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dialética aos 2 anos

September 25, 2012 · 6 Comments

pra quem não sabe, entre 18 e 30 meses a maior parte dos bebês passa por um período de mudança significativo de comportamento, apelidado pelos americanos de terrible twos (referência aos 2 anos de idade). achei um artigo interessante sobre essa fase aqui.

a principal característica dessa fase é a demonstração de independência, exercício da vontade através do “não” e reforço do “eu”. e isso deve ser considerado positivo pelos pais — significa que o bebê está de fato se desenvolvendo neurologicamente conforme o esperado, pois é justamente nesta fase que o bebê entende que é um ser separado dos pais (mais especialmente da mãe), que tem suas próprias vontades, pensamentos, desejos e que pode exercitá-los. já vi quem chamasse essa fase de “adolescência do bebê” e faz todo o sentido, já que a adolescência é mesmo marcada pelo desejo do jovem de destacar-se da sua família, e criar seu próprio mundo e espaço independentes.

o otto já apresenta sinais de independência há muitos meses, mas nada muito marcante, são pequenas coisas que percebemos no dia a dia: dizer não para coisas que ele normalmente gosta ou resistir a trocar a fralda na hora que precisa trocar. com um pouco de jeito e alguma técnica é possível contornar sem stress.

mas ontem ele chegou a um novo nível: além de dizer “não” pra absolutamente tudo que era pedido ou oferecido, na hora do jantar ele olha o prato de salada (que adora) e diz “não qué querê!” 🙂 e comeu tudo, como sempre, mas no seu tempo, do seu jeito.

temos dormido juntos na minha cama, antes de colocá-lo no seu berço (ele demora pra dormir, acho mais prático fazer assim que ficar plantada do lado do berço dele). deitado na cama, no escuro, ele vira pra mim e diz: “tá do contra!” (repetindo algo que falaram pra ele durante o dia, com certeza). eu ri, e falei que não tem problema, que pode ser “do contra” também.

normalmente ele dorme abraçado comigo, ou segurando no meu braço. mas ontem quando o abracei, como faço toda noite, ele disse “não abaça, dumí shójinho!”. me segurei pra não rir, falei “claro, pode dormir sozinho, a mamãe tá aqui se você precisar”. dei um beijo de boa noite e deixei ele quieto. em alguns minutos ele pediu a hilda (coruja de pano) e o hugo (monstro de pano), que fazem companhia pra ele no berço. peguei os dois, e ele realmente não veio me abraçar — ficou tentando conversar comigo (depois de dar boa noite eu não converso mais com ele, só fico ali junto) e depois de insistir na conversa e ver que não ia funcionar, ele virou e dormiu sozinho com seus bichinhos!

achei uma graça (e muito significativo) que logo depois de começar na escola ele também tenha começado a manifestar seu poder de decisão, sua individualidade, a ponto de querer dormir (a parte mais complicada de toda sua rotina, desde que nasceu) so-zi-nho. e que tenha iniciado o ritual de separação da mãe, através da transferência do apego para os  bichinhos (achamos que ele ia pular essa fase, mas pelo jeito ainda está por vir).

minha forma de lidar com essa necessidade de independência é oferecendo opções quando possível (leia o último link que coloquei nesse texto), pra que ele possa de fato exercer sua vontade. deixo que ele diga não, e não forço quando não é preciso. adio um pouco a troca da fralda, deixo que ele escolha no prato o que quer comer, misturo fruta com salada com sopa, pra que ele decida o que quer primeiro, deixo que ele tenha pelo menos a sensação de que está no controle de algumas coisas. na grande maioria das vezes funciona — ele fica muito feliz de poder fazer as coisas do seu jeito, fica confiante e normalmente não confronta de novo.

ele tem testado um pouco mais os limites físicos também, e tenta fazer coisas “perigosas” (o que têm potencial de causar acidentes). quando o risco do acidente é baixo, tenho procurado deixar acontecer, sob supervisão (cair, por exemplo), pra que ele entenda causa-consequência.

mas não sou do tipo que negocia tudo o tempo inteiro: tem hora que não dá pra ceder, nem conversar, nem negociar. certas coisas são NÃO mesmo, com letras maiúsculas, e aí simplesmente exerço autoridade e pronto. às vezes é preciso trocar fraldas à força (porque não posso discutir naquele momento, e temos que sair, por exemplo), tirar coisas perigosas da mão dele ou desgrudá-lo do armário que ele resolveu se pendurar (e pode cair em cima dele). sempre converso e explico os motivos, mas quando precisa ser rápido, é inconveniente ou arriscado, não dou opção.

aliás, se tem coisa que detesto é observar essas mães bovinas, que falam com voz mole e com a bunda imóvel na cadeira, enquanto vêem os filhos fazendo merda. “fulaninhooô, coloca o sapaaaaato que a gente precisa ir pra casa. vou contar até 2 milhões, hein?!”. quero morrer. tem que colocar o sapato e sair e a criança tá enrolando? levanta essa bunda e coloca à força, pronto. depois, em casa, conversa e explica.

por enquanto estamos conseguindo lidar bem com a fase “do contra”. cedendo às vezes, confrontando outras. até pra que ele saiba que sim, pode e deve exercitar suas vontades, mas não sempre. que às vezes ele precisa sim se adequar às pessoas ao redor, mesmo que fique chateado.

como não tenho medo de cara feia e nem ligo pra chororô, quando ele fica bravo ou chora eu consolo, pego no colo e explico: eu sei que é difícil ser contrariado, não fazer o que a gente quer. pode chorar, a mamãe te entende.

mas não é e continua sendo não.

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