diálogos noturnos

Gente, essa criança tá impossível. 😂

**

O: “mamãe, eu queria ser uma bomba simbionte. Igual o Carnificina”

Eu: “oi?! O que é isso?”

O: (cara de AI, MÃE) “quem criou ele foi o Dr Oc. Ele pegou a meleca do espaço que formou o Venon — isso é o simbionte — e misturou com outro simbionte que ele criou, só que vermelho, e fez o Carnificina.”

Eu: “hm, e você quer ser esse simbionte que é do mal?”

O: “não, queria ser que nem o Venon — ele era do mal mas ficou do bem.”

Sei.

**

Eu: “Otto, você desenhou no travesseiro, de caneta?!”

O: “era só um desenhinho, pequeno… é o mar!”

(E enorme)

Eu: “Não pode, amor. Esse desenho aí não sai mais. Por isso que a gente não desenha nas roupas, nos tecidos da casa.”

O: “mas lava, ué!”

Eu: “não, gato, não sai lavando, por isso a gente EVITA, tá?”

O: “poxa, eu não sabia.”

(Já me arrependi, a mãe)

Eu: “não tem problema, só lembra disso. Boa noite meninos!”

 

(Tou saindo do quarto pra apagar a luz, Fernando deitou com ele)

 

O: “mas mamãe… por que não sai? É IMPOSSÍVEL?” (com muita ênfase)

Eu: “vou deixar seu pai explicar. BOA NOITE, PESSOAL!”

 

Apago a luz e saio, boa sorte aí, Fer!

o primeiro acidente doméstico a gente não esquece

neste domingo, no finalzinho do dia, tivemos nosso primeiro acidente doméstico importante (ou seja — que precisou de exames/intervenção): o otto prendeu os 4 dedinhos da mão direita no vão da porta (do lado da dobradiça), bem no meio dos dedos 🙁

eu estava cozinhando, enquanto ele brincava na despensa, como sempre faz. mas pela primeira vez decidiu enfiar seus dedinhos no vão e abrir a porta… até prender.

não consigo esquecer a carinha dele, começando a chorar e me chamando “mamãe, eu prendi os dedinhos na porta…”. eu, desesperada pra ajudar, não percebi que bastava “fechar” ele atrás da porta de novo pros dedos soltarem. fiquei ali, tentando entender o mecanismo, e enquanto isso os dedinhos presos. como não fechei a porta o suficiente pra conseguir soltar, soltei os dedinhos arranhando a parte gordinha. ficou bastante inchado, e arranhou de leve (por sorte não cortou). colocamos gelo, e o pai levou pro PS em pleno domingo à noite. depois do resultado do exame (que não deu nada), liguei pra pediatra, que pediu um exame feito por um ortopedista pediátrico, já que nessa idade os ossos são muito pequenos e maleáveis, não é qualquer médico que sabe avaliar.

fizemos o exame no dia seguinte, e tudo estava bem, tudo perfeito. a mãozinha já tinha desinchado bem, felizmente, e ele amanheceu desenhando e usando a mão normalmente.

mas fiquei de coração partido com ele chorando e olhando a mãozinha, pedindo ajuda e depois reclamando da dor (ou do susto, não dá pra saber direito). fiquei me sentindo culpada, não pelo acidente em si, mas por não conseguir ter sangue-frio suficiente pra ajudá-lo mais rápido e de forma mais eficiente. é como um filme que passa pela cabeça mil vezes depois (“poderia ter feito isso, e aquilo, e aquilo outro…”). tudo inútil, claro.

fiquei pensando em como é difícil esse papel de pai e mãe, de proteger a criança. porque é disso que se trata — nosso trabalho é protegê-lo. e eu falhei. sei que vai acontecer muitas vezes ainda, e que no limite eu não posso protegê-lo de tudo (afinal, ele precisa descobrir os limites do mundo por conta própria também, oras), mas eu queria. sofrimento de filho é pior que o nosso próprio.

e — clichê dos clichês — só agora consigo ter plena empatia pela situação da minha mãe, de 3 crianças muito peraltas. por mais que racionalmente seja possível entender o que passa uma mãe, sua preocupação com os filhos, sem ter filhos esse entendimento racional é basicamente nada. nenhum conhecimento prepara a gente pra tempestade de emoções que é ver seu filho chorando, machucado, com dor. por menor que seja, é muito difícil. antecipo muitos anos de sofrimento compartilhado pela frente, diante das molecagens que ele começou a aprontar…

**

e no meio disso tudo, com a mãozinha machucada e inchada, enquanto o pai se vestia para ir com ele ao PS, ele comeu um prato de arroz, feijão, carninha e chuchu. porque era isso que eu fazia enquanto ele se escondia atrás da porta: o jantar.

se comportou como um lorde no exame com a médica plantonista, com o moço do raio-X, com o ortopedista, e com a médica (era retorno de consulta, por coincidência, no dia seguinte). avisou que ela poderia examiná-lo, mas “sem ouvir o coração. não quero o estetoscópio”. a médica, claro, se encantou por ele saber o que é o aparelho, e por falar tão direitinho. nosso menino curioso e louco por palavras difíceis e um tiquinho hipocondríaco 🙂

no final tudo ficou bem, e voltamos à normalidade. mas o primeiro acidente a gente não esquece (eu acho. na dúvida, fica o registro!)

**

PS: ele teve um outro acidente (com corte e sangue, no supercílio), mas foi na escola. nós só vimos o resultado, que virou uma cicatriz até charmosinha.