a história da chupeta

chupeta sempre foi um assunto que eu considerei simples antes de ser mãe: não darei  para o meu filho, já que não tem nenhum benefício.

mas aí seu filho nasce num parto complicadíssimo e passa 8 dias na UTI, onde você pode visitá-lo somente a cada 3h, e as coisas mudam. ele chorava, sem ninguém amamentando ou pegando no colo, então as enfermeiras deram chupeta pra ele e uma boa parte do tempo isso era suficiente pra ele não chorar. quando a fome apertava ele chorava MUITO — quando eu chegava pra amamentar, ouvia de longe o menino gritando de fome, e além da preocupação com a situação (ele estava na UTI em observação, pra ver se não havia nenhuma seqüela do parto) eu ainda sofria horrores de não poder dar o peito na hora que ele quisesse.

dessa forma, minha opinião sobre a chupeta tornou-se irrelevante e cedi. não suportava a ideia de deixá-lo chorando sem colo e sem peito. a chupeta é um substituto ruim, mas me pareceu melhor que a alternativa. não me arrependo.

voltando para casa, tínhamos muito medo e total inexperiência. a chupeta não atrapalhou em nada a amamentação (ele pegou o peito perfeitamente de primeira, e assim foi até que decidiu desmamar por conta própria aos 9 meses), mas acredito que pelos 8 dias na UTI ele associou o peito a comida e não ao efeito calmante, e simplesmente não aceitava mamar como forma de conforto ou mesmo para dormir. mamar, pro Otto, sempre foi objetivo: acabou a fome, acabou o peito. os incômodos e o sono nunca foram resolvidos com o peito, ele não pegava de forma nenhuma sem fome. colo sempre foi essencial, ele ficava mais calmo e muitas vezes parava de chorar estando no colo (andando, de preferência), mas o peito era buffet mesmo.

acho até que por isso aos 9 meses, quando ele já tinha muitos dentes (>7 com certeza) e comia de tudo, desinteressou do peito. pegava pra mamar, e ele mordia o peito, cuspia e ria. não queria mesmo, pra minha frustração (se pudesse, teria amamentado até sei lá quando, era muito legal, em especial depois da 1a fase de mamar a cada 2h).

mas enfim, devido a esse detalhe do peito não acalmar a criança, a chupeta tornou-se uma âncora, porque acalmava o menino imediatamente. talvez se tivéssemos suportado o choro nos primeiros dias e “ensinado” pra ele que o peito era uma boa alternativa à chupeta, ele tivesse aprendido. mas se você tem filhos e lembra o que a gente sente quando o recém-nascido chora, há de ter empatia com nossa situação e entender que a chupeta já não parecia tão ruim.

conforme a época crítica de RN foi passando, reduzimos o uso da chupeta para apenas a hora de dormir (e sempre que podíamos, tirávamos da boca dele enquanto dormia). quando ele parou de mamar no peito, adotamos a mamadeira (que ele aceitou na boa, bem parecida com a chupeta) para dar leite, porém paramos quando ele completou 2 anos. por mais que tivéssemos cedido à chupeta e à mamadeira, sempre tivemos a preocupação de minimizar o uso e evitar problema buco-maxilares. e escovamos os dentes dele pelo menos 2x/dia desde que os dentes nasceram, aos 6 meses.

(além de acharmos bem complicado a criança usar chupeta o tempo todo)

aos 3 anos levamos o otto a uma dentista pela primeira vez, e pra nosso alívio ela afirmou que não havia nenhuma consequência do uso da chupeta na dentição, nem nada que fosse visível. ele tem os mesmos problemas alérgicos de nariz que eu e o pai, que não acho que têm relação com chupeta, a genética explica 100% (mas veja que disse ACHO, já que não investigamos nem sou especialista no assunto). sorte, ou é porque o uso da chupeta nunca foi muito intenso.

o otto sempre deu trabalho pra dormir, e a chupeta também era uma muleta enorme. naquele momento crítico do sono, da chatice do cansaço, a chupeta ajudava a acalmar e ele dormia. não nos parecia OK deixá-lo chorando pedindo a chupeta e simplesmente não dar, ele parecia tão pequeno ainda! nós estávamos aqui há mais de ano sofrendo com o momento de tirar a chupeta, já que tampouco nos parecia legal inventar alguma história maluca pra tirar a chupeta (dar pro papai noel, pro coelho da páscoa, pros ETs…).

até que há 1 ou 2 meses a boquinha dele apareceu meio assada, como que rachada de frio. achamos que podia ser de dormir com a chupeta, pois ficava bem vermelho acima do lábio superior. decidimos tirar a chupeta por uns dias pra ver como ficava, e explicar pra ele que não ia usar a chupeta porque estava machucando a boquinha. não era uma tentativa de tirar a chupeta, era mesmo um jeito de testar uma hipótese.

na 1a noite ele pediu a tetê, e explicamos a situação. ele reclamou (não lembro se chorou, mas reclamou), explicamos de novo, ele acabou cedendo. pra nosso espanto (e alívio) dormiu normalmente, sem chupeta. fizemos o mesmo no próximo dia, e nos demais, até que a boquinha melhorou. ele continuou pedindo a tetê, mas cada vez menos enfaticamente. continuamos explicando, e quando a boca melhorou percebemos que podíamos eliminar a chupeta sem drama. alguns dias depois, ele já não pediu mais, como se a chupeta nunca tivesse existido! e o sono continua bom, normal, dormindo rápido quando cansado e mais devagar quando está menos cansado.

no fim a assadura na boca não era da chupeta, é causada por ele mesmo, que passa muito a língua no lábio quando o tempo está muito seco. tenho passado batom hidratante e melhora 🙂

não sei se tiramos a chupeta tarde demais, e nem se existe algum problema causado por ela que nem descobrimos, mas essa foi mais uma das muitas lições de ilusão de controle e certeza que a maternidade me trouxe: nem sempre a gente consegue fazer as coisas do jeito que considera ideal; as coisas acontecem no tempo em que precisam acontecer, e não quando a gente quer — precisamos estar atentos se agir na hora certa quando ela aparece!

Leave a Reply