Halloween

Amo e odeio. Amo porque não tem nada pra não amar numa festa à fantasia de terror né? E com doces. Mas odeio porque aquela correria das crianças querendo pegar doces me irrita. Porque o Otto quer conversar (*) com as pessoas que oferecem doces, e com as crianças sobre as fantasias, e todo mundo só tá preocupado em distribuir e pegar doces. Porque os doces são horrorosamente doces. Porque interagir com humanos é cada vez mais difícil.

(*) ele fez um bilhete de agradecimento pra cada pessoa que deu doces. Imagine isso no meio do furacão das crianças.

sistema de governo para crianças

NÃO SEI SE MORRO DE ORGULHO OU DE APREENSÃO, gente!

 

Otto insiste em não querer ir pra escola, como sempre. Cita pra mim OS DIREITOS DA CRIANÇA (só as partes que interessam, claro, como direito de brincar). Eu menciono uma lista maior, entre eles o direito de IR À ESCOLA.

 

O: “pera. Ir pra escola não é um direito!”

 

Eu: “claro que é. Há crianças que não podem ir à escola”

 

O: “e por que isso é ruim?!”

 

Eu: “porque elas vão virar adultos que não poderão escolher seu trabalho, e serão exploradas quando trabalharem.”

 

(Eu comecei a antever o que podia vir…)

 

O: “mas por que todas as pessoas precisam trabalhar?”

 

Eu: “porque é trabalhando que se ganha dinheiro pra viver, morar, ter coisas”

 

O: “pois eu vou QUEBRAR AS REGRAS DO DINHEIRO. Eu vou achar uma forma de não precisar de dinheiro pra conseguir as coisas que eu quero!”

 

Nessa hora eu (sério) quase comecei a chorar de tanto orgulho da inteligência dele. E ao mesmo tempo me doeu perceber como ele é privilegiado.

 

Nós não somos pais que “doutrinamos” nosso filho. Nunca falamos muito bem sobre dinheiro, nem sobre riqueza e pobreza. Provavelmente porque somos tão privilegiados que ele nunca sequer precisou saber sobre isso. Que foda.

 

Eu: “Otto, a sua ideia é MUITO interessante. Não digo que não exista forma de quebrar a regra do dinheiro, mas é difícil. E estudar vai inclusive te ajudar a quebrar essas regras. Vamos pensar juntos nisso, tá bom?”

 

O: “hm.”

 

Meu filho nasceu anarquista. ✊🏻❤️

 

**

 

Aí na sequência ele me aparece com um gibi da Mônica que fala sobre PROFISSÕES. O puro suco da meritocracia by Mauricio de Souza.

 

🙄

 

Deixei ler, sem filtro, pra balancear.

harmonia

Eu: “Otto, vamos comer uma frutinha? Acho que você anda comendo muito doce!”

 

O: “e o que tem de mais?”

 

Eu: “comer doce demais faz mal. Tudo que é demais faz mal!”

 

O: “inclusive fruta?”

 

(Fernando gargalha ao fundo)

 

Eu: 🙄 “inclusive fruta.”

 

O: “quero um pêssego.”

tempo

“Mamãe, você sabia que algumas vezes quando as coisas se quebram, só o tempo consegue consertar?”

 

Ô se sei, meu amor. Como sei.

 

❤️

supervilões

Tanto orgulho do Otto, que começou o jogo novo de Vilões de Lego, e escolheu uma personagem mulher! <3 (o nome dela é CINDER. Não me perguntem de onde vem. Olha que linda!)

a noite

Otto agora quer dormir cedo porque tem medo da noite e “dos alienígenas”.

COMO NUNCA PENSEI NISSO ANTES?!

#mãedecesárea

 

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Descobri a causa do medo de alienígena:

SONO.

🙄

 

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Além do medo da noite e do alienígena ter voltado (conferimos na escola; teve uma brincadeira de encontrar o alienígena escondido entre os humanos, tipo jogo dos 7 erros. Ele não lidou bem), mais um episódio da famigerada hora de dormir.

 

Hoje ele quis fazer uma apresentação no show de talentos da escola ❤ e cantou e dançou ao som de “put on your sunday clothes”.

 

A amiga dele comentou que ele “dançava que nem o Michael Jackson” (own! <3) e eu fui mostrar quem era o Michael.

 

Mostrei o clipe de Bad:

 

O: “gostei. Ele é menino ou menina?”

 

Eu: “menino.”

 

O: “hmmmm não parece.”

 

Eu: “ué, é assim que é. E aí, o que achou?”

 

O: “legal! Mas ele ainda… existe?”

 

Eu: “ele já morreu. Mas ele deixou um montão de coisas pra gente assistir, foi um dos melhores dançarinos e cantores da nossa época.”

 

O: “(já chorando) mas eu queria MUITO que ele ainda estivesse aqui! Eu queria cumprimentar ele!”

 

(Improvável, e mesmo que fosse possível eu não deixaria meu filho, um dia te explico)

 

Eu: “é uma pena mesmo, amor. Mas podemos assistir as coisas que ele deixou.”

 

**

 

Agora temos uma questão com a noite que nunca existiu.

 

Ou seja: vai começar a dormir mais cedo, porque pelamor, ninguém merece ir dormir chorando por causa do Michael Jackson ter morrido.

 

🙄

ET phone home

Otto — apavorado antes de dormir, chorando — me explica que o professor de informática mostrou pra turma o vídeo de um “alienígena com mão de faca” e que ele está morrendo de medo porque não quer sonhar com aquilo e que “nunca devia ter entrado naquela aula”.

E os minions preocupados com educação sexual.

Agora toca trazer todas as evidências pra convencer a criança que isso não é real.

😩

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Ainda sobre os alienígenas, ficamos muito tempo conversando pra entender onde estava pegando pra ele a história, de onde vem o medo e por que ele estava com dificuldade de acreditar que aquilo que ele tinha visto não existia.

Foi bem mais longo, mas vou pinçar as partes críticas do diálogo:

Eu: “Otto, não existe nenhuma evidência de que aliens existam. Muita gente já buscou e continua buscando, e nada ainda apareceu.”

Ele: “mas vocês não podem ter CERTEZA que não existe!!”

(Inferno.)

Nós: “neste momento garanto que NINGUÉM confirmou a existência deles.”

Ele: “mas eu vi o vídeo! Ele tinha mão de faca!” (E chooooora)

Eu: “amor, é igual a todos os vídeos que você assiste, os filmes — é um personagem. É mentira. Alguém inventou.”

Fernando: “existem pessoas que criam personagens pra causar medo, mas não são reais, porque tem gente que gosta de sentir medo e assistir. Sabe quem é assim? Sua mãe.”

Otto: “MAS POR QUE ALGUÉM FARIA ISSO?!” (Chooooooora)

😬

 

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Na conversa sobre ele acreditar no alienígena e não acreditar nos personagens de filmes, fiquei impressionada pela lógica perfeita:

Eu: “Otto, sabe o homem-tubarão do Flash? Ele não existe, certo? É a mesma coisa!”

Otto: “claro que ele não existe! Porque NA TERRA ele não tem como existir. Mas os alienígenas são diferentes!” (Choooora)

Fantástico.

Coisas bizarras na Terra ele sabe que são impossíveis, mas o que vem do espaço seria desconhecido, não se aplicam as mesmas regras.

 

**

 

Aproveitei pra reforçar pra ele sempre duvidar de coisas que parecem estranhas demais, e buscar entender, pesquisar, antes de acreditar.

É um conselho que vale pra ele, e pra todos nós, afinal.