subliminar (o que pra mim é pior do que uma escola declaradamente católica, por exemplo, ou judia). mas não vou confiar a educação científica* do meu filho a professores que (frequentemente) são parte da ficção espiritual de forma tão engajada.

(*) uma pausa para esse assunto: não temos nada contra crenças individuais (tudo contra religião. mas esse é assunto pra outro post) e fé seja no que for. mas estamos convictos que fé e crença devem ser ensinadas SOMENTE dentro do contexto familiar. à escola cabe o ensino das normas, do convívio, dos princípios da vida em sociedade, da ciência. não quero nenhum professor repassando ao meu filho suas crenças em seres imaginários, em especial quando isso é feito de forma indireta e muito frequentemente inconsciente.

mas voltando: depois da exposição às crenças antroposóficas / Waldorf, não ficamos felizes com as possibilidades do ensino neste método a partir dos 7 anos. até os 6 anos seria tudo ótimo, pois eles basicamente brincam e interagem entre si através das atividades dirigidas de artes, música, brincadeiras. poderíamos deixá-lo na Waldorf até os 6 anos pelo menos, mas aí entra uma característica do Otto: ele é um menino introvertido, que demora muito a se familiarizar com as pessoas e ambientes. após 4 anos na Waldorf com a mesma turma, ele seria transicionado para uma escola comum, no sistema de ensino tradicional (o que por si já seria um choque) e além de tudo começando a alfabetização, que é também uma mudança importante.

para evitar um choque tão abrupto, decidimos mudá-lo de escola neste ano, e deixá-lo se adaptar ainda no jardim, antes de iniciar a alfabetização.

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bom, não foi fácil a decisão. o sistema tradicional de ensino exige da criança uma maturidade que ela nem sempre tem, e isso é doído. o otto por exemplo tem interesse pelas letras e números, formas geométricas, já sabia desde 2 anos, então essa parte não nos preocupa. mas ele não é uma criança independente e extrovertida — não se veste sozinho, nem escova os dentes (direito, né. de qualquer jeito ele faz), lava as mãos, cuida das próprias coisas. muito dessa dependência é culpa nossa, claro, porque temos preguiça de deixar ele fazer (demora; tem que refazer) e fazemos por ele. agora ele está sendo pressionado a ter uma independência que não tem ainda, e confesso que tem sido difícil pra mim (talvez mais que pra ele).

ele agora vai para uma escola de curriculum internacional, em inglês, das 7:20 às 15:15h. almoça e toma lanche na escola, convive com crianças de várias nacionalidades, tudo em inglês e português. há alguns meses ele começou a se interessar muito pelo inglês por causa do desenho dora aventureira, então quando decidimos por esta escola ele ficou super feliz.

ele começou há 1 semana, e não precisamos buscá-lo mais cedo nenhum dia (ou seja, ficou sem chorar e sem reclamar muito), está comendo bem e quando perguntamos sobre a escola ele diz que está gostando. tem chegado feliz, dorme bem, está no geral ótimo, o que nos surpreendeu muito, pra ser sincera. achamos que a mudança seria sentida, que choraria, reclamaria, e ele está lidando muito melhor do que nós 🙂

fizemos nossa 1a reunião com as professoras no final da 1a semana, e elas disseram que ele está bem, não estranhou, mas notaram a falta de independência dele comparado às outras crianças. a culpa é toda nossa, e agora precisamos ajudá-lo a ser mais independente para se adaptar melhor. aparentemente ser tudo em inglês não incomodou ele de forma alguma — não reclamou, e uma das professoras comentou que ele “fala inglês” (rimos muito; ele se vira bem, aparentemente). vamos ver como segue. na 1a segunda-feira depois da 1a semana de aula ele chorou quando percebeu que ia pra escola — queria ficar mais em casa (eu também. nós todos também. como dar essa notícia pra ele?)

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assim como foi no começo, quando ele foi à escola pela 1a vez, percebo o quanto a tarefa de fabricar humanos é difícil e muitas vezes dolorida — todas as feridas, esquecidas há tanto tempo, abrem e voltam com força total. nestes dias de ansiedade e apreensão por ele, sinto falta da minha mãe. revivo memórias construídas (sempre amei a escola, mas como será que era levantar de manhã e sair de casa? nunca foi fácil na vida adulta, deve ter sido difícil quanto pequena também), tento ser pra ele uma mãe tão presente e carinhosa nessa hora da partida do ninho quanto minha mãe o foi (ser acordada pela minha mãe e tomar café da manhã é das lembranças mais lindas que tenho da infância). eu o acordo com todo carinho, visto sua roupa (ainda não consigo deixá-lo vestir, porque teria que acordar MUITO mais cedo), sento para tomar café da manhã junto. na volta, pergunto da escola, e tento mostrar que é um lugar (e uma experiência) super legal. ele nunca fala muito, mas diz que gosta, e eu tento acreditar.

anseio pelo dia em que ele faça amigos, e se interesse também pelo mundo dos outros, não somente o nosso, da nossa casa e nossa família. quero que ele navegue, tenha coragem, e sinta felicidade também em partir, não só em retornar.

enquanto isso, meu coração de mãe cabe num dedal.

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da páscoa e outras tradições familiares

Antes de ser mãe eu não percebia tão bem as pequenas nuances da criação da memória, e das lembranças afetivas. Não me dava conta da maravilha do ritual da preparação das refeições em família — porque no dia a dia era mecânico, prático, mas nas festividades, estar junto fazendo algo em comum era a essência da comemoração. O resultado (a comida, comer) era só mais uma coisa. O sabor daquelas refeições era maravilhoso porque o processo todo de preparação alimentava o coração. O estômago e a boca só acompanham e reverberam o amor e a felicidade de estar junto, mãos com mãos, fazendo um pouco da nossa história conjunta.

Faço absoluta questão de construir para o Otto essas memórias conjuntas. O preparo de um peixe, a poda das plantas, a canção cantada em coro. Porque nada do que eu deixar pra ele vai ser mais importante ou duradouro que as memórias profundas, aquelas que assaltam a gente no domingo de manhã ao provar um pedaço de chocolate.

Te amo Mami VeraKellyKitoArina. Mandem um beijo pro meu Papi aí. Manhãs de Páscoa me lembram vocês.

happiness only real when shared.

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Esse ano, ao invés de patinhas, resolvi fazer charada  Como foi a 1a vez que o Otto teve contato, tivemos que dar dicas de como funciona. Quando ele entendeu, adorou, e correu pro castelo pra achar a cesta de ovos 

(E esse ano ele adorou a cenoura mas quis comer o chocolate! Hahahhahaha)