o que NÃO é autismo

Excelente artigo sobre disgnósticos precipitados (e incorretos) de autismo, quando o que a criança apresenta é simplesmente comportamento tipicamente masculino e introvertido. Também esclarece um pouco sobre comportamento típico de crianças de 1-3 anos.

Muito interessante para que observar e respeitar características inatas de cada criança, sem necessidade de rótulo, porém lembrando que existem algumas inclinações, sim, e elas são perfeitamente naturais. Nem todos serão extrovertidos e verbais.

“The stereotype of boys as logical, inflexible, and businesslike in their communication habits is more than just a stereotype. A recent massive study out of the University of Florida involving fifty-four hundred children in the United States ages eight to sixteen indicates that twice as many boys as girls fit this thinking-type temperament. Conversely, twice as many girls as boys fit the feeling-type temperament— tactful, friendly, compassionate, and preferring emotion over logic.”

quando queres o sim e o não, talvez

uma leitora generosa desse blog deixou um link nos comentários deste post sobre como conversar com crianças que fala sobre dizer não. acho que vale compartilhar um pouco da minha experiência, pois decidi conscientemente como lidar com a questão, e até o momento fui bem-sucedida.

não sou dessas mães que são contra dizer não para crianças. já vi mães que não falam a palavra não (sei lá porque… dá azar? traumatiza? :)), e acho bem estranho. poxa, receber nãos é parte da vida!

mas concordo com o seguinte: fica complicado (e chato) quando você fala não o tempo todo, pra tudo. quando a criança começa a se movimentar e explorar, se não houver um mínimo de liberdade no ambiente onde ela fica e TUDO é proibido, a vida vai ser uma sucessão de nãos, o que é muito frustrante. crianças precisam de ambientes que possam ser explorados, experimentados com o corpo todo (a boca inclusive). você não precisa deixar sua casa inteira disponível para a criança, mas alguma área disponível precisa existir, para que ela faça o que foi programada pra fazer nesta fase (sem obstáculos frequentes): explorar.

ou seja — a criança precisa ouvir sim também, combinado com os nãos. até pra perceber a diferença, e aprender como funciona quero/não quero, pode/não pode. li em algum lugar que é bom balancear esses sim/não, de forma que um não fique muito mais frequente que o outro. falar sim demais pode criar situações de perigo ou tornar seu filho uma daquelas crianças sem limite que todos detestam; falar não demais pode deixar a criança intimidada e contrariada, e os 2 comportamentos são muito difíceis de lidar.

como equilibrar?

o ambiente

em casa, adaptamos algumas coisas principalmente para evitar perigos graves (cantos de vidro, tomadas, objetos pesados que poderiam cair em cima do bebê, etc.) e para evitar quebrar coisas que não podem ser repostas ou são caras demais (enfeites, eletrônicos mais delicados).

a casa ficou quase a mesma, mas não dá pra disfarçar que uma criança mora lá (nossa morada não é mais capa da casa claudia… :D), sempre tem um brinquedo, coisas espalhadas e alguns protetores de canto de mesa. ou seja — na medida do possível pra nós, cedemos para poder falar mais sim que não.

mas lembre que falar o sim é importante: observe a criança explorar e incentive a exploração de coisas que podem ser exploradas. dessa forma, quando você precisar dizer não, pode sempre contrapor ao sim. por exemplo: “o dvd player não pode pegar, otto, por que você não brinca com as caixas de dvd, que estão aqui?”

nós acabamos cedendo com algumas coisas que talvez não devêssemos, porque achamos graça e depois ficou muito difícil de mudar. o otto não engatinhava, ele “minhocava”. temos torres de cds na sala, e não tiramos. ele aprendeu a tirar os cds de dentro, e espalhar no chão. achamos super bonitinho ele tirando os cds com os dedinhos, e deixamos. só que ele cresceu, e começou a tirar mais e mais cds, espalhar no chão, abrir, destruir as caixas, e por aí vai. aí, aquilo que antes era permitido virou proibido, e foi muito chato ensinar pra ele a não estragar, na brincadeira. cds foram perdidos no processo, nos estressamos, ele chorou. penso que teria sido melhor já evitar a brincadeira no início, mesmo que inofensiva, pensando no futuro. mas pais de primeira viagem são assim mesmo 🙂

entenda como a criança funciona

a maior parte dos conflitos com crianças nesta idade (1 a 4 anos) é relacionada à necessidade de afirmar-se como um individuozinho independente 🙂 segundo o que tenho lido sobre desenvolvimento de crianças, isso é parte do crescimento e desenvolvimento cerebral — é sinal que a criança está se desenvolvendo como devia. está aprendendo a ser um ser separado, independente, e precisa se afirmar nesta condição.

quando os pais ou cuidadores não dão algum espaço para que a criança ocupe, a convivência pode ser muito desgastante. pense que a criança é completamente sujeita às regras e ideias de uma família que já existia, de adultos que já têm feito as coisas “do seu jeito” por muitos anos, e esperam que a criança simplesmente se adeque. só que ela vem programada para confrontar, testar e “ser ela mesma” (de preferência ao contrário do que é proposto :)).

o que fazer? criar aberturas para que a criança possa fazer as coisas do jeito dela de vez em quando. obviamente isso demanda um pouco de neurônios da sua parte — como dar à criança opções sem transformar sua vida num inferno ou criar um monstro? o que eu fiz foi dar opções em situações simples, tais como oferecer opções de roupa/sapato (viáveis, pra não me infernizar. não ofereça a fantasia de batman se não é uma possibilidade), oferecer sempre várias opções de comida na refeição (se tiver vários vegetais diferentes como opção, se a criança não quiser 1 ou 2 deles, tá tudo OK. e tem que variar sempre, pra não “viciar” a escolha).

outra coisa útil é oferecer opções no caso do não. o otto por exemplo não pode ficar de pé na banheira, durante o banho (escorrega). todo dia (sem exceção) ele tenta ficar de pé, ou fica de fato. ele sabe que não pode, porque já expliquei que ficar de pé é perigoso, e escorrega (ele já escorregou, quase caiu, ficou com medo e continua instindo, porque faz parte da idade, oras). fiz 2 coisas — avisei que se ele insistir em ficar de pé o banho acaba (e cumpro a promessa, já tirei do banho várias vezes depois de ter acabado de entrar) e disse que ele pode ficar sentado (o “normal”, que a gente espera) ou pode ficar de joelhos. ficar de joelhos é uma concessão, um compromisso entre o que eu quero (sentado) e o que ele quer (de pé). dou a ele as opções, e ele normalmente prefere (adivinhem?) “de joelhinho”. ele fica de pé, eu já aviso “otto, como é o combinado? aqui no banho, só sentado ou de joelhos. senão, acaba o banho. quer sair do banho?”. depois dessa conversa o mais normal é ele sentar ou ajoelhar, e afirmar a escolha — ele fala “sentado” ou “joelhinho”, olhando pra mim com aquele tom de que ELE optou. e quando preciso tirar ele do banho, ele já não chora, só fala “mamãe avisou!”. ou seja, ele sabe as regras, testou e entendeu as consequências.

procuro pensar em opções sempre, em todas as situações, pra evitar obrigá-lo a alguma coisa. na hora de comer eu acho o mais complicado, porque não é possível realmente obrigar ninguém a comer. isso não é problema aqui em casa e acho que temos a sorte dele ter ótimo apetite e gostar de comer, mas também acho que darmos várias opções e respeitar quando ele não quer faz diferença. ele avisa quando não quer (não insistimos) e paramos quando ele diz que está satisfeito (“feito!”, indicando com a mão que acabou). quando ele não falava, simplesmente respeitávamos quando ele cuspia. e percebi que às vezes deixava de lado as coisas que ele não queria comer, e quando eu menos esperava ele mesmo pegava com as mãos e comia, sem ninguém dar. ou seja — quando ele teve espaço pra escolher e comer sozinho, ele comeu.

também destaco algumas ocasiões que ele simplesmente se recusava a comer (entre 1 ano e 1 ano e meio), e eu tive uma intuição de que ele queria comer sozinho, deixei. funcionou muito bem — deixá-lo tentar (com as mãos e com talheres) foi a solução. várias vezes ele só comeu depois que deixamos que ele fizesse tudo sozinho. depois misturamos, deixamos uma parte do prato pra ele comer, e outra a gente vai oferecendo. essa é a melhor combinação, porque conseguimos controlar mais ou menos o que e quanto come, mas ao mesmo tempo ele se sente no controle da situação.

suponho que com roupas seja mais ou menos igual. acostumamos a escolher tudo, e sempre pensei que a criança só escolhe roupas e sapatos bem maior. a verdade é que com menos de 2 anos a criança já quer fazer suas escolhas, colocar roupas e sapatos sozinhos, e quanto mais pudermos deixar escolher, melhor. sempre orientando e ensinando, mas deixando que eles sejam independentes. o otto gosta de colocar as crocs dele sozinho. ao invés de insistir em colocar eu mesma (que é muito mais rápido e prático), deixo ele tentar, mostro como é o jeito certo e observo, corrijo. aquela tarefa que você faz em 3 segundos, ele demora 3 minutos. é chato esperar, e às vezes estamos com pressa (é a hora de não dar opção, claro), mas sempre que possível, deixe. lembre que colocar sapatos nos pés certos, sozinho, é um grande empreendimento pra um bebê, é um aprendizado que ele vai levar pra vida depois, sem nem saber.

e é disso que trata criar crianças — ensinar tudo o que no futuro nem sabemos como aprendemos. um dos grandes aprendizados (e fonte de grande fascínio) de tornar-se pai e mãe é descobrir o quanto é complexo aprender todas as coisas simples e inconscientes que fazemos quando adultos.

ensinando o não de verdade: eles também devem poder usar!

não acho que crianças devam ser tratadas como adultos, pois afinal não têm o mesmo repertório e nem entendem todas as regras de convívio. mas também acho que precisamos aproveitar toda oportunidade para ensiná-las como funciona o mundo “dos adultos”, e aprender sobre “não” é um ótimo exemplo.

para que a criança entenda de verdade como funciona o sim/não, é essencial que ela também possa exercitar e praticar. ou seja — é preciso dar espaço para que ela diga SIM e NÃO. quando começar a fase de você ter que dizer não para a criança, ensine que isso é uma “ferramenta” que ela também pode usar. por incrível que pareça, isso ajuda muito no processo como um todo e também vai ajudar você a entender o que seu filho gosta e não gosta. isso funciona também porque dá à criança a sensação boa de ter algum controle sobre si mesma, que é exatamente o que ela vai querer a partir de 1 ano mais ou menos.

falei um pouco sobre isso no bloco anterior, mas aqui quero contar sobre uma prática que com o otto funcionou bem demais: ensiná-los a expressar frustração e dizer “não” (mesmo sem falar!)

percebi quando o otto estava com menos de 1 ano (10, 11 meses) que ele dava chilique quando contrariado. foi inclusive o motivo de ter começado a ler o livro sobre essa idade, porque se tem coisa que sempre detestei é criança que dá escândalo. e o otto dava — nem andava ainda e já se jogava, gritava, uma coisa histérica.

o que melhor funcionou pra ele (entre outras coisas combinadas) foi ensinar a se comunicar de outra forma que não o chilique. pense no seguinte — o chilique funciona! comunica perfeitamente bem que ele está contrariado, e aciona todos os adultos ao redor a fazer o que ele quer (a gente acaba fazendo qualquer coisa pra aplacar chilique, principalmente em público). ou seja: corrija os chiliques em casa, mude o modus operandi, porque na rua são muito difíceis de corrigir. uma vez corrigido o problema em casa, provavelmente não vai acontecer na rua.

então, a primeira coisa que ensinamos foi como se comportar quando estiver contrariado. ensinamos 2 coisas: a dizer não com o dedinho (ele não falava nada) e a “dar bronca” quando estivesse bravo — ele aprendeu a apontar o dedinho em riste pra gente, balançando, e grunhindo, com cara de bravo 🙂

pode parecer bobo (e é super engraçado, mas não pode rir, tá?), mas funciona se você reagir da forma correta a cada estímulo. o que “combinamos” com ele depois de ensinar o não/bravo: os chiliques não vão funcionar. a gente só vai responder ao dedinho/bravo. chiliques vão ser ignorados. e assim fizemos — ensinamos, ele aprendeu e repetiu. cada vez que ele começava com chilique, a gente falava “enquanto você não parar de gritar e espernear, não vamos fazer nada”. tem que ter paciência, pois nas 1as vezes ele demorava a perceber que não ia funcionar, e depois de um tempão “testava” a outra forma de comunicação. quando ele tentava, a gente respondia imediatamente e incentivava, elogiava. em pouquíssimo tempo ele entendeu e mudou o jeito de se manifestar. crianças são extremamente perceptivas, espertas e adaptáveis. elas vêm preparadas para aprender e se adaptar ao que funciona. se o chilique funcionar, amigos, ferrou.

uma das coisas mais importantes deste processo é que a criança, além de aprender como se comunicar de forma eficiente, tem a sensação de ser compreendida. sentir-se entendido nesta fase de comunicação precária (até que eles dominem o verbo) é um calmante natural. parece mágica — basta que a criança perceba que entendemos o que ela precisa e se acalma. quando ela consegue também “ganhar” um combate (fazendo o que “quer”), tanto melhor.

o desafio é ensinar isso tudo a uma criança tão pequena, dar alguma liberdade (para criar um ser humano confiante e que toma decisões!) e ao mesmo tempo incentivar comportamentos que sejam socialmente aceitos. não é fácil, mas tenho achado muito estimulante. além de me fazer pensar sobre mim mesma (*).

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(*) este é assunto pra outro post longo, mas dou uma palhinha: preste atenção ao quanto da sua frustração e dificuldade em lidar com a criança tem a ver com problemas SEUS (perfeccionismo, ideias “fixas” sobre o que é certo e errado, réplica inconsciente da educação que você mesmo recebeu na infância). ser pai/mãe é ter que se confrontar com todos os seus fantasmas, acredite.