como educar para o NÃO consumo

essa é a pergunta de um milhão de dólares, e para a qual (desculpem) não tenho a resposta. mas tenho minhas reflexões e algumas práticas/fé para compartilhar.

eu consumo muito mais do que devo (ou posso, às vezes) e preciso. acumulo roupas, sapatos, bugigangas, móveis e enfeites, jogos, músicas, filmes, livros. não me engano com o discurso de que algumas coisas são “acervo”. são bens de consumo, são supérfluos, não preciso de 90% do que possuo. mas gosto de consumir, de ter, acumular.

(e não sou, nem de longe, a pessoa mais consumista e apegada que conheço!)

cada vez que faço faxinas na casa me dou conta do quanto eu compro. cada vez que junto o lixo reciclável me assusto com o volume de embalagens que estou descartando. pra que tanta coisa, pra que tanta embalagem?

e sendo assim, consumista, como criar meu filho para ser menos consumista e deixar de querer TER tudo, comprar coisas? é possível na nossa sociedade criar um ser humano que não seja consumista, que seja minimamente blindado contra a propaganda, o apelo de comprar?

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para entender melhor a questão do consumismo e iniciativas de proibir ou pelo menos controlar melhor as propagandas dirigidas para o público infantil, conheçam o movimento infância livre de consumismo.

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acompanho este movimento desde seu nascimento, acho propaganda dirigida a crianças uma coisa execrável, mas sempre fui contrária à intervenção do estado nesta questão. minha lógica é a seguinte: propaganda precisa de veículo, e quem dá acesso a ele são os pais/responsáveis. eliminando o veículo, acaba a influência, certo?

mais ou menos (e por isso cada vez mais acho que seria sim benéfico o estado controlar este tipo de ação de marketing), porque quando a criança é muito pequena é simples “blindá-la”, basta evitar canais de TV e locais de consumo de produtos infantis (parques de diversão, shopping, etc.). conforme a criança cresce e começa a conviver com o restante do mundo fora da sua própria casa, o bombardeio é constante e muito forte. outdoor, folheto, gibi, amiguinhos, familiares, novamente a TV, etc etc etc. quando paramos para prestar atenção a esse assunto, percebemos que somos regidos pelo consumo, o tempo todo. tudo ao nosso redor grita COMPRE COMPRE COMPRE.

nós já estamos embebidos nessa realidade, amortecidos, não percebemos mais (e compramos, compramos, compramos). quando chega um novo humano no mundo e começamos a prestar atenção a esse assunto, é assustador. e avassalador também, é quase impossível evitar a imersão nessa cultura. afinal, precisamos comprar para viver.

precisamos mesmo? é essa pergunta que me faço, e sem entrar em nenhuma onda hippie, que não é meu estilo. não tenho intenção de viver sem dinheiro ou sem comprar. mas venho pouco a pouco (últimos 15 anos) tentando reduzir meu nível de consumo. considerando que meu salário aumentou consideravelmente nestes 15 anos e que continuo gastando praticamente tudo que ganho, fica claro que minha tentativa não é exatamente um sucesso. mas analisando meus gastos, vejo que consumo muito em comida, habitação e… viagens. ou seja — como bem, moro bem e viajo muito, e é aí que vai a maior parte do meu dinheiro (consegui guardar também, pra morar ainda melhor!). já não gasto mais tanto dinheiro em roupas e artigos de luxo pra uso pessoal; mas ainda gasto bastante com transporte (2 bons carros, que nos levam da nossa boa casa pros bons lugares que gostamos de ir) e muito com eletrodomésticos, por exemplo, que poderia reduzir. pouco a pouco, vamos analisando e cortando aqui e ali, focando no que é importante pra nós.

continuo consumindo muito, sim. mas cada vez mais no que é essencial pra mim, pra nós da família. menos “coisas”, e mais vivência (boas refeições, espaço em que convivemos, viagens juntos). chegaremos lá, tenho fé.

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ainda precisamos comprar, sim. não plantamos nossa comida (mas uma parte dela já começamos a plantar), mas preparamos nossas refeições; não construímos nossas coisas, mas procuramos comprar diretamente de quem constrói ou produz; contratamos serviços que não queremos fazer; viajamos de avião, mas também procuramos viajar de carro, dentro do nosso país; os carros ainda são indispensáveis, diante da escolha de moradia que fizemos, mas quem sabe um dia podemos andar a pé, de bicicleta, ou mesmo de moto? uma opção para o futuro.

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com o otto, tomamos algumas medidas que por enquanto têm funcionado bem. conforme ele vai crescendo, o desafio é maior, mas somos criativos e tenho certeza que encontraremos alternativas educativas e saudáveis para lidar com a situação. ele tem 3 anos, e não precisa ainda de “educação para o consumo”. falarei da minha opinião sobre mesada e coisa parecida no próximo bloco.

– não levamos o menino para fazer compras de nenhum tipo, a não ser que seja inevitável. comprar não é “programa”. saímos para comprar somente o que precisamos, e deixamos a criança em casa (ou vamos juntos quando a babá está em casa, ou 1 vai e o outro cuida dele)

– não costumamos falar sobre comprar/ter coisas. procuramos sempre falar sobre usar as coisas, trazer as coisas, emprestar as coisas. por exemplo: “otto, a mamãe TROUXE um presente” (e não COMPROU um presente). pode parecer besteira, mas acho que essa abordagem tira o peso/fetiche da compra

– não falamos sobre dinheiro nem sobre caro/barato com ele ainda, não damos “valor” para nada. e como ele não nos presencia comprando quase nunca, não faz a correlação coisa-dinheiro. se ele vê alguma coisa e quer, e eu considero caro, simplesmente falo que não vamos levar aquilo naquela hora, que aquele item é da loja e fica por lá

não usamos coisas (trazidas ou compradas :)) como prêmio, é simplesmente uma surpresa, um agrado

– não comemoramos dia de mãe, pai nem criança. não damos importância a presentes no aniversário ou natal, procuramos dar mais ênfase ao evento que aos presentes (a festa, a visita dos amigos e família, a comemoração em si). ou seja — no aniversário, sempre falamos da alegria que é receber a visita de fulano, que veio especialmente para o aniversário, e não que o fulano deu o presente X

– fazemos questão que quaisquer presentes pra ele sejam recebidos diretamente por ele, das mãos de quem deu, e pedimos que ele agradeça. consideramos extremamente importante que ele perceba que a pessoa é mais importante que o presente (ou que o presente é importante porque ALGUÉM pensou nele). somos completamente contra o sistema de colocar os presentes num montão, que ele vai abrir depois. até hoje, todos os convidados são recebidos por nós e por ele, e o presente é dado pra ele diretamente

– ele simplesmente não vê TV. só assiste programas no IPad (youtube ou outros), DVDs, NetFlix, tudo sem pausa ou propaganda. ponto final.

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conforme o menino for crescendo, vamos explicar que as coisas custam dinheiro, e algumas coisas custam mais ou menos. vamos tentar usar a quantidade de unidades de medida de $$ para explicar, mas sempre procurando ensinar sobre querer ou não querer trocar o $$ pelas coisas, e se realmente precisamos daquilo ou se é mero desejo.

acho muito importante ensinar que as coisas têm valor monetário, que trocamos dinheiro por coisas, e em especial que o dinheiro é algo que se ganha. muito me incomoda a ideia de mesada por ser um dinheiro dado, e não ganho. ora, se a ideia é ensinar como funciona o mundo, por que alguém simplesmente dá dinheiro a outro, sem trocar por nada?

também me desagrada dar mesada ou dinheiro à criança em troca de tarefas que ela devia fazer simplesmente por ser parte da família/comunidade. não acho certo dar dinheiro em troca de arrumar a cama, ou ajudar na limpeza e organização da casa. isso faz parte das atividades comunitárias. faz mais sentido pra mim ganhar uns trocados por lavar o carro, cuidar do jardim (coisas que normalmente nós aqui pagamos para outros fazerem). ainda não sei como vamos lidar com essa questão. tanto eu quanto o fer fomos crianças sem mesada, nossos pais davam dinheiro para coisas que precisávamos ou queríamos, sob demanda específica, não tínhamos dinheiro “nosso”, pra gastar ou guardar.

entendo a lógica de dar mesada para ensinar a “administrar o dinheiro”, essa é uma habilidade útil na vida. mas acho que ensinar a consumir minimamente e (por exemplo) convidar a ajudar a administrar as despesas da casa  em conjunto podem ser formas alternativas de ensinar (por que não? eu faço tudo numa planilha excel, e posso perfeitamente convidar o otto mais velho a me ajudar, analisar junto. quem sabe até ele aprende a usar planilha cedo? :D)

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como disse no começo — não tenho respostas definitivas, tenho crenças e ideias. os itens que coloquei ali no meio a gente já pratica, e o otto não simplesmente não pede pra comprar coisas, nunca. ele pede coisas — “mamãe, você me trouxe um presente?” ou “papai, eu queria um chocolate!”. mesmo quando vamos aos lugares que têm coisas à venda, ele não pede pra comprar, ele simplesmente “quer”. e aí, ou levamos ou dizemos que aquele ali não vamos levar agora, quem sabe outro dia.

ele não associa natal, aniversário e nenhuma data com o fato de ganhar presentes ou coisas, por enquanto. por outro lado, procuramos valorizar bastante as festas, as pessoas e as viagens. no aniversário dele e nas festas em geral, costumo preparar tudo em casa, e “fazer” presentes pra ele (cartão, álbum, etc.). também peço que as pessoas não tragam presentes comprados, que façam algo pra ele ou mesmo reciclem coisas das suas crianças. quase ninguém faz isso, mas quando fazem é sempre lindo (e já percebi que ele próprio valoriza muito presentes personalizados).

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mas dizia que mudei de ideia em relação ao controle de propagandas, porque a concorrência é mesmo desleal. e as pessoas que não estão tão engajadas quanto nós nessa cruzada contra o consumismo? e os que precisam da TV como babá pra ter 1h de sossego e cuidar da casa, da vida? e as mães e pais solteiras/os, que precisam levar seus filhos onde vão porque não têm com quem deixar? e quando ele ficar na casa de amigos, ou não estiver numa escola tipo waldorf como o otto?

precisamos de toda a ajuda que tivermos. é sim nossa obrigação como educadores ensinar nossos filhos a ser menos consumistas, e acho que todos os esforços devem ser feitos. mas se não tivemos alguma ajuda, a tarefa fica hercúlea e muito estressante para os pais.

então, continuarei investindo nestas pequenas ações cotidianas e também apoiarei ações maiores para ajudar o mundo a ser menos consumista. no que depender de mim, o otto será muito menos consumista do que eu fui/sou.

2 thoughts on “como educar para o NÃO consumo

  1. uma experiência bem rica e “descontaminante” pras meninas, que são mais velhas (e pra mim!), tem sido participar das feiras grátis, organizar trocas de livros e brinquedos, essas coisas. Acho que ajuda a dar uma noção legal do que é útil ou não, do valor relativo das coisas, que nem toda troca é mediada por dinheiro e, principalmente, de como quase sempre a gente já tem tudo de que precisa materialmente, com folga.

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